TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O ASSASSÍNIO COMO ATO SUPREMO DE BARBÁRIE




(Jean Leon Gerome)


Se não houver mais nenhuma arma no mundo, os homens se matarão com as próprias mãos. Pode esse aforismo até ser verdadeiro: o instinto assassino do homem sobreviverá à destruição das armas e à conquista definitiva da paz pelo homem. No entanto, ao matar com as próprias mãos, o assassino deverá demonstrar o total desprezo pela vida, na forma do mais abjeto ato de coragem: a coragem de admitir para si mesmo a sua covardia extrema. Pois somente um homem que despreze a sua própria existência admitirá eliminar a existência de outro homem. E isso, o desprezo da vida, é um ato de coragem, enquanto tirar a vida de outro é um ato de covardia extrema. Superar esse instinto animal, o instinto de aniquilação como redenção, como pregam as religiões deístas, deverá consumir milhares de anos de evolução da raça humana. Mas será um acontecimento fundamental para que a vida adquira o valor supremo a substituir o perverso culto à morte que tem acompanhado a história humana, com suas batalhas torpes, seus assassinatos cruéis e seus suicídios covardes.



terça-feira, 26 de abril de 2011

DEÍSMO É APENAS MITO




(Andrea Kemp - purple velvet)


O ateísmo é a condição natural do homem. Pensar em um deus é exercício artificial sobre a incompreensão do mundo. O homem não precisa de deus. Principalmente desse deus dito único e absoluto. O deísmo, praga do pensamento, torna-se mais cruel quando se transforma em monoteísmo. O monoteísmo consagra a estupidez do pensamento humano sobre a ignorância ou a incapacidade de entender a natureza. Pensar em um deus que cria o mundo e todas as coisas que há nele é confessar a inutilidade do próprio raciocínio e da lógica. Se somos dotados da capacidade lógica, a crença criacionista e monoteísta invalida totalmente essa capacidade, torna-a nula e absurda. Porque crer em um deus é confessar a si mesmo a crença na mais absurda mentira já inventada pela mente humana. E, no entanto, em cima dessa mentira, construiu o homem o mais alucinante sistema de mentiras jamais imaginado. Justificar deus tornou-se um exercício da mais pura e louca fantasia, travestida de exercício lógico. Não pode o homem continuar a conviver com tal estupidez e sobreviver a ela. Há que destruir no âmago da inteligência humana esse mito mais do que deletério, um mito que impede o homem de ver a si mesmo como um elo fundamental do sistema evolutivo, um elo da vida que flui da matéria primitiva para a conquista de universos inimagináveis. A responsabilidade do homem diante do universo não pode ser transferida para um mito impeditivo da compreensão da natureza. Extirpar a crença em um deus criador torna-se, assim, um passo importante na evolução do pensamento lógico do homem, um degrau na sua caminhada rumo a destinos que só ele mesmo pode definir, sem interferência de forças transcendentais que nunca contribuíram para um único momento de evolução humana. Criar mitos sempre foi uma necessidade diante do desconhecido. Um mito é sempre uma mentira que nos permite vislumbrar a verdade. No entanto, o mito de um deus criador, único, destrói o próprio conceito de mito, por não conter em si nenhuma verdade de que o homem possa lançar mão na sua trajetória de vida. Não se pode ter nenhuma contemplação com esse mito: ou o destruímos para sempre, ou continuamos escravos de invenções e convenções estúpidas e impeditivas do verdadeiro progresso do pensamento humano.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

RESPEITAR A NATUREZA É SOBREVIVER



(Airton das Neves - lavadeiras)


Tudo separa o homem, neste momento histórico, em nações, em tribos, em ideologias opostas, levando-o a guerras e conflitos aviltantes e inúteis, extremamente destruidores e danosos, mas uma só ideia pode uni-lo: a defesa do planeta. O problema é fazer que povos tão diferentes entre si, em estágios tão distintos de interesses, possam compreender a linguagem da natureza que aí está a nos passar mensagens claras de insatisfação. O clima esquenta as águas dos oceanos e faz derreter gelos eternos, por culpa única e exclusiva da excessiva emissão de gases poluentes e da quantidade de veneno que jogamos na atmosfera. Com isso, fenômenos naturais provocam grandes catástrofes em todas as regiões da Terra, dizimando vidas e condições de vida, destruindo o trabalho humano de inúmeras gerações em poucas e decisivas horas. Tudo se explica, só a estupidez humana não percebe que não podemos continuar a sujar os rios, a poluir o ar, a derrubar florestas, a deixar que se deteriore o solo, a envenenar os aquíferos, a matar os animais, a destruir, enfim, a casa onde moramos e na qual estamos condenados a viver ainda por muitos e muitos séculos, talvez milênios. E a pior poluição é o idealismo pitagórico de que somos viajantes num mundo eterno, de que aqui estamos de passagem para outras paragens, para um paraíso que nos espera depois da morte. Essa concepção absurda entrava qualquer possibilidade de entendimento do que realmente somos, seres frágeis a navegar num planeta azul à mercê de forças que não compreendemos e das quais somos, sim, eternos prisioneiros: as forças da natureza, que devemos respeitar para que possamos sobreviver.



