TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

É PRECISO ACEITAR A DIVERSIDADE



(Jean Bailly)


O homem estranha o homem. Sempre foi assim. Civilizações inteiras foram e ainda são destruídas por conta do estranhamento, da não compreensão do diferente. Porque só aceitamos aquilo que compreendemos. E isso precisa mudar. Cabe ao homem civilizado, no sentido mais amplo da palavra, buscar soluções para o entendimento entre as pessoas diferentes, entre os povos diferentes, sem cair nas armadilhas da metafísica e do deísmo inconsequente que, eles também, o deísmo e a metafísica, têm trazido muitas incompreensões. As três grandes religiões (cristã, judaica e islâmica) dizem adorar o mesmo deus, mas o fazem de maneiras tão diversas, que não conseguem se entender. Em vez de contribuir para a paz entre os homens, cavam fossos profundos entre si, acumulando ódios e rancores de tal monta, que colocam em risco a própria existência. Estranham-se da mesma forma como fomos levados, pela propaganda, pelo cinema e por todos os meios de comunicação, a crer que tudo o que é diferente pode conter o mal. Obliteramos nossa razão como o pensamento do medo, da destruição ou da rejeição de formas de vida, culturas e costumes que não sejam aqueles com que estamos acostumados, em nosso pequeno mundo particular. É sempre preciso esconder o diferente: famílias há que, ainda hoje, jogam nos porões ou em quartos fechados os rebentos que não nasceram na conformidade esperada, ou seja, sadios ou de acordo com o que entendemos por normalidade. Na natureza, os filhotes defeituosos são descartados, por não se adaptarem, mas entre os humanos isso se torna cada vez mais uma anomalia absurda, diante das imensas possibilidades de adaptação, mesmo em condições adversas, que desenvolvemos ao longo desses milhões de anos de evolução. Não se concebe, portanto, que continuemos com ideias absurdas de estranhamento; que gastemos milhões de recursos cada vez mais escassos para destruir aquilo que nos incomoda; que não levemos em conta a nossa racionalidade para lidar com o diferente, diante de tantos avanços técnicos e científicos. Positivamente, o homem só evoluirá satisfatoriamente quando perceber que há uma única raça humana, e que essa raça tem diversidades fantásticas, que devem ser respeitadas e compreendidas.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

NÃO HÁ ÓDIO NO ATEÍSMO





(Giger)


A veemência com que critico o deísmo pode levar a interpretações errôneas: eu não odeio o deísmo e, principalmente, não odeio os deístas. Acho-os, a ambos, um desastre para a humanidade. Mas não há nisso nenhum ódio, apenas a constatação de fatos que estão à vista de todos que não tenham sua visão obliterada por pensamentos mágicos ou metafísicos. O que existe de mais cruel no deísmo é que ele não permite que o homem assuma o seu lugar na corrente da vida, na corrente do evolucionismo. Não deixa, por exemplo, que o homem perceba que, assim como milhares de espécies surgiram, desenvolveram-se e desapareceram, muitas sem nem deixar vestígios, o homem também integra esse mesmo equilíbrio instável de, um dia, entrar na lista dos animais em extinção. Com sérios agravantes: crescemos e nos multiplicamos descontroladamente, apesar de termos conhecimento e técnica para controlar esse crescimento; temos, também, conhecimento e técnica para controlar o meio-ambiente de tal forma que não o depredemos e o tornemos hostil a nós mesmos, mas, mesmo assim, continuamos poluindo e destruindo o planeta onde vivemos; e ainda: temos noção clara dos perigos que nos levam à morte e à destruição, mas, mesmo assim, continuamos com políticas de exclusão e de ódios aos que são diferentes, provocando guerras cada vez mais destrutivas ou construindo armas cada vez mais potentes. A estupidez humana não é culpa exclusiva do deísmo. Mas deve muito a ele. Não posso afirmar que, sem as armadilhas filosóficas da metafísica e do deísmo, o homem resolveria todos os seus problemas, mas posso afirmar que sua ausência contribuiria significativamente para avançarmos no caminho da resolução de inúmeros problemas que afligem a humanidade e que colocam em risco a sua existência. Não teríamos, pelo menos, os julgamentos morais de seres humanos que ousam arriscar e buscar novos conhecimentos e novas tecnologias. E poderíamos entender melhor o universo em que vivemos, com suas leis ainda muito longe de serem totalmente decifradas, e poderíamos ter evitado ou ainda evitar muita dor e muito derramamento de sangue, para galgar mais um degrau do conhecimento.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

