TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PALAVRA FINAL: O ALÉM DO HOMEM







(Dalí - turning point)



Tenho plena consciência de que tudo quanto eu escrevi até agora constitui um rio caudaloso, uma pororoca, sobre a qual você, leitor ou leitora, pode surfar ou, então, na qual você pode mergulhar e contemplar e, até mesmo, pescar os peixes que são arrastados por suas ondas, ou, ainda, naufragar para sempre e abandonar o grande rio que, um dia, chegará ao oceano e, embora sejam volumosas as águas desse rio, não conseguirá interferir, a não ser minimamente, na temperatura, na cor e no gosto da grande salmoura. Mas será apenas o começo. Outros rios hão de vir e despejar tantas águas que, numa alvorada qualquer, até o oceano se sentirá incomodado. Nesse dia, o obscurantismo começará a ser vencido e o homem que emergirá desse oceano de barbárie será, afinal, o além do homem.



4.10.2006

FIM




(Esta é uma obra acabada e fechada em si mesma. Não terminam, no entanto, as ruminações do autor: possíveis acréscimos, imbricações e desdobramentos deste texto deverão ter continuidade num provável novo TRAPICHE DO ATEU II, no qual manterei ou não a coerência das ideias aqui esboçadas. O homem muda e seu pensamento também. Obrigado a todos que tiveram ou terão a paciência de ler todo ou parte do que escrevi, sem nenhuma pretensão de estabelecer qualquer tipo de doutrina ou regra, mas apenas discutir o fim do deísmo e o estabelecimento de uma sociedade livre, totalmente livre de ideias metafísicas.)





sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DOS DEÍSMOS



(Fritz Aigné)


Também os demais deísmos espalhados pelos inúmeros recantos da Terra foram fruto da ignorância da relação do homem com as forças da natureza e da tentativa de interpretação dessas mesmas forças por indivíduos mais espertos que os outros, que se denominaram intermediários da relação entre os homens e o desconhecido, por sua vez interpretado como demonstração da existência de deus ou deuses criadores ou administradores dessas forças. Por mais que, afogados na estupidez dessas crenças, os sumos sacerdotes dessas crenças ameacem e persigam aqueles que não os seguem, todas, absolutamente todas as seitas e religiões deístas se incluem no conjunto construtor do edifício deísta que, um dia, vai desabar. Naturalmente, como já frisei. Independente da vontade de quem quer que seja, como reitero. E quando todo esse edifício podre ruir, o homem ficará completamente desnudo diante de si mesmo. Trapezista que se vê solto no espaço sem rede, o alumbramento da verdade cegará as mentes não preparadas para a verdade. Felizmente, como já afirmei e, cansativamente, torno a afirmar, esse processo de destruição do discurso deísta levará séculos, talvez milênios. Só espero que não venha tarde demais.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

CRISTIANISMO É SÓ DISCURSO



(Cunde Wang)


A construção do edifício deísta cristão e ocidental foi um longo processo de construção de um discurso. Somente discurso. O homem se deixa levar pelas palavras, mais do que pelos fatos. As únicas provas da existência dos deuses ocorreram no terreno da pseudo-lógica, através de argumentação complexa, onde o discurso substituiu e subverteu a lógica dos fatos e, tirando a comprovação do terreno da ciência ou, pelo menos, do experimentalismo, para o transcendente, obteve uma das mais fantásticas elucubrações humanas. Esse majestoso edifício contou com a base filosófica grega, Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os construtores de transcendência, para, através da sagacidade de Tomás de Aquino, obliterar de vez o pensamento racional, levando o homem pelos caminhos da fé cega, da crença absoluta. Para isso, contou, é claro, com as próprias necessidades humanas de superar suas dores, suas decepções e, acima de tudo, com a vontade humana, demasiado humana, de imortalidade.



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O RESPEITO



(Shirokova Inna - mother and daughter)


Já disse e repito: não há absolutamente nada para se colocar no lugar do deísmo. Ou seja, não acreditar em deus ou deuses, em metafísicas e transcendências não implica buscar novas formas de crenças, de fé ou de metafísicas. No entanto, não há desespero ou pessimismo no pensamento ateu. Pessimismos e desesperos são condições do homem, além de quaisquer crenças filosóficas e são atinentes a estados mentais, a situações de vida, a condições químicas do cérebro e, até mesmo, dos demais órgãos de nosso corpo. Portanto, não há pessimismo no pensamento ateu. Há apenas a liberdade. Não pensar em deus, não cultuar doutrinas baseadas apenas na fé, não aceitar a metafísica, tudo isso é libertar a mente para aceitar as leis da natureza, é voltar o pensamento para o homem e criar uma nova forma de humanismo, em que o homem passa a ser, efetivamente, o centro de suas próprias preocupações, sem que isso o leve ao egocentrismo, à arrogância de pensar que é criatura e, portanto, pode fazer e desfazer o mundo em que vive, porque está tudo escrito ou determinado por uma consciência superior. Pensar de forma ateia é libertar o homem do determinismo torpe em que ele se jogou até hoje e poder olhar o futuro como construção e não como fato consumado. O ser humano evolui a cada segundo, mas essa evolução é lenta e cautelosa. Não depende de forças externas à própria vida e à natureza: só depende de si mesma, da composição de fatores que devem fazer que o homem supere o estado de barbárie em que se encontra, agravado por pensamentos mágicos. Há que cessar a matança. Há que controlar a explosão demográfica. Há que se consolidar o pensamento de que a vida é o único bem e o mais precioso de todos. O homem caçador de si mesmo deve dar lugar ao homem planejador, racional e humano, livre de toda e qualquer peia que lhe trava a possibilidade de buscar o seu próprio destino. Mas há um longo, longuíssimo caminho até que isso venha a acontecer. Não estou prescrevendo a eliminação do deísmo a ferro e fogo. Porque seria trocar uma barbárie por outra. O despertar da consciência é um projeto natural da condição humana. Vai acontecer, independentemente dos esperneios e estrebuchos deístas, das maldições que lançam sobre aqueles que pensam diferente os que temem perder o fio da vida, porque não há mais deuses, porque não há mais fé. A essas mentes opacas e obscurecidas pelas crenças inúteis só posso deixar o meu riso de compreensão, não de escárnio. Devo dizer-lhes que o seu deus, a sua fé e as suas crenças metafísicas ainda viverão e sobreviverão por muitos e muitos séculos, para desgraça da evolução do pensamento verdadeiro e natural do ser humano. E quando acontecer a destruição completa de todos os altares, as piras ainda arderão por outros tantos e tantos séculos. O pensamento ateu, a descontaminação ecológica do pensamento humano, isso não é exatamente um projeto com o qual eu esteja comprometido ou pelo qual alguém possa lutar, mas é a evolução natural do pensamento humano. Um dia acontecerá. Naturalmente. Sou, infelizmente, para desgraça de muitos, somente um arauto, nem profeta nem desbravador, apenas alguém, infinitamente pequeno, nesse mar de angústias que assola a humanidade atolada em miséria, em guerras, em destruição, que tem um ainda infinitamente pequeno alumbramento das possibilidades do homem, alguém que apenas luta para uma humanidade um pouco melhor, apesar de todos os instintos animalescos que fazemos questão de conservar e cultuar. Não tenho compromisso com nenhum ramo de pensamento, com nenhuma organização ou seita ou partido político ou academia ou seja o que for que se inventou para reunir pessoas. Não têm minhas diatribes nenhuma intenção de arregimentar seguidores ou influenciar pessoas. Por isso, não faço nenhuma questão que me leiam, que me compreendam, ou mesmo que ouçam minhas palavras. Discuto-as, sim, porque sou livre para isso. Mas não as imponho. Apenas não quero mais ouvir os argumentos dos deísmos estupidificadores, porque já os conheço há muito, já os degluti e vomitei há tantos anos, que não tenho mais paciência para historinhas ou contos de fadas e duendes. Não mais preciso deles, como eles não precisam de mim. Quero, apenas, que eles se calem, pelo menos em relação a mim. Assim como tiveram o direito de envenenar a mente humana por tantos milhares de anos, posso reivindicar para mim um segundo de atenção, uma gota de orvalho na infinidade do meio aquático, para, humildemente dizer que há caminhos diferentes para a mente do homem trilhar, muito além das metafísicas e das transcendências que criaram como obrigação ab-ovo do pensamento humano. A liberdade de ir além, de buscar, de não nos deixar envolver por raciocínios criados para embaralhar a percepção da natureza e de suas leis deve ser o primeiro passo para que possamos dar os primeiros passos para o entendimento entre as pessoas, baseado num princípio fundamental e numa postura que nenhum deísmo até hoje levou ao pé da letra: o respeito.



