TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

POR UMA NOVA CONCEPÇÃO DE PARTIDO POLÍTICO



(Bernard Buffet)


A democracia é a única forma de governo capaz de dar algum tipo de dignidade ao ser humano. Volto ao tema, para falar, agora, de uma forma de democracia, de seus aspectos funcionais. Porque a democracia brasileira, nesse início de milênio, precisa com urgência de uma reforma política profunda, que jogue para escanteio definitivamente todos os aproveitadores do bem público. Uma reforma que privilegie a arte da política e não os trambiqueiros de plantão que se apresentam em pele de cordeiro a cada ciclo eleitoral, perpetuando-se no poder como abutres a comer o fígado da nação, que um dia não mais regenerará ante a fome insaciável desses urubus. Uma reforma política que acabe com os políticos. Essa a única solução. Não a reforma que está por aí, simples paliativo de um problema que se torna cada dia mais trágico. Uma reforma que, simplesmente, elimine o político profissional da sociedade brasileira ou, pelo menos, coloque-o num curral específico e controlável, onde todos possamos vê-lo. Somos todos nós, o povo, os nossos próprios políticos. Não precisamos de intermediários, mas de representantes. Assim, a minha idéia é a seguinte. Primeiro: partidos políticos. Devem ser células mínimas de produção ideológica. Explico: um partido político deverá ter um número limitado de cidadãos, talvez uns dois mil, no máximo, que trabalhem para definir o seu espectro ideológico, suas propostas de sociedade, seus planos de governo, enfim, para estabelecer claramente perante o povo o tipo de País que deseja, caso obtenha o poder nas urnas, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Essas idéias devem ser divulgadas periodicamente, através dos meios de comunicação, como é hoje o horário eleitoral gratuito. Com algumas diferenças fundamentais: a propaganda será do partido e não de seus membros; não pode haver divulgações de realizações, mas apenas de ideias e projetos; não será permitido o aparecimento de membros do partido, mas os programas serão apresentados por profissionais do mercado, neutros, portanto. E há mais um detalhe importante: esses membros permanentes do corpo partidário nunca poderão se candidatar a qualquer cargo. São apenas gestores partidários, homens e mulheres que tenham o ideal de construir uma proposta de Nação, mas não de se constituírem em representantes do povo. Também não poderão ocupar cargos oficiais nos governos de seus partidos, servindo apenas como uma espécie de conselho para os governantes, cuidando para que os planos traçados sejam postos em prática, de acordo com a carta do partido e suas propostas e planos. Terão prestígio, é claro, porque influenciarão decisivamente para o progresso do País e, por isso, deverão ser mantidos com bons salários por fundações arrecadadoras de fundos da sociedade, de forma clara e transparente, com suas contas sendo auditadas de acordo com a lei. Serão eles, na verdade, os únicos políticos profissionais em exercício permanente de sua atividade.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO ESTÁ NA EDUCAÇÃO

(Jean-Honoré Fragonard - reader)