CONSCIÊNCIA DA PEQUENEZ


(Monet - la promenade sur la falaise)


É preciso ouvir a vida, para compreendê-la. É preciso amar a vida, para respeitá-la. Vida não é dom: é condição. E as leis da natureza não têm nenhum tipo de comiseração para com o desrespeito à vida: se não se adaptar, desaparece. E o universo não se abalará nem um pouco com o desaparecimento de todo um ecossistema complexo, como o planeta em que vivemos, ou simples, como uma colônia de seres monocelulares no fundo do oceano. Temos todos o mesmo valor diante da imensidão do universo: nada.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CONSCIÊNCIA DO CICLO DA VIDA



(Fritz Aigné)


Compreender o ciclo da vida: a maldição do homem. Ter consciência de que nasce, vive e morre. E o processo de envelhecimento, parte importante da trajetória de vida de um ser humano, pode se tornar um pesadelo, se não soubermos conviver com todas as mazelas físicas e mentais decorrentes. Porque envelhecer pressupõe reconhecer a morte em nossas células, pressupõe antever o fim com o qual não concordamos. Então, inventam-se mil e uma formas de tentar driblar o desconforto da velhice, com eufemismos que em nada minoram o sofrimento de quem envelhece. Dizem que o velho é sábio, por exemplo. Não vejo sapiência nenhuma no simples ato de envelhecer, porque a ele acrescentamos apenas a experiência e é só por causa dela que parecemos mais sábios. Ter vivido experiências iguais ou semelhantes fazem de nosso cérebro a usina ideal de transformação dessas experiências em possibilidades de contorná-las, de evitá-las ou, até mesmo, de prever suas conseqüências. Isso, no entanto, não é sabedoria: é instinto. Além disso, nosso cérebro se torna mais seletivo, em virtude da grande quantidade de fatos e informações nele contidas, pois sua capacidade, assim como a memória de um computador, tem limites. Ainda que não conheçamos esses limites, ainda que sejam extremamente amplos, não podemos nos lembrar de tudo o que passamos, de tudo o que aprendemos e ele, o cérebro, deve ter mecanismos de seletividade à medida que passam os anos e nossas células nervosas envelhecem ou se tornam mais lentas. Por isso, um velho não é mais sábio: é só mais experiente e seletivo. Só há uma forma de se tornar mais sábio com a velhice: é não deixar que o cérebro envelheça, é não lhe dar descanso, é fazer que ele trabalhe sempre, através de atividades variadas, como a leitura, a reflexão, a escrita, os jogos de palavras ou de raciocínios e, até mesmo, através de atividades físicas. Se há alguma vantagem na velhice, em relação à capacidade intelectual ou mental, essa vantagem se resume ao repertório contido em nosso cérebro. Por isso, cuidar de sua saúde torna-se fundamental para uma velhice com um pouco mais de saúde e com qualidade de vida, para usar uma expressão muito em voga. Mas não nos enganemos: não há sabedoria maior ou menor na velhice. Há, apenas, um conjunto maior de experiências disponíveis, se o cérebro estiver saudável. Se não, somos o que sempre fomos, nem mais nem menos estúpidos ou inteligentes.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

ATOS BÁRBAROS




(Siegfried Zademak - theater)


