TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

LINGUAGEM E PARADIGMAS




(Alma Tadema - the women of Amphissa)




A maior criação humana, sem dúvida nenhuma, é a linguagem. Mas, ao mesmo tempo em que é genial, a linguagem tem aprisionado o homem em paradigmas dos quais ele não consegue livrar-se. Se fosse deísta, diria que deus inventou a linguagem e o diabo, o discurso. Quero dizer: se a linguagem é a invenção mais do que fantástica, o discurso inventou o paradigma. E os elementos paradigmáticos do discurso tornaram-se mais importantes do que os próprios fatos. Ao transformar a visão de mundo em discurso, perdeu-se a objetividade. Ao perder a objetividade, enredando-se em discurso, este torna-se o próprio mundo que ele pretende descobrir e, no lugar da descoberta, surge a interpretação. Não mais somos capazes de descrever o universo, mas ganhamos a capacidade formidável de interpretá-lo e, ao interpretá-lo, criamos paradigmas sobre paradigmas, invenções sobre invenções. Assim, a história passa a ser não o relato do que aconteceu, mas cria os fatos a partir dos relatos e estes se tornam paradigmáticos. A famosa guerra de Troia: possivelmente uma briguinha de vizinhos – duas pequenas cidades a disputar alguma bobagem. Alguém, então, resolve raptar a mulher do inimigo. Para cobrar o desaforo, possivelmente algumas dezenas de homens armados resolvem sitiar a cidade dos ladrões. Será que esse cerco durou realmente dez anos? Ou foram dez anos de tentativas intermitentes? Quantos habitantes havia em Troia? Trinta mil? E quantos dispostos realmente a guerrear? E quantos, realmente, se predispuseram a ficar pelas imediações e, de vez em quando, fazer algum tipo de ataque a moradores da cidade, para dizer que estavam por ali, ou simplesmente pelo desejo de provocar e lutar? Enfim, a guerra de Troia chegou até nós através de uma narrativa épica, em que uma guerrinha particular ganha foros de tragédia universal. O relato do poeta, ou dos poetas, ou de quem estruturou e depois dos que aumentaram, ao longo do tempo, a narrativa, não deixa dúvidas: foi uma guerra de heróis, de deuses e de semideuses. Acreditamos nele, no autor ou nos autores. Afinal, a beleza dos versos e a grandeza da obra são testemunhos inequívocos de sua veracidade. No entanto, posso fazer de uma simples dor de cotovelo um poema de grandeza universal sobre o amor, que não necessariamente a mulher a quem dedico os versos seja a mais bela do mundo ou a mais nobre ou a mais digna. O que importa são as palavras, sua grandeza e variedade, o discurso bem articulado e construtor de uma pseudorrealidade. Porque, acabada a obra, posso seguir minha vida e nem me lembrar mais da musa que a inspirou, assim como o improvável Homero criou de uma guerrinha boba entre vizinhos uma epopeia digna dos deuses. E assim tem sido a história dos grandes feitos. Estão, quase todos, muito aquém da realidade, mas o discurso inventa batalhas, cria heróis e heroísmos, transforma o cotidiano em atos de glória, homens em deuses e nós, pobres leitores, em idiotas da fantasia de mentes fantásticas e originais. Preferimos a versão ao fato, as palavras à realidade, o discurso ao exercício duro da pesquisa. Afinal, os homens precisam de paradigmas, de heróis e de deuses, assim como precisam da comida do dia a dia. O alimento da imaginação tem tanta importância quanto o alimento do corpo. O discurso nos aprisiona e nos revela, ao mesmo tempo: seres que se enganam o tempo todo e, pior, seres que adoram ser enganados, além de enganar. Por isso, a linguagem, essa criação fantástica, transformou o homem em prisioneiro de paradigmas e de invencionices mágicas que ele criou para substituir, com grande vantagem, o prosaico mundo de realidades em que vivemos. Assim, dando asas à imaginação, inventamos a arte e, através dela, a nossa civilização tem sido menos triste do que devia ser. E não há metafísica nesse pensamento, apenas discurso que, por ser livre e inventivo, constrói mais um paradigma.



