TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

ECOLOGIA: MITO E REALIDADE



(Canato - o touro de Creta)


Ecologia. O homem precisa aprender a respeitar a casa onde mora. Casa cujo ecossistema é frágil e pode colocar em risco a própria sobrevivência humana. Não pode haver estupidez maior que o desrespeito à natureza e o homem tem sido estúpido o suficiente para não entender que é preciso mais do que políticas antipoluição e antiaquecimento global para salvar a Terra. O conhecimento científico acumulado pela humanidade deveria ser suficiente para uma ampla campanha de esclarecimento e sensibilização quanto aos aspectos mais simples da nossa relação com o meio em que vivemos: não sujar os rios e o ar, não destruir florestas, respeitar os ciclos da natureza, preservar animais, praticar sistemas agrícolas não invasivos etc. No entanto, cometem-se milhões de agressões à natureza a cada minuto, no planeta todo. Por quê? Mais do que ignorância, o homem comum perdeu a noção precisa de seu relacionamento com o ambiente, com os animais e com as plantas, com os rios e os mares, porque não entende as lições dos cientistas e não têm mitos, lendas, histórias que o ensinem, que o sensibilizem, que se comuniquem diretamente com sua mente, sem fórmulas ou explicações complexas advindas do conhecimento científico racional. Exemplifico. Joseph Campbell, no livro O Poder do Mito, conta uma história que vai ajudar-me a explicar o que eu quero. Uma tribo de índios pés negros conseguia carne para o inverno através de uma “cachoeira de búfalos”: conduziam a manada até o alto de um rochedo de onde todos despencavam e morriam. No entanto, durante uma época, os búfalos passaram a escapar do cerco. A jovem filha do cacique prometeu casar-se com um deles, se os búfalos voltassem a se atirar do penhasco. O chefe da manada ouviu-a e levou-a em troca de seus parentes mortos no rochedo. Seu pai, no dia seguinte, percebeu pelas pegadas que a filha tinha ido embora com um búfalo e saiu atrás dela. Num charco, perto de um rio, o pai encontrou um pássaro que lhe informou que a filha estava próxima e, a seu pedido, avisou a menina de que o pai tinha vindo buscá-la. A moça disse que aquilo era muito perigoso, mas ia dar um jeito. Quando seu marido búfalo acordou e pediu-lhe que buscasse água para ele, aproveitou para encontrar o pai e pedir-lhe que fosse embora. Quando voltou, o búfalo sentiu o cheiro do índio e fez que toda a manada corresse pelos charcos e campos até espezinhar e destruir completamente o pai da indiazinha, que chora copiosamente. O búfalo retruca que ela está chorando apenas por seu pai, enquanto os seus filhos e parentes estão lá no rochedo, prontos para o sacrifício. Então lhe propõe: se ela trouxesse o pai de volta, o búfalo os deixaria ir? A índia obtém com o pássaro um pequeno osso do pai e, com isso, consegue revivê-lo com cantos e danças de sua tribo. Os búfalos ficam espantados e propõem: por que você não faz isso para nós? Ensinaremos a você cantos e danças dos búfalos e quando vocês tiverem matado nossas famílias, você cantará e dançará para que voltemos à vida. E assim foi feito. Através do ritual, os búfalos atingiram não a dimensão transcendental que defende Campbell, mas se transformaram de coisa em “alguém”, ou seja, ganharam o respeito dos índios, que passaram a matar somente os animais necessários para sua sobrevivência. O que garantia a preservação de ambas as espécies, dos búfalos e dos homens. Estabeleceu-se a harmonia da relação caça e caçador. Quando o homem branco chegou à América do Norte, dizimou os búfalos por causa, apenas, da pele, porque não tinha noção do mito que garantia o respeito à caça, como forma de preservação. É isto o que aconteceu: o homem moderno, geralmente urbano, perdeu a noção do mito esclarecedor e, com isso, tornou-se o predador estúpido que hoje vemos em todo o mundo. Perdeu esse tipo de informação mítica, trazida pela sabedoria dos antigos, e não ganhou ainda a sabedoria nova, trazida pela ciência. Nesse interregno perigoso de tempo, a natureza está sendo destruída e isso pode levar o homem a crises imensas de sobrevivência, pois as forças naturais seguem o seu próprio ritmo e não esperam que a humanidade se torne menos estúpida.



terça-feira, 26 de julho de 2011

MITO DA SUPERIORIDADE SEXUAL




(Eiva Moya - el beso)