terça-feira, 30 de agosto de 2011

É PRECISO ACEITAR A DIVERSIDADE



(Jean Bailly)


O homem estranha o homem. Sempre foi assim. Civilizações inteiras foram e ainda são destruídas por conta do estranhamento, da não compreensão do diferente. Porque só aceitamos aquilo que compreendemos. E isso precisa mudar. Cabe ao homem civilizado, no sentido mais amplo da palavra, buscar soluções para o entendimento entre as pessoas diferentes, entre os povos diferentes, sem cair nas armadilhas da metafísica e do deísmo inconsequente que, eles também, o deísmo e a metafísica, têm trazido muitas incompreensões. As três grandes religiões (cristã, judaica e islâmica) dizem adorar o mesmo deus, mas o fazem de maneiras tão diversas, que não conseguem se entender. Em vez de contribuir para a paz entre os homens, cavam fossos profundos entre si, acumulando ódios e rancores de tal monta, que colocam em risco a própria existência. Estranham-se da mesma forma como fomos levados, pela propaganda, pelo cinema e por todos os meios de comunicação, a crer que tudo o que é diferente pode conter o mal. Obliteramos nossa razão como o pensamento do medo, da destruição ou da rejeição de formas de vida, culturas e costumes que não sejam aqueles com que estamos acostumados, em nosso pequeno mundo particular. É sempre preciso esconder o diferente: famílias há que, ainda hoje, jogam nos porões ou em quartos fechados os rebentos que não nasceram na conformidade esperada, ou seja, sadios ou de acordo com o que entendemos por normalidade. Na natureza, os filhotes defeituosos são descartados, por não se adaptarem, mas entre os humanos isso se torna cada vez mais uma anomalia absurda, diante das imensas possibilidades de adaptação, mesmo em condições adversas, que desenvolvemos ao longo desses milhões de anos de evolução. Não se concebe, portanto, que continuemos com ideias absurdas de estranhamento; que gastemos milhões de recursos cada vez mais escassos para destruir aquilo que nos incomoda; que não levemos em conta a nossa racionalidade para lidar com o diferente, diante de tantos avanços técnicos e científicos. Positivamente, o homem só evoluirá satisfatoriamente quando perceber que há uma única raça humana, e que essa raça tem diversidades fantásticas, que devem ser respeitadas e compreendidas.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

NÃO HÁ ÓDIO NO ATEÍSMO





(Giger)


A veemência com que critico o deísmo pode levar a interpretações errôneas: eu não odeio o deísmo e, principalmente, não odeio os deístas. Acho-os, a ambos, um desastre para a humanidade. Mas não há nisso nenhum ódio, apenas a constatação de fatos que estão à vista de todos que não tenham sua visão obliterada por pensamentos mágicos ou metafísicos. O que existe de mais cruel no deísmo é que ele não permite que o homem assuma o seu lugar na corrente da vida, na corrente do evolucionismo. Não deixa, por exemplo, que o homem perceba que, assim como milhares de espécies surgiram, desenvolveram-se e desapareceram, muitas sem nem deixar vestígios, o homem também integra esse mesmo equilíbrio instável de, um dia, entrar na lista dos animais em extinção. Com sérios agravantes: crescemos e nos multiplicamos descontroladamente, apesar de termos conhecimento e técnica para controlar esse crescimento; temos, também, conhecimento e técnica para controlar o meio-ambiente de tal forma que não o depredemos e o tornemos hostil a nós mesmos, mas, mesmo assim, continuamos poluindo e destruindo o planeta onde vivemos; e ainda: temos noção clara dos perigos que nos levam à morte e à destruição, mas, mesmo assim, continuamos com políticas de exclusão e de ódios aos que são diferentes, provocando guerras cada vez mais destrutivas ou construindo armas cada vez mais potentes. A estupidez humana não é culpa exclusiva do deísmo. Mas deve muito a ele. Não posso afirmar que, sem as armadilhas filosóficas da metafísica e do deísmo, o homem resolveria todos os seus problemas, mas posso afirmar que sua ausência contribuiria significativamente para avançarmos no caminho da resolução de inúmeros problemas que afligem a humanidade e que colocam em risco a sua existência. Não teríamos, pelo menos, os julgamentos morais de seres humanos que ousam arriscar e buscar novos conhecimentos e novas tecnologias. E poderíamos entender melhor o universo em que vivemos, com suas leis ainda muito longe de serem totalmente decifradas, e poderíamos ter evitado ou ainda evitar muita dor e muito derramamento de sangue, para galgar mais um degrau do conhecimento.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

CONSCIÊNCIA DA PEQUENEZ


(Monet - la promenade sur la falaise)


É preciso ouvir a vida, para compreendê-la. É preciso amar a vida, para respeitá-la. Vida não é dom: é condição. E as leis da natureza não têm nenhum tipo de comiseração para com o desrespeito à vida: se não se adaptar, desaparece. E o universo não se abalará nem um pouco com o desaparecimento de todo um ecossistema complexo, como o planeta em que vivemos, ou simples, como uma colônia de seres monocelulares no fundo do oceano. Temos todos o mesmo valor diante da imensidão do universo: nada.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CONSCIÊNCIA DO CICLO DA VIDA



(Fritz Aigné)


Compreender o ciclo da vida: a maldição do homem. Ter consciência de que nasce, vive e morre. E o processo de envelhecimento, parte importante da trajetória de vida de um ser humano, pode se tornar um pesadelo, se não soubermos conviver com todas as mazelas físicas e mentais decorrentes. Porque envelhecer pressupõe reconhecer a morte em nossas células, pressupõe antever o fim com o qual não concordamos. Então, inventam-se mil e uma formas de tentar driblar o desconforto da velhice, com eufemismos que em nada minoram o sofrimento de quem envelhece. Dizem que o velho é sábio, por exemplo. Não vejo sapiência nenhuma no simples ato de envelhecer, porque a ele acrescentamos apenas a experiência e é só por causa dela que parecemos mais sábios. Ter vivido experiências iguais ou semelhantes fazem de nosso cérebro a usina ideal de transformação dessas experiências em possibilidades de contorná-las, de evitá-las ou, até mesmo, de prever suas conseqüências. Isso, no entanto, não é sabedoria: é instinto. Além disso, nosso cérebro se torna mais seletivo, em virtude da grande quantidade de fatos e informações nele contidas, pois sua capacidade, assim como a memória de um computador, tem limites. Ainda que não conheçamos esses limites, ainda que sejam extremamente amplos, não podemos nos lembrar de tudo o que passamos, de tudo o que aprendemos e ele, o cérebro, deve ter mecanismos de seletividade à medida que passam os anos e nossas células nervosas envelhecem ou se tornam mais lentas. Por isso, um velho não é mais sábio: é só mais experiente e seletivo. Só há uma forma de se tornar mais sábio com a velhice: é não deixar que o cérebro envelheça, é não lhe dar descanso, é fazer que ele trabalhe sempre, através de atividades variadas, como a leitura, a reflexão, a escrita, os jogos de palavras ou de raciocínios e, até mesmo, através de atividades físicas. Se há alguma vantagem na velhice, em relação à capacidade intelectual ou mental, essa vantagem se resume ao repertório contido em nosso cérebro. Por isso, cuidar de sua saúde torna-se fundamental para uma velhice com um pouco mais de saúde e com qualidade de vida, para usar uma expressão muito em voga. Mas não nos enganemos: não há sabedoria maior ou menor na velhice. Há, apenas, um conjunto maior de experiências disponíveis, se o cérebro estiver saudável. Se não, somos o que sempre fomos, nem mais nem menos estúpidos ou inteligentes.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

ATOS BÁRBAROS




(Siegfried Zademak - theater)


