TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CONHECIMENTO E TECNOLOGIA







(Adedos - a day ends)




Muitas civilizações, como os gregos, os romanos, os maias e inúmeros outros povos em todo o planeta, já pagaram muito caro, com sua decadência social, econômica, militar e política, por não respeitarem a natureza. Felizmente, o homem ainda não havia conquistado tecnologia suficiente para que a destruição fosse total. Isso só aconteceu nos dois últimos séculos, o que torna a vida no planeta Terra extremamente frágil. Como seres que pensam, sonham e constroem, os homens deviam conquistar primeiro o conhecimento e depois a tecnologia. No entanto, como não há um plano pré-estabelecido de evolução e tudo acontece mais ou menos ao mesmo tempo, de forma aleatória, poucos foram os que adquiriram conhecimento e tecnologia e muitos os que detêm apenas a tecnologia. Com o conhecimento, somos capazes de observar a natureza e respeitá-la. Com a tecnologia, somos capazes de explorar essa natureza. Com conhecimento e tecnologia, respeitamos a natureza e exploramos suas potencialidades sem depredá-la. Mas só com a tecnologia, destruímos a casa em que moramos, comprometendo o nosso futuro. Os faraós, com a força de uma religião equivocada, ao obrigarem os egípcios a lhes construírem pirâmides para sua sobrevivência após a morte, drenaram as forças da nação e levaram-na à derrocada. Os maias comprometeram definitivamente sua civilização, quando não respeitaram as florestas e as sufocaram e sugaram com suas cidades voltadas para divindades alucinadas e predatórias. O homem ocidental moderno tem menos compromissos com as divindades loucas e sugadoras das forças de um povo, mas ainda assim tem arraigada em sua mente a noção absurda de sobrevivência num outro mundo, o que o torna arrogante e ignorante. Arrogante a ponto de, com a bênção de deus ou de deuses, erigir templos absurdos à tecnologia, esquecendo-se de que essa mesma tecnologia lhe possibilita conhecimentos fantásticos quanto às consequências de suas ações. Ignorante, por não saber como usar de forma racional e verdadeiramente ecológica todo o conhecimento acumulado desde o início da civilização e todo o conhecimento que a tecnologia lhe traz da observação de mundos distantes e, até mesmo, da prospecção do futuro. A idéia de deus, esse vício de que o homem precisa se livrar para conquistar definitivamente a liberdade de pensamento, constitui, ao fim e ao cabo, um empecilho para o próprio desenvolvimento humano. O homem tem de parar de pensar em deus e de inventar divindades, para pensar melhor em si mesmo. E poder sobreviver.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DEUS É UM VÍCIO NA CABEÇA DO HOMEM



(Velásquez - los borrachos)



Esquecemos, com o tal “milagre da criação divina”, que há um outro “milagre”, muito mais extraordinário que a criação: a longa e lenta evolução das forças da natureza, a construir de forma aleatória e através de experiências fantásticas uma trajetória que parte de um organismo unicelular (por sua vez fruto de forças evolutivas tremendas) para a construção de um animal que pensa, fala, sonha e se insere de forma às vezes atabalhoada num mais do que rico sistema vital, onde todas as forças da natureza se relacionam e dependem umas das outras. Não há desdouro em aceitar o nosso passado animal, porque não somos, dentro do raciocínio evolucionista, o último elo dessa corrente e também porque não sabemos o que seremos daqui a milhões de anos. Um milênio é como um segundo no grande painel do tempo que se conta em números tão fantásticos que nosso cérebro ainda tem dificuldades de compreender. O homem, com todo o seu potencial, com toda a sua inteligência, adquirida num lento processo que não ainda não terminou, é um ser imperfeito. A natureza tem feito inúmeras tentativas de aperfeiçoamento da nossa principal máquina, o cérebro, e por isso coexistem em todas as civilizações tanto os gênios quanto os imbecis. Também não há desdouro em reconhecer a existência dos imbecis, dos seres que, embora humanos, nasceram com muito poucos dotes de inteligência, ou ainda, aqueles que, embora com uma grande capacidade cerebral, apresentam falhas terríveis de caráter e pendem para o lado mais negro da humanidade, como certos líderes cujos nomes nem vou lembrar, para não cometer a injustiça de omitir vários outros nomes de tantos monstros que assombram a história humana. Não há preconceito ou rancor em aceitar a existência de seres extraordinários, tanto numa ponta quanto na outra. Os pouco dotados, os que chamei acima de imbecis (sem nenhuma conotação pejorativa, mas por falta de palavra mais apropriada), devem merecer nosso respeito, como resultado de combinações genéticas que ainda não controlamos nem sabemos se um dia controlaremos. Quanto aos que causam desgraças terríveis à humanidade, os loucos e megalomaníacos, assassinos e tarados em geral, são também fruto desses mesmos genes e a humanidade terá de aprender a se defender de seus atos. Não são, nem os gênios nem os loucos nem os “santos” nem os “demônios”, frutos da mente inescrutável de uma divindade, mas seres humanos, demasiado humanos, para recuperar o título de um livro de Nietzsche. Não é à toa que o deus que esses humanos criaram, à força de nele pensar, é um deus que tem, elevadas a várias potências, as mesmas qualidades humanas e mais algumas que consideramos supra-humanas. Um deus que é um vício na cabeça do homem. Quando nos livramos dele, a sensação é a mesma de um viciado que se livrou do fumo ou do ópio ou de qualquer outra droga: alívio e liberdade. Alívio por não se precisar mais prestar contas de nossas vidas, de nossos atos, a essa divindade terrível que tudo vê e que está pronto a nos punir com a perdição eterna. Liberdade para poder enxergar a vida e a natureza com olhos de compreensão e de humildade diante de sua capacidade de nos surpreender. Liberdade, principalmente, para traçar um destino mais sensato para o homem, sem as armadilhas das superstições que nos levam a crer em sobrevivência de uma alma que não necessita de corpo físico e, portanto, da natureza, para existir. Quando o homem se sobrepõe à natureza, ele se condena ao desaparecimento.