Homem e mulher: a dicotomia natural dos sexos. A forma que a natureza desenvolveu para preservação da espécie humana. Diferentes, não opostos. Complementares. Que a estupidez de filosofias excludentes e obscurantistas transformaram em opostos. A aparente inferioridade física da fêmea, aliada a essas filosofias criacionistas de poder ou de divisão de poder entre deuses e deusas, trouxe ao macho a impressão de que era superior e, portanto, podia impor-se à fêmea, como forma de reproduzir na natureza a estupidez do olimpo. Não há motivos para que haja superioridade de um sexo sobre o outro. Isso é coisa de culturas arcaicas e pensamentos primitivos de dominação. Serviu e ainda serve para estabelecer injustiças, em nome de seitas que apregoam a superioridade do macho porque o seu deus também é macho. Macho e dominador. Então, o homem, estúpido e estupidificado por falácias, oprime a mulher, considerando-a mero objeto de seu desejo e de sua vontade, ignorando que o legado genético da humanidade passa por ambos os sexos. Não há que se discutir superioridade sexual, entre humanos. Também não há que se exaltar um dos sexos, seja o masculino, seja o feminino. As diferenças entre ambos existem para se complementarem, não para se oporem. Ressaltá-las ou escondê-las só servem para acirrar ânimos idiotas de tentativa de comprovação de superioridade de um sobre o outro. O que se deve fazer é conhecer essas diferenças para saber lidar com elas. O macho não é superior à fêmea, nem a fêmea é superior ao macho, isso é um preceito que precisa retornar à consciência do ser humano, para que a humanidade não continue cometendo injustiças inolvidáveis de um sexo sobre o outro. Há muitos séculos de desigualdade para que a situação da mulher atinja o nível desejado de ausência de discriminação. As conquistas femininas de superação da desigualdade devem tornar-se ponto de honra para superação da barbárie. Porque todo ato de violência de um sexo contra o outro se constitui num gesto de barbárie e é preciso ser apresentado ao público como opróbrio e precisa ser punido sistematicamente até ser definitivamente rejeitado por todos. Os exemplos deístas de inferioridade da mulher, a começar pelo mito da criação, quando a primeira mulher desobedece ao criador e torna-se culpada pela queda do homem, precisam ser destruídos da mente humana como mitos tremendamente perversos e estúpidos. Todas as civilizações têm repetido esse mito abominável, de uma forma ou de outra, contribuindo para o sentimento de superioridade do macho humano e fazendo que esse sentimento se transforme em mil maneiras de humilhação e de violência contra a mulher. Repudiar tais mitos também se torna ponto de honra para a superação da barbárie.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

O ÓDIO DEÍSTA AO SEXO



(Cecily Brown - sweetie)



A ojeriza deísta ao sexo como instrumento não só de procriação mas também de prazer tem trazido formas importantes de discriminação, de desavenças, de exclusão. E, principalmente, de sofrimento. Porque nos faz lidar com nossa sexualidade como um tabu, como algo proibido, proveniente do chamado pecado original, aquele que levou o homem à queda, à expulsão do paraíso, segundo a doutrina deísta ocidental, chamada de cristianismo. A cosmogonia cristã já traz em seu bojo a condenação do sexo como algo fora da alçada do deus gerente que sabe tudo, mas não sabe que a sexualidade é não só uma forma de procriação, mas também fonte de extremo prazer. Um deus, sem dúvida, muito estranho. Dá à sua criatura o prazer, mas proscreve-o, como imundo. E pior: não só dá ao ato procriador uma imensa carga de prazer, mas permite que outras formas de sexo sejam descobertas pelo homem. E ainda: condena essas formas alternativas como bestiais, como ainda mais indignas. E expulsa do seu rebanho uma imensa parte da humanidade que as pratica. Condena os homossexuais às chamas do inferno, simplesmente porque eles fazem sexo de forma diferente do que ele, o criador, ordenou que se fizesse. Ou, então, podia-se perguntar: serão os homossexuais seres que não foram criados por ele? O que traria ainda mais problemas, pois teríamos criaturas não-criadas, um inominável paradoxo. Para algumas seitas cristãs (e acredito que para muitas outras religiões não cristãs também), o homossexualismo é coisa do diabo ou é doença. Em ambos os casos, sua condenação e exclusão fazem parte das grandes contradições teológicas não resolvidas do deísmo. Se é coisa do diabo o homossexualismo, então deus não é assim tão poderoso como apregoam. Se é doença, então todos os doentes deveriam ser estigmatizados, e não somente os homossexuais. Enfim, teologia e sexualidade são como água e azeite: não deviam se misturar, mas a estupidez deísta, não podendo ignorar os instintos do homem, cria mil empecilhos a que o homem tenha uma relação sadia com seu corpo, com seus instintos, com seu sexo. E cria mais uma fonte interminável de discussões idiotas e sofrimentos inúteis.



