TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A GRANDE PIRÂMIDE DO CONSUMISMO



(Bruegel - torre de babel)



A civilização egípcia construiu pirâmides para seus faraós. Monumentos imensos e perfeitos, que necessitaram de recursos formidáveis, para o nada, para a morte, para o engrandecimento de uma casta mínima de dirigentes. O culto à morte condenou todo um povo, toda uma civilização, ao desaparecimento, pelo esgotamento de suas reservas na construção de monumentos inúteis. As pirâmides, por mais fantásticas que as consideremos, são as obras mais fúteis já construídas pelo engenho humano. Não serviram para nada e não servem, hoje, para nada, a não ser para atrair turistas com suas máquinas fotográficas de último tipo e manter uma indústria mais ou menos próspera de antiguidades. Ao longo da história, o homem construiu e continua construindo pirâmides, adaptadas à ideologia e ao deus de cada época, chamadas ali de catedrais, mais adiante de palácios, mas todos esses monumentos maravilhosos, de pedra e materiais nobres, desafiadores da capacidade humana de criar coisas belas, todos eles monumentos à inutilidade. A grande pirâmide dos nossos tempos – iniciada a sua construção a partir da revolução industrial – não tem paredes de pedra, não tem existência visível, mas demonstra muito mais capacidade de esgotamento das reservas do planeta do que qualquer outro monumento já erguido pelo homem em todos os tempos. Denomina-se consumismo. Chamo-a de catedral da absorção. Tem a boca de milhões de demônios famintos e os olhos de milhões de voçorocas a devorar as riquezas da terra, simplesmente pelo prazer de possuir seus tesouros, transformados em tantos bens inúteis, em tantas tralhas sem finalidade, em tantas geringonças a atravancar os lixões, que não somos mais capazes de controlar sua produção em série. Escravos dos subempregos que gera, abrutalhados pelo círculo vicioso do produto que gera uma necessidade que gera um produto, não percebemos, escondidos atrás das fumaças das fábricas, que estamos comendo por dentro o nosso planeta, vorazes bichos da fruta a matar a mãe que nos alimenta. Usamos e desperdiçamos recursos preciosos sem nos dar conta de que essa pirâmide infernal cresce a cada dia e esgota nossa capacidade de construir e preservar, esquecidos de que a Terra não é fonte perene de energia, de vida, de recursos. Não aprendemos com os povos que desapareceram que não podemos usar sem repor os recursos que parecem, à primeira vista, abundantes. Degradamos num simples piscar de olhos ecossistemas que levaram séculos para se desenvolver. Transformamos montanhas em lixo em poucos anos. Trituramos florestas imensas em poucos meses de exploração predatória. E com todos esses e outros recursos, queimamos vida, vida que não se repõe ou, se o faz, levará séculos ou milênios, quando, talvez, já não haja mais tempo para o homem. Tudo isso é fruto da estupidez humana. Ou, pelo menos, da maioria absoluta da humanidade. Não há racionalismo nenhum nessa autofagia desenfreada em que se meteu a humanidade, desde a sua existência, exacerbada agora pela tecnologia.



sábado, 28 de agosto de 2010

BARBÁRIE ECOLÓGIA



(Bruegel - o triunfo da morte)




