TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DA INEXISTÊNCIA DA FELICIDADE



(Os primeiros brasileiros - Museu Nacional)


Felicidade. Outra abstração que o platonismo deixou como herança da busca pela essência das coisas. Há toda uma mística envolvendo a ideia de felicidade, como se isso fosse algo que se devesse alcançar, uma meta colocada à frente do homem, geralmente muito à frente. Como quase todas as demais categorias abstratas da metafísica, essa também é um embuste à condição do homem. A filosofia e as religiões sempre pregaram a busca da felicidade. Mais recentemente, a psicologia entrou na guerra. Então, decreta-se: o homem, o ser humano, nasceu para ser feliz. Como uma missão a cuja renúncia compromete a própria existência. Por isso, um dos temas que mais preocupou o ser humano, a partir de um determinado momento da civilização, tem sido a felicidade. Então, pergunta-se: o homem pré-histórico também tinha essa preocupação? A resposta é muito simples: não, o homem primitivo não tinha essa preocupação, porque simplesmente ele gastava a vida vivendo. Como de resto todos os demais seres vivos da natureza. Só o homem moderno, isto é, o homem filosófico, que inventou as categorias abstratas da metafísica, possui preocupações que ultrapassam a existência. Pois é isto: preocupações que ultrapassam a existência. Esse o mal do homem filosófico. Busca sarna para se coçar. E, com isso, esquece a vida e se esquece de viver. O homem não nasceu para ser feliz, porque, simplesmente não existe algo que se possa denominar felicidade. O homem nasceu para viver e, durante a vida, satisfazer suas necessidades. A busca da felicidade é um valor burguês, inventado para levar o homem à busca de satisfações que ele não tem: consumo e emoções abundantes, isto é, além de sua capacidade de absorção. O estado natural do homem é a satisfação: quando algo desagradável ocorre, ficamos aborrecidos, entristecidos, podemos até desejar a morte, e muitos se suicidam. Não é a infelicidade que leva alguém ao suicídio, mas a insatisfação com situações específicas da vida, que comprometem nossa relação com o mundo. Bombardeado, no entanto, pela metafísica busca da felicidade, a frustração transforma-se em problema insolúvel e o obstáculo intransponível joga o desesperado na vala dos inadaptados, dos que não conseguem atingir o objetivo por que o homem existe e, então, só lhe resta renunciar àquilo que é o seu bem mais precioso – a vida – tendo como causa um outro estado absurdo, o de infelicidade. Porque, assim como não existe a felicidade, também não existe a infelicidade. A relação harmônica do homem com o mundo que o rodeia traz a sensação de prazer de viver e continuar vivendo. No entanto, a vida não é constituída apenas de relações harmônicas: ela exige do homem o vigor de enfrentamento, isto é, a vontade de viver para continuar vivendo, a vontade de ultrapassar os obstáculos que são inerentes à vida, para buscar novo estado de satisfação, através da acomodação dos aspectos negativos que possam trazer estados depressivos. E isso só se consegue com a compreensão de que a vida é o bem mais precioso e de que não há a menor possibilidade de compensações futuras para a perda da vida.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

O AMOR METAFÍSICO E A BARBÁRIE




(Caravaggio - amor vincit omnia)


Desde que se decretou a busca da essência das coisas, o homem tem inventado categorias abstratas e acreditado nelas. Não que não existam certas categorias de abstração, isso seria impossível. Falo, no entanto, de verdadeiras entidades abstratas, tratadas como seres descolados da realidade. Por exemplo, o amor. Ninguém nega a existência do amor: parece algo que está acima de qualquer possibilidade de não existência. Está enraizado na mente humana de tal modo, que é usado como remédio universal para todas as mazelas humanas, placebo receitado para todo e qualquer momento da vida, como se o próprio homem dele dependesse. Qualquer pregador, qualquer falso profeta, qualquer idiota, enfim, todos, insistem e persistem na idéia de que é o amor o sentimento máximo do ser humano. Não estou falando, aqui, da categoria amor em relação à atração de um ser humano por outro, ou seja, o chamado amor individualizado, a afeição que une pessoas dentro de uma comunidade restrita, na codependência da vida diária, não importando se há componente sexual ou simplesmente afetivo. Refiro-me à grande categoria incrustada em expressões “só o amor constrói”, “amai a deus”, “amor ao próximo” etc., em que predomina a ideologia cristã de que é possível a existência de um amor absoluto, independente do objeto. Ao descolar o ato de amar do objeto, ou seja, chegar a estado de contemplação absoluta do ato de amar, o homem se idiotiza numa concepção de mundo etérea e abstrata, fora da realidade cotidiana, em que os atos de aproximação entre os seres humanos nada têm a ver com essa idealização metafísica do amor a qualquer preço, como se fosse possível, por exemplo, que a natureza tivesse atos de amor à matéria de que ela é feita. Não, positivamente, esse amor universal, estranho amor que leva facilmente ao ódio, não contempla a natureza. É absolutamente antinatural. O amor química, que se resume na aceitação do objeto amado específico, como entre dois seres que se aproximam e convivem entre si, por necessidades sociais ou porque foram gerados ou geraram outros seres, não guarda nenhuma relação com a idealização cristã de amor ao próximo. Não há que se amar a natureza, porque a natureza não tem amor. Não há que se amar ao próximo, porque o próximo não tem amor como nós pensamos que ele teria e ele pensa que nós temos. A antinaturalidade desse amor sem objeto definido está flagrante em todos os atos de vandalismo, de destruição e de assassinatos que o homem comete contra a natureza e contra si mesmo. Há que se buscar antídotos a essa concepção metafísica e absurda na idéia de respeito, de necessidade de convivência com forças contrárias, para que o homem sobreviva a si mesmo e a seus atos de barbárie.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CONTRA TODAS AS METAFÍSICAS