Atos de barbárie: são todos os atos humanos contra si mesmos e contra a natureza. Considero bárbaros: o assassínio, o estupro, a tortura, a mutilação, a escravização, a pedofilia, o vandalismo, a guerra, a destruição da natureza. Não há justificativa para o assassínio: o ato de matar para se defender também é bárbaro, mesmo não tendo punição legal; fica, no indivíduo, em sua consciência, a marca indelével do ato brutal, o que, por si só, já é uma punição terrível. A pena de morte não é justiça, é vingança, vingança da sociedade e um de seus atos mais estúpidos. Deve ser abolida para sempre. Estuprar é ato de suprema covardia do macho. Não tem justificativa, por provir das mais baixas camadas de primitivismo ainda existente na mente humana. Não posso imaginar um ser humano, por mais justificativas que se proponha, a massacrar e humilhar um indefeso corpo, para arrancar-lhe seja uma confissão, seja uma conversão. A tortura, ao contrário do estupro, não provém de camadas primitivas, mas da capacidade absurda que tem o homem de tornar-se imune ao sofrimento alheio, o que transforma o torturador num ser sem sentimento, sem racionalidade, um objeto monstruoso, uma máquina de dor. Já a mutilação, por ser um ato sacrificial, ligado á irracionalidade deísta, condena-se por si mesma, como subjugação do homem àquilo que se convencionou chamar de sagrado. Não pode ter guarida na mente de um ser que se diz civilizado. O desvio da sexualidade para seres que ainda não têm noção clara do que ela seja deve ser punido como ato hediondo contra quem não tem como se defender. Também traz à tona os instintos mais primitivos do ser humano. Transferir para objetos inanimados o ódio, a sanha destruidora, traduz a condição não só de mentes primitivas, mas também estúpidas: os bens e objetos úteis continuarão sendo úteis, independentemente de seus donos. Sua destruição significa apagar a própria história do homem, sem absolutamente nenhuma justificativa. E o que dizer da guerra? Fazer guerra é concordar com todos os atos bárbaros anteriores, já que ela dá condições de existência de todos eles. Abolir a guerra será o ato supremo de civilidade do homem. E, finalmente, destruir a natureza significa comprometer a própria vida.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

REPÚDIO AO VANDALISMO



(Hiroshima, 1945)


Já escrevi algures que nenhuma civilização se constrói sobre os escombros de outra. Que a destruição e, principalmente, a remoção dos escombros e a reconstrução sugam as forças de um povo, impedindo que se restabeleçam a ordem e a grandeza da antiga civilização. Portanto, revoluções que destroem para pretensamente construir estão fadadas ao mais absoluto fracasso. Isso justifica o fato de odiar vândalos e vandalismos. Não acho que seja necessário destruir seja o que for como forma de protesto, de transformação, de evolução. Aliás, para mim, mentes que destroem são mentes primitivas e, como tal, não saberão jamais conduzir qualquer processo de ruptura, de mudança e, principalmente, de evolução. Evoluir implica civilizar. E civilizar jamais foi ou será sinônimo de destruição. Até mentes destrutivas e primitivas, como a de Napoleão Bonaparte, souberam respeitar, por exemplo, as ruínas do Egito, embora os cientistas e arqueólogos da comitiva militar tenham saqueado as riquezas daquele país e levado os despojos para museus e praças de Paris. Destruir só passa pela cabeça de mentes extremamente primárias, sem visão de futuro. Por exemplo: se um povo resolver fazer uma revolução contra os capitalistas e destruir suas indústrias como forma de vencê-los, esse povo estará derrotando a si mesmo, porque a vitória, se houver, não terá como ser aproveitada sem a infra-estrutura anterior. Por isso, sou cabalmente contra qualquer ato de vandalismo, de destruição e acho que vândalos são indivíduos perigosos para si mesmos e para qualquer possibilidade de revolução que se tenha em mente.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

PERSEGUINDO A UTOPIA DA CIVILIZAÇÃO





(Jacek Yerka)


Qual é o índice de civilidade? O que é, realmente, uma civilização? Difícil responder, de forma simples, qual é o conceito de civilização. Porque pode um agrupamento humano ser extremamente civilizado em certos aspectos e tremendamente bárbaro em outros. O homem é múltiplo e muito mais múltiplo ainda quando reunido em sociedades de certa complexidade organizacional. No entanto, acho que o cumprimento das leis pode ser um bom índice civilizacional. Quanto mais cumpridor das suas próprias leis, mais civilizado é um povo. O problema desse índice, no entanto, está na forma como são elaboradas as leis e na sua própria essência. Eu acredito que não se obedece a ordens absurdas. Logo, as leis precisam ser sensatas para que o povo possa obedecer-lhes. E o que é sensatez? Aí, a coisa realmente pega, porque não é possível determinar graus de sensatez, quando se trata do pensamento humano e da própria história do homem. Para isso, teríamos que chegar a um grau de democracia republicana muito sofisticado, em que o poder realmente venha do povo, para ele se dirija e, principalmente, por ele seja controlado, sem nenhum resquício de tirania ou vilania. E isso, convenhamos, está mais para utopia do que possibilidade. Mas, se queremos, mesmo, ser utópicos, diria que civilizado é o povo que não precisasse de leis. Ou seja, o grau máximo de civilização estaria numa sociedade que abolisse leis, jurisprudências, regulamentos, decretos e congêneres e, até mesmo, por mais absurda que possa ser a idéia já há muito sustentada por correntes filosóficas, uma sociedade que abolisse qualquer ideia de poder, de governo, de diferença de classes. Um sociedade tão igualitária e tão cônscia de seus deveres e direitos que não precisasse de deveres ou direitos a serem defendidos ou, até mesmo, escritos ou ditos, para que se lhes obedeça. Uma sociedade em que cada homem e cada mulher respeitassem tanto a si mesmos, como ao outro e à natureza, que pudesse abolir a própria ideia de governo, de leis e de classes, por absurda e inútil. Tal sociedade cumpriria, sim, o requisito máximo de um povo civilizado: viver em harmonia consigo mesmo, com os demais e com o ambiente. Utopia? Sem dúvida, mas se o homem não perseguir esse tipo de utopia, não conseguirá jamais ultrapassar o estado de barbárie em que ainda se encontra.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

DEÍSMO E CAPITALISMO



(Odilon Redon)


O capitalismo ou os capitalismos degenerados em que se transformou o sistema econômico mundial são os frutos podres da árvore deísta. Caminham juntos, unidos num só ideal, amparando-se mutuamente: o deísmo dá ao capitalismo o estofo filosófico para continuar sua obra malfazeja de perpetuação da estupidez humana, das diferenças sociais e econômicas e, consequentemente, da escravidão do homem pelo homem, ou seja, da submissão de povos aos interesses de menos de dez por cento da população mundial que detém quase noventa por cento das riquezas produzidas pelo homem. Capitalismo e deísmo, as duas pragas unidas a inviabilizar o futuro do homem, pois, por serem ambas antinaturais, não têm nenhum interesse na preservação da vida e contribuem decisivamente para a deterioração das condições ecológicas do planeta Terra. Enquanto estiverem unidos, não haverá muitas oportunidades para se salvarem os rios, as matas, as águas, os animais e o próprio homem. Urge destruir tanto a um quanto a outro, se ainda se quer plantar alguma esperança de salvação do ecossistema em que vivemos.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

CICLOS DA NATUREZA



(Jakek Yerka)


Águas de março. Fecham o verão. E um ciclo de vida. Porque a natureza vive de ciclos. O rio sobe e desce, à mercê das chuvas. As plantas crescem, florescem e frutificam à mercê das chuvas, trazidas pelos ciclos das estações. A vida é um ciclo. Estabelecido pela natureza, como um relógio vital, que condiciona a vida pelo andar de seus ponteiros. Só o homem, com o conhecimento, pode, às vezes, interferir no ciclo vital e direcionar o relógio para os seus interesses. Desde que isso não implique violar princípios básicos, como impedir que a chuva caia ou que as leis da natureza sigam seu curso. O homem tem o poder de manipular células e construir organismos, sejam eles outros seres ou plantas ou minerais. Cria, assim, com o conhecimento das forças da natureza, oportunidades e mistérios, mas não cria a vida: apenas a recria, como faz a própria natureza. E usa as forças da natureza em seu proveito. Mas, repito, não pode contrariar os princípios naturais. Querer que um rio não suba na época de chuva é invocar princípios mágicos. E a natureza não tem magia, tem forças e leis. As águas de março que fecham o verão não podem fechar os olhos do homem aos ciclos naturais da vida.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

ECOLOGIA: MITO E REALIDADE



(Canato - o touro de Creta)