Dominar a Terra. Ser o seu dono absoluto e sobreviver. Missão do homem. Não do homem atual, mas de um ser humano mais inteligente. O que vemos hoje constitui um estado de barbárie. Há cérebros extremamente lúcidos quanto aos problemas ambientais, trabalhando para que se ultrapasse esse estado de barbárie. Mas são minoria. Os interesses políticos e econômicos falam mais alto. E a estupidez da maioria faz o resto. Não há justificativa, além da estupidez, para a degradação do ambiente. Estamos, literalmente, cuspindo no prato em que comemos. Na verdade, cagando. Porque a sujeira dos rios, por exemplo, com dejetos humanos e industriais, só pode ser coisa de gente muito estúpida. A água, causa e consequência da existência de vida, torna-se, a cada dia, mais rara no planeta. A água potável transformar-se-á, se providências urgentes não forem tomadas, em verdadeiro pesadelo para a existência dos seres humanos neste planeta. Regiões de mananciais são tomadas pela especulação imobiliária, fruto da ganância, inviabilizando a captação de água para milhões de pessoas, sem que ninguém tome providências. Justifica-se a inoperância com o problema social, pois são, em geral, pessoas de baixa renda os invasores dessas regiões, incentivados pelo imediatismo de grileiros acobertados por interesses políticos. No entanto, coloca-se em risco a sobrevivência e o futuro de uma cidade como São Paulo, de dez milhões de habitantes, por causa de cinco ou dez mil invasores, que deviam ser retirados, nem que fosse a poder de polícia, para regiões onde não pudessem comprometer a própria vida e a de seus descendentes. Está-se dando um tiro no pé da civilização. Pobreza não pode justificar a burrice. E a burrice, nesse caso, não é dos pobres, mas daqueles que se aproveitam deles para tirar vantagens eleitoreiras. E não é só a degradação de rios e represas por esgoto humano e industrial que preocupa. Há também a terrível poluição provocada por mercúrio e outros produtos tóxicos provindos da atividade mineradora, da exploração descontrolada de rios importantes em busca de metais e pedras preciosas, também aí uma exploração resultante da ganância e da estupidez humana. A indústria de joias, essa fonte de vaidade estúpida, que cria maravilhas de arte e beleza infernais, para enfeitar o corpo de homens e mulheres, contribui decisivamente para a degradação do planeta, num canto de sereia que pode custar muito caro ao homem do futuro. Também o uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras, além de levar veneno para a mesa das pessoas, polui a terra e as águas, contaminando os rios e os aquíferos, matando a fauna e a flora, inviabilizando o uso da água subterrânea ao torná-la imprópria para uso humano. Também os mares e oceanos não escapam da fúria destruidora do homem, porque além de despejar nas águas marítimas a sujeira que vem dos rios e dos esgotos, acidentes com grandes petroleiros e perfurações em águas profundas sujeitas a vazamentos que despejam no mar milhões de litros de óleo ocasionam danos quase permanentes à fauna e à flora, sem que os governos tomem providências enérgicas contra as grandes companhias petrolíferas, que mandam e desmandam no mundo, refém de seu poderio econômico. E a poluição das águas é só um dos grandes problemas de degradação ambiental a que assistimos nesse início de milênio. Há outros, tão ou mais graves, como o desmatamento incontrolável das florestas em todo o globo, sob a responsabilidade de madeireiras que só visam ao lucro imediato, sob os olhos complacentes e, às vezes, até mesmo a contribuição de governos, polícia e judiciário corruptos; a poluição do ar com componentes cada vez mais tóxicos provenientes das grandes indústrias do mundo inteiro, principalmente dos países mais desenvolvidos, que despejam milhões de metros cúbicos de poluentes na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global, cujas consequências catastróficas podem se tornar apocalípticas para a humanidade; a pesca predatória, sem nenhuma preocupação com o ritmo da natureza, feita por grandes companhias donas de imensos navios pesqueiros que utilizam técnicas que não só capturam as espécies que lhes interessam mas também arrasam com toda a fauna marinha em quilômetros, sabendo que podem circular livremente por todos os oceanos, sem serem perturbados, porque confiam no seu poder para corromper e tornar reféns desse poder nações inteiras; a exploração sem controle das reservas naturais de petróleo e outras riquezas, esgotando em poucos anos o que deveria constituir em patrimônio da humanidade, sem investir em busca de energias alternativas que possam impedir uma catástrofe mais do que anunciada. Enfim, o homem torna-se cada dia mais refém de sua própria estupidez. Estupidez alimentada pela ganância do lucro imediato, pela especulação em torno da vida, sem pensar que o ganho de hoje pode ser a tragédia do futuro. A isso eu chamo barbárie, uma das tantas que acomete a humanidade, que é capaz de criar tecnologias fantásticas e não é capaz de pensar com o cérebro privilegiado que tem uma solução imediata que torne viável a vida humana de um futuro não muito distante, porque, diante do grau de avanço cada vez mais rápido da degradação, não haverá mais vida neste planeta dentro de cinco ou seis séculos, ou seja, a humanidade não comemorará o quarto milênio.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

O FUTURO COMEÇA AGORA



(Adela Leibowitz - assembly)