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CAPACIDADE CRIATIVA DO HOMEM




(Kandinsky)



A ciência ainda tem poucas respostas, mas as religiões não têm nenhuma. Tampouco considero a ciência a dona da verdade. Aliás, não há verdade, principalmente a verdade absoluta pregada pelas religiões. Mesmo a metafísica, essa forma de pensar cheia de absurdidades, pode oferecer algum alento e algumas respostas para algumas pessoas. Ainda que eu acredite não serem as melhores respostas. Isso não importa. O que realmente se torna fundamental para uma nova maneira de pensar é o criticismo, a possibilidade de colocar em xeque qualquer conjunto de verdades constituídas em cânone. O poder do homem está em duvidar de tudo, mesmo de seu antideísmo. Embora não haja nenhuma possibilidade da existência real de um deus supremo, criador de todas as coisas, essa forma de pensar estratificada na mente do homem tem criado concepções que atendem às necessidades filosóficas de uma grande parte da humanidade. O repúdio ao deísmo de forma acrítica pode, até mesmo, fortalecê-lo. Por isso, pensar em deus ainda pode ser um exercício fundamental para o homem durante muitos e muitos séculos. O receio maior que se pode ter, quando a ideia de deus for varrida da mente do homem, é que ele busque substitutos muito mais terríveis do que a própria ideia de deus. Se o homem se voltar para o cientificismo absoluto, como substituto ideal da religião, pode a humanidade cair nas mãos dos mesmos prestidigitadores e falseadores da realidade que teimam na pregação da existência de deus, com agravantes muito mais poderosos: o conhecimento e a tecnologia a seu serviço, para escravizar a mente do homem e mantê-lo na ignorância mais profunda, com pouquíssimas possibilidades de ressurgir, aí sim, de longos e tenebrosos tempos de trevas. O motivo dessa preocupação tem um nome: igualdade, ou melhor, a ausência de recursos que possibilitem a todos, ao mesmo tempo, alcançar o mesmo nível de conhecimento. Nem em termos teóricos, a nossa capacidade de projetar e planejar o futuro consegue ou conseguirá imaginar um mundo em que todas as diferenças sociais e econômicas tenham sido superadas. Mesmo que obtivéssemos de mentes absolutamente brilhantes no trato da economia e da sociologia uma sociedade de bem estar total, mesmo que a genética tivesse conseguido assegurar qualidade total na concepção de novos seres humanos, mesmo que os filósofos e os educadores assegurassem a esse homem um código universal de ética, a obtenção desse aparente paraíso terá custado ao homem a perda de sua liberdade e, consequentemente, a possibilidade de cada um seguir a sua própria trajetória em busca do bem estar individual, o que levaria ao desmoronamento desse mundo de perfeição, por total falta de equilíbrio natural entre o homem e sua capacidade de buscar e sonhar e pela estagnação, pela impossibilidade de que o ser humano continuasse a sua trajetória de evolução e desenvolvimento. O desaparecimento do homem passaria a ser questão de tempo, ou haveria uma revolução contra esse estado e uma volta da barbárie, uma espécie de fantasma, de nuvem negra, que ronda a história do homem e não se dissipará apenas com a construção de um mundo mais justo ou de uma utopia. O cientificismo cego não pode ser a opção à selvageria do deísmo. O conhecimento pode, sim, substituir parcialmente a ignorância que leva à metafísica, mas não pode impedir que o homem seja o ser sempre imperfeito em busca de um estágio mais elevado de consciência, de pensamento e de estrutura física. Há necessidade de se criarem novas formulações do pensamento abstrato, para que o sonho e a imaginação não criem outros monstros na mente humana. A aceitação da vida como ela é, sem os engodos deístas de sobrevivência, exigirá uma nova estrutura cerebral a ser construída ao longo de muitos séculos de evolução, o que implica um tempo de maturação que, hoje, nenhum filósofo da realidade terá condição de imaginar. No entanto, é essa a trajetória do homem, sem dúvida nenhuma, para a construção de um mundo mais justo, embora ainda imperfeito, com o auxílio da ciência e da tecnologia, sem que estas se transformem na ditadura da sapiência sobre os demais elementos constitutivos da psique humana, como os sonhos, a imaginação e a capacidade criativa.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

OUTRAS SEXUALIDADES



(Foto de Wladimir Kalinin)



