TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

LIMITAR O PODER DOS POLÍTICOS








Para a evolução para um sistema verdadeiramente representativo, de associações de homens e mulheres reunidos em torno de ideias e representações da sociedade que desejam para si e para todos, propõe-se um sistema intermediário, em que os partidos políticos sejam limitados a quatro ou cinco, com estrita fidelidade partidária, em que o mandato de um político pertence ao partido e não aos seus interesses pessoais, com a proibição absoluta de reeleição para o mesmo cargo, com o controle público dos gastos eleitorais ou, mesmo, com o financiamento público das campanhas, com acesso direto dos cidadãos às listas partidárias de candidatos, escolhidos através de processos diretos de consulta às bases, enfim, com uma série de medidas que limitem o poder dos políticos ou, mesmo, que os releguem a um número mínimo necessário, restritos à atuação na direção dos núcleos partidários. Também acharia interessante que se adotasse um sistema em que, quando um cidadão se tornar candidato a um cargo público, ele se licencia de seu trabalho normal durante a campanha, por dois ou três meses, com a remuneração paga através do partido. Se ele se eleger, o seu cargo, seja em que empresa for, fica congelado durante o tempo do mandato, tendo o direito de a ele retornar ao final de sua missão pública. Se não for eleito, tem também o direito de retomar sua vida profissional, sem nenhum problema. Assim, mais cidadãos comuns poderiam ser candidatos e o político profissional teria sua ação bastante reduzida ou eliminada, evitando alguns fatores de instabilidade do sistema democrático, por causa do alto preço do voto e da existência de uma casta política encastelada no poder.



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

POLÍTICOS: CANCRO DA DEMOCRACIA




(Heirinch Fussli - Lady MacBeth)


Falemos das crises dessa democracia. O maior fator de crise do sistema democrático está na raiz da representatividade, ou seja, na criação de uma casta de dirigentes com direitos diferentes das demais pessoas, os denominados políticos. Não há democracia sem política, mas pode, e deve, haver democracia sem políticos. Ou seja: a constituição de uma pequena elite que se reveza no poder e, quando no poder, faz tudo para se perpetuar nele, constitui-se num cancro que corrói por dentro a idéia básica de democracia que é o direito à oportunidade igual para todos. Os políticos ferem o cerne desse direito, quando criam barreiras partidárias ao cidadão comum, quando não permitem que os quadros se renovem a cada eleição, quando inventam sistemas de financiamento de candidaturas que elevam o preço do voto a valores astronômicos. E o preço do voto se transforma numa armadilha para qualquer pretensão de candidatura que não conte com o apoio de partidos fortes e de financiadores poderosos. Assim, a representação popular só o é no nome, porque, na verdade, os políticos representam a si mesmos e a interesses de banqueiros, de industriais e dos capitais que os financiam. Como é quase impossível romper essas barreiras, cria-se uma casta de políticos que se revezam no poder ou só são substituídos por outra casta de igual origem e conteúdo. Os partidos políticos tornam-se arremedos de posições falsamente diversas, porque, na verdade, não há programas de governo ou de mudanças, apenas programas de poder. Como a origem do capital que os financia é a mesma, também é o mesmo o programa de governo, embora em palavras diferentes para iludir o eleitorado. Nas democracias atuais, não há nada mais igual do que as idéias dos políticos, que só diferem no discurso de situação ou oposição. Assim, não existe verdadeira democracia representativa, apenas um jogo de cena de consequências trágicas para o povo. Enquanto houver uma classe política, não existe possibilidade de representação democrática.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

DEMOCRACIA

(David - Marat assassinado)