A afirmação de que toda sociedade é intrinsecamente conservadora é um balde de água gelada nos ideais revolucionários. Mas, se não se pensar desse modo, ou seja, se não se aceitar que o conservadorismo do tecido social torna-se mais forte à medida que se conquistam direitos fundamentais, acumular-se-ão cada vez mais os erros espetaculares de todas as tentativas de revolução. O povo apoia um governo revolucionário somente quando seu programa não espolia os seus direitos, não modifica o que já foi conquistado, não estabelece normas totalmente opostas àquilo que ele estava acostumado. Não conheço a revolução chinesa, se assim podemos chamar o processo de instalação de um governo de esquerda nesse país. O que se pode observar a distância é que a verdadeira revolução tem sido a de dar cada vez mais passos decisivos em direção ao capitalismo de mercado, depois de dezenas de anos de total controle estatal dos meios de produção. Há que se notar, no entanto, que a China de antes da revolução socialista promovida por seus líderes comunistas se constituía num país quase feudal, onde as experiências radicais podiam ser postas à prova porque havia um imenso campo fertilizado por séculos de atraso e abandono. O povo não tinha nada e o pouco que ganhou com a revolução foi significativo, em relação ao passado. Hoje, no entanto, o trabalho febril do mais de um bilhão e meio de chineses tem conseguido avanços muito mais importantes do que todas as teorias revolucionárias dos primeiros tempos de implantação do regime comunista. E esses avanços apontam, cada vez mais, para uma economia de mercado de cunho capitalista, para inserção desse gigante no mercado internacional, no qual o capital dá as cartas e quem não tiver cacife não participa. Lá, no entanto, opera-se uma outra revolução, essa muito mais importante, embora silenciosa: a educação. Através do ensino, do aumento sistemático de pessoas com curso superior, para enfrentar não só os desafios do mercado internacional, mas também para derrubar qualquer possibilidade de guinadas bruscas para o conservadorismo, a China tem obtido vitórias significativas no avanço para uma sociedade mais justa, apesar de todas as dificuldades e da imensa propaganda contra esse processo que vem de todos os países capitalistas, diante de possível e provável ameaça chinesa aos rincões de Wall Street. Tio Sam e toda a sua caterva de seguidores fiéis têm posto as barbas de molho, diante do avanço do gigante no imenso bolo de dinheiro gerado pelo comércio dos países capitalistas. O exemplo da China, o processo educacional, deve ser seguido por todas as nações emergentes, cujos governos queiram dar passos decisivos para sair do atraso, sem importar revoluções sangrentas e autofágicas que, em geral, minam ainda mais as reservas já depauperadas de qualquer país capitalista situado na periferia das grandes decisões mundiais. E a educação deve ser considerada como um dever estratégico de governos, e não como apenas um dever. Pensar no futuro significa pensar em educação para camadas cada vez mais amplas da população. Somente com a formação de imensas massas críticas de cidadãos escolarizados, um país pode constituir reservas de inteligência capazes de revolucionar a sociedade, sem necessidade de armas e de derramamento de sangue. A revolução educacional é lenta e silenciosa, mas é a única capaz de realmente produzir frutos.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O PODER É SEMPRE CONSERVADOR




(Ben Tolman - theatre)


A aparente participação entusiasta de grandes populações em manifestações revolucionárias, quase sempre, é apenas um engodo de primeira hora, ou seja, as pessoas são levadas por entusiasmo a gritarem contra ou a favor de determinados movimentos, mas, quando a poeira baixa, o conservadorismo popular volta à tona, levando a que a revolução estabelecida entre no processo de autofagia a que toda revolução se condena, por não levar em consideração a falsidade do apoio popular ao seu programa de governo. Os governos revolucionários que se instalaram em todos os países ou estados do mundo sempre pagaram um alto preço por não terem a percepção exata da vontade conservadora do homem comum. Pagaram com autofagia ou desfiguramento total de suas propostas iniciais. E, após o processo de destruição da revolução esboçada, o retrocesso torna-se inevitável. A permanência no poder revela apenas que houve acomodação aos desejos populares das propostas inicialmente revolucionárias e, sob um tênue manto de mudanças conjunturais, a estrutura social e polícia continua a mesma, através da permanência ou conquista dos poderes periféricos pelos conservadores, gestando, assim, a reconquista do poder central pelos líderes conservadores do mesmo povo que antes saudava as mudanças e agora se coloca de forma muitas vezes silenciosa, mas constante, na oposição às reais motivações revolucionárias. Por isso, todo poder é conservador, como forma e medida de sua sobrevivência. E, se não há possibilidade de a revolução se construir a partir do poder nem a partir da tendência conservadora do povo, o sonho de mudanças profundas e permanentes do estrato social e político de um povo transforma-se em utopia e, muitas vezes, em pesadelo, o que é profundamente lamentável para as forças progressistas do mundo, às quais fica reservado o papel de influir apenas de forma indireta, através da organização de células educativas que possam de forma lenta e gradual mudar a percepção de mundo das camadas populares, o que, convenhamos, se constitui numa tarefa de longo, longuíssimo, prazo. Porque o processo educacional está nas mãos dos conservadores, através da manutenção e do reforço do ensino particular, pois os estados têm, cada vez mais, aberto mão do ensino público, no qual há mais liberdade de ação das forças consideradas progressistas do pensamento humano. A educação das massas para uma visão menos conservadora passa, diretamente, pelo fortalecimento das instituições públicas de ensino, em qualquer país do mundo, pois na escola pública os mecanismos de controle dos conservadores tendem a ser mais esgarçados, menos rígidos. Mesmo assim, a luta é árdua e difícil, pois não há um plano, uma conspiração consciente, apenas a noção vaga de que é preciso incutir outros valores que não os que se impuseram até agora na cabeça de nossos jovens. As forças conservadores, nesse aspecto, são sempre muito mais competentes, porque sabem exatamente o que querem (manter o status quo), enquanto os objetivos revolucionários são extremamente difusos, porque não têm uma noção precisa do que colocar no lugar dos ideais conservadores. Sabe-se o que não se deve adotar, mas não se tem clareza quanto ao que adotar. Sabe-se que tipo de sociedade não se quer, mas não se sabe muito bem qual a sociedade ideal. Infelizmente.



terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O CONSERVADORISMO DO HOMEM COMUM




(Carolus Duran - Inverno)




O problema maior nessa construção civilizacional por parte do homem comum constitui-se no seu conservadorismo. Os avanços, quando existem, são lentos e difíceis de assimilar. A história do homem comum é feita de pequenos incidentes que podem levar a grandes conquistas ou a grandes desastres, mas é sempre um processo lento, tendente a conservar aquilo que se conquistou, mesmo que a conquista anterior não seja a melhor para o conjunto da humanidade, embora seja perfeita para uma comunidade relativamente restrita. O povo, ao conduzir o processo histórico, tende a ter uma visão limitada desse mesmo processo, objetivando quase sempre o imediato, o restrito, o que lhe convém naquele determinado momento histórico e naquele determinado espaço territorial. E isso, muitas vezes, colide com os interesses maiores da humanidade. A ocupação de uma área pública ou privada por moradores sem teto e a consequente construção de moradias nesse espaço pode parecer, à primeira vista, uma grande conquista social. No entanto, se essa área ocupada se constitui em área preservada por ser, por exemplo, de mananciais estratégicos para a manutenção do fornecimento de água para toda a sociedade, isso não é levado em conta no processo de ocupação, com sérias consequências ecológicas para todos. Assim, também, ocorre na Palestina, com a ocupação por parte de colonos judeus de áreas que poderiam servir como ponto importante de negociação com o povo palestino, em busca de uma futura e duradoura paz entre os dois povos. No entanto, uma parcela do povo judeu, com os olhos apenas na sua possibilidade de perda imediata, sobrepõe-se a uma visão mais ampla de paz e impõe a sua vontade, resistindo à desocupação dos territórios em litígio. O povo, quase sempre, tem uma visão muito pragmática da vida e uma concepção utilitarista dos recursos públicos, o que o torna, muitas vezes, um empecilho para uma verdadeira revolução. Aliás, o povo nunca faz revolução, porque o conceito revolucionário implica mudanças, a que o povo, em geral, é refratário.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O HOMEM COMUM




(Bacon - autorretrato)


A história da humanidade foi construída com momentos cruciais, em que decisões importantes foram tomadas por guerreiros, reis, príncipes, líderes religiosos e tantos e tantos outros homens (maioria) e mulheres (minoria) que tiveram em mãos o comando de uma grande ação. Mas, na verdade, o que conduz o destino dos povos não são os grandes acontecimentos, e sim a vida e a lida diárias dos cidadãos, colocados quase sempre como coadjuvantes no palco onde pretensamente brilham as chamadas autoridades. A construção de uma civilização não é tarefa para um líder, por mais pragmático que ele seja, mas uma lenta e penosa elaboração do dia a dia da população que pode ou não aceitar as idéias do líder e, através da prática comezinha das ações no lar, no trabalho, nas relações interpessoais, referendar os caminhos indicados ou palmilhar outros destinos, em busca daquilo que o povo acha melhor para si. Não há, nessa afirmação, nenhum traço de uma certa apologia do homem comum. Porque a entidade homem comum na maioria das vezes não tem nenhuma noção clara dos perigos a que se expõe, ao fazer escolhas totalmente erradas. E o grande número dessas escolhas tem levado a muitos desastres, tanto políticos quanto sociais. O povo se engana, e muito. A única vantagem do povo comum, do chamado senso comum, é que, assim como constrói determinados mitos e caminhos, também consegue se livrar dos mesmos, com relativa facilidade. A fidelidade do homem comum termina na exata medida de suas pequenas ambições. Dizem que o povo tem memória curta. Não é bem assim. O povo tem é medida curta para seus atos e suas simpatias ou antipatias. O que era bom num dia pode virar o péssimo do dia seguinte ou vice-versa. Todas as tentativas de manipulação da massa esbarram nessa falta de fidelidade. Pode, sim, o povo ser enganado, manipulado, por algum tempo, mas nada garante que o vento favorável a uma determinada facção manipuladora não mude de uma hora para outra, sem que haja o menor motivo aparente para isso.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PARA VENCER O FANATISMO