O moralismo sexual tem causas claras na tradição milenar de quase todas as religiões, principalmente a cristã, cujo deus macho criou o mundo como um paraíso. E um crime sexual, a tentação da primeira mulher, transformou-o num vale de lágrimas. Para redimir o pecado original, de origem sexual, um novo deus é mandado ao mundo através de uma virgem, uma mulher sem pecado, porque não fez sexo, embora pudesse ter cometido mil outros pecadilhos, no conceito cristão do termo. Assim, os seminários e conventos estão abarrotados de seres que vivem uma meia vida, sem sexo, pelo menos não declarado. E o sexo constitui uma das preocupações mais constantes de toda a literatura cristã, na condenação tanto de seus excessos quanto de suas diferenças. Apesar disso, os homossexuais abriram brechas importantes neste edifício moralista e excludente construído pela moral deísta. A corrente conservadora, aliada à ignorância dos próprios seres diferentes, cria, no entanto, categorias absurdas de sexualidade, procurando excluir dos dois sexos existentes na natureza, o masculino e o feminino, os que se apresentam com uma sexualidade diferenciada. Assim, fala-se de travestismo como se o travesti fosse um outro sexo, uma espécie de monstrinho antinatural. E eles mesmos, os travestis, falam e agem como se fossem um terceiro sexo, e até reivindicam essa condição. Os transexuais fazem o mesmo, ignorando a própria natureza, como se o fato de ganharem um pênis ou perderem um pênis fosse suficiente para se mudarem para o outro sexo, como se muda de lado numa rua. Eu acredito que a insistência em categorizar os seres cuja sexualidade seja diferente em diversas espécies sexuais só contribui para excluí-los e aprofundar o preconceito dos moralistas. Aceitem-se como são: travestis, transformistas, transexuais etc. são homens ou mulheres com sexualidade diferenciada, mas, se nasceram homens são homens e, se nasceram mulheres, são mulheres. Não se muda de sexo, simplesmente porque se fez uma operação que altera as formas externas da genitália ou do próprio corpo, mas um travesti, por exemplo, por mais parecido que fique com uma mulher é apenas um homem que parece mulher, tem trejeitos e características femininas, mas continua sendo um homem. E a essa opção sexual e de vida tem que ser dado o devido respeito, como a todo e qualquer ser humano.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SEXUALIDADE HUMANA




(Almada Negreiros)





Há apenas dois sexos: o masculino e o feminino. E muitas sexualidades. Os meios de comunicação e a modificação dos costumes escancaram uma realidade que ficara oculta ou restrita a pequenos grupos há muitos e muitos séculos: a variedade de manifestações sexuais entre os humanos. O homossexualismo, aos poucos, começa a abandonar o gueto de degeneração e ignomínia a que ficara relegado, para se constituir num segmento importante em várias sociedades. E no rastro da maior tolerância ao homossexualismo, formas alternativas de realização sexual despontam em todos os níveis sociais, a demonstrar que a genética humana, responsável por tantas variedades, continua e continuará fazendo suas experimentações, como sempre. Os preconceitos persistem, como grandes muralhas a serem transpostas, mas há sinais claros de que, através da sutileza de cavalos de troia ou pela força de potentes aríetes, a cidadela começa a dar sinais de queda. A sociedade ainda se espanta com demonstrações diferentes da sexualidade, condenando-as como atentatórias à moral ou rotulando-as de exóticas, mas não pode mais deixar de reconhecer sua existência. O diferente sempre provocou reações, ou de indiferença e afastamento ou de ódio e violência. Quando os espanhóis chegaram ao México, o estranhamento entre as duas civilizações levou o exército de Cortez a cometer um dos maiores massacres da história humana, em nome de uma pretensa superioridade da civilização europeia cristã. E assim foi em todas as guerras de conquista: o estranhamento quase sempre levava a guerras e à escravidão do mais desprotegido. A neurose em relação à invasão da Terra por seres interplanetários povoou e povoa a imaginação de escritores, cineastas etc. de seres monstruosos, todos prontos a devorar e destruir os pobres terráqueos. Instala-se, assim, na mente das pessoas, o medo pelo diferente. Também no terreno da sexualidade humana, o diferente apresenta-se como ameaça, como se o fato de dois seres se unirem de forma não convencional fosse fazer desmoronar a tal civilização cristã.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

O MITO DA BRUXA




(autor desconhecido)