Eu acredito na democracia. E mais: acredito que a democracia só se realize plenamente através do sistema republicano, de preferência parlamentarista. No entanto, a democracia, assim como o capitalismo, é um sistema em crise permanente. Mas a semelhança com o capitalismo termina aqui, porque o sistema capitalista pressupõe a desigualdade, a escravidão, a miséria de muitos para o enriquecimento absurdo de poucos, enquanto a democracia pressupõe valores exatamente contrários: igualdade, liberdade e respeito. O problema é que a igualdade democrática não significa que todos sejam bafejados por riquezas e não precisem trabalhar, mas a igualdade democrática significa que todos os seres humanos tenham garantidos direitos fundamentais, como segurança, trabalho, remuneração digna, de modo que as diferenças tendam a diminuir e a se manter num mínimo aceitável. O ideal socialista é utópico. Os homens não são iguais, nem se pretende que sejam todos iguais. Diferenças de valores determinam que sejamos seres únicos, mas ao mesmo tempo tenhamos liberdade e respeitemos tais individualidades dentro das leis básicas da sociedade. Mesmo em relação à remuneração do trabalho, a idéia de que todos os trabalhadores devam receber exatamente o mesmo salário é por demais tentadora, mas para isso o sistema econômico que, nesse caso, não seria o capitalista, precisaria encontrar o equilíbrio perfeito e funcionasse quase como um moto perpétuo, sem perda de energia, o que é absolutamente utópico. No entanto, é possível que as diferenças atinjam patamares aceitáveis, sem que se promovam condições absurdas de riqueza ou pobreza que levem a lutas de classes, como em uma sociedade de servidão capitalista. Um socialismo apenas regulado pelo estado, e não emanado do estado, através de sistemas de controle do capital pode ser um tipo de solução a ser buscada pelo homem, para resolver os impasses e as crises do capitalismo. O respeito à individualidade e à propriedade deverão ser mantidos, porém com limitações ditadas pelo respeito à sociedade e ao outro, de forma que cidadãos que atingirem, por seus méritos e por seu trabalho e criatividade, o topo da pirâmide não agridam os demais com a ostentação de bens acumulados à custa da mais valia de milhares de outros seres humanos, porque a pirâmide social não será tão alta que se distanciem os diversos segmentos sociais. Mas, esse tipo de democracia ainda é um sonho. Enquanto isso, temos que conviver com o sistema capitalista em que nos encontramos, no qual se insere a maioria das democracias.



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A FÉ: COMBUSTÍVEL DO TERRORISMO



(João Ruas - tengu)



O medo. Este o pior sentimento do homem. Impor o medo ao inimigo é ter o caminho aberto para a conquista. O mundo ocidental deste começo de milênio vive o pior dos medos: o terrorismo. E o medo se multiplica porque o terrorismo explode numa forma nunca antes conhecida: tem por combustível o fanatismo religioso e age através do suicídio de homens-bomba que se explodem para atingir pessoas inocentes. Também o medo fez que as guerras se tornassem cada vez mais cruéis. Cada vez mais, as populações civis são afetadas pelas consequências bélicas. Cada vez mais, morrem inocentes, sejam velhos, mulheres ou crianças. A barbárie atinge graus de insustentabilidade cada vez mais altos, impedindo que o homem, acossado pelo medo, tenha qualquer possibilidade de se defender. As convenções todas foram deslocadas para a periferia das preocupações dos que nada têm a perder, a não ser a própria vida, cujo holocausto lhe servirá de passaporte para a salvação eterna ou para as delícias de um paraíso povoado de virgens que o esperam. O homem-bomba do final do século vinte e do princípio desse milênio tem muito mais sangue frio do que os kamikazes japoneses, cujos alvos e objetivo eram militares e estavam contextualizados num cenário bélico. Os homens-bomba que se explodem em filas de crianças à espera de doces ou dentro do metrô de uma grande cidade não têm outro objetivo que a salvação do mundo através da sua crença e da consequente imolação de vítimas inocentes. E, para ele, o mundo só pode ser salvo se temer e tremer diante do deus que lhe dá meios e força para o ato de imolar-se. Assim, não há como impedir que o homem-bomba acione o dispositivo que carrega em seu corpo. Porque não é possível identificá-lo. O processo de desumanização a que ele é submetido tem nuances imperceptíveis a seus amigos e parentes. Porque o fervor religioso que o acomete também acompanha aqueles que estão em volta. O grau de envolvimento com as redes terroristas, através da religião, não transparece em seus atos religiosos, porque o processo de convencimento e desumanização para que ele cometa o seu ato supremo segue meandros absolutamente racionais e congruentes, porque os mentores sabem muito bem o que desejam, ao contrário dos jovens recrutados para o serviço sujo de se explodir e deixar amedrontados um povo ou um continente. Esses têm somente o ideal absurdo de seguir em frente, sem pensar em filhos, pais, parentes ou amigos. Sua mente está corrompida pelo pior sistema de convencimento e empulhação que o homem inventou, nessa sua longa trajetória de cultivo de sistemas metafísicos: a fé. E a fé, como muito bem diz a bíblia cristã, remove montanhas e, por extensão, destrói vidas humanas inocentes.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

BARBÁRIE DO HOMEM MODERNO



(Bill Feigenbaum - journey into fear)


