TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O VÍCIO DE PENSAR EM DEUS




(Botero - autorretrato: primeira comunhão)


Perdida entre as páginas de algum livro antigo de minha biblioteca, lembro claramente, está uma folha de revista, amarelecida pelo tempo, provavelmente de 1960, quando ainda era muito jovem, em que há uma citação de um autor cujo nome será demais recordar agora, mas sua máxima me acompanhou a vida toda e está clara em minha mente: “Se Deus não existisse, os homens já O haveriam de ter criado, à força de pensar Nele”. Assim mesmo, com todas as maiúsculas de respeito. Passados tantos anos, essa frase, que me soava enigmática, tem, agora, um sentido bastante interessante. A idéia de deus ou de uma divindade acompanha o homem há tanto tempo, que o cérebro humano já se acostumou a pensar na sua existência, imposta desde os primeiros vagidos da criança, talvez, mesmo, desde a concepção, transmitida geneticamente, de geração a geração, e durante toda a vida intra-uterina. Há um vício, portanto. Um pensamento que parece grudado à mente do homem, ou da maioria dos homens. Como o vício do fumo. O organismo se acostuma ao tabaco e, depois, abandonar esse vício torna-se extremamente penoso. A única diferença é que o vício do fumo é um vício adquirido, enquanto o vício de pensar numa divindade é imposto como um dogma absoluto na mente humana, trabalhado depois através da repetição constante, a começar, por exemplo, no cristianismo, com o sacramento do batismo e, depois, com a educação da criança, estendendo-se, num cerco que beira a lavagem cerebral, a toda a sua vida. Em qualquer circunstância, em todos os momentos, não há quem não repita frases feitas de conteúdo deísta, como um “deus me livre” ou “deus te ajude” ou “vá com deus”. São inúmeras as vezes, durante apenas um dia de nossas vidas, que ouvimos, e às vezes até citamos, aforismos ligados à divindade, aparentemente repetidos de forma inocente e alheia à nossa vontade. São expressões que, de forma inconsciente, reforçam a ideia de deus em nossa cabeça: à força de pensar em deus, acabamos criando a criatura que achamos que nos criou. Como um vício. Um vício que não nos permite contemplar de forma isenta o mundo que nos cerca. Um vício que oblitera a nossa mente para outras possibilidades, muito mais humanas, de nos relacionar com as forças naturais a que estamos submetidos como seres que nascem, vivem e morrem como todos os demais seres vivos.



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