O mito da bruxa serviu, e ainda serve de formas mais sutis, para perpetuar a noção de desigualdade entre os sexos, deixando a mulher à margem das grandes decisões da humanidade. Embora os avanços sejam significativos, a intolerância ainda tem fôlego para manter a mulher ignorante e distante de muitos poderes que os homens ainda reservam para si, até nas mais adiantadas sociedades desse início de terceiro milênio. O contra-argumento canalha do machismo constitui uma pérola derivada dos mais obtusos manuais de caça às bruxas: dizer que as mulheres não querem igualdade, mas lutam para ser superiores aos homens é, no mínimo, um desafio a qualquer princípio lógico que nem o mais ousado defensor do patriarcalismo terá vergonha de enunciar. A relação homem/mulher posta-se, assim, no terreno da desconfiança e da rivalidade, como se a ascensão do feminino fosse uma ameaça ao homem, assegurando, de forma sutil mas vigorosa, a manutenção do machismo rancoroso, quando, na verdade, não há e não pode haver rivalidade entre os sexos que se complementam e lutam, ambos, por uma vida melhor neste planeta tão cheio de injustiças. As diferenças entre homens e mulheres, em termos genéticos e antropológicos, não constituem motivo para rivalidade, mas para complementação entre os sexos. A estupidez humana é que mantém níveis ou escalas de diferenças que escravizam a mulher ou colocam-na em situação inferior. Assim como não há raças entre os humanos, também não há relação de subordinação entre os sexos. Nessa desigualdade inventada pela mente diabólica de cristãos, no ocidente, e de deístas, no resto no mundo, vemos, de forma clara e cabal, mais uma manifestação da barbárie humana. Que precisa ser combatida em todas as frentes.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ADIAMENTO DO FEMININISMO




(Achille Deveria)




Não foi a queima de aproximadamente cem mil mulheres durante o período inquisitorial (do século XIII ao XVIII) que se constitui no fato mais horripilante da história da Igreja Católica Romana, mas sim o impedimento de que a burguesia então nascente pudesse trazer consigo o gérmen do feminismo numa sociedade que se transformava de agrária para citadina. No campo, embora já pipocassem movimentos feministas, as mulheres não deviam ter muitas condições para reivindicações, presas a afazeres domésticos mais pesados (no campo, ajudando os homens e em casa, nas lidas domésticas) e isoladas em pequenas aldeias. Nas cidades, a comunicação era mais fácil tanto quanto o acesso a meios mais poderosos de conhecimento, como os livros. Além disso, a divisão mais equânime das tarefas diárias, em que a mulher não tinha mais a responsabilidade da dupla jornada, podia constituir-se no cadinho ideal de ascensão feminina. Ferido profundamente em seu âmago pela instalação da ideia de que a mulher é responsável pela desgraça humana e pode ser mais facilmente enganada pelo demônio, o feminismo somente irá renascer com alguma força no século XX, agora sem fogueiras reais, em virtude do enfraquecimento momentâneo do catolicismo e também do luteranismo e do calvinismo. No entanto, as hostes conservadoras e fundamentalistas deram mais do que sinal de vida nas últimas décadas do século e só não acendem as antigas fogueiras em praças públicas porque os tempos mudaram e, portanto, é preciso mudar os métodos. Agora, os fundamentalistas cristãos perseguem as bruxas pelos meios mais sutis ou, às vezes, nem tanto, dos debates contra o direito do aborto, do uso de preservativos e métodos contraceptivos, da maternidade assistida e outros avanços da medicina que surgiram para dar condições à mulher de decidir o seu próprio destino e de tomar para si o cuidado com seu próprio corpo.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

A MULHER COMO BRUXA




(Brian Viveros - mess with the bull)