Dentre as grandes nações que despontam nesse início de milênio, nenhuma pode se vangloriar de ser civilizada. São povos e nações que se projetam no cenário internacional com as asas do vampiro, prontas a pular no pescoço de vítimas incautas, ao menor sinal de que suas investidas podem dar certo. Não é à toa que o século vinte foi o século da matança. Nunca se matou tanto em toda a história da humanidade. E o século vinte e um segue pela mesma trilha de sangue. O homem ainda vê o diferente, o outro, como aquele que não tem alma e, por isso, deve ser destruído, por representar ameaça à sua condição de dotado por deus de uma missão qualquer. Há sempre um lado messiânico em toda guerra. E isto é o sinal mais claro de barbárie. Nas dobras da diplomacia moderna esconde-se o gesto de conquista, o gesto genocida de aniquilamento do outro. E quando há matanças gerais, ocorrem também matanças particulares. Se as nações matam, se os chefes risonhos das reportagens de televisão podem assinar o assassínio de milhares e milhares de pessoas e, com isso, ainda conquistar o apreço de seu povo e, até mesmo, de outros povos, por que o homem comum, aquele que se espelha nos poderosos, também não pode construir seus pequenos impérios do crime e decidir o destino de vários outros, como um arremedo de imperadores podres de países pseudocivilizados? Por que não podem também ser donos da vida do cônjuge aquele ou aquela que se julgam traídos? Por que não podem todos os imbecis ser donos da nossa vida e apontar para nossas cabeças suas armas assassinas simplesmente porque desejam o nosso relógio ou a nossa carteira com míseros tostões? A vida humana não vale absolutamente nada, tanto para os dirigentes das nações mais poderosas quanto para o assaltante de rua. E essa desvalorização da vida é reflexo de toda um sistema que se diz civilizado, mas que tem somente sofisticado os atos de barbárie de homens de todos os lugares do planeta. Buscamos, e devem até existir, pequenas ilhas de civilização, para que não decretemos o fim do homem, mas sabemos todos que, mesmo em países mais próximos do ideal de respeito humano, como os países nórdicos, o crime ainda persiste e o sangue humano de vez em quando (o que já é um alento esse de vez em quando) mancha indelevelmente o branco da neve. Os atos civilizacionais do homem, ou seja, aqueles que verdadeiramente trazem conquistas espetaculares, como as descobertas científicas, transformam-se muitas vezes em armas nas mãos dos bárbaros, que ainda são maioria e ainda governam a humanidade, com o fervor dos líderes de hordas medievais ou com o fervor de messias pré-cristãos ou, ainda, com o fervor deísta de destruição dos diferentes, do não reconhecimento de humanidade naqueles que se opõem aos seus desígnios. O fogo do inferno não se apaga nunca da memória dos deístas, pois é para lá que estão indo todos os opositores àquilo que eles chamam de civilização e eu chamo simplesmente de barbárie.



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CONCEITO DE CIVILIZAÇÃO





(Bruegel - o triunfo da morte)



O conceito de civilização talvez seja o mais complexo para o homem. Antropologicamente, até se pode resolver o problema, através de certos indicadores encontráveis ou não nos agrupamentos humanos. Porém, são todos indicadores de tecnologia, propriamente dita, e não de civilização. Há, na história, povos avançados em relação ao seu tempo, por terem uma tecnologia de ponta, em determinados setores, e serem extremamente cruéis em relação a inimigos ou a práticas religiosas, como sacrifícios humanos. Ficamos boquiabertos diante das pirâmides maias, por exemplo, esquecendo-nos da barbárie que cometiam esses povos pré-colombianos em suas práticas religiosas. Consideramo-nos civilizados ou olhamos para cima, para os irmãos do norte, extasiados, diante de sua capacidade tecnológica, e não percebemos o quanto de barbárie há nas decisões de seus presidentes de invadir e liquidar países, em nome do combate ao terrorismo. O Iraque aí está para não nos deixar iludir com o comportamento bárbaro de nossos irmãos do norte. Os Estados Unidos da América conservam o mesmo ânimo guerreiro e genocida de seus tempos de conquista do Oeste. Mudaram os índios, que já foram há muito dizimados e não mais oferecem perigo. Mudaram os métodos, pois os antigos rifles tinham capacidade limitada. Agora, mísseis de alta precisão fazem ataques cirúrgicos, numa guerra em que o inimigo é aparentemente invisível: à distância, o peso na consciência se esfuma, pois a ilusão faz do combatente apenas aquele indivíduo que aperta botões e fica sabendo por sofisticados instrumentos de detecção que seu projétil atingiu o alvo, ou seja, não há corpos ou sangue à vista, apenas a fumaça distante ou, quase sempre, apenas um ponto no radar. Assim, o genocídio torna-se corriqueiro, como eram corriqueiras as matanças de indígenas no velho Oeste. Os indígenas não tinham alma, eram seres brutos e brutalizados, que impediam o desenvolvimento. Assim também devem pensar os dirigentes estadunidenses, quando dão ordens de invasão de um povo como o iraquiano e destroem cidades como Bagdá, apenas para satisfazer o seu desejo milenar de sangue: por mais que se desculpem com o combate ao terrorismo islâmico ou de origem islâmica, o que verdadeiramente está por trás de tais desculpas é o velho e milenar desejo de sangue, de guerra, de conquistas, para firmar a supremacia de um povo. E ousam chamar civilização o conjunto de tecnologias que lhes permitem matar mais em pouco tempo e a distância, ou seja, com o mínimo de baixas. Isso, absolutamente, não é civilização.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