terça-feira, 14 de setembro de 2010

O VÍCIO DE PENSAR EM DEUS




(Botero - autorretrato: primeira comunhão)


Perdida entre as páginas de algum livro antigo de minha biblioteca, lembro claramente, está uma folha de revista, amarelecida pelo tempo, provavelmente de 1960, quando ainda era muito jovem, em que há uma citação de um autor cujo nome será demais recordar agora, mas sua máxima me acompanhou a vida toda e está clara em minha mente: “Se Deus não existisse, os homens já O haveriam de ter criado, à força de pensar Nele”. Assim mesmo, com todas as maiúsculas de respeito. Passados tantos anos, essa frase, que me soava enigmática, tem, agora, um sentido bastante interessante. A idéia de deus ou de uma divindade acompanha o homem há tanto tempo, que o cérebro humano já se acostumou a pensar na sua existência, imposta desde os primeiros vagidos da criança, talvez, mesmo, desde a concepção, transmitida geneticamente, de geração a geração, e durante toda a vida intra-uterina. Há um vício, portanto. Um pensamento que parece grudado à mente do homem, ou da maioria dos homens. Como o vício do fumo. O organismo se acostuma ao tabaco e, depois, abandonar esse vício torna-se extremamente penoso. A única diferença é que o vício do fumo é um vício adquirido, enquanto o vício de pensar numa divindade é imposto como um dogma absoluto na mente humana, trabalhado depois através da repetição constante, a começar, por exemplo, no cristianismo, com o sacramento do batismo e, depois, com a educação da criança, estendendo-se, num cerco que beira a lavagem cerebral, a toda a sua vida. Em qualquer circunstância, em todos os momentos, não há quem não repita frases feitas de conteúdo deísta, como um “deus me livre” ou “deus te ajude” ou “vá com deus”. São inúmeras as vezes, durante apenas um dia de nossas vidas, que ouvimos, e às vezes até citamos, aforismos ligados à divindade, aparentemente repetidos de forma inocente e alheia à nossa vontade. São expressões que, de forma inconsciente, reforçam a ideia de deus em nossa cabeça: à força de pensar em deus, acabamos criando a criatura que achamos que nos criou. Como um vício. Um vício que não nos permite contemplar de forma isenta o mundo que nos cerca. Um vício que oblitera a nossa mente para outras possibilidades, muito mais humanas, de nos relacionar com as forças naturais a que estamos submetidos como seres que nascem, vivem e morrem como todos os demais seres vivos.