terça-feira, 19 de abril de 2011

SALVAR A CASA EM QUE MORAMOS



(Ada Breedveld)






De platônicas lembranças se nutre o pensamento humano, a iludir-se na criação de teogonias inúteis, de cosmogonias absurdas, longe a ideia do racionalismo puro que deve abrigar, não a ilusão da essência do mundo, mas a verdadeira visão da natureza na qual nos inserimos como parte integrante de uma cadeia de vida muito mais bela e rica do que aquela criada pela imaginação fértil da metafísica e da crença em deuses primordiais e vingadores. Livre o pensamento do homem de tais incompreensões do mundo, vingariam ideias mais realistas de defesa do ambiente em que vivemos, de respeito à natureza e de visão do futuro do próprio homem. Não estaríamos a depredar de forma consistente e permanente o mundo que nos acolhe, se tivéssemos o senso comum de sobrevivência não da entidade homem, mas da espécie humana, como elo da cadeia da vida, esta, sim, o valor supremo da natureza. Defender de si mesmo a casa onde habita, a missão do homem do século vinte e um. Se se desfizer da estúpida noção de eternidade. O planeta Terra, na ordem geral do universo, pode ser, pelo menos na compreensão que atualmente temos de sua grandeza, uma gema única em milhões de anos luz. Se permitirmos que seu ambiente se degrade a ponto de inviabilizar a vida, não haverá futuro para o homem. A poluição humana pode e deve ser controlada, para além de quaisquer jogos políticos de poder e dominação.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

ARTE E TÉCNICA



(Kandinski)


A técnica, a capacidade de harmonizar e despertar nossos sentidos, só se realiza quando educa e constrói ao mesmo tempo esses sentidos, despertando a inteligência e o prazer que o belo nos traz. Não existe um belo absoluto, embora certas obras de arte sejam quase unanimemente consideradas belas. No entanto, só é belo aquilo que consideramos belo. O homem constrói para si e para os outros. A contemplação do belo é algo profundamente individual, como a construção da própria arte é um ato de total e profundo egoísmo. Ao compartilhar esse egoísmo, o artista não busca a consagração de sua obra, mas o reconhecimento de outros sentidos àquilo que ele sentiu. Portanto, não uma beleza, apenas: várias, dentre as quais a do próprio criador. A apreciação da obra de arte torna-se, assim, um ato de integração dos sentidos do observador com os sentidos do criador. O penico do Duchamps só é obra de arte para quem a considere uma obra de arte. Assim também a Vênus de Milo ou a Gioconda. O que há por trás da arte é apenas a arte, nada mais que a arte, ou seja, a técnica. Qualquer tentativa de buscar sentidos ocultos, profecias, mistérios e outras bobagens metafísicas cai no ridículo de tentar aceitar o inaceitável, de acreditar em duendes ou espíritos, de buscar o imponderável onde há apenas a técnica humana e a sua arte mais impressionante, a sua capacidade de criar. Não nos espantemos, portanto, com a morte do belo. Temos coisas mais importantes com que nos preocupar do que o reverenciarmos. Temos um mundo imperfeito e uma arte imperfeita a atrair nossos sentidos e, através deles, torná-los, ao mundo e à arte, imagens que nos agradam ou desagradam, sem qualquer juízo outro de valor que não esse filtro impressionante que se chama sensação, ou simplesmente, prazer. A arte só é arte quando nos causa prazer, deleite, sem que esses termos não deixem de conter em si algo de dor, de sofrimento, de angústia, pela compreensão do mundo que eles nos trazem ao contemplar aquilo que nos agrada. No fundo é isto: a arte só se realiza como arte quando nos revela um pouco mais de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Sem metafísicas. Sem juízo de valor. Porque, afinal, a arte só é arte quando a arte não é arte. Quando nós a transformamos em arte. E em beleza, que só existe porque nós existimos e porque nossos sentidos a registram.