Ecologia. O homem precisa aprender a respeitar a casa onde mora. Casa cujo ecossistema é frágil e pode colocar em risco a própria sobrevivência humana. Não pode haver estupidez maior que o desrespeito à natureza e o homem tem sido estúpido o suficiente para não entender que é preciso mais do que políticas antipoluição e antiaquecimento global para salvar a Terra. O conhecimento científico acumulado pela humanidade deveria ser suficiente para uma ampla campanha de esclarecimento e sensibilização quanto aos aspectos mais simples da nossa relação com o meio em que vivemos: não sujar os rios e o ar, não destruir florestas, respeitar os ciclos da natureza, preservar animais, praticar sistemas agrícolas não invasivos etc. No entanto, cometem-se milhões de agressões à natureza a cada minuto, no planeta todo. Por quê? Mais do que ignorância, o homem comum perdeu a noção precisa de seu relacionamento com o ambiente, com os animais e com as plantas, com os rios e os mares, porque não entende as lições dos cientistas e não têm mitos, lendas, histórias que o ensinem, que o sensibilizem, que se comuniquem diretamente com sua mente, sem fórmulas ou explicações complexas advindas do conhecimento científico racional. Exemplifico. Joseph Campbell, no livro O Poder do Mito, conta uma história que vai ajudar-me a explicar o que eu quero. Uma tribo de índios pés negros conseguia carne para o inverno através de uma “cachoeira de búfalos”: conduziam a manada até o alto de um rochedo de onde todos despencavam e morriam. No entanto, durante uma época, os búfalos passaram a escapar do cerco. A jovem filha do cacique prometeu casar-se com um deles, se os búfalos voltassem a se atirar do penhasco. O chefe da manada ouviu-a e levou-a em troca de seus parentes mortos no rochedo. Seu pai, no dia seguinte, percebeu pelas pegadas que a filha tinha ido embora com um búfalo e saiu atrás dela. Num charco, perto de um rio, o pai encontrou um pássaro que lhe informou que a filha estava próxima e, a seu pedido, avisou a menina de que o pai tinha vindo buscá-la. A moça disse que aquilo era muito perigoso, mas ia dar um jeito. Quando seu marido búfalo acordou e pediu-lhe que buscasse água para ele, aproveitou para encontrar o pai e pedir-lhe que fosse embora. Quando voltou, o búfalo sentiu o cheiro do índio e fez que toda a manada corresse pelos charcos e campos até espezinhar e destruir completamente o pai da indiazinha, que chora copiosamente. O búfalo retruca que ela está chorando apenas por seu pai, enquanto os seus filhos e parentes estão lá no rochedo, prontos para o sacrifício. Então lhe propõe: se ela trouxesse o pai de volta, o búfalo os deixaria ir? A índia obtém com o pássaro um pequeno osso do pai e, com isso, consegue revivê-lo com cantos e danças de sua tribo. Os búfalos ficam espantados e propõem: por que você não faz isso para nós? Ensinaremos a você cantos e danças dos búfalos e quando vocês tiverem matado nossas famílias, você cantará e dançará para que voltemos à vida. E assim foi feito. Através do ritual, os búfalos atingiram não a dimensão transcendental que defende Campbell, mas se transformaram de coisa em “alguém”, ou seja, ganharam o respeito dos índios, que passaram a matar somente os animais necessários para sua sobrevivência. O que garantia a preservação de ambas as espécies, dos búfalos e dos homens. Estabeleceu-se a harmonia da relação caça e caçador. Quando o homem branco chegou à América do Norte, dizimou os búfalos por causa, apenas, da pele, porque não tinha noção do mito que garantia o respeito à caça, como forma de preservação. É isto o que aconteceu: o homem moderno, geralmente urbano, perdeu a noção do mito esclarecedor e, com isso, tornou-se o predador estúpido que hoje vemos em todo o mundo. Perdeu esse tipo de informação mítica, trazida pela sabedoria dos antigos, e não ganhou ainda a sabedoria nova, trazida pela ciência. Nesse interregno perigoso de tempo, a natureza está sendo destruída e isso pode levar o homem a crises imensas de sobrevivência, pois as forças naturais seguem o seu próprio ritmo e não esperam que a humanidade se torne menos estúpida.



terça-feira, 26 de julho de 2011

MITO DA SUPERIORIDADE SEXUAL




(Eiva Moya - el beso)


Homem e mulher: a dicotomia natural dos sexos. A forma que a natureza desenvolveu para preservação da espécie humana. Diferentes, não opostos. Complementares. Que a estupidez de filosofias excludentes e obscurantistas transformaram em opostos. A aparente inferioridade física da fêmea, aliada a essas filosofias criacionistas de poder ou de divisão de poder entre deuses e deusas, trouxe ao macho a impressão de que era superior e, portanto, podia impor-se à fêmea, como forma de reproduzir na natureza a estupidez do olimpo. Não há motivos para que haja superioridade de um sexo sobre o outro. Isso é coisa de culturas arcaicas e pensamentos primitivos de dominação. Serviu e ainda serve para estabelecer injustiças, em nome de seitas que apregoam a superioridade do macho porque o seu deus também é macho. Macho e dominador. Então, o homem, estúpido e estupidificado por falácias, oprime a mulher, considerando-a mero objeto de seu desejo e de sua vontade, ignorando que o legado genético da humanidade passa por ambos os sexos. Não há que se discutir superioridade sexual, entre humanos. Também não há que se exaltar um dos sexos, seja o masculino, seja o feminino. As diferenças entre ambos existem para se complementarem, não para se oporem. Ressaltá-las ou escondê-las só servem para acirrar ânimos idiotas de tentativa de comprovação de superioridade de um sobre o outro. O que se deve fazer é conhecer essas diferenças para saber lidar com elas. O macho não é superior à fêmea, nem a fêmea é superior ao macho, isso é um preceito que precisa retornar à consciência do ser humano, para que a humanidade não continue cometendo injustiças inolvidáveis de um sexo sobre o outro. Há muitos séculos de desigualdade para que a situação da mulher atinja o nível desejado de ausência de discriminação. As conquistas femininas de superação da desigualdade devem tornar-se ponto de honra para superação da barbárie. Porque todo ato de violência de um sexo contra o outro se constitui num gesto de barbárie e é preciso ser apresentado ao público como opróbrio e precisa ser punido sistematicamente até ser definitivamente rejeitado por todos. Os exemplos deístas de inferioridade da mulher, a começar pelo mito da criação, quando a primeira mulher desobedece ao criador e torna-se culpada pela queda do homem, precisam ser destruídos da mente humana como mitos tremendamente perversos e estúpidos. Todas as civilizações têm repetido esse mito abominável, de uma forma ou de outra, contribuindo para o sentimento de superioridade do macho humano e fazendo que esse sentimento se transforme em mil maneiras de humilhação e de violência contra a mulher. Repudiar tais mitos também se torna ponto de honra para a superação da barbárie.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

O ÓDIO DEÍSTA AO SEXO



(Cecily Brown - sweetie)



A ojeriza deísta ao sexo como instrumento não só de procriação mas também de prazer tem trazido formas importantes de discriminação, de desavenças, de exclusão. E, principalmente, de sofrimento. Porque nos faz lidar com nossa sexualidade como um tabu, como algo proibido, proveniente do chamado pecado original, aquele que levou o homem à queda, à expulsão do paraíso, segundo a doutrina deísta ocidental, chamada de cristianismo. A cosmogonia cristã já traz em seu bojo a condenação do sexo como algo fora da alçada do deus gerente que sabe tudo, mas não sabe que a sexualidade é não só uma forma de procriação, mas também fonte de extremo prazer. Um deus, sem dúvida, muito estranho. Dá à sua criatura o prazer, mas proscreve-o, como imundo. E pior: não só dá ao ato procriador uma imensa carga de prazer, mas permite que outras formas de sexo sejam descobertas pelo homem. E ainda: condena essas formas alternativas como bestiais, como ainda mais indignas. E expulsa do seu rebanho uma imensa parte da humanidade que as pratica. Condena os homossexuais às chamas do inferno, simplesmente porque eles fazem sexo de forma diferente do que ele, o criador, ordenou que se fizesse. Ou, então, podia-se perguntar: serão os homossexuais seres que não foram criados por ele? O que traria ainda mais problemas, pois teríamos criaturas não-criadas, um inominável paradoxo. Para algumas seitas cristãs (e acredito que para muitas outras religiões não cristãs também), o homossexualismo é coisa do diabo ou é doença. Em ambos os casos, sua condenação e exclusão fazem parte das grandes contradições teológicas não resolvidas do deísmo. Se é coisa do diabo o homossexualismo, então deus não é assim tão poderoso como apregoam. Se é doença, então todos os doentes deveriam ser estigmatizados, e não somente os homossexuais. Enfim, teologia e sexualidade são como água e azeite: não deviam se misturar, mas a estupidez deísta, não podendo ignorar os instintos do homem, cria mil empecilhos a que o homem tenha uma relação sadia com seu corpo, com seus instintos, com seu sexo. E cria mais uma fonte interminável de discussões idiotas e sofrimentos inúteis.