terça-feira, 19 de julho de 2011

SEXO E RELIGIÃO



(Carracci - Jupter et Junon)



Sexo e religião. Um tema complicado. Porque se misturam, de uma forma absurda. Pergunto: por que são as religiões tão preocupadas com o sexo? O cristianismo sataniza o máximo possível toda e qualquer manifestação sexual humana que não tenha por objetivo a procriação. É doentio, isso. A preocupação de todos os teólogos, não importa a qual seita pertença, com o controle da sexualidade contém uma patologia que não se coaduna com os tais princípios da criação. Porque, se deus criou tudo o que existe, também criou o sexo, a sexualidade, com todas as variações possíveis. Não vou nem cair no ridículo da discussão inútil de que o ato criador é um ato sexual. Isso apenas traria a ira inconsequente dos deístas e não levaria a lugar algum. O que me incomoda, nessa excessiva preocupação deísta, existente em praticamente todas as religiões, em demonizar o sexo, é que não há nisso nenhum objetivo aparente, não há nenhum motivo real ou imaginário. Por que o ato sexual, seja ele praticado de que forma for, ofende tanto a natureza desse deus? Não me venham os teólogos com suas citações canalhas de textos da bíblia ou de outros textos ditos sagrados ou de autores antigos, filósofos ou teólogos, a justificar que deus é assexuado e sexófobo por isso ou aquilo. Não há explicação lógica. Em que o ato sexual poderia apresentar-se como antirreligioso? Principalmente sabendo-se que ninguém, absolutamente ninguém, até há pouco tempo, nasceu sem que um homem e uma mulher tivessem relações sexuais (e é ainda mais estranha a irritação dos deístas com a ciência, por descobrir métodos de concepção artificial, como a reprodução in vitro ou a clonagem. Mas isso é outro assunto). Ouso levantar uma teoria, provavelmente tão absurda quanto a própria idéia de que o sexo é ofensivo ao criador. Talvez a aceitação da sexualidade humana, desprovida de qualquer outro objetivo que não seja o de procriar, contamine de forma definitiva a própria idéia da existência desse deus, por ser o ato sexual uma ação animalesca, no sentido mais puro da palavra, isto é, o homem faz sexo exatamente como os animais, tendo, porém, um componente a mais: o prazer consciente do próprio prazer. O homem procura a fêmea ou vice-versa por um instinto animal, o que contraria a ideia de que tenha sido o homem criado à imagem e semelhança de deus. Mas aceitar o sexo como forma de prazer é aceitar a ideia de que deus também o pratica e com ele também obtém prazer, o que pode ser uma idéia tão tola quanto rejeitar aquilo que cientificamente está provado: que somos, sim, seres provenientes da evolução, e conservamos em nossos genes instintos primitivos de sexualidade e de violência, ligados ao instinto básico de todo ser vivo, a preservação da espécie.



sexta-feira, 15 de julho de 2011

A ÉTICA DE VALORIZAÇÃO DA VIDA



(Airton das Neves - remanso)



A convivência pacífica, acima de credos absurdos, de superstições inaceitáveis pela lógica mais comezinha, deve ser a meta do homem para os próximos séculos. A superação da idéia de guerra, em primeiro lugar, e, depois, da idéia do assassínio, constitui o salto que nenhum outro ideário ético logrou alcançar até hoje, porque toda a ética praticada até agora, baseada em pressupostos metafísicos, está amarrada a crenças deístas de superação do espírito pelo corpo, o que leva o ser humano a procrastinar a ideia de felicidade, ela mesma uma criação absurda da metafísica, para depois da morte, como uma conquista impossível da vida humana, num dos mais profundos e maléficos absurdos da consciência, do pensamento e da filosofia do homem. Desvencilhar-se desse arcabouço de estupidezes permitirá o salto qualitativo da mente do homem, preparando-o para assumir a posição de ponto mais alto da escala evolutiva, que ele teima em pensar que já tem, mas está longe de alcançar. A ética desse homem, não um novo homem, mas já um ser um passo além da barbárie em que está naufragado, permitirá que ele repense a própria trajetória e planeje com consciência o seu futuro, agora baseado em dados de realidade, de conhecimento e não em superstições tolas e impeditivas do seu progresso. A ciência não será a deusa num altar, porque não haverá mais deuses nem altares, mas a ela o homem dará a importância devida, não como um avatar, mas como a bússola que leva aos melhores caminhos, com a certeza de que, podendo enganar-se em seus pressupostos, não se prestará jamais a tornar-se a ditadora de todas as verdades, porque acima da ciência estará a ética da valorização e do respeito à vida.