O desaparecimento de um planeta como o nosso, na ordem universal, não passaria de um acontecimento extremamente inexpressivo. Somente nós, que somos parte desse planeta, na nossa pequenez, é que nos achamos importantes. Se pudéssemos juntar toda a areia que há em nosso planeta numa só praia, a Terra seria menos que um minúsculo grão. Praticamente nada sabemos do Universo que nos cerca. E, possivelmente, nunca saberemos. Pensar sobre isso pode conter uma dose de pessimismo que muitos não devem tolerar, mas é a única forma de nos colocar frente ao problema de nosso próprio destino. Temos a capacidade de escolher o caminho. Isso é fato. Não é fato que façamos a escolha correta. Por isso, é preciso levantar vozes de alerta contra a destruição do ambiente em que vivemos, contra a corrida armamentista, contra o desenvolvimento brutal da capacidade de destruição que a humanidade vem acumulando. O pacifismo e os movimentos ecológicos não são criação da mente de poetas e sonhadores, de utópicos e covardes que, simplesmente não gostam de armas ou de guerras, ou que não desejam a exploração das riquezas da Terra, mas constituem, mesmo em suas formas mais exageradas de manifestação, um alerta precioso quanto ao mundo que queremos deixar para as gerações futuras, ou, até mesmo, se vamos deixar alguma coisa para as gerações futuras. E o futuro não se planta no futuro, tem que começar já, agora, no preciso momento em que estamos. Ações globais e planos nacionais de combate à poluição e à degradação do ambiente devem ser adotados por cada um dos indivíduos conscientes desse planeta. Caso contrário, não saberemos nunca o caminho da evolução da mente primitiva do homem, não teremos, na realidade, saído das cavernas, apenas construímos cavernas tecnologicamente mais avançadas, com luz elétrica, água corrente e ar condicionado. Mas cavernas, apenas cavernas.



domingo, 22 de agosto de 2010

O CÉREBRO HUMANO



(Mia Makila)


Falamos, às vezes, da mente primitiva do homem das cavernas, por exemplo. Por falta de melhor palavra, até aceito o adjetivo. No entanto, não nos esqueçamos de que a nossa mente também ainda é muito primitiva. Ou seja, a evolução não dá saltos. Não tem pressa. Não acontece de uma hora para outra. Entre nós e nossos antepassados, o tempo é muito pequeno, em termos cosmológicos. Estamos ainda engatinhando, no processo evolutivo natural. Somos bebês a ensaiar os primeiros passos. Nosso cérebro – como já disse algures, uma fantástica usina – ainda deve ter muito a evoluir, ou seja, a modificar-se, a transformar-se, principalmente quando sabemos que, conscientemente, só usamos uma pequena parcela dessa usina para criar todo um complexo civilizacional sem precedentes até agora. Mas as diferenças entre os cérebros, no homem hodierno, embora sejam um assunto tabu, ainda constituem um mistério da natureza. Enquanto há cientistas cujos cérebros têm a capacidade de imaginar, criar e projetar máquinas fantásticas, como naves especiais comandadas por sofisticados computadores, ainda há milhões de seres humanos vivendo na mais sórdida ignorância de aspectos vitais, como a noção da própria existência independente de deuses. Mesmo os cérebros privilegiados para tarefas extremamente complexas manifestam total inadaptabilidade a aspectos comezinhos da existência, como se houvesse um grau tão grande de especialização de uma área cerebral que não permitisse o desenvolvimento de outras sinapses senão aquelas para as quais a mente se especializou. Ou seja, há sábios idiotas. O problema é que não há idiotas sábios. Os poucos que assim poderiam ser denominados foram sempre indivíduos portadores de síndromes tão estranhas quanto desenvolver capacidades únicas e levar essa capacidade a um grau tão grande de especialização, que se comprometem todas as demais funções cerebrais ditas e aceitas como normais. Não tem nenhuma serventia prática a capacidade de um cérebro de fazer cálculos matemáticos sofisticados, por exemplo, e o homem portador desse cérebro possuir um alto grau de esquizofrenia que o impede da convivência com outros seres humanos. O estereótipo do cientista louco tem, como todo mito, alguma base de verdade. As inteligências diferenciadas, geralmente, têm falhas estruturais nos demais mecanismos cerebrais que os tornam inadaptados para outras funções. Assim, por serem indivíduos diferentes, os cientistas acabam sendo taxados de loucos. São compensações que a natureza faz, em suas experiências, dotando uma área cerebral de maior capacidade em detrimento de outras. São aspectos interessantes a serem compreendidos, futuramente. Aspectos que permitem que especulemos sobre os rumos da evolução, embora toda especulação nesse campo tenha altíssima possibilidade de erro. No entanto, se até agora algumas dessas experiências não têm dado muito certo, criando alguns dinossauros invertidos, isto é, indivíduos com altíssima capacidade cerebral e pouca adaptabilidade aos demais aspetos da vida prática, nada nos impede de pensar que, em algum momento da cadeia evolutiva, essas experiências comecem a encontrar um equilíbrio que permita desenvolver um novo tipo humano, dotado de capacidades cerebrais desenvolvidas de forma mais equilibrada, um homem mais inteligente e, ao mesmo tempo, sem as síndromes de inadaptação que muitos de nossos chamados gênios sofreram, ao longo da história. No entanto, são especulações que não podem ser confrontadas com a realidade, porque são modificações tão sutis, no longo rio da evolução, que não temos, ainda, como medir e avaliar o que realmente está acontecendo. Além disso, não há, verdadeiramente, em termos de evolução, um único rio que conduza a humanidade a um destino único, mas inúmeros rios que caminham para destinos diferentes, com diferentes tamanhos e com obstáculos também diversos, de tal modo que o homem, ao mesmo tempo, seja considerado uma espécie única, tem inúmeros afluentes e corredeiras e quedas. Muitos desses rios se transformam em riachos, em fios d’água, e desaparecem no meio do caminho, enquanto outros podem tomar rumos completamente inusitados. Porque a lei da natureza é experimentar sempre, ao acaso. Só os mais adaptados tendem a permanecer. Mas também aí só o acaso pode determinar que isso de fato aconteça. Uma espécie pode desaparecer em virtude de mudanças dramáticas do ambiente, ou por escolhas infelizes no caminho da vida. E o homem é uma espécie que tem alta capacidade de escolha. Se optar por um caminho errôneo, pode comprometer sua sobrevivência no universo.