NÃO SOMOS O ÚLTIMO ELO DA EVOLUÇÃO



(Caravaggio - Davi e Golias)





No entanto, não nos iludamos: há ainda um longo caminho a percorrer para superar os instintos primitivos e reacionários que convivem nos genes e no pensamento do homem. Além do mais, a evolução não segue como um rio calmo, nem suas águas se encontram todas no mesmo estágio. Enquanto há homens (e não estou me referindo a tribos ou sociedades ou nações) que nascem com os instintos reacionários e primitivos mitigados, há muitos outros que ainda os têm em plena manifestação. E isso independe do grau de inteligência que possam ter os indivíduos. Há monstros inteligentes e sensíveis, enquanto há artistas com temperamento agressivo e assassino. A barbárie ainda tem, em larga escala, guarida no pensamento humano. Seja por motivos religiosos, políticos ou pessoais, mata-se muito e por qualquer razão ou sem razão nenhuma. Não conseguiu, ainda, o homem superar o instinto primitivo de matar, de destruir, de conquistar. Posso dizer, sem medo de errar, que são poucos, muito poucos, ou até mesmo quase impossível de se encontrarem, os seres humanos em que esteja ausente o primarismo, o reacionarismo ou a barbárie. Mesmo os que se apresentam como paradigmas do que se chama comumente bondade, reagem de forma irracional com maior ou menor potência às injustiças ou às ameaças. Os cristãos costumam ver na figura mítica de seu profeta o paradigma desse tipo de ser humano imune à barbárie, mas se esquecem de sua reação diante dos vendilhões do templo, o que é menos grave, ou de sua pregação de que serão excluídos do reino do céu todos os que não o seguirem, o que é muito mais grave, por construir uma doutrina de incluídos (os fiéis) contra os excluídos (os infiéis). A tolerância cristã vai até um certo limite, o do pecado. A partir daí, tolerância zero para os pecadores, para os blasfemadores e os hereges: queimarão todos no fogo do inferno ou agora ou no dia do juízo final. Portanto, não somos os seres que gostaríamos de ser. Não somos, de forma alguma, o último elo da evolução. E somente a possibilidade de construir um futuro mais digno para o ser humano permite que nossa imaginação nos leve a sonhos utópicos ou ao verdadeiro caminho de um mundo onde a guerra e a matança sejam a exceção e não a regra.



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CONSTRUÇÃO DO FUTURO



(Gaston Casimir Saint-Pierre - Diana caçadora)