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O TEATRO DOS METAFÍSICOS



(Adela Leibowitz - history of sin)


Na mente dos metafísicos está escrita a sua maldição: é preciso, sempre, complicar, para explicar. E não adianta mostrar, provar ou dizer que nunca, em nenhum lugar do mundo, em qualquer circunstância, algum mortal tenha visto, percebido ou tocado a essência de qualquer coisa. Nenhum laboratório, até hoje, nenhum telescópio, nenhum detector controlado pela ciência, conseguiram, até hoje, encontrar sequer algum vestígio da essência da matéria, a não-matéria, a alma ou espírito, como querem fazer crer os truques de prestidigitação a que se dedicam os chamados espiritualistas. Nenhum homem retornou do sono da morte, como escreveu Shakespeare, para, logo em seguida, fazer Hamlet conversar com o fantasma de seu pai. Porque, acima da contradição, o genial dramaturgo prezava a construção poética do drama, o teatro em sua forma ideal. A diferença é que Shakespeare utiliza o paradoxo no palco. Os espiritualistas, os metafísicos, os lógicos de plantão pretendem que o palco substitua a própria vida e são audazes nisso: constroem templos, organizam festas e cerimônias, entoam cânticos, celebram eventos nunca ocorridos, inventam outros que jamais poderiam ocorrer e, assim, montam seu espetáculo teatral sobre a própria vida, acima da natureza, ocultando do espectador iludido com suas pompas a verdadeira natureza que permanece ali, atrás de toda aquela encenação, pronta a ser vista por quem tenha olhos de ver e de entender, sem dogmas, sem sectarismos.



terça-feira, 7 de setembro de 2010

DISCURSOS METAFÍSICOS SÃO PIRÂMIDES: BELOS E INÚTEIS




(Delaunay - the red tower)


A metafísica é antinatural e, por isso, criou produtos antinaturais, absurdos, embora atraentes e belos. São como as catedrais e as pirâmides, os discursos metafísicos: não servem para nada, a não ser para criar ilusões, sobre as quais navega a mente da maioria dos homens. A ilusão da vida, essa a finalidade precípua da metafísica. Os metafísicos odeiam a vida verdadeira, que não tem essência, não tem dificuldades e complexidades além das que a própria vida oferece, em seu existir e em suas leis. Para a metafísica, é necessário, primeiro, negar a vida, depois, reconstruí-la na mente das pessoas como uma pirâmide de cristal, embalada na lógica. E então, os cristos ressuscitam, os mortos falam, o inferno e o céu se povoam, as hagiografias se compõem, os milagres se realizam, os cofres das igrejas se enchem do ouro dos tolos, aquele mesmo que não tem valor algum. Porque o mundo de ilusão está criado, estabelecido e estratificado nas mentes que não ousam olhar para fora, para a vida, para a natureza e observar sem sectarismos como essa vida e essa natureza realmente se comportam, muito distantes das metafísicas inúteis e enganadoras. Então, ao discurso cético só resta o caminho do testemunho, da análise serena e objetiva do mundo e da transformação dessa análise em filosofia do cotidiano, o que, às vezes ou quase sempre, parece pobre para as mentes “esclarecidas” dos metafísicos, sempre preocupados em buscar de cada objeto a sua “essência”, esquecidos, em suas elucubrações imbecis, de que a natureza é apenas aquilo que ela é, sem nenhuma “essência” espiritual além da matéria atômica de que é composta.



domingo, 5 de setembro de 2010

O DESAFIO DO DISCURSO CÉTICO



(Barahona Possolo - Maria de Magdala)


O discurso cético. Esse o desafio. Criar crenças absurdas e superstições metafísicas é muito fácil. E, a partir dessas invenções, construir um sistema teosófico ou inventar teogonias, é um pulo bastante simples, basta um pouco de imaginação. E torna-se fácil, com o discurso metafísico, impressionar as mentes mais frágeis, para transformar em verdades as suas absurdas interpretações do mundo. Basta usar a lógica, a estupenda lógica dos socráticos, dos platônicos. E o mundo se ordena maravilhosamente na especulação de belos edifícios filosóficos. Tudo se explica. Tudo se encaixa. Na mentira mais deslavada. Na enganação espúria das pessoas que preferem acreditar em religiões, em superstições, em magias, do que simplesmente olhar ao redor de si e contemplar o movimento da natureza. Não há mistério, não há magia maior do que a própria vida a se desvelar ante os olhos de quem olha sem preguiça mental para os eventos que a natureza nos oferece. O vento é apenas o vento. Não traz em si nenhuma conotação espiritual de vingança nem age a mando de deuses estúpidos. A fera é apenas a fera. Defende sua prole e seu território com as forças que a natureza lhe deu. Não tem intenção de matar para cumprir qualquer tipo de desígnio superior ou inferior. Não há demônios na natureza. Nem santos, nem anjos, nem deuses. Não há entidades abstratas. Há apenas as leis simples e precisas que conhecemos e não aprendemos a reconhecer como o motor da vida. As abstrações foram plantadas na mente humana, por obra e graça dos metafísicos. E não adianta fornecer àquele que crê em superstições um discurso objetivo e sem dogmas, porque a crença obscurece todos os sentidos e impede que o crente enxergue, ouça e perceba (pelo tato ou pelo gosto ou pelo olfato). Seus sentidos ficam embotados. Aliás, não há discurso filosófico sem dogmas. Por isso, não há filosofia no ceticismo. Há apenas o discurso que apresenta uma visão de mundo, uma experiência, que cada um que o ler deve aproveitar ou não sua lição. Não há possibilidade lógica no ceticismo, porque a lógica é mãe de todos os fundamentalismos baseados na metafísica. Também não há apenas o experimentalismo que coloca o pensamento subordinado aos eventos. O pensamento cético caminha lado a lado com a experiência, transforma a experiência em idéias e idéias em experiências. E constrói o edifício da sua visão de mundo, especial e diferente em todos os sentidos do discurso lógico e filosófico. É um discurso voltado para o outro, para a natureza e para si mesmo como agente e paciente da ação da vida que transcorre, esta sim, com a simplicidade de suas lógicas e de seus meandros.