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

OS CARBUNCOS



(Mia Makila - horror art)




Pensar dialeticamente constitui uma interessante ferramenta para tentar entender a existência. Mas, pode também conduzir a armadilhas simples. Somos levados, por exemplo, a raciocinar que, se há uma “existência”, deve haver uma “não-existência”, ou seja, acabamos contrapondo o ser ao nada. Criamos, então, uma categoria, ou seja o que for, um ente, chamado nada. E o que é o nada? Debruçaram-se os filósofos sobre a questão, desafiaram-se em busca da explicação para o nada, à exaustão. Muitos neurônios queimados depois e alguns séculos de busca não redundaram em absolutamente nada. Ou seja, só existe o nada quando os filósofos discorrem sobre ele. É um ente inventado, que só existe na linguagem, na abstração da linguagem. Posso, com a linguagem, inventar o que eu quiser. Por exemplo, os carbuncos. São um povo originário do planeta Arguidelo, aqui trazidos por um desastre de sua nave espacial, que ia em direção a uma outra galáxia e sofreu uma pane, tendo a desgraça de cair justo no planeta Terra. Estabeleceram-se, há milhares de anos, na ilha de Chipangó, e ali permaneceram. São homúnculos de orelhas redondas, única característica que os distingue dos demais humanos, além da tendência à pouca altura, embora não sejam anões. Vivem da terra e seu principal alimento foi trazido de seu planeta de origem: é uma raiz muito saborosa e rica em nutrientes, chamada naiperê. Os carbuncos não são muito sociáveis e, por isso, permaneceram isolados até há pouco tempo. Com o contato com a civilização humana, estão-se descaracterizando e entraram em processo de extinção. Pronto: aí está um povo que pode interessar a muitos estudiosos. Pode-se objetar: mas o carbuncos não existem. Ora, claro que existem: acabei de inventá-los. Assim também o nada: existe a partir do momento em que o inventaram. E mais não digo sobre isso, porque muita tinta já se gastou para tentar chegar ao conceito do nada, para justificar a criação do mundo, a existência de deus (outro nada) e para justificar mil e uma bobagens da crença metafísica de que há um mundo das ideias, um mundo ideal, abstrato, que se contrapõe ao mundo físico. Como se, com o mundo físico, já não tivéssemos problemas demais para resolver, em todos os campos do conhecimento humano. Não conheço um único ser humano que se tenha beneficiado realmente com a propalada existência desse mundo ideal ou com a concepção filosófica do nada, a não ser os pobres filósofos da imponderabilidade, melífluos seres em permanente estado de flutuação mental pelas paisagens do mundo, ou seja, os metafísicos. E gostei tanto dessa última frase, que gostaria que ela fosse realmente a última desse parágrafo, mas acabei de estragar isso, ao fazer tal comentário.



quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SEM TRANSCENDENTALISMOS




(Almeida Jr. - Leitura)




Não é preciso, para admirar uma obra de arte, que eu busque uma tal “beleza” oculta ou transcendente. Basta que essa obra toque os meus sentidos e me provoque uma sensação de reconhecimento, de harmonia com as forças da natureza e com meus sentidos, para que eu a declare “bela”, sem nenhum sentimento de algo além do que ela é realmente. Não preciso buscar “a” beleza, por que isso é uma categoria abstrata, criada apenas para tentar iludir nossos sentidos e fazer com que não interpretemos corretamente o conhecimento que nos chega através dos sentidos. Ainda há um longo caminho a nossa frente. Não entendemos tudo e talvez tão cedo venhamos a entender. Mas abdicar desse conhecimento em nome da metafísica imbecil, da busca de um “ente” por trás de cada objeto, tem mantido o homem nas trevas da ignorância e presa fácil dos prestidigitadores deístas de plantão, ávidos por manter sobre as mentes humanas o poder que conquistaram com suas falácias, a partir de abstrações absurdas de nossos antepassados. Não. O homem não precisa de metafísica alguma. Basta existir e gozar o que de belo e harmonioso chega a seus sentidos, vindos, o belo e o harmonioso (sem transcendências), do mundo em que vive. Um mundo de matéria e forças físicas em equilíbrio. Não esquecendo que é mais fácil descobrir as leis que regem o movimento dos planetas e dos astros do que entender o que ocorre dentro de nosso cérebro.



segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SEXTO SENTIDO




(Santiago Caruso)


Descobriu-se, por exemplo, que há uma área no cérebro que nos avisa de possíveis situações de perigo à nossa frente, a partir de informações e dados anteriormente vividos ou conhecidos através de várias fontes e armazenados ali, de forma inconsciente. A premonição, portanto, nada mais é que uma forma, provavelmente primitiva, de sobrevivência, que pode estar ou não mais ou menos ativada em cada indivíduo. Quando pensamos que temos um “sexto sentido”, abstrato, metafísico ou relacionado às condições da “alma” ou a avisos de além-túmulo, a ciência começa a nos explicar que tudo não passa de artimanhas do cérebro. Tudo o que sentimos, todas as nossas sensações, nossos “estados d’alma” nada mais são do que resultado da análise, na maior parte dos casos inconsciente, de conhecimentos advindos através de nossos órgãos sensoriais para o cérebro, devidamente armazenados e usados para nos proteger, ou proteger a vida. Estamos, nesse ponto, muito mais próximos dos animais do que poderíamos imaginar. Na vida selvagem, os animais necessitam, conforme o ambiente, ter sentidos extremamente aguçados. Um elefante asiático pode, por exemplo, sentir o perigo que vem de um terremoto que está ocorrendo há centenas de quilômetros pelas ondas que se propagam sob a terra até suas patas e avaliar o risco, colocando-o em alerta para fugir. Provavelmente, nós também deveríamos ter esse sentido aguçado. Mas a vida moderna fez que isso se tornasse desnecessário e baixamos nossa guarda. Desenvolvemos, no entanto, muito provavelmente, outras percepções inconscientes, como as situações de perigo resultantes, por exemplo, de um acidente de avião ou de carro. E temos nossas premonições, que ocorrem aleatoriamente nos indivíduos, muito provavelmente resultantes de um histórico de vida ou de conhecimento específico. Por isso, não serão todos os indivíduos que terão a tal premonição, tampouco haverá certeza de que ocorrerão sempre. Mas o importante, nisso tudo, é que a ciência começa a desvendar aspectos até então desconhecidos de uma pretensa “espiritualidade” que não passa de resultado de nossa vivência num mundo que nada tem de metafísico, pelo contrário, é extremamente materialista. E não há perda nesse reconhecimento. O homem não deixará de ser menos complexo, em sua capacidade e em seu existir, se não tiver a tal “espiritualidade” ou descobrir que não há “essência” ou “ente” além daquilo que os nossos sentidos e nossas descobertas nos revelam.



sábado, 14 de agosto de 2010

NEURÔNIOS E AMOR




(Picasso - Le baiser)