terça-feira, 19 de julho de 2011

SEXO E RELIGIÃO



(Carracci - Jupter et Junon)



Sexo e religião. Um tema complicado. Porque se misturam, de uma forma absurda. Pergunto: por que são as religiões tão preocupadas com o sexo? O cristianismo sataniza o máximo possível toda e qualquer manifestação sexual humana que não tenha por objetivo a procriação. É doentio, isso. A preocupação de todos os teólogos, não importa a qual seita pertença, com o controle da sexualidade contém uma patologia que não se coaduna com os tais princípios da criação. Porque, se deus criou tudo o que existe, também criou o sexo, a sexualidade, com todas as variações possíveis. Não vou nem cair no ridículo da discussão inútil de que o ato criador é um ato sexual. Isso apenas traria a ira inconsequente dos deístas e não levaria a lugar algum. O que me incomoda, nessa excessiva preocupação deísta, existente em praticamente todas as religiões, em demonizar o sexo, é que não há nisso nenhum objetivo aparente, não há nenhum motivo real ou imaginário. Por que o ato sexual, seja ele praticado de que forma for, ofende tanto a natureza desse deus? Não me venham os teólogos com suas citações canalhas de textos da bíblia ou de outros textos ditos sagrados ou de autores antigos, filósofos ou teólogos, a justificar que deus é assexuado e sexófobo por isso ou aquilo. Não há explicação lógica. Em que o ato sexual poderia apresentar-se como antirreligioso? Principalmente sabendo-se que ninguém, absolutamente ninguém, até há pouco tempo, nasceu sem que um homem e uma mulher tivessem relações sexuais (e é ainda mais estranha a irritação dos deístas com a ciência, por descobrir métodos de concepção artificial, como a reprodução in vitro ou a clonagem. Mas isso é outro assunto). Ouso levantar uma teoria, provavelmente tão absurda quanto a própria idéia de que o sexo é ofensivo ao criador. Talvez a aceitação da sexualidade humana, desprovida de qualquer outro objetivo que não seja o de procriar, contamine de forma definitiva a própria idéia da existência desse deus, por ser o ato sexual uma ação animalesca, no sentido mais puro da palavra, isto é, o homem faz sexo exatamente como os animais, tendo, porém, um componente a mais: o prazer consciente do próprio prazer. O homem procura a fêmea ou vice-versa por um instinto animal, o que contraria a ideia de que tenha sido o homem criado à imagem e semelhança de deus. Mas aceitar o sexo como forma de prazer é aceitar a ideia de que deus também o pratica e com ele também obtém prazer, o que pode ser uma idéia tão tola quanto rejeitar aquilo que cientificamente está provado: que somos, sim, seres provenientes da evolução, e conservamos em nossos genes instintos primitivos de sexualidade e de violência, ligados ao instinto básico de todo ser vivo, a preservação da espécie.



sexta-feira, 15 de julho de 2011

A ÉTICA DE VALORIZAÇÃO DA VIDA



(Airton das Neves - remanso)



A convivência pacífica, acima de credos absurdos, de superstições inaceitáveis pela lógica mais comezinha, deve ser a meta do homem para os próximos séculos. A superação da idéia de guerra, em primeiro lugar, e, depois, da idéia do assassínio, constitui o salto que nenhum outro ideário ético logrou alcançar até hoje, porque toda a ética praticada até agora, baseada em pressupostos metafísicos, está amarrada a crenças deístas de superação do espírito pelo corpo, o que leva o ser humano a procrastinar a ideia de felicidade, ela mesma uma criação absurda da metafísica, para depois da morte, como uma conquista impossível da vida humana, num dos mais profundos e maléficos absurdos da consciência, do pensamento e da filosofia do homem. Desvencilhar-se desse arcabouço de estupidezes permitirá o salto qualitativo da mente do homem, preparando-o para assumir a posição de ponto mais alto da escala evolutiva, que ele teima em pensar que já tem, mas está longe de alcançar. A ética desse homem, não um novo homem, mas já um ser um passo além da barbárie em que está naufragado, permitirá que ele repense a própria trajetória e planeje com consciência o seu futuro, agora baseado em dados de realidade, de conhecimento e não em superstições tolas e impeditivas do seu progresso. A ciência não será a deusa num altar, porque não haverá mais deuses nem altares, mas a ela o homem dará a importância devida, não como um avatar, mas como a bússola que leva aos melhores caminhos, com a certeza de que, podendo enganar-se em seus pressupostos, não se prestará jamais a tornar-se a ditadora de todas as verdades, porque acima da ciência estará a ética da valorização e do respeito à vida.



terça-feira, 12 de julho de 2011

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA ÉTICA





(José Luis Muñoz)



Ética. Talvez o mais complexo conceito do pensamento humano. Porque não existe uma só ética, como não existem um só povo, uma só civilização, uma só cultura. Mas há elementos éticos universais, que dizem respeito à idéia de homem, ou seja, um ser que vive em relação com os outros. E esses conceitos não têm nada de maniqueístas, não dependem da existência de contrários, são conceitos afirmativos, apenas, que guiam o pensamento humano na direção de uma vida menos bárbara, de uma convivência mais amena entre semelhantes ou opostos. O homem nada tem de divino ou de transcendental: nele mesmo estão todas as taras, todos os ódios, todos os medos, toda a ancestralidade devida à evolução. Tampouco é um ser pronto, acabado: embora pareça estar no topo da cadeia evolutiva, seus passos são ainda incipientes na estrada da evolução. O homem é uma criatura de poucos milhares de anos, tem muito a evoluir, tem muito a modificar-se e, com certeza, não atingirá jamais a perfeição, porque os caminhos são inúmeros e inúmeras serão as tentativas para um novo padrão de existência. O homem tem ainda na boca o sabor do sangue de outros humanos e a autofagia está presente em todos os momentos da trajetória desse bicho que domina a terra e não domina a si mesmo. Enquanto esse gosto por sangue da própria raça não se esvaecer da mente do homem, não haverá progresso digno desse nome na sua escala evolutiva. Imprimir na memória desse ser um novo código de ética, mais voltado para a valorização da vida, estritamente antimatança, com altíssimo grau de aceitação do outro, de respeito ao semelhante, mesmo que esse semelhante tenha crenças e culturas opostas, pode parecer um sonho, mas se constitui na única saída para a continuação de sua existência. Ou, pelo menos, será a única via para a construção de sociedade mais harmônica. 




sexta-feira, 8 de julho de 2011

ATEÍSMO NÃO É FILOSOFIA




(Cézanne)


Pode-se perguntar: o que colocar no lugar do deísmo? Nada. Não se coloca nada no lugar do deísmo. Quando se deixa de acreditar em deuses, não existe nenhuma outra crença ou filosofia para se colocar no lugar. Porque o ateísmo não é uma filosofia, é apenas um conceito antideus, anticriacionismo. O ateu não é um filósofo, é apenas alguém que não acredita nas bobagens deístas e criacionistas. Nada mais. Por isso, não há pregação pelo ateísmo, não há e não pode haver sociedades ateias ou templos e quaisquer outras besteiras desse tipo. Um ateu não sai por aí a pregar o ateísmo, porque não há o que pregar, o que defender. A crença em deuses é somente uma crença e nada mais. Ou seja: depende daquele ingrediente imponderável, inatingível e indiscutível chamado fé, a criação mais emblemática do deísmo. Acreditar em deus é um ato de fé. O problema é que esse ato de fé se transformou em religião, em filosofias, em metafísicas absurdas e excludentes. Por isso, o crente é um ser absurdo. Combater essa estupidez, sim, é um dever do ateu e de todos os que pensam um pouco além da estupidez humana em sua busca insana por eternidade, por mistérios e por milagres. Mas não há elementos de troca. O ateu não tem nada a oferecer ao crente para substituir sua fé, apenas a liberdade. Liberdade de pensar e buscar a sua própria Weltanschaaung, seu próprio ideário e seu próprio sistema ético.




terça-feira, 5 de julho de 2011

VIRTUDES TEOLOGAIS



(Brueghel: adoração dos reis)