terça-feira, 12 de abril de 2011

ARTE: ESSÊNCIA E APARÊNCIA




(Marcel Duchamp - urinol)






“Dadá só é dadá, quando dadá não é dadá”, ou seja, a arte só é arte quando a arte não é arte. O lema dadaísta parece querer destruir o conceito mais arraigado da cultura humana: o conceito de arte, de beleza. Até então, a arte pertencia a um universo paralelo, frequentado pelos eleitos das musas, o qual nós, os simples mortais, só tínhamos o direito de apreciar e aplaudir. De longe, de preferência. E, é claro, pagar a conta. Ao deslocar para o ambiente dos deuses, ou seja, para o ambiente artístico, um simples e prosaico penico, Duchamps criava o estranhamento necessário para que pudéssemos começar a entender de forma completamente diferente o significado da arte. Era a vanguarda a escandalizar, a provocar. O problema é que a provocação só tem sentido na primeira vez. A vanguarda não se sustenta no tempo, porque o tempo é seu inimigo. Entendida, assimilada ou rejeitada, a vanguarda morre na primeira curva do tempo e torna-se, também ela, objeto de museu. Esclerosa-se como tudo o que veio antes dela. Não existe uma vanguarda eterna. Aquilo que escandaliza hoje é objeto de derrisão algum tempo depois. Pobre arte. E voltamos sempre aos mesmos problemas, aos mesmos conceitos aristotélicos, à mesma busca de algo novo, de um novo escândalo. Não há revolução que resista ao olhar por mais de alguns segundos. No momento seguinte a que nos espantamos, o novo se torna velho e o de sempre toma o lugar do recém-nascido. A arte é cruel, não admite o segundo olhar. Os dadaístas que o digam e que o digam todos os vanguardistas. A busca do novo, no entanto, é o desespero do artista. Romper padrões é necessário, mas tudo o que acontece entra, imediatamente, no rol das coisas comuns. E essa é a maldição de todo artista. Criar para renovar, renovar para envelhecer. Um roteiro cujos enredos todos conhecem e tentam quebrar e nada acontece. Então, pensar sobre a arte é pensar a arte. É curar a arte de seus tentáculos seculares e buscar não o belo, não aquilo que a famigerada metafísica idealizou, mas a sua constituição física e palpável: a técnica. O fazer. Não importa a essência, mas a aparência. O belo não está na contemplação espiritual, na elevação dos sentidos, mas na percepção de que algo foi feito e muito bem feito, que estamos diante de um artesão que faz de sua habilidade a busca daquilo que nossos olhos, nossos sentidos possam aceitar como harmonioso e agradável. O belo só é belo quando o belo não é belo. A beleza por si mesma, independente dos sentidos, não existe, não persiste ou simplesmente desiste.



terça-feira, 5 de abril de 2011

PELA DEMOLIÇÃO DO EDIFÍCIO METAFÍSICO



(Airton das Neves - Gaza)


Desagrada-me profundamente chegar a esse ponto da análise que faço da humanidade, mas não posso recuar ante os atos de barbárie que povoam as mídias de meu tempo, com narrativas de assassinatos, vandalismo, estupros, tortura, atos que os homens cometem por causa da fome, da miséria, da crença em deuses estúpidos; por causa de motivos tão absurdos quanto a defesa de territórios cujas fronteiras são tão inúteis quanto as mortes que provocam; por causa de opiniões políticas divergentes ou simplesmente por causa do ódio que sentem em relação a seu semelhante, ódio alimentado por questiúnculas, por invejas, por motivos os mais fúteis que se possam arrolar, como se a vida, o único e verdadeiro bem do homem, não valesse absolutamente nada. Esse traço de barbárie que perdura nos genes humanos, como marca de instintos primevos, não desaparecerá tão cedo, se não houver uma mudança profunda no modo de pensar dos homens; se a humanidade não abandonar as crenças em mitos desastrosos que convidam à diferença, ao divisionismo, ao aprofundamento de usos e costumes antagônicos. É necessário queimar – fisica e metaforicamente - todos os altares, todos os deuses, todos os templos, todos os resquícios de divindade que o homem teima em cultuar, para povoar de demônios um mundo que nada tem de místico ou de metafísico. É preciso demolir o edifício metafísico incorporado ao pensamento humano, por séculos e séculos de imposição de conceitos absurdos. Porém, essa queima e demolição devem ser feitas de modo gradual, lento e seguro, para que não se transformem também em motivos de ódio, de desavenças, de mais guerras. Somente a educação pela filosofia e voltada para a ciência, para a observação e interpretação da natureza, sem metafísica, para o bem do homem e sua sobrevivência na Terra, transformará o bárbaro do século vinte e um no homem civilizado de alguns milênios para frente.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