(Bruegel - os cegos)




O fanatismo, muitas vezes travestido de fundamentalismo, traz em si mesmo a barbárie e a estupidez. Deve o homem sensato, mesmo o adorador de qualquer deus, fugir de toda e qualquer associação em que os componentes se tratem por irmãos. Não somos irmãos, porque não somos filhos de quem quer seja a não ser de nossos pais fisiológicos. Qualquer tentativa de impor conceitos de irmandade transforma-se em sociedade de exclusão, de preconceito e, se a seita ou a associação que se constitui a partir desse tipo de denominação, tornar-se forte o suficiente, a perseguição aos excluídos, isto é, aos que não a adotam como crença, tem início, com todas as consequências a que estamos acostumados. Irmandades são construções muitas vezes xenófobas, de origem nazi-fascista ou racial ou religiosa, mas sempre contêm a ideia de dominação dos outros através do autorreconhecimento como seita salvacionista. Fugir dessa gente significa esvaziar movimentos fundamentalistas de origem cristã, muçulmana, judaica ou de qualquer outra origem. Todos os profetas dessas seitas miseráveis em sua concepção de mundo ordenado segundo suas vontades arrebanham seus seguidores com essa ideia de mansidão, de irmandade, de acolhimento dos que são menos favorecidos, para transformá-los em monstros de ódio a todos os demais, monstros muitas vezes dispostos a sacrificar a própria vida, a martirizar-se para impor o seu tipo de pensamento e, mais estúpido ainda, dispostos a matar o diferente como forma de agradar a um deus assassino e sôfrego pelo sangue tanto de seus pretensos mártires quanto de seus inimigos. E combater esse tipo de gente torna-se algo extremamente complexo e paradoxal. Se os deixamos agir, imbuídos da ideia de tolerância, somos julgados fracos, dominados por diabos ou pelo pecado, e, por isso, devemos ser destruídos, porque fraqueza significa confissão, diante do deus deles, de que não somos dignos. Se os combatemos pela força, além da perda de inúmeras vidas inocentes, como sói acontecer nesse tipo de atitude, construímos mártires, porque esse tipo de gente transforma em herói todo aquele que morre pela causa. Então, não há muitas saídas no combate aos fundamentalismos e fanatismos. O bom senso, a velha e boa arma de que dispõe o homem, sugere que busquemos uma solução que contemple nem tanto o combate frontal nem tanto a tolerância enfraquecedora. Entre esses dois extremos, de cuja dificuldade não conseguimos nos livrar, mas que devemos adotar, deve haver um longo processo de investimento na educação, no convencimento através de ações que promovam nas gerações mais novas um outro tipo de visão de mundo, mais de acordo com os valores de respeito às individualidades, de convivência pacífica entre os contrários, de aceitação do outro como necessário à diversidade da própria vida. Sei que isso pode parecer um tanto inocente diante dos atentados brutais das forças da intolerância, tanto de um lado quanto de outro, porque nessa guerra não há inocentes, mas creio ser a única saída para a humanidade. Será um caminho difícil, oneroso, complexo, de idas e vindas, de ações arriscadas, em que muitas vidas ainda se perderão nos meandros do ódio, mas não há outra saída. Enquanto se adotar a velha lei de talião, enquanto a vingança for a única forma de reação, os dois lados da guerra contra o fanatismo se tornam tão extremistas quanto os profetas barbudos e insanos desejam como palco ideal para o fomento de suas ideias assassinas. A estupidez é sempre a bandeira maior de todos os extremistas, de todos os vingadores, de todos os fundamentalistas. E estupidez só se combate com o lento processo educacional de convencimento e de troca de valores. Mas, para isso, para que esse processo seja efetivo, não podemos simplesmente imaginar que devem se sobrepor os valores de um dos lados, mas buscar o equilíbrio numa nova vertente de pensamento humanista que jogue na lixeira da humanidade todas as formas de deísmo e de crenças estúpidas há tanto tempo elaboradas pelos homens. Talvez, uma nova humanidade, portanto. Uma nova humanidade sem deuses, sem religiões, sem castas, sem raças, sem nações e etnias. Utópica, mas necessária.