Muitas foram as tentativas de definir o homem. Fazem sucesso. Mas, eu creio que, na verdade, o homem é o único animal que constrói o futuro. A racionalidade humana está em poder prever as consequências de suas ações, em primeiro lugar, e, depois, as mudanças da natureza. Tal possibilidade levou-o a desenvolver a imaginação. Com a imaginação, o homem sonhou e pôde, assim, conquistar o mundo e sobrepor-se aos demais seres vivos. Exemplifiquemos. Um pensamento primário: há polpa sob a casca do coco. Um pensamento de construção do futuro: se eu quebrar a casca, eu me alimento. Daí à descoberta de ferramentas que pudessem quebrar a casca do coco, há centenas ou milhares de anos. Mas a semente estava lançada. Outro: se o tigre tem fome, ele mata. A corça não percebe a fome do tigre, apenas sua presença ameaçadora. Quando o homem percebeu a fome do tigre, entendeu que ele caçava porque tinha fome e, assim, ele pôde defender-se melhor. Ou aproveitar-se dela para caçá-lo. Ou, ainda, dar-lhe o alimento, para evitar ser morto. Enfim, um pensamento de construção do futuro formou-se na mente do homem. A maioria absoluta dos animais não tem essa construção do futuro: são apenas reativos. Agem em consequência de seus instintos ou das forças da natureza. Talvez alguns primatas já tenham a centelha desse pensamento. Por isso, são tão próximos do homem. E essa capacidade de construir o futuro trouxe a imaginação, que é, depois da racionalidade, a mais poderosa arma da inteligência humana. Sem imaginação, o homem não teria podido tornar-se gregário e construir as civilizações que lhe dessem proteção. Quando falo em civilizações, estou-me referindo a qualquer tipo de construção coletiva do homem. O senso de coletividade tornou-se o elemento fundamental de sobrevivência humana. Sem a formação de sociedades que evoluíram para organizações complexas, desde a simples reunião para a caça e o preparo dos alimentos até a construção de palácios e pirâmides, o homem provavelmente teria desaparecido diante das mudanças de clima e das intempéries da natureza. Somente a capacidade de construir o futuro e, com o uso da imaginação, prevenir-se contra as ameaças, transformou o homem no ser que hoje habita o planeta soberanamente.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

UNIVERSO ATRAVÉS DO DISCURSO




(Andrew Wyeth - Christinas world)



A idéia da negação da realidade e sua troca pelo discurso podem levar a recaídas metafísicas. No entanto, não há metafísica na leitura ou na tentativa de leitura da realidade. Os sentidos humanos desvelam a porção de realidade que é possível desvelar, assim como certos animais só enxergam, por exemplo, em preto e branco ou outros que só apreendem o mundo que os rodeiam pelo cheiro etc. Não podemos afirmar que nossos cinco sentidos sejam suficientes para ler o mundo como ele realmente é, porque não dispomos de outras experiências. A essa leitura que nos foi dada pela natureza já estamos há milhares de anos acostumados e dela não temos condições de nos livrar. Porém, não há provas de que o que vemos é realmente a realidade, porque somos limitados aos sentidos e à subjetividade de nosso cérebro. Percebemos o que os nossos sentidos captam e o que o nosso cérebro interpreta. Pelas características genéticas comuns do homo sapiens, não há grandes distorções e interpretações entre aquilo que eu apreendo e o que as demais pessoas também apreendem: divergimos em detalhes, que correspondem, muitas vezes, a ponto de vista e a determinados recortes da realidade. No mais, convergimos e concordamos em que, por exemplo, o que chamamos céu é azul ou que as folhas das árvores são verdes, por mais nuances que tenham. As noções adquiridas pelos sentidos e interpretadas por nosso cérebro seguem padrões que não permitem que julguemos ser isto bom ou ruim, apenas são o que são. Sem nenhuma metafísica, mas, por sua subjetividade e, por ter o homem a capacidade de imaginar e, mais do que isso, transformar em linguagem e discurso a sua imaginação, somos também capazes de nos enganar e de enganar os outros através de divagações metafísicas. Isso pode, até certo ponto, justificar os engodos em que nos metemos, mas qualquer justificativa cessa, quando analisamos de forma racional os discursos que contêm a semente e, às vezes, a árvore inteira, do pensamento inventado metafisicamente, propenso, portanto, a ser lido apenas com o sentimento, ou seja, com a nossa vontade de que aquilo se torne verdadeiro. E, como a vontade pode suplantar a racionalidade, acabamos por acreditar em contos da carochinha, apenas porque esses contos, transmitidos através de discursos bem elaborados, contêm o que se chama coerência interna, cerne da obra de arte que, por ser arte, dá apenas uma interpretação da realidade e não a realidade inteira. Aliás, a realidade inteira deve ser algo tão tremendamente abstrato que, provavelmente, não consigamos nunca alcançar a sua verdadeira dimensão. Nossa mente, mesmo que evolua a patamares até agora inimagináveis, não terá condições de interpretar o mundo em sua totalidade, porque o universo, em sua amplidão, não cabe na casca de noz de nosso pensamento, por mais complexo e elaborado que ele seja. Teremos de nos contentar, sempre, com o recorte possível que fazemos da realidade, para não nos tornarmos loucos ou insanos diante de sua grandeza. Assim, só nos resta, para que a realidade não nos fuja ou nos transporte para invenções absurdas, contentar-nos com o discurso e tirar dele todo o proveito de que somos capazes, para construir os enredos possíveis de nossa conexão com o universo que nos rodeia, ou melhor, com o universo de que fazemos parte.