A metafísica. Sempre ela a cutucar meus neurônios. Os filósofos gregos compreenderam, até certo ponto, que há uma mecânica no universo. Mas não souberam interpretá-la, ou quiseram explicá-la com conhecimento da época que, embora, já enorme, não era suficiente para isso. Inventaram, então, que há uma “essência” das coisas. E que é preciso entender essa “essência”, para entender o universo. Abstraíram a natureza ou criaram abstrações para explicá-la. Por exemplo, o amor. É preciso entender a “essência” do amor, chegar à noção de perfeição e de identidade de um ser essencial com outro ser essencial, para se chegar à noção de amor. Ora, a ciência, hoje, ainda engatinhando no conhecimento de regiões obscuras do nosso cérebro, a mais sensacional obra da evolução dos seres, começa a descobrir que todos os nossos sentimentos estão localizados em alguma área de sinapses e dependem, basicamente, de uma química qualquer entre essas sinapses para que eles, os sentimentos, surjam. E o amor nada mais é do uma reação química de nosso cérebro, no reconhecimento do outro, provavelmente com a intenção de procriação e manutenção da espécie. No entanto, como a natureza não faz julgamentos morais, mas experiências, nada mais normal do que experimentar com a afinidade química entre dois indivíduos de mesmo sexo, o que faz nascer o amor homossexual, existente também entre outros animais que não os humanos. Nada há de anormal nisso, apenas uma possibilidade dentre outras que a natureza desenvolve, nos caminhos da evolução, para buscar indivíduos mais ou menos adaptados ao ambiente. Devemos ter em nossa árvore genética genes que indicam nossas opções e preferências sexuais, as quais são transmitidas ao cérebro, que irá apenas processar suas ligações e oferecer ao indivíduo o caminho de suas escolhas. São conhecimentos que começam a surgir a respeito dos sentimentos e das sensações, daquilo que ainda não sabemos explicar, mas que estão todos, esses conhecimentos, escondidos na máquina de processar dados que é o nosso cérebro.



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

SOMOS EXTREMAMENTE PRIMITIVOS



(Alma Tadema - spring)




Temos que nos conscientizar que nós, homens do século vinte e um, somos primitivos, extremamente primitivos. Nosso sistema de produção industrial é podre e antiecológico, poluidor e destruidor do ambiente em que vivemos. Nossos sistemas políticos são primários e absurdos, pois ainda confiamos nossas vidas a seres humanos desprezíveis, guerreiros de quinta categoria, bárbaros que ainda pensam resolver os dilemas do homem com bombas, sejam elas atômicas ou caseiras. Nossos sistemas sociais são excludentes e obsoletos na sua forma de distribuição das benesses da tecnologia. Enfim, nossa sociedade atual é podre em aprofundar desigualdades, em criar ilhas imensas de excluídos, em não conseguir erradicar a fome, a miséria e as doenças endêmicas do mundo. O que chamamos hoje de civilização é apenas um arremedo da capacidade do homem de produzir desgraças e está muito longe do que seja realmente uma civilização. Noções espúrias de raça, de religião, de sistemas políticos antidemocráticos aprofundam diferenças entre os povos, como se o diferente não fosse o elemento mais importante da sobrevivência humana. O ser humano ainda precisará passar por centenas, talvez milhares de guerras de extermínio, de lutas injustas, de perseguições uns aos outros até que consiga compreender que não é esse o caminho, que precisa reciclar todas as absurdas crenças até então desenvolvidas, jogar no lixo toda a metafísica acumulada em milênios de superstições e noções erradas sobre a natureza, para obter finalmente o equilíbrio necessário à construção de uma verdadeira civilização. Que inclui restabelecer o equilíbrio do homem com as forças que tornam nosso planeta um ser vivo e instável, com seus humores, com suas provocações em forma de acidentes naturais, que o homem cisma em querer domar ou desafiar. Por isso, não há necessidade de coerência naquilo que escrevo, nisto que insisto em repetir sobre a capacidade do homem do futuro em relação a este homem de um triste tempo de guerras, extermínios, miséria e doenças.



terça-feira, 10 de agosto de 2010

RIO DA EVOLUÇÃO



(René Magritte - L'embellie)