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TECNOLOGIA E CONSUMISMO



(Adela Leibowitz - ghost town)



Por paradoxal que possa parecer, somente a tecnologia pode nos salvar. Desde que usada com conhecimento. Porque é isto o que acontece: temos tecnologia e sabemos disseminá-la, mas não sabemos fazê-la acompanhar-se daquilo que lhe deu origem – o conhecimento. O homem é um animal hábil. Só isso. Não é, em essência, um animal sábio. Se fosse sábio, não se condenaria à extinção, ao usar a tecnologia apenas para destruir a casa onde mora. Assim, só o conhecimento, a sabedoria, poderá tirar o homem da enrascada em que se meteu. No entanto, conhecimento não é algo que se distribui facilmente. Como convencer o pobre diabo faminto de que não deve pescar durante certas épocas do ano? Como convencer o sem-teto a não invadir a área de manancial, porque estará degradando as fontes e destruindo o futuro? Não há futuro para quem tem fome. O imediatismo da miséria conspurca qualquer possibilidade de futuro. Então, o conhecimento, a sabedoria, deve ser usado, primeiro, para resolver questões econômicas de curto prazo. Vencer a miséria torna-se uma das metas a ser cumprida, para reverter a degradação de nosso planeta. Mas há a outra ponta da encrenca: o consumismo. Também é preciso convencer milhões a consumirem só o indispensável, a cortar o supérfluo, a desperdiçar menos e olhar mais para o futuro. Outra tarefa tão difícil quanto combater a miséria. Então, temos dois lados de uma mesma moeda, com o capitalismo selvagem fazendo a liga entre o mundo consumista e o mundo miserável, constituindo ambos o cerne de um dos problemas mais complexos da humanidade, a preservação de sua existência, a construção de seu futuro. Para combater a miséria, temos o conhecimento e nos falta vontade política, pois implica buscar soluções como distribuição de renda, criação de empregos, controle da natalidade, combate às doenças etc. Para combater o consumismo, não temos nenhuma tecnologia, a não ser o uso da razão, do convencimento simplesmente, mas diante das pressões econômicas dos capitalistas, isso se torna uma tarefa tão inútil quanto enxugar gelo. Ficamos, então, num beco quase sem saída. O grito dos ecologistas e o desespero dos cientistas a alertar para o desastre iminente precisam ganhar as manchetes dos meios de comunicação. A sirene do alarme deve ter seu ruído aumentado ao infinito, para que o mundo desperte da letargia do consumo desmesurado e busque o equilíbrio entre homem e natureza, para interromper o processo acelerado de destruição que a tecnologia possibilitou. Nunca se destruiu tanto em tão pouco tempo, com tão poucos recursos. Esse o preço que estamos pagando por uma tecnologia barateada pelo consumismo, usada sem o devido conhecimento, sem a devida sabedoria. Até quando vamos elevar a base e a atura dessa pirâmide chamada consumismo? Só uma grande catástrofe, talvez, possa acordar o homem. Infelizmente. E essa catástrofe está logo ali, a poucos anos a nossa frente, a nos espreitar com seus olhos silentes e sombrios. Só nos resta torcer para que, num determinado momento, os que têm sensibilidade para perceber o que está acontecendo possam ser ouvidos e, então, os povos comecem a cobrar de seus dirigentes a responsabilidade pelo equilíbrio do grande ecossistema em que vivemos. E tomem as providências necessárias, antes da grande catástrofe ecológica que nos espera. É preciso que paremos de queimar a vela da vida pelas duas pontas.