A condição feminina. Desde o momento em que o homem se descobriu agente da procriação, tanto quanto a mulher, a patriarcalização do mundo entrou num processo difícil de reverter. No ocidente, um grande passo para tornar a mulher um ser desprezível foram as invenções cristãs, já que a Bíblia, principalmente o novo testamento, não traz uma condenação cabal à mulher, como acontece, por exemplo, entre os seguidores do Alcorão, cujos preceitos, embora não condenem de forma absoluta a mulher, colocam-na claramente em posição de inferioridade em relação ao homem, com prescrições precisas do que ela pode ou não pode fazer ou usar. Por isso, o movimento contra o feminismo não partiu do cristianismo puro, mas principalmente daquele derivado do paulismo. O misógino Paulo de Tarso não se cansou de escrever diatribes contra as mulheres, aprofundando a culpa do pecado original através da explicação do nascimento de um Cristo sem gametas masculinos, concebido no útero de uma virgem por obra e graça de um espírito santo, o tal espírito de deus. Munição mais do que suficiente para definir a doutrina católica (e, depois, por extensão, de todo o cristianismo) de repúdio às mulheres, principalmente através de seus sábios de maior magnitude, como Agostinho, os quais, apoiados em ideias esdrúxulas do criacionismo masculino (um deus macho), pegaram a vassoura das bruxas medievais e varreram definitivamente o feminino para debaixo de seus altares, ou melhor, para dentro de suas fogueiras. Criaram o mito da bruxa que faz pacto com o diabo, apropriando-se da mitologia primitiva das mulheres curandeiras e parteiras, de civilizações que cultivavam a terra de acordo com ciclos da natureza, cujo conhecimento pertencia a essas mulheres privilegiadas. Quando os dois monstrinhos dominicanos, Kramer e Sprenger, codificaram todos os mitos relacionados às bruxas, no seu Malleus Maleficarum, considerado por muitos a continuação do Gênesis bíblico, eles também determinaram com certezas aristotélicas e agostinianas o campo de ação dessas bruxas e descreveram detalhadamente o modo como elas devem ser perseguidas, presas, julgadas e queimadas. Os dois padres dominicanos não deviam ter a noção precisa do objetivo da tarefa a que se propunham, mas, com certeza, a Igreja conhecia bem os desígnios que estavam por trás da caça às bruxas: deitar uma pá de cal na possível e provável pretensão feminina de alcançar algum tipo de posição que se aproxime da igualdade de direitos em relação aos homens, na hierarquia religiosa e, por extensão na sociedade pois, afinal, a Igreja era e ainda pretende ser a mandatária absoluta das mentes.



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A RAÇA HUMANA



(Portinari - menina sentada)



Raça. Uma breve observação sobre raça. Acredito, e creio que o futuro o comprovará, principalmente através do aprofundamento dos estudos de genética, que não existem raças humanas, mas apenas seres humanos, ou, se preferir, a raça humana, diferente, mas não muito, das demais espécies animais. O que existe, na verdade, são homens que têm a cor da pele diferente e outras características físicas diferenciadas por fatores climáticos ou por desvios genéticos e isolamento geográfico, mas que, à medida que o mundo se torna menor, esses seres tenderão a se misturar em todo o planeta, fazendo desaparecer as diferenças ou, talvez, criando outras características diferenciadoras que não terão nada a ver com as atuais. Portanto, falar em raça ou separar os seres humanos em raças, constitui um sintoma de barbárie que precisa ser eliminado da consciência humana.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CULTO À MORTE E A BUSCA DA FELICIDADE




(Bruegel - the procession to calvary)


O suicídio é a fuga para uma outra dimensão que não existe: a satisfação após a morte, o que resulta, pelo menos para a pessoa que se suicida, em solução, mas uma solução que contraria o princípio básico da vida: o próprio ato de viver. Morrer é natural. Matar e matar-se: constituem-se em atos extremos, condenáveis por si mesmos, em qualquer situação. No entanto, os instintos que trazemos de nosso passado e a fera que ainda mora na memória e na cadeia genética do homem ainda não foram amansados o suficiente para ultrapassarmos a condição bárbara de cometermos atos insanos. Nossa civilização foi criada e desenvolvida no culto à morte, fruto de milhares de anos de deísmo e culto a divindades abstratas, e isso é um complicador a mais na trajetória humana rumo a uma condição de superação da barbárie. Buscar a felicidade, como condição da vida humana, constitui-se num dos aspectos desse culto à morte. Ou seja, se não se alcança a felicidade em vida, essa virá após a morte, no seio de uma divindade ou num nirvana ou num paraíso absurdo. O que torna a vida humana uma trajetória absurda e o homem, um simples joguete nas mãos de um deus ou de um destino. Assim, a felicidade, como categoria absurda, invenção metafísica de filósofos deístas e ignorantes da real condição humana, torna-se, ironicamente, um elemento perturbador da própria satisfação humana, dificultando que o homem consiga ultrapassar o estado de barbárie em que ainda se encontra. Porque, muitas vezes, aquilo que se chama felicidade implica a desgraça e a assim chamada infelicidade de outro ou de muitos outros seres humanos. Justifica-se qualquer ato bárbaro pela busca de um estado inexistente e absurdo de satisfação absoluta, que se denomina felicidade.