As três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A fé se constitui na forma mais acabada de ignorância, do não querer ver o que está diante dos olhos, de não se interessar pela natureza e por suas leis; enfim, a forma mais completa de cegueira intelectual. A fé destrói qualquer possibilidade de raciocínio lógico, e faz de quem a pratica um mero joguete nas mãos dos deístas estúpidos, ao estupidificar o indivíduo e torná-lo escravo de crenças absurdas. A esperança anestesia o presente e torna as pessoas impassíveis diante da vida e de suas vicissitudes. É uma forma de passar a mão na cabeça das pessoas e entregá-las aos desígnios divinos como cordeiros diante do açougueiro. Constrói apenas utopias excludentes. Já a caridade constrói em torno do ser que a pratica uma aura de santidade que esconde, realmente, o orgulho por ser diferente e estar mais próximo de deus. É como se se dissesse: olhem, eu sou melhor, eu sou santo, eu estarei diante de deus, porque sou caridoso, ajudo as pessoas. A arrogância do humilde e daquele que se faz humilde destrói qualquer possibilidade de diálogo racional, como, aliás, o fazem também as demais virtudes. O homem virtuoso desumaniza-se em nome de seu deus, o que o torna um monstro inútil para o desenvolvimento da humanidade. A humanidade não precisa de homens assim, mas de pessoas que tenham visão ética de respeito às diferenças, à vida e à natureza.



sexta-feira, 1 de julho de 2011

SHADENFREUDE



(Brueghel - the fall of rebel angels)


Vingança. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Olho por olho, dente por dente. E assim, cristalizada em nossa mente através de inúmeros adágios e crenças, a vingança atormenta o coração do homem. Não existe o mal, o mal absoluto, criação metafísica para nos iludir nas crenças de deuses cruéis e seus inimigos poderosos. Mas existe, sim, o mal praticado diariamente, como formigas que picam e fogem, como espinheiro em canteiro de flores. O homem tem o dom de fazer o mal. Não se contenta em viver, apenas, a sua vida. É preciso espicaçar o semelhante. É preciso pisar, esfolar, matar. E rejubila-se com isso. E goza o prazer de ver o desafeto na pior situação possível. Há, em alemão, uma palavra que resume o sentimento mesquinho de ver o pretenso inimigo na situação mais trágica, que explica o júbilo de não apenas vencer e estar bem, mas também ver o outro humilhado, despedaçado, é a alegria com a desgraça alheia: Shadenfreude. Os deuses criados por todas as religiões humanas até agora são todos adeptos da vingança. Se não estamos com eles, estamos contra eles. E para todos os inimigos, o fogo eterno, as desgraças, o sofrimento. Não há meio termo. E rejubilam-se com a destruição de cidades inteiras, porque nelas há pecadores. Shadenfreude. Vingança pura. E a perpetuação da barbárie. Nossa sociedade dita cristã construiu-se assim: na ideia da vingança. As demais sociedades deístas também. Porque deus é Shadenfreude. Se chove demais é porque há pecadores que mereciam as enchentes, a destruição de suas casas, esquecidos de que se há ali pecado é o pecado da estupidez em desafiar as forças da natureza. Se há seca é porque os deuses assim o querem, para punir aqueles que não os seguem, não se sacrificam, esquecidos de que o único sacrifício dos que convivem com seca está em aceitar a condição de miseráveis, sem se revoltar contra aqueles que lucram com a seca e espezinham os pobres para continuarem enriquecendo. É dentro do princípio da vingança que se escrevem muitas de nossas leis penais. A intenção não é punir o criminoso, afastá-lo do convívio dos demais, por ser um indivíduo perigoso, mas vingar-se dele, jogá-lo no mais fétido calabouço e deixar que seja corroído pelos vermes, como se essa vingança tivesse o condão de fazer voltar à vida aqueles que ele assassinou. Puro Shadenfreude. Então, quer-se a pena de morte, o espetáculo da morte transformado em teatro estúpido de punição, ou melhor, de vingança, para gozo dos sádicos de plantão, dos deístas de carteirinha, dos fundamentalistas de todos os credos. Corta-se a mão ao larápio, espanca-se em praça pública o desafeto, apedreja-se a adúltera, tudo como forma espúria de vingança, em nome do deus da barbárie. Os animais matam para comer, para se alimentar; o homem, por prazer ou por vingança. E perpetua a barbárie. Pode-se invadir um país para se vingar das atrocidades de seu governante e cometer, assim, atrocidades maiores: Shadenfreude. Como se pôde jogar sobre a cabeça de milhares de civis uma bomba atômica, como forma de punir todo um país pelo erro de seus estúpidos governantes: Shadenfreude. Como se pôde construir dezenas de campos de concentração e lá jogar milhões de pessoas e depois assá-las em fornos crematórios, como forma de se vingar contra a prosperidade de um povo que tem no comércio e no lucro a fonte de sua própria existência e, mais, como forma de punir esse mesmo povo por ter cometido e cometer ainda tantas outras atrocidades: Shadenfreude. Pôde-se e ainda se pode destruir tribos inteiras de indígenas, simplesmente porque não aceitam nossas crenças ou porque têm costumes diferentes dos nossos: Shadenfreude. E pode-se mandar para o inferno aqueles que fornicarem nus, embora sejam cônjuges devidamente unidos pelas leis idiotas de profetas mal amados ou mal interpretados: Shadenfreude. E a barbárie estupidifica a mente do homem. E perpetua-se.



terça-feira, 28 de junho de 2011

A ESTUPIDEZ NA VIDA PRÁTICA



(Cézanne - pyramid of skulls)


A estupidez humana não se resume às crenças absurdas. Também se cristaliza na vida prática, quando insiste em arrostar as forças da natureza. Paga alto o preço de construir, por exemplo, suas moradias à beira de rios que sobem e a tudo inundam, ou perto de vulcões que, a qualquer momento, entram em erupção, ou, ainda, em continuar ignorando os movimentos naturais do clima, dos ventos, das marés, enfim, em não perceber que vivemos todos num planeta em constante mutação e que temos de nos conformar a isso ou morremos. A lei da evolução é cruel, mas sábia: adapte-se ou desapareça.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

A ESTUPIDEZ DOS CRIACIONISTAS



(Caravaggio, Davi e Golias)


A condição natural do homem, apesar de todos os protestos que isso possa gerar, é o ateísmo puro. Pensar num ser criador constitui-se num artifício tão falacioso quanto pensar que o mundo é ilusão. O criacionismo estúpido imagina a intervenção de um ser grandioso, onipotente, onipresente e imensamente sábio, porque não sabe olhar o universo. A cegueira não permite aos criacionistas contemplar o mundo como ele é e isso os torna imbecis para a realidade, precisam apegar-se a salmos e rezas, a livros idiotas escritos há centenas ou milhares de anos, por homens muito mais ignorantes do que somos hoje, para que esses livros ditos sagrados lhes digam como o mundo funciona. E como não há relação alguma entre aquilo que está escrito nos livros sagrados e a realidade, seu intelecto fica obnubilado pela ignorância de centenas ou de milhares de anos, gerando todo tipo de preconceito e estupidez contra os demais seres que os rodeiam. A pretensa aura de sapiência que se instaura em torno de papas, gurus, aiatolás, rabinos ou pastores de qualquer espécie devia ser inscrita nos tribunais internacionais de crime de lesa-humanidade. São monstros travestidos de homens caridosos, porque acredito que muitos deles têm alguma percepção de que o que pregam não passa de fantasia para enganar trouxas, mas continuam assim mesmo a repetir as velhas fórmulas de seus antepassados, ou por covardia, ou por estupidez, ou porque não querem perder a sinecura de que vivem e com a qual enriquecem ou se tornam poderosos. Multiplicam a estupidez simplesmente porque são cegos e surdos à voz que vem da natureza. Mas dizem-se sábios e acreditam-se sábios à força de pensar que o são realmente. Sua desumanidade torna-os, aos criacionistas e ditos delegados de deus, a pior espécie de homem, já que são antinaturais e antinatureza. Para eles, o que importa é a consciência tranquila diante daquilo que chamam de deus, não importando que, para isso, muitos morram ou sejam mortos.



terça-feira, 21 de junho de 2011

DUAS PRAGAS DA HUMANIDADE: METAFÍSICA E RELIGIÃO



(Adam Miller - invitation)


