TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A MULHER COMO BRUXA




(Brian Viveros - mess with the bull)



A condição feminina. Desde o momento em que o homem se descobriu agente da procriação, tanto quanto a mulher, a patriarcalização do mundo entrou num processo difícil de reverter. No ocidente, um grande passo para tornar a mulher um ser desprezível foram as invenções cristãs, já que a Bíblia, principalmente o novo testamento, não traz uma condenação cabal à mulher, como acontece, por exemplo, entre os seguidores do Alcorão, cujos preceitos, embora não condenem de forma absoluta a mulher, colocam-na claramente em posição de inferioridade em relação ao homem, com prescrições precisas do que ela pode ou não pode fazer ou usar. Por isso, o movimento contra o feminismo não partiu do cristianismo puro, mas principalmente daquele derivado do paulismo. O misógino Paulo de Tarso não se cansou de escrever diatribes contra as mulheres, aprofundando a culpa do pecado original através da explicação do nascimento de um Cristo sem gametas masculinos, concebido no útero de uma virgem por obra e graça de um espírito santo, o tal espírito de deus. Munição mais do que suficiente para definir a doutrina católica (e, depois, por extensão, de todo o cristianismo) de repúdio às mulheres, principalmente através de seus sábios de maior magnitude, como Agostinho, os quais, apoiados em ideias esdrúxulas do criacionismo masculino (um deus macho), pegaram a vassoura das bruxas medievais e varreram definitivamente o feminino para debaixo de seus altares, ou melhor, para dentro de suas fogueiras. Criaram o mito da bruxa que faz pacto com o diabo, apropriando-se da mitologia primitiva das mulheres curandeiras e parteiras, de civilizações que cultivavam a terra de acordo com ciclos da natureza, cujo conhecimento pertencia a essas mulheres privilegiadas. Quando os dois monstrinhos dominicanos, Kramer e Sprenger, codificaram todos os mitos relacionados às bruxas, no seu Malleus Maleficarum, considerado por muitos a continuação do Gênesis bíblico, eles também determinaram com certezas aristotélicas e agostinianas o campo de ação dessas bruxas e descreveram detalhadamente o modo como elas devem ser perseguidas, presas, julgadas e queimadas. Os dois padres dominicanos não deviam ter a noção precisa do objetivo da tarefa a que se propunham, mas, com certeza, a Igreja conhecia bem os desígnios que estavam por trás da caça às bruxas: deitar uma pá de cal na possível e provável pretensão feminina de alcançar algum tipo de posição que se aproxime da igualdade de direitos em relação aos homens, na hierarquia religiosa e, por extensão na sociedade pois, afinal, a Igreja era e ainda pretende ser a mandatária absoluta das mentes.



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