O homem, com todo o seu arcabouço intelectual, mental e fisiológico, gosta de pensar que é o elo supremo. Isso é outra besteira criacionista. Não há elos supremos. Há apenas elos. A corrente da evolução ainda vai surpreender deveras o homem. Nossos registros intelectuais são extremamente limitados, na corrente da existência. Se pensarmos que o universo tem como tempo de existência vinte e quatro horas, teríamos que dividir o segundo em milhões de subunidades para captar o instante em que o homem começou a se comunicar, depois desenvolveu a linguagem e, finalmente começou a registrar essa linguagem através da escrita. Portanto, nossa verdadeira história ocupa menos que um átimo no rio da vida. Quando, daqui a milênios, puderem os homens do futuro resgatar o que hoje estamos produzindo em termos de registro, muito possivelmente esse homem jogará tudo isso que fizemos até agora num único momento, chamado, talvez, nascimento do registro da comunicação humana, pois estamos, por incrível que isso nos possa parecer, apenas engatinhando nesse processo de comunicação escrita. Seremos considerados tão primitivos quanto consideramos primitivo o homem da caverna e suas pinturas rupestres. Porque o rio da evolução terá caminhado e, se quisermos uma medida do quanto ele caminhou, talvez, numa outra metáfora absurda, possamos imaginar que ele ultrapassou a cachoeira que está ali, a cinquenta metros de onde estamos hoje, num percurso de extensão amazônica. E não acho que esteja exagerando, pelo contrário, ainda estou sendo otimista.



domingo, 8 de agosto de 2010

TORTUOSOS CAMINHOS DA EVOLUÇÃO




(Rafal Oblinski - Mannon Pelleas et Meliande)




Não há coerência, necessariamente, nisto que eu escrevo. Há temas recorrentes aos quais acrescento novos fatos e novas indignações. É necessário, e ponto. A vida não é coerente. E sigo o caminho do meu raciocínio, por mais tortuoso e torturado que ele possa ser. Escrever é apenas um destino. Ou uma maldição. Mas também isso é superstição. Não corresponde à realidade. A verdade absoluta não existe, isso é ponto pacífico. Mas há a minha verdade que precisa ser comprovada, medida, verificada através do discurso, por mais confuso e circular que ele seja. Não há perfeição na natureza. Porque, quando houver perfeição, não haverá mais evolução. Não havendo evolução, haverá degeneração. E a vida deixará de existir. Existir é evoluir. E evoluir é existir. Essa a lei do universo. Uma lei cuja força ainda não compreendemos muito bem. Porque pensamos ainda metafisicamente. Achamos que há uma força que toca a evolução. Não. Não há força nenhuma. Há apenas as experiências e os tortuosos caminhos da mudança. Porque evoluir não é melhorar, mas apenas, mudar. Transformar e transformar-se, buscando formas e fôrmas que melhor se adaptem ao meio, que melhor se adaptem umas às outras ou ao simples destino de existir.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

CIÊNCIA E RELIGIÃO




(Felicien Rops - la tentation de saint antoine)




A conciliação entre religião e ciência é impossível. Onde há religião, pode até haver ciência, mas será sempre limitada pelo obscurantismo religioso. E onde há ciência, se se interpuserem conceitos religiosos, a ciência aborta, estiola ou não obtém progressos. Em termos conceituais, entretanto, a ciência se opõe à religião, pelo simples fato de que a religião é baseada na crença, na fé; e a ciência, em fatos. Fatos por fatos, não há provas da existência de deus, não há prova de que a fé possa ter algum poder sobre qualquer matéria ou, até mesmo, sobre o pensamento. A religião estupidifica o homem, enquanto a ciência torna-o mais sábio. A religião cria superstições, exclusões e divisões entre os homens. A ciência, embora não seja uma vestal, busca a verdade, somente a verdade. Não confundamos maus cientistas com ciência. Não há conceitos morais na ciência. Não existe maldade ou bondade, certo ou errado. Para a ciência, há apenas a verdade, o fato, a comprovação. Portanto, qualquer tentativa de buscar provas científicas de conceitos morais, filosóficos e, principalmente metafísicos, seve apenas para obscurecer a ciência e iludir os incautos. Não pode a religião estabelecer regras para a ciência, que isso é apenas vontade de alguns líderes religiosos de deter a evolução científica e manter o mundo na obscuridade de conceitos errôneos e absurdos. O papa ou o rabino ou o aiatolá ou quem quer seja que se autodenomine representante de qualquer crença, fé ou de um deus obtuso não podem e não deveriam ser ouvidos, quando se trata de ciência. Os objetivos de ambos são diametralmente opostos: a ciência busca a liberdade; a religião, como seu nome indica – religare, religar o homem a um deus – busca a escravização da mente humana a conceitos que apenas servem aos interesses mesquinhos de igrejas, seitas e associações semelhantes cujo único objetivo é manter o poder de uma casta que se denomina superior, os sacerdotes (seja de que credo for – são todos gatos no mesmo balaio, brigando entre si). Portanto, misturar ciência e religião é o que de pior podem fazer os homens de gênio, sejam eles um Einstein ou um Galileu.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