BÁRBAROS SOMOS TODOS



(Giger)



Ainda a barbárie humana. Na África, o continente em agonia, países inteiros mergulhados na miséria e na fome, na luta étnica de tribos que se odeiam há séculos, crianças famintas a espalhar seus ossos pelas savanas. Na Ásia, um país imenso como a Índia, com ilhas de tecnologia avançada, ainda conserva usos e costumes bárbaros, como queimar e jogar cadáveres nas águas mais que poluídas do seu rio sagrado, como adorar animais e manter sistemas de castas entre os homens. No Oriente, o fanatismo religioso alimenta guerras fratricidas e não poupa inocentes na sua luta contra tudo e contra todos. Nas Américas, tanto nos Estados Unidos quanto nos países latinos, nesses um pouco mais, há ilhas de pobreza extrema ao lado de mansões de milhões de dólares, onde se encastelam dois por cento da população que detém oitenta por cento do PIB das nações. Mesmo a rica e próspera Europa ainda não resolveu o que fazer com seus milhões de miseráveis, muitos ainda mergulhados em guerras civis de ódios étnicos ou provenientes de sistemas falidos de nações que não souberam dividir suas riquezas adequadamente, em fronteiras artificiais de países criados no calor de um momento político e não de acordo com o desejo da população. Todo esse breve cenário de desigualdades que a realidade teima em tornar muito mais agudo do que pode sonhar as inúteis estatísticas produzidas nos escritórios elegantes dos economistas ainda não é tudo o que se pode dizer da barbárie humana. Quando vemos populações inteiras mergulhadas na miséria, ainda conseguimos explicar, não justificar, o crime, o vício, o consumo e o tráfico de drogas. Porque o homem vive numa linha tênue entre o monstruoso e o humano. Bastam pequenos distúrbios nessa linha, que a sua verdadeira face bárbara reaparece. Justificam-se assassinatos por qualquer motivo fútil, quando o que se vê são populações atingidas por desgraças provocadas por fenômenos naturais, como enchentes, furacões, terremotos. Nesse momento, em que a solidariedade e o humanismo florescem nas mentes humanas, também a barbárie desse mesmo homem e os instintos mais básicos de sobrevivência camuflados em estupros, assassinatos, pilhagens ressurgem e, às vezes, sufocam os pretensos instintos mais elevados. O homem não se civilizou, como coletividade. Há um verniz, apenas, de civilização na pele do homem, na mente do homem. Ainda persistem os instintos mais ferozes, quando se trata de sobrevivência. Os atos humanitários não conseguem esconder a barbárie e o instinto incivilizacional do homem, quando colocado em situações limite. As guerras estão aí para provar e, dentre elas, a guerra civil, a mais bárbara de todas as guerras. Contra o inimigo externo, desconhecido enquanto indivíduo, a luta é ideológica, a matança ganha justificativas heróicas de defesa do território, da vida, da cultura, dos interesses econômicos, embora continue sendo bárbara e desumanizadora. Mas, quando se trata de luta entre pares, entre pessoas que se conhecem, porque têm os mesmos interesses culturais e econômicos, dividem o mesmo território e falam a mesma língua, a luta ganha contornos de ódio muito mais intensos, revivendo o mito bíblico de Caim contra Abel, como se o irmão tornado inimigo se transformasse em monstro muito mais perigoso do que o inimigo desconhecido do outro lado da fronteira. Nesses momentos, o instinto de barbárie do homem se aguça, exorciza todos os seus demônios e torna-se muito mais odioso e sequioso de sangue. Irmão mata irmão com muito mais ódio do que mataria o desconhecido que lhe invade o domicílio. É na guerra civil que se exacerba aquilo que parecia adormecido dentro do homem: o animal sem racionalidade alguma dos tempos primitivos em que o bípede recém-saído de sua condição de ameba percebe, pela primeira vez, o outro como inimigo a ser devorado como condição para sua própria sobrevivência.