(Bosch - adorating)



Barbárie. Uma mulher depõe na televisão que o pastor havia insistido em que ela pagasse o carnê de gideão para seu filho, mas ela não o fez e o filho sofreu um acidente e perdeu as duas pernas. Um pai põe para fora de casa a filha que se perdeu, ou seja, entregou-se ao namorado. O marido espanca a mulher porque bebeu demais. Filha mata pai e mãe, porque eles não concordavam com o seu namoro com um marginalzinho qualquer. Nas favelas da cidade do Rio de Janeiro, o tráfico impõe suas leis e mata repórter que fazia matéria sobre o seu poder. No Iraque, diariamente, os terroristas explodem bombas presas em seu corpo e matam, ferem e mutilam dezenas de pessoas. Isso porque um presidente americano destruiu a nação iraquiana para depor o tirano que governava o país com mão de ferro. Os exemplos vão do mais simples ato de racismo até as mais cruéis guerras de extermínio. E são todos exemplos de barbárie do homem contra o homem. Assim está a humanidade, neste começo do século XXI. Mata-se, tortura-se, fere-se, humilha-se com a mesma desfaçatez de alguns milhares de anos atrás. A evolução humana no quesito barbárie ainda está no começo. A ética que prevalece ainda é a da força bruta, da bestialidade. As concepções filosóficas e religiosas, sejam ocidentais ou orientais, continuam pregando a paz, o amor entre os homens, a compaixão, mas o homem permanece o mesmo e, às vezes, tem-se a impressão de que piora a sua capacidade de destruir a si mesmo e a seu semelhante. Porque são éticas inúteis, não correspondem à realidade, não contribuíram em nada para a evolução humana, com suas metafísicas ordinárias, com seus deuses sanguinários, com suas prédicas que condenam ao fogo eterno aqueles que não comungam com suas cartilhas absurdas e estúpidas. Não há que ter complacência com esse tipo de filosofia. Não há que ter complacência com essas religiões idiotas e idiotizantes. Qualquer tentativa de aceitar como positivas tais crenças só faz perpetuar o estado de barbárie em que vive o homem sob o domínio das forças metafísicas que valorizam a morte e pregam a vida além-túmulo como solução para as mazelas e os tormentos do homem. São todas as metafísicas um mal que precisa ser combatido até ser erradicado da mente do homem, embora se saiba que tal tarefa seja quase impossível. No entanto, assim como começaram do nada as inúteis buscas da essência dos seres, é necessário que se comece também a buscar a exata noção do valor da vida, para que o materialismo ateu e objetivo, crítico e lógico, venha a estabelecer o seu império no pensamento humano. Essa a utopia a que volto sempre, porque é preciso repeti-la sempre, à exaustão, como o fizeram os religiosos que construíram ao longo do tempo um edifício que é difícil, sim, de ser explodido, mas que não é impossível de ser lentamente demolido por uma posição radical contra todas as metafísicas.



terça-feira, 12 de outubro de 2010

NECESSIDADE DA ARTE


(Vincent Castiglia - Feeding)




O homem não é o pináculo da evolução. Deverá haver um além-do-homem, um ser mais complexo do que hoje somos. E mesmo esse ser não será o fim, a não ser que todo o universo entre em colapso e desapareça para ressurgir em novas formas de evolução. Porém, a compreensão da morte levará o homem a respeitar a vida, sob pena de destruir a si mesmo. E, em qualquer etapa evolutiva, o homem precisará da arte para se humanizar e se compreender. Sem ela, prevalecerá sempre a barbárie.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

HUMANIZAÇÃO PELA ARTE



(Artemisia Gentileschi - self portrait)