FILOSOFIA DO RESPEITO




(Ray Caesar)


Não gostaria de falar sobre os abusos cometidos contra as mulheres por culturas que ainda estão subjugadas por conceitos obtusos de poder e de demonização da mulher, mantendo hábitos tão bárbaros quanto a deformação genital praticada, sob inspiração religiosa e cultural, por certas etnias orientais e africanas. Esse tipo de ato, por mais estúpido que seja e, portanto, merecedor de todo o nosso repúdio, representa, infelizmente, apenas uma ponta do grande iceberg de violência e agressões que a irracionalidade humana tem cometido contra o próprio ser humano em toda a sua história. A mulher tem sido um elo fraco nessa corrente de violência. Mas, não é a única. O prazer sádico de subjugar, de torturar e matar tem sido uma constante em todas as civilizações. E esse traço bárbaro da índole humana dirige-se contra tudo e contra todos que se inferiorizam ou são inferiorizados pela brutalidade ou, ainda, contra todos que se interponham à sede de poder de certos grupos e indivíduos que se acham superiores aos demais. Desse traço bárbaro da índole humana, não escapam os mais fracos, sejam homens, mulheres, crianças ou jovens: todos acabam por sofrer nas garras dos mais poderosos, quando se desumanizam a ponto de não respeitarem mais a vida humana. Contra esse tipo de gente, contra esse tipo de atitude, é que é necessário acordar as consciências e dizer um basta. Mas, para isso, ainda há um caminho muito longo a percorrer. Um caminho que passa por obstáculos como superar conceitos arraigados à mente humana, como a metafísica (e toda a consequente série de filosofias que pregam a estupidez do espiritualismo) e a cultura da morte. Quando isso acontecer, os olhos dos homens e mulheres desse possível e desejado futuro poderão se voltar para o passado e compreender quão difícil terá sido a escalada da humanidade em busca de um racionalismo que tenha por princípio o respeito – do ser humano para consigo mesmo e do ser humano para com o ambiente em que vive.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

GUERRA DOS SEXOS




(Picasso - the embrace)




O mundo do século XXI ainda é dividido por temas que estarão superados em alguns séculos. Um deles é a chamada guerra dos sexos. O machismo e o feminismo são categorias absurdas de exclusão e dominação. Não têm futuro. Mas ainda deverão permanecer por algum tempo. Porque não há um Homem, como não há uma Mulher. Há homens e mulheres que necessitam, biológica e culturalmente, um do outro. Se a dominação masculina é estúpida, agressiva e totalmente despropositada, o contrário também não tem sentido: as mulheres, com certeza, passarão um período, provavelmente curto, de domínio, como forma de compensação pelos séculos de predominância machista, mas logo perceberão a inutilidade de manter uma guerra que só existe em termos de mídia mal informada e de certos pseudo-filósofos da defesa de conceitos que devem ser superados. O que se pode dizer é que há diferenças, sim, entre homens e mulheres, mas são diferenças que se somam e não diferenças que se excluem. O feminismo, como o machismo, tem os seus dias contados, porque não há futuro em qualquer forma de predominância de um sexo sobre o outro. É claro que é necessário que as mulheres ascendam a posições de destaque e lutem para que a igualdade de direitos e deveres chegue a um ponto de equilíbrio. E, como disse, é provável que a balança, por algum tempo, penda para as mulheres, como forma de obter esse equilíbrio. Mas a busca por conquistas tecnológicas, por avanços da ciência, pela melhoria das condições sociais dos povos fará com que homens e mulheres caminhem juntos, sem traumas, porque não tem nem um pingo de lógica e de bom senso a supremacia sexual. Acomodar as diferenças entre homens e mulheres será um passo largo da humanidade em busca do racionalismo, uma ponte natural para superar a estupidez e a barbárie.