TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sábado, 31 de julho de 2010

FUTURO



(Tichard Dadd - como unto these yellow sands)


É claro que há mentes e cérebros privilegiados, que levaram a ideia de humanidade a altos pontos, mas esses indivíduos constituem-se em exceções que comprovam a regra. Por isso, a humanidade, se quiser sobreviver aos milênios que se seguem, deverá começar, dentro de muito pouco tempo, em até quinhentos anos, eu creio, a relacionar-se de forma mais sadia com o ambiente, com a Terra, tomando medidas drásticas para preservar e conservar as formas de vida e de sobrevivência, as fontes de água, as terras agricultáveis, o ar, as florestas, os animais, enfim, cuidar para que a deterioração não torne inviável a vida humana num planeta que tem um equilíbrio muito delicado. Também o controle populacional deverá obedecer a critérios que ajudem a manter estável o número de pessoas a viver sobre a Terra. Com a possibilidade de aumento da vida, populações mais velhas e sadias deverão predominar. E isso se constituirá em problema sério, se não houver um planejamento adequado que permita a essas populações estenderem sua contribuição à economia na mesma proporção do ganho de vida e de saúde. Talvez a entrada no mercado de trabalho se dê um pouco mais tarde, com o prolongamento do tempo de preparação. Enfim, são temas para economistas e governos, para cientistas sociais e cientistas em geral. O que não se pode deixar de fazer é controlar o crescimento populacional. E, depois, um pouco adiante, com certeza, com o avanço da genética, a eugenia se tornará uma prática essencial para a superação da miséria e da ignorância. Não há dúvida de que, apesar de todo o aparato metafísico de religiões retrógradas, a necessidade de escolher no momento da concepção os genes mais saudáveis falará mais alto. O mundo do futuro não poderá ser um mundo de seres que não tenham condição de sobrevivência por si mesmos. A evolução é um sistema de sobrevivência dos melhores, a partir de centenas de milhares de experiências mal sucedidas. O homem do futuro terá condições de estabelecer critérios rígidos de concepção a fim de evitar infelicidades e desgraças, com o nascimento de seres inadaptados, dando, com isso, uma força para a evolução. Mas, para se chegar a tal ponto, o conceito de raça deverá estar completamente superado. De forma a que não existam mais brancos, negros, pardos, amarelos, etc. mas apenas a raça humana, de características extremamente variadas, fruto natural da miscigenação, porém sadia e apropriadamente constituída para adaptar-se o melhor possível ao ambiente em que vive, sem agredi-lo. Essa é mais uma utopia? Não creio. Porque não há muitas outras saídas para o ser humano, enquanto habitar o planeta Terra. Não há fascismo nem nazismo nisso, porque não são ideologias, mas caminhos que a racionalidade humana, aí sim, já mais desenvolvida, descobrirá para garantir a sobrevivência da espécie. Depois, muito depois, espalhar para outros planetas o germe da vida aqui iniciada. E, quem sabe, encontrar semelhantes na imensidão do universo, feito possível, mas não provável.



quinta-feira, 29 de julho de 2010

ARROGÂNCIA DO HOMO SAPIENS



(João Ruas - Enkidu & Gilgamesh)


A arrogância do homo sapiens fez com que ele se julgasse ou se julgue o rei da criação. Primeiro, não há rei nenhum na natureza. Segundo, também não há criação, mas evolução. E o homem é apenas um elemento na escala evolutiva. Proviemos da fantástica concorrência de milhões de fatores evolutivos até chegar a um cérebro e a um corpo com as características que temos hoje. Mas o nosso cérebro não é o único que pensa. Quando se diz racional, o homem se julga o único capaz de fazer relações sinápticas que levem ao abstrato. No entanto, nada há que comprove que os animais, mesmos os de constituição mais simples, não pensem, não estabeleçam relações de causa e efeito, por exemplo e não tenham memória disso. Se aceitamos a evolução como um fato científico, não há por que duvidar que nosso cérebro seja o produto da modificação de milhões de antecedentes e da evolução de um modelo que começou a dar certo. Portanto, dizer que são irracionais os animais que constituem experiências da natureza no seu processo evolutivo não parece o correto. Está mais para ignorância ou arrogância de nosso pensamento. Mais ainda: o conceito de racionalidade ainda está muito longe de chegar a um consenso. O que é racionalidade? Se formos pela origem da palavra, a ligação com “razão”, com aspectos lógicos de raciocínio, não teremos por que nos considerarmos racionais. Ou melhor, somos muito pouco racionais. Convivemos com a magia e a praticamos em larga escala. Isso é racional? Acreditamos em vida após a morte e em deuses que nos criaram. Isso é racional? Matamos indiscriminadamente, seja através de guerras, seja através de atos isolados. Isso é racional? Pregamos a paz e fazemos a guerra. Pregamos o amor e praticamos o ódio. Isso é racional? Achamos que os animais são irracionais, mas os nossos atos de barbárie estão em tal escala de violência, que nenhum animal é capaz de chegar. Eles, os animais, matam como um ato de sobrevivência – para alimentar-se ou defender-se. Já o homem mata sem nenhum motivo. Definitivamente, o homem é tudo, menos sapiens. Menos racional.