Atos de barbárie: são todos os atos humanos contra si mesmos e contra a natureza. Considero bárbaros: o assassínio, o estupro, a tortura, a mutilação, a escravização, a pedofilia, o vandalismo, a guerra, a destruição da natureza. Não há justificativa para o assassínio: o ato de matar para se defender também é bárbaro, mesmo não tendo punição legal; fica, no indivíduo, em sua consciência, a marca indelével do ato brutal, o que, por si só, já é uma punição terrível. A pena de morte não é justiça, é vingança, vingança da sociedade e um de seus atos mais estúpidos. Deve ser abolida para sempre. Estuprar é ato de suprema covardia do macho. Não tem justificativa, por provir das mais baixas camadas de primitivismo ainda existente na mente humana. Não posso imaginar um ser humano, por mais justificativas que se proponha, a massacrar e humilhar um indefeso corpo, para arrancar-lhe seja uma confissão, seja uma conversão. A tortura, ao contrário do estupro, não provém de camadas primitivas, mas da capacidade absurda que tem o homem de tornar-se imune ao sofrimento alheio, o que transforma o torturador num ser sem sentimento, sem racionalidade, um objeto monstruoso, uma máquina de dor. Já a mutilação, por ser um ato sacrificial, ligado á irracionalidade deísta, condena-se por si mesma, como subjugação do homem àquilo que se convencionou chamar de sagrado. Não pode ter guarida na mente de um ser que se diz civilizado. O desvio da sexualidade para seres que ainda não têm noção clara do que ela seja deve ser punido como ato hediondo contra quem não tem como se defender. Também traz à tona os instintos mais primitivos do ser humano. Transferir para objetos inanimados o ódio, a sanha destruidora, traduz a condição não só de mentes primitivas, mas também estúpidas: os bens e objetos úteis continuarão sendo úteis, independentemente de seus donos. Sua destruição significa apagar a própria história do homem, sem absolutamente nenhuma justificativa. E o que dizer da guerra? Fazer guerra é concordar com todos os atos bárbaros anteriores, já que ela dá condições de existência de todos eles. Abolir a guerra será o ato supremo de civilidade do homem. E, finalmente, destruir a natureza significa comprometer a própria vida.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

REPÚDIO AO VANDALISMO



(Hiroshima, 1945)


Já escrevi algures que nenhuma civilização se constrói sobre os escombros de outra. Que a destruição e, principalmente, a remoção dos escombros e a reconstrução sugam as forças de um povo, impedindo que se restabeleçam a ordem e a grandeza da antiga civilização. Portanto, revoluções que destroem para pretensamente construir estão fadadas ao mais absoluto fracasso. Isso justifica o fato de odiar vândalos e vandalismos. Não acho que seja necessário destruir seja o que for como forma de protesto, de transformação, de evolução. Aliás, para mim, mentes que destroem são mentes primitivas e, como tal, não saberão jamais conduzir qualquer processo de ruptura, de mudança e, principalmente, de evolução. Evoluir implica civilizar. E civilizar jamais foi ou será sinônimo de destruição. Até mentes destrutivas e primitivas, como a de Napoleão Bonaparte, souberam respeitar, por exemplo, as ruínas do Egito, embora os cientistas e arqueólogos da comitiva militar tenham saqueado as riquezas daquele país e levado os despojos para museus e praças de Paris. Destruir só passa pela cabeça de mentes extremamente primárias, sem visão de futuro. Por exemplo: se um povo resolver fazer uma revolução contra os capitalistas e destruir suas indústrias como forma de vencê-los, esse povo estará derrotando a si mesmo, porque a vitória, se houver, não terá como ser aproveitada sem a infra-estrutura anterior. Por isso, sou cabalmente contra qualquer ato de vandalismo, de destruição e acho que vândalos são indivíduos perigosos para si mesmos e para qualquer possibilidade de revolução que se tenha em mente.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

PERSEGUINDO A UTOPIA DA CIVILIZAÇÃO





(Jacek Yerka)


