TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

domingo, 5 de setembro de 2010

O DESAFIO DO DISCURSO CÉTICO



(Barahona Possolo - Maria de Magdala)


O discurso cético. Esse o desafio. Criar crenças absurdas e superstições metafísicas é muito fácil. E, a partir dessas invenções, construir um sistema teosófico ou inventar teogonias, é um pulo bastante simples, basta um pouco de imaginação. E torna-se fácil, com o discurso metafísico, impressionar as mentes mais frágeis, para transformar em verdades as suas absurdas interpretações do mundo. Basta usar a lógica, a estupenda lógica dos socráticos, dos platônicos. E o mundo se ordena maravilhosamente na especulação de belos edifícios filosóficos. Tudo se explica. Tudo se encaixa. Na mentira mais deslavada. Na enganação espúria das pessoas que preferem acreditar em religiões, em superstições, em magias, do que simplesmente olhar ao redor de si e contemplar o movimento da natureza. Não há mistério, não há magia maior do que a própria vida a se desvelar ante os olhos de quem olha sem preguiça mental para os eventos que a natureza nos oferece. O vento é apenas o vento. Não traz em si nenhuma conotação espiritual de vingança nem age a mando de deuses estúpidos. A fera é apenas a fera. Defende sua prole e seu território com as forças que a natureza lhe deu. Não tem intenção de matar para cumprir qualquer tipo de desígnio superior ou inferior. Não há demônios na natureza. Nem santos, nem anjos, nem deuses. Não há entidades abstratas. Há apenas as leis simples e precisas que conhecemos e não aprendemos a reconhecer como o motor da vida. As abstrações foram plantadas na mente humana, por obra e graça dos metafísicos. E não adianta fornecer àquele que crê em superstições um discurso objetivo e sem dogmas, porque a crença obscurece todos os sentidos e impede que o crente enxergue, ouça e perceba (pelo tato ou pelo gosto ou pelo olfato). Seus sentidos ficam embotados. Aliás, não há discurso filosófico sem dogmas. Por isso, não há filosofia no ceticismo. Há apenas o discurso que apresenta uma visão de mundo, uma experiência, que cada um que o ler deve aproveitar ou não sua lição. Não há possibilidade lógica no ceticismo, porque a lógica é mãe de todos os fundamentalismos baseados na metafísica. Também não há apenas o experimentalismo que coloca o pensamento subordinado aos eventos. O pensamento cético caminha lado a lado com a experiência, transforma a experiência em idéias e idéias em experiências. E constrói o edifício da sua visão de mundo, especial e diferente em todos os sentidos do discurso lógico e filosófico. É um discurso voltado para o outro, para a natureza e para si mesmo como agente e paciente da ação da vida que transcorre, esta sim, com a simplicidade de suas lógicas e de seus meandros.



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