terça-feira, 12 de julho de 2011

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA ÉTICA





(José Luis Muñoz)



Ética. Talvez o mais complexo conceito do pensamento humano. Porque não existe uma só ética, como não existem um só povo, uma só civilização, uma só cultura. Mas há elementos éticos universais, que dizem respeito à idéia de homem, ou seja, um ser que vive em relação com os outros. E esses conceitos não têm nada de maniqueístas, não dependem da existência de contrários, são conceitos afirmativos, apenas, que guiam o pensamento humano na direção de uma vida menos bárbara, de uma convivência mais amena entre semelhantes ou opostos. O homem nada tem de divino ou de transcendental: nele mesmo estão todas as taras, todos os ódios, todos os medos, toda a ancestralidade devida à evolução. Tampouco é um ser pronto, acabado: embora pareça estar no topo da cadeia evolutiva, seus passos são ainda incipientes na estrada da evolução. O homem é uma criatura de poucos milhares de anos, tem muito a evoluir, tem muito a modificar-se e, com certeza, não atingirá jamais a perfeição, porque os caminhos são inúmeros e inúmeras serão as tentativas para um novo padrão de existência. O homem tem ainda na boca o sabor do sangue de outros humanos e a autofagia está presente em todos os momentos da trajetória desse bicho que domina a terra e não domina a si mesmo. Enquanto esse gosto por sangue da própria raça não se esvaecer da mente do homem, não haverá progresso digno desse nome na sua escala evolutiva. Imprimir na memória desse ser um novo código de ética, mais voltado para a valorização da vida, estritamente antimatança, com altíssimo grau de aceitação do outro, de respeito ao semelhante, mesmo que esse semelhante tenha crenças e culturas opostas, pode parecer um sonho, mas se constitui na única saída para a continuação de sua existência. Ou, pelo menos, será a única via para a construção de sociedade mais harmônica. 




sexta-feira, 8 de julho de 2011

ATEÍSMO NÃO É FILOSOFIA




(Cézanne)


Pode-se perguntar: o que colocar no lugar do deísmo? Nada. Não se coloca nada no lugar do deísmo. Quando se deixa de acreditar em deuses, não existe nenhuma outra crença ou filosofia para se colocar no lugar. Porque o ateísmo não é uma filosofia, é apenas um conceito antideus, anticriacionismo. O ateu não é um filósofo, é apenas alguém que não acredita nas bobagens deístas e criacionistas. Nada mais. Por isso, não há pregação pelo ateísmo, não há e não pode haver sociedades ateias ou templos e quaisquer outras besteiras desse tipo. Um ateu não sai por aí a pregar o ateísmo, porque não há o que pregar, o que defender. A crença em deuses é somente uma crença e nada mais. Ou seja: depende daquele ingrediente imponderável, inatingível e indiscutível chamado fé, a criação mais emblemática do deísmo. Acreditar em deus é um ato de fé. O problema é que esse ato de fé se transformou em religião, em filosofias, em metafísicas absurdas e excludentes. Por isso, o crente é um ser absurdo. Combater essa estupidez, sim, é um dever do ateu e de todos os que pensam um pouco além da estupidez humana em sua busca insana por eternidade, por mistérios e por milagres. Mas não há elementos de troca. O ateu não tem nada a oferecer ao crente para substituir sua fé, apenas a liberdade. Liberdade de pensar e buscar a sua própria Weltanschaaung, seu próprio ideário e seu próprio sistema ético.




terça-feira, 5 de julho de 2011

VIRTUDES TEOLOGAIS



(Brueghel: adoração dos reis)


As três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A fé se constitui na forma mais acabada de ignorância, do não querer ver o que está diante dos olhos, de não se interessar pela natureza e por suas leis; enfim, a forma mais completa de cegueira intelectual. A fé destrói qualquer possibilidade de raciocínio lógico, e faz de quem a pratica um mero joguete nas mãos dos deístas estúpidos, ao estupidificar o indivíduo e torná-lo escravo de crenças absurdas. A esperança anestesia o presente e torna as pessoas impassíveis diante da vida e de suas vicissitudes. É uma forma de passar a mão na cabeça das pessoas e entregá-las aos desígnios divinos como cordeiros diante do açougueiro. Constrói apenas utopias excludentes. Já a caridade constrói em torno do ser que a pratica uma aura de santidade que esconde, realmente, o orgulho por ser diferente e estar mais próximo de deus. É como se se dissesse: olhem, eu sou melhor, eu sou santo, eu estarei diante de deus, porque sou caridoso, ajudo as pessoas. A arrogância do humilde e daquele que se faz humilde destrói qualquer possibilidade de diálogo racional, como, aliás, o fazem também as demais virtudes. O homem virtuoso desumaniza-se em nome de seu deus, o que o torna um monstro inútil para o desenvolvimento da humanidade. A humanidade não precisa de homens assim, mas de pessoas que tenham visão ética de respeito às diferenças, à vida e à natureza.