A metafísica afastou o homem da realidade. A religião embruteceu-o. Não há como saber o que veio primeiro: se a metafísica ou a religião. Mas são ambas dois sistemas de pensamento que obscureceram a mente humana para a realidade, para a verdade. Suas metodologias enganosas, baseadas em sentimentos e emoções, na ideia de que é preciso crer cegamente numa suprarrealidade divina ou anti-humana, desviaram o pensamento do homem para aquilo que realmente importa em sua passagem pela Terra: a melhor forma de adaptar-se à natureza e viver harmonicamente com ela. Não se pode ter nenhuma complacência nem com a metafísica nem com a religião: são sistemas mórbidos, que pregam a desumanização do homem, sua entrega a um deus ou a uma impossível vida além da vida como solução para problemas mentais, emocionais ou, até mesmo, físicos, num processo enganoso de falsos milagres, aprofundando, com isso, a miséria humana, com o sentimento de culpa e ideia da redenção, o que torna desculpável todo e qualquer crime contra o próprio homem e contra a natureza. O pensamento religioso pode parecer uma espécie de bálsamo para momentos de dor profunda, mas é apenas uma fuga, um meio de enganar a dor por algum tempo, o que exige que o homem desvalido passe a gastar cada vez mais as suas energias na adulação da divindade em busca da cura, amortecendo-o para outras atividades mais lúcidas. O homem não precisa da metafísica e da religião. Sua destruição, se fosse isso possível, embora desejável, não causaria mais prejuízo do que tem sido a sua existência para a humanidade. Eles, os religiosos de todos os credos, os defensores da metafísica estupidificadora, nunca tiveram sentimento de humanidade, apesar de todos as falsas juras de amor, de paz e outras falácias que prometem. No fundo, o que resta de qualquer religião é o sentimento egoísta do lucro de seus dirigentes, a hipocrisia que vende qualquer produto, desde que bem embalado em invólucros de falsas promessas. Trocaria a vida de milhares de homens ditos santos por qualquer outro ser que tenha uma vida ética e não tenha tentado enganar as pessoas com pretensas visões místicas ou estúpidos milagres de prestidigitação. Não vale a vida desses pseudo-heróis o mal que eles causaram ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Sua estupidez atravancou de lixo o caminho do pensamento científico e racional, com a imposição de ideias absurdas e preconceitos infelizes. O homem, quanto mais religioso, mais egoísta: acha que todos devem compartilhar do mesmo estado de estupidificação mística em que ele se encontra e se arvora missionário de uma causa idiota, a tentar convencer com argumentos falaciosos e ilusões criadas em suas mentes doentias a uma humanidade incrivelmente crédula e ignorante, certa de que presenciou milagres ou é capaz de fazê-los. O culto a imagens e objetos e a transferência para eles de poderes mágicos tornam o homem religioso um ser desprezível em termos intelectuais, digno, no entanto, de total compaixão por parte de quem tenha um mínimo de senso crítico. Sob o manto da liberdade religiosa e de pensamento, esconde-se um mundo tão imensamente fantástico de falsificação, de empulhação e de extorsão, que se pode dizer que a religião se tornou o mais festejado e promissor negócio da Terra, movimentando cifras muito maiores do que o próprio sistema capitalista é capaz de fazer girar, o que torna a religião uma praga impossível de ser combatida e erradicada. Qualquer tentativa de impedir que seitas se organizem como quadrilhas para roubar o povo esbarra na gritaria inconsequente dos que defendem seus negócios com o argumento de liberdade religiosa, como se se pudesse dar liberdade à erva daninha para destruir as plantações. Por isso, não acredito na erradicação do pensamento religioso, essa praga arraigada na memória do homem, de forma radical nem em curto nem em longuíssimo prazo. Mas acredito que um processo educacional com menos influência das estúpidas teorias criacionistas e acrescido do desenvolvimento do pensamento científico possa diminuir pouco a pouco a intolerância, a estupidez e a ignorância que se escondem por trás de todo pensamento metafísico ou religioso.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

POR QUE GOSTAMOS DE DROGAS (3)



(Bill Faeigenbaum - jay street)


Não há viagem, há apenas estados enganosos de falsa felicidade ou de falso bem estar do cérebro, para exigir que o indivíduo se drogue. Portanto, a droga não faz do indivíduo um ser mais adaptado do que outro, apenas leva-o a acreditar que o mundo a seu redor tornou-se menos agressivo para ele, ou que o seu corpo deixou de ser motivo de sofrimento ou, ainda, que as barreiras morais impostas pela sociedade desapareceram e o indivíduo pode tudo, inclusive matar ou matar-se. Assim, a tendência é buscar sempre o estado de distanciamento da realidade provocado pela droga, como forma de driblar as angústias da inadaptação. O artificialismo da situação leva-me, portanto, a concluir que a tal fuga pelas drogas é uma rota sem saída, porque o individuo perde aquilo que é um dos bens mais preciosos da vida, além da própria vida: o domínio de seu pensamento, o domínio de si mesmo, a sua capacidade de sonhar os seus próprios sonhos, de imaginar os seus próprios caminhos e viver a sua própria vida. Perde o direito de decidir sobre si mesmo. O efeito das drogas deve ser, guardadas todas as devidas proporções, como contemplar um pôr do sol tirado por uma foto ou visto na tela do cinema e não o verdadeiro ocaso. Por mais belo que seja o do filme, não terá comparação com a realidade, por mais simples que ela seja. Perder a consciência, perder a lucidez da visão do mundo, por mais dolorida que seja essa visão, por mais difícil que seja a realidade a ser enfrentada, não vale o prazer ou até mesmo o desprazer de enfrentar o mundo como ele é. Essa visão é uma experiência milhares de vezes mais rica do que fugir através de um estado alterado de consciência provocado seja por que droga for. Por isso, a minha ojeriza em relação às drogas: funcionam tanto como entorpecimento e desfiguramento da realidade, quanto qualquer fuga dessa mesma realidade através da metafísica ou da religião. Pode-se explicar, portanto, o uso e abuso de drogas, mas não se pode justificar. Há, sob a minha condenação, uma visão estritamente humana, muito humana. A depuração de todos esses desvios (que constituem uma trajetória necessária), segundo a minha concepção, se dará de forma lenta e gradual, para a formação de uma humanidade livre da necessidade de usar muletas para enfrentar a realidade e com ela conviver de forma lúcida e racional.



terça-feira, 14 de junho de 2011

POR QUE GOSTAMOS DE DROGAS (2)



 (Anthony Christian - Lucinda)


Então, as dificuldades começam aí: na luta para nos tornarmos coerentes com o mundo que nos cerca, para não sermos levados pela maré, para não sermos surpreendidos na contramão da vida. Uns mais, outros menos, todos buscam viver o máximo possível. E como temos consciência de que vivemos e morremos, e como temos consciência de que o corpo em que habitamos é nossa única ligação com o mundo, com a vida, podemos, em função das milhares e milhares de heranças genéticas que carregamos, não obter um nível desejável de adaptação, não só ao meio em que vivemos, mas também ao corpo que nos dá vida. Por menor que seja essa inadaptação, há sofrimento. Em graus tão variados, que não nos permitimos quantificá-lo. Sofrimento que gera tanto os gênios quanto os idiotas. Se, na natureza, o animal que não se adapta é morto pelos seus ou é abandonado para morrer, entre os homens não há essa possibilidade, porque o nosso grau de consciência de nossa humanidade não nos permite que assassinemos friamente um filho que nasça com algum tipo de inadaptação, embora haja registros históricos de povos que o fizeram (ou ainda fazem?). Além disso, não há apenas as inadaptações físicas: muitas dessas inadaptações são fruto de nossa química cerebral, que nos faz pensar diferente do comum dos mortais, que nos faz ver o mundo de forma enviesada em relação aos outros, ou que nos faz agir de forma diferente, configurando desvios de comportamento mais ou menos inaceitáveis pela sociedade. Dentre os milhões de seres humanos com algum tipo de desvio do que se chama normalidade, uma categoria arbitrária, muitos e muitos só vislumbram saída em algum tipo de fuga através de fármacos que lhes entorpeçam o pensamento diferenciado ou lhes permitam agarrar-se a algum tipo de lucidez possível na luta pela adaptação à sociedade, ao mundo e, principalmente, a si mesmos. As drogas, não importa quais sejam, agem na química cerebral e modificam as sinapses mentais, alterando a percepção que as pessoas têm do mundo, enquanto estão agindo. Não há nenhuma porta metafísica de percepção de outras realidades, mas apenas a exacerbação de uma visão que já existe no cérebro e que a droga, ao estabelecer ligações esquecidas ou obliteradas pela realidade, ativa ou reativa como fuga dessa mesma realidade. Como são elementos químicos, viciam e, ao viciarem, a droga faz de seu usuário um escravo de estados alterados da consciência como forma de adaptação a um mundo que, agora, não é mais o real, mas o mundo criado e transfigurado pela capacidade inaudita do cérebro de inventar e imaginar, a partir da realidade, outras realidades mais agradáveis ao indivíduo. Alguns mitos se formam a partir daí, mitos que a ciência nunca comprovou. Por exemplo, um indivíduo criativo não tem essa qualidade exacerbada pela droga e, às vezes, pelo contrário, tem-na diminuída, mas o cérebro engana o pensamento lógico e faz que ele acredite estar tendo visões fantásticas e ideias ainda mais incríveis do que em estado normal. O vício químico obriga, por outro lado, a que o indivíduo tome doses cada vez maiores ou que as tome sempre, ligando-o definitivamente a um estado de imaginação a que os drogados chamam de viagem.