Qual é o índice de civilidade? O que é, realmente, uma civilização? Difícil responder, de forma simples, qual é o conceito de civilização. Porque pode um agrupamento humano ser extremamente civilizado em certos aspectos e tremendamente bárbaro em outros. O homem é múltiplo e muito mais múltiplo ainda quando reunido em sociedades de certa complexidade organizacional. No entanto, acho que o cumprimento das leis pode ser um bom índice civilizacional. Quanto mais cumpridor das suas próprias leis, mais civilizado é um povo. O problema desse índice, no entanto, está na forma como são elaboradas as leis e na sua própria essência. Eu acredito que não se obedece a ordens absurdas. Logo, as leis precisam ser sensatas para que o povo possa obedecer-lhes. E o que é sensatez? Aí, a coisa realmente pega, porque não é possível determinar graus de sensatez, quando se trata do pensamento humano e da própria história do homem. Para isso, teríamos que chegar a um grau de democracia republicana muito sofisticado, em que o poder realmente venha do povo, para ele se dirija e, principalmente, por ele seja controlado, sem nenhum resquício de tirania ou vilania. E isso, convenhamos, está mais para utopia do que possibilidade. Mas, se queremos, mesmo, ser utópicos, diria que civilizado é o povo que não precisasse de leis. Ou seja, o grau máximo de civilização estaria numa sociedade que abolisse leis, jurisprudências, regulamentos, decretos e congêneres e, até mesmo, por mais absurda que possa ser a idéia já há muito sustentada por correntes filosóficas, uma sociedade que abolisse qualquer ideia de poder, de governo, de diferença de classes. Um sociedade tão igualitária e tão cônscia de seus deveres e direitos que não precisasse de deveres ou direitos a serem defendidos ou, até mesmo, escritos ou ditos, para que se lhes obedeça. Uma sociedade em que cada homem e cada mulher respeitassem tanto a si mesmos, como ao outro e à natureza, que pudesse abolir a própria ideia de governo, de leis e de classes, por absurda e inútil. Tal sociedade cumpriria, sim, o requisito máximo de um povo civilizado: viver em harmonia consigo mesmo, com os demais e com o ambiente. Utopia? Sem dúvida, mas se o homem não perseguir esse tipo de utopia, não conseguirá jamais ultrapassar o estado de barbárie em que ainda se encontra.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

DEÍSMO E CAPITALISMO



(Odilon Redon)


O capitalismo ou os capitalismos degenerados em que se transformou o sistema econômico mundial são os frutos podres da árvore deísta. Caminham juntos, unidos num só ideal, amparando-se mutuamente: o deísmo dá ao capitalismo o estofo filosófico para continuar sua obra malfazeja de perpetuação da estupidez humana, das diferenças sociais e econômicas e, consequentemente, da escravidão do homem pelo homem, ou seja, da submissão de povos aos interesses de menos de dez por cento da população mundial que detém quase noventa por cento das riquezas produzidas pelo homem. Capitalismo e deísmo, as duas pragas unidas a inviabilizar o futuro do homem, pois, por serem ambas antinaturais, não têm nenhum interesse na preservação da vida e contribuem decisivamente para a deterioração das condições ecológicas do planeta Terra. Enquanto estiverem unidos, não haverá muitas oportunidades para se salvarem os rios, as matas, as águas, os animais e o próprio homem. Urge destruir tanto a um quanto a outro, se ainda se quer plantar alguma esperança de salvação do ecossistema em que vivemos.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

CICLOS DA NATUREZA



(Jakek Yerka)


Águas de março. Fecham o verão. E um ciclo de vida. Porque a natureza vive de ciclos. O rio sobe e desce, à mercê das chuvas. As plantas crescem, florescem e frutificam à mercê das chuvas, trazidas pelos ciclos das estações. A vida é um ciclo. Estabelecido pela natureza, como um relógio vital, que condiciona a vida pelo andar de seus ponteiros. Só o homem, com o conhecimento, pode, às vezes, interferir no ciclo vital e direcionar o relógio para os seus interesses. Desde que isso não implique violar princípios básicos, como impedir que a chuva caia ou que as leis da natureza sigam seu curso. O homem tem o poder de manipular células e construir organismos, sejam eles outros seres ou plantas ou minerais. Cria, assim, com o conhecimento das forças da natureza, oportunidades e mistérios, mas não cria a vida: apenas a recria, como faz a própria natureza. E usa as forças da natureza em seu proveito. Mas, repito, não pode contrariar os princípios naturais. Querer que um rio não suba na época de chuva é invocar princípios mágicos. E a natureza não tem magia, tem forças e leis. As águas de março que fecham o verão não podem fechar os olhos do homem aos ciclos naturais da vida.