sexta-feira, 1 de julho de 2011

SHADENFREUDE



(Brueghel - the fall of rebel angels)


Vingança. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Olho por olho, dente por dente. E assim, cristalizada em nossa mente através de inúmeros adágios e crenças, a vingança atormenta o coração do homem. Não existe o mal, o mal absoluto, criação metafísica para nos iludir nas crenças de deuses cruéis e seus inimigos poderosos. Mas existe, sim, o mal praticado diariamente, como formigas que picam e fogem, como espinheiro em canteiro de flores. O homem tem o dom de fazer o mal. Não se contenta em viver, apenas, a sua vida. É preciso espicaçar o semelhante. É preciso pisar, esfolar, matar. E rejubila-se com isso. E goza o prazer de ver o desafeto na pior situação possível. Há, em alemão, uma palavra que resume o sentimento mesquinho de ver o pretenso inimigo na situação mais trágica, que explica o júbilo de não apenas vencer e estar bem, mas também ver o outro humilhado, despedaçado, é a alegria com a desgraça alheia: Shadenfreude. Os deuses criados por todas as religiões humanas até agora são todos adeptos da vingança. Se não estamos com eles, estamos contra eles. E para todos os inimigos, o fogo eterno, as desgraças, o sofrimento. Não há meio termo. E rejubilam-se com a destruição de cidades inteiras, porque nelas há pecadores. Shadenfreude. Vingança pura. E a perpetuação da barbárie. Nossa sociedade dita cristã construiu-se assim: na ideia da vingança. As demais sociedades deístas também. Porque deus é Shadenfreude. Se chove demais é porque há pecadores que mereciam as enchentes, a destruição de suas casas, esquecidos de que se há ali pecado é o pecado da estupidez em desafiar as forças da natureza. Se há seca é porque os deuses assim o querem, para punir aqueles que não os seguem, não se sacrificam, esquecidos de que o único sacrifício dos que convivem com seca está em aceitar a condição de miseráveis, sem se revoltar contra aqueles que lucram com a seca e espezinham os pobres para continuarem enriquecendo. É dentro do princípio da vingança que se escrevem muitas de nossas leis penais. A intenção não é punir o criminoso, afastá-lo do convívio dos demais, por ser um indivíduo perigoso, mas vingar-se dele, jogá-lo no mais fétido calabouço e deixar que seja corroído pelos vermes, como se essa vingança tivesse o condão de fazer voltar à vida aqueles que ele assassinou. Puro Shadenfreude. Então, quer-se a pena de morte, o espetáculo da morte transformado em teatro estúpido de punição, ou melhor, de vingança, para gozo dos sádicos de plantão, dos deístas de carteirinha, dos fundamentalistas de todos os credos. Corta-se a mão ao larápio, espanca-se em praça pública o desafeto, apedreja-se a adúltera, tudo como forma espúria de vingança, em nome do deus da barbárie. Os animais matam para comer, para se alimentar; o homem, por prazer ou por vingança. E perpetua a barbárie. Pode-se invadir um país para se vingar das atrocidades de seu governante e cometer, assim, atrocidades maiores: Shadenfreude. Como se pôde jogar sobre a cabeça de milhares de civis uma bomba atômica, como forma de punir todo um país pelo erro de seus estúpidos governantes: Shadenfreude. Como se pôde construir dezenas de campos de concentração e lá jogar milhões de pessoas e depois assá-las em fornos crematórios, como forma de se vingar contra a prosperidade de um povo que tem no comércio e no lucro a fonte de sua própria existência e, mais, como forma de punir esse mesmo povo por ter cometido e cometer ainda tantas outras atrocidades: Shadenfreude. Pôde-se e ainda se pode destruir tribos inteiras de indígenas, simplesmente porque não aceitam nossas crenças ou porque têm costumes diferentes dos nossos: Shadenfreude. E pode-se mandar para o inferno aqueles que fornicarem nus, embora sejam cônjuges devidamente unidos pelas leis idiotas de profetas mal amados ou mal interpretados: Shadenfreude. E a barbárie estupidifica a mente do homem. E perpetua-se.