sexta-feira, 3 de junho de 2011

POR QUE GOSTAMOS DE DROGAS (1)



(Munch, o grito)


Ainda o problema do uso das drogas. A posição moral oficial é condenar e criminalizar definitivamente o uso das drogas, ou ainda, numa posição mais radical, demonizar consumidores, traficantes e dependentes. Tal posição torna-se extremamente confortável, porque, a partir dela, todas as objeções caem por terra: não há discussão, não há racionalidade. Fiquei, então, preocupado: se condeno o uso de drogas, assumo um moralismo com o qual não concordo. Um beco sem saída? Devo buscar uma razão que não esteja ligada à metafísica, ao moralismo platônico, ou mudo de lado. Apelo para a ciência: se tenho pensamento científico, se a ciência condena o uso de drogas, logo, não devo estar errado ao assumir uma posição também contrária. Mas isso é ir a reboque de informações que me passam e que eu não posso conferir se estão certas ou erradas. Penso, então, no indivíduo, apenas no indivíduo. Por que razão alguém há de se drogar? Que prazer é esse? Como nunca me droguei, também aí o terreno é movediço, pois não tenho nem experiência nem conhecimento suficiente para dizer em que estado fica o indivíduo que se droga. Tudo é, portanto, muito nebuloso para mim. Passar pela experiência de uma viagem para a qual não estou preparado, isto é, experimentar alguma droga para ver como é, isso, definitivamente está fora de meus propósitos. Portanto, tudo o que vou escrever a partir de agora situa-se no terreno da especulação, do ouvir dizer, do haver lido e pesquisado, enfim, da experiência tomada emprestada. Posso passar longe da verdade, ao tentar explicar o que eu penso do uso de drogas e, até mesmo, passar por moralista sem causa. Um risco menor do que ficar no lusco-fusco das idéias mal resolvidas e não tomar uma posição clara a respeito. Volto ao indivíduo. Nele pode estar o motivo de minha recusa às drogas e por ele começo a investigar a minha própria ojeriza ao ato de drogar-se. Ao nascer, trazemos em nossos corpos imperfeitos uma grande carga genética de que não sabemos a origem, ou sabemos muito, muitíssimo pouco. Há em nossas células, a conformar nossa índole, milhares de influências de inúmeras gerações, desde que o homem se descobriu a pensar ou até mesmo antes, quando ainda rastejávamos nos pântanos como organismos primitivos. Nesses milhões de atos evolucionistas que nos transformaram em seres pensantes e comunicativos, nossos antepassados caminharam por sendas inimagináveis, na luta pela vida e pela sobrevivência em ambientes hostis. Experimentaram de tudo. Comeram de tudo. Mataram e morreram milhares e milhares de vezes, para chegarem a um organismo que hoje atende por homem e mulher, num cadinho misterioso de influências, de heranças das quais ainda não temos a mínima ideia. E mais: nessa trajetória intrincada, cada organismo humano é único, apesar da quase total semelhança. Impossível quantificar o quanto somos iguais e o quanto somos diferentes. Talvez, numa tentativa de aproximação, sejamos muito semelhantes numa percentagem que se aproxima em muitas casas decimais dos cem. Mas, a milésima da milionésima parte de diferença que temos de uns para com os outros já nos torna únicos e completamente diferentes. E todos, desde que nascemos até a nossa morte, lutamos para nos adaptar. Ou seja, viver é tentar adaptar-se ao mundo. De milhões de formas diferentes, procuramos nos adaptar ao meio em que vivemos. Isolados ou gregários. Em pequenas ou grandes comunidades, felizes ou infelizes, loucos ou sadios, todos temos um só objetivo: adaptarmo-nos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

DROGAS E SOCIEDADE



(Aaron Nigel)


E então, eu pergunto: é esse o caminho do homem, na sua trajetória sobre a face da terra? O que viria de uma sociedade em que as drogas, todas as drogas, fossem livres? Não seria essa uma forma eugênica de escolher os melhores para continuar o processo evolutivo, depois de uma fase de caos absoluto? O destino do homem estaria definitivamente associado e atrelado aos interesses individuais, ou seja, toda a sociedade construída, e muitíssimas vezes muito mal construída, até agora foi apenas um arremedo do verdadeiro destino humano? Estão nas drogas que amortecem o pensamento o futuro e o nascimento de um novo homem que se consumirá até desaparecer, dando lugar a uma outra espécie geneticamente imune ao seu uso? São questões que me assolam, quando penso que muitas pessoas defendem a total descriminalização das drogas, como forma de resolver os seus problemas pessoais, a sua inabilidade para tratar as coisas comuns da vida, a sua inadaptação orgânica à própria existência ou as suas crises existenciais e o desconforto perante o mundo que as ameaça com cobranças, com regras e leis às quais não conseguem se conformar. O ser humano é, mesmo, o mais complexo elemento da natureza e a convivência com desigualdades tem sido o grande salto de humanização do próprio homem, mas levantamos dúvidas cruéis quando está em jogo o absolutismo do direito individual contra o absolutismo do direito social. Qualquer julgamento que se faça a esse respeito resvala no moralismo absurdo da defesa de um dos dois extremos. Porque julgo moralista tanto a condenação de um lado quanto a condenação do outro lado. Defender o direito de contrariar a sociedade de forma total e absoluta é assumir uma posição moralista de condenação do outro tipo de vida, da mesma forma que condenar de forma absoluta os que se arvoram o direito de fazer o que quiserem com o próprio corpo e com a própria vida também se constitui numa posição moralista. O equilíbrio entre as duas posições torna-se quase impossível. Como não há o que se condenar, a visão de quem observa os contendores nessa luta parece indicar que, primeiro, embora sejam muitos os que pregam a liberdade absoluta, não são a maioria; segundo, a sociedade constituída, não importa em que tipo de regime, tem o fôlego de milhares de anos de imposição de valores e não vai abrir mão deles; terceiro, e talvez o mais importante a favor da sociedade, há o fator econômico, aquele que pesa mais do que qualquer ideologia religiosa ou filosófica: as drogas, ao mesmo tempo em que movimentam um lado economicamente ativo da sociedade, enriquecendo a uns tantos, não pode se tornar bem comum, simplesmente porque não interessa a quem aufere esses lucros que eles se coletivizem e, além disso, a própria sociedade economicamente produtiva, que se utiliza das drogas em suas festas e nos seus momentos de revolução individualista, não tem nenhum interesse em se desestabilizar em prol de uma causa de futuro incerto, preferindo manter tudo como está, sem o ônus de permitir o descontrole que pode levar ao caos o sistema produtivo. Porque liberar significa democratizar, e democratizar significa a possibilidade de perder o controle sobre a mão de obra que sustenta, com seu trabalho de formigas mal pagas, todo o sistema construído de forma sistemática por gerações e gerações de umas poucas famílias que dominam a economia em cada uma das nações da Terra. Portanto, continuarão a ganir ao longo dos caminhos os que a sociedade vê como cães desgarrados a defender a liberalização total das drogas como solução que essa mesma sociedade vê, com olhos às vezes condescendentes, às vezes com olhos condenadores, como uma ilusão, como um sonho ou pesadelo que a mão pesada da repressão e da polícia irá, com certeza, no seu devido tempo, coibir. Porque, numa visão extremamente pragmática, aquilo que não tem solução solucionado está.