A capacidade de criação humaniza o homem. Mas não o livra da barbárie. O instinto animal, de defesa e ataque, de sobrevivência, de lutar e matar, continua presente no código genético do homem. Modificá-lo levará ainda muito tempo. Enquanto isso, pode-se minimizar esse instinto através da arte. Só a arte pode conduzir o homem para a compreensão maior do que é o ser humano. Porque o homem só compreende a si mesmo quando refletido no espelho da arte. Espelho onde se registram todas as notas da sinfonia complexa da existência. O pouco de vida que o homem percebe deve-se à criação dos artistas de todas as épocas, esses seres de olhares perdidos no horizonte de si mesmos, obcecados pela idéias demiúrgicas de busca de valores onde ainda há apenas esboços de ética. Quando o homem obtiver a verdadeira ética do respeito a si mesmo, ao outro e à natureza, não precisará mais da ética e os artistas talvez até rareiem ou desapareçam do convívio humano, mas terão cumprido a mais sublime missão que é inculcar na mente do homem que é preciso eliminar os valores niilistas e negativos de vontade de morte ou de guerra. Mas a inexistência do artista num mundo utópico de paz e harmonia não significa sua expulsão do paraíso: apenas creio que todos os homens se tornarão capazes da criação artística e não precisarão de profetas ou intérpretes para sentimentos e pensamentos que não mais se voltarão contra eles mesmos. No entanto, essa visão é, como já disse, utópica. A perfeição não parece pertencer à espécie humana, nem à natureza.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

A ARTE



(Almeida Jr. - descanso do modelo 1)



Os iluministas chegaram à conclusão de que a arte reflete a natureza. Sobre isso, muito já se falou. Contra ou a favor. Aprendi e ensinei sempre que, ao elaborar uma ficção (e, por extensão, qualquer outra forma de arte), construímos um mundo suprarreal, paralelo à realidade, com leis próprias e coerência interna. Esse mundo suprarreal é um espelho do mundo real, um espelho liso e claro ou rugoso e fosco ou, ainda, deformado por convexidades e concavidades ou por multiplicidade de faces, mas sempre um reflexo através do qual iniciamos a nossa busca pela identidade humana. Nele refletimos o que sabemos do homem, o que gostaríamos que o homem fosse ou criticamos aquilo que vemos no homem. Ou, até, mesmo, descobrimos ou tentamos descobrir o que o homem é. Nesse mundo, podemos tudo. Só não podemos contrariar suas leis internas de coerência e coesão. A arte, pois, reflete a natureza, sob uma óptica muito especial do artista, contemplando e buscando regiões obscuras ou pouco conhecidas do homem. O artista torna-se, assim criador e demiurgo de sua criação. Mesmo que, às vezes, não tenha plena consciência disso.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

EXISTO, LOGO PENSO



(Georges Mazilu)



“Penso, logo existo”. A essa máxima, chegou Descartes por caminhos tortuosos. Ficou. Não há como refutá-la usando o mesmo raciocínio, apesar de eivada de metafísica. Mas a existência humana não está condicionada ao pensamento. Aliás, não existe o pensamento como entidade abstrata, como dádiva ou dom da natureza. O cartesianismo obscurece. Talvez devêssemos plagiá-lo e dizer: existo, logo penso. A existência precede o pensamento e não o contrário. O homem criado pela divindade sente inevitável vontade de se considerar o rei da criação. Por isso, pensa para existir. A arrogância humana só é comparável à arrogância de seus deuses. Uma é reflexo da outra, não importa a ordem. O pensamento é fruto de ligações químicas e elétricas processadas dentro de um organismo vivo, o mais perfeito da natureza, o cérebro. Isso, sim, é incontestável, dentro dos conhecimentos científicos até agora alcançados. Se o cérebro humano processa a linguagem, é porque desenvolveu áreas específicas para isso. Com a linguagem, o cérebro humano se aperfeiçoou, num processo de troca entre a possibilidade de falar e a possibilidade de processar o que se fala. A capacidade de falar desenvolveu ao infinito a capacidade de imaginar. Nada ou muito pouco sabemos sobre o funcionamento das sinapses cerebrais dos animais ditos irracionais. Aliás, também muito pouco ou quase nada sabemos do funcionamento de nosso cérebro. Só o que podemos deduzir, com muita possibilidade de acerto, é que eles, os animais ditos irracionais, também pensam, raciocinam e deduzem. E possivelmente, também imaginam. Mas só o homem levou ao limite a capacidade de transmitir através da linguagem o que se passa em seu pensamento. Aves que falam, como o papagaio, têm limitada capacidade de construir novas frases com o vocabulário que adquirem porque ficam restritas à narração do mundo exterior, não conseguem articular frases que nos permitam chegar ao seu pensamento. Já o homem exterioriza o que ocorre em seu processo mental, o que lhe permite uma gama infinita de novas relações, lógicas ou não. Pensar é um exercício químico ou, no mínimo, um esforço das nossas sinapses cerebrais. Não pensamos para existir. Existimos para pensar e sonhar e imaginar e construir novos pensamentos que nos permitem entender melhor a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Embora ainda estejamos mergulhados na metafísica inútil de sábios que levaram ao limite a sua imaginação e têm, com isso, influenciado negativamente a humanidade, contribuindo para a perpetuação de superstições e irrealidades construídas sobre uma base metafísica de que a natureza e os objetos naturais têm uma “alma” ou uma “essência”. Na busca desta essência, temos perdido tempo precioso para a construção de uma verdadeira filosofia natural e materialista, libertadora das trevas do deísmo em que está mergulhado o homem, apesar de todos os avanços científicos.