terça-feira, 27 de julho de 2010

CAMINHO PARA A PAZ



(Aaron Board)




O caminho para a paz será longo e tenebroso. Muitas guerras e morticínios, muitas revoluções e genocídios pavimentarão a estrada para um mundo melhor. Há e continuará havendo muito fascismo e muito nazismo entre os homens, muito preconceito e ideias de exclusão, antes que se alcance um patamar de evolução que se permita dizer que a barbárie começou a ser vencida. O homem mata por prazer de matar. A cultura da morte está arraigada no inconsciente humano. Enquanto essa cultura não for desmontada, a barbárie não será vencida. Pensa-se que o pacifismo é coisa de maricas, de fracos, mas é justamente o oposto. O pacifismo é a grande saída para a humanidade e só pode ser defendido por indivíduos realmente fortes, por homens que confiam em si e na possibilidade de, um dia, o homem deixar de ser estúpido e aprender que a paz é a única saída. O trogloditas de plantão, guerreiros por natureza, escondem-se em todos os cantos da política e da sociedade. São eles os primeiros em quase tudo, por seu instinto de vencer a qualquer custo. Acabam conquistando as mentes mais fracas que os elegem para cargos importantes e, até mesmo, para presidir nações poderosas. Está lá, na presidência dos Estados Unidos, o senhor George W. Bush, um dos mais ilustres representantes dos trogloditas. Está lá, brandindo o seu tacape contra tudo e contra todos. E assim o mundo caminha, para a desgraça, para dias de sangue e dor. Os fascistas e nazistas também estão esperando sua vez. Talvez ainda dêem muito trabalho. Porque sabem iludir, sabem argumentar e são fortes, daquela força bruta característica dos trogloditas, que atraem multidões infantilizadas em busca da proteção num pseudo-pai, num falso líder que promete exatamente o que o populacho quer ouvir, mas nunca cumprem o que prometeram, porque nutrem um profundo desprezo pelo povo. São incapazes de entender sutilezas, porque seu raciocínio primário está dominado pela idéia da força bruta. Podem, até, mostrar-se sensíveis a apelos ou a aspectos menos duros da vida, mas isso apenas como máscara para atingir seus objetivos sanguinários. Acreditam que proteção se obtém com o uso da maior força possível. São aqueles indivíduos que prometem uma guerra para acabar com as guerras, que prometem a mãe de todas as bombas para acabar com todas as bombas, e acabam por provocar uma escalada de violência sem fim. Atacam outras nações com a desculpa da defesa. Burlam as leis ou fazem aprovar leis que beneficiem suas idéias apenas para provar que são mais capazes de matar do que qualquer antecessor. Praticam a corrida histórica de matança em nome da paz e ainda se julgam injustiçados. O homem ainda vai conviver muito tempo com esse tipo de gente. Porque há ainda muitos que pensam como eles. Que têm, na boca, o gosto de sangue.



domingo, 11 de julho de 2010

AS GRANDES INVENÇÕES DO HOMEM




(De Chirico - la comedia e la tragedia)



As grandes invenções do homem: a linguagem, as artes, a ciência, a tecnologia, a filosofia, as festas e os jogos. A linguagem é, com certeza, a invenção máxima do homem, por ter proporcionado a transmissão de um saber de um indivíduo para outro (linguagem oral) e, suprema capacidade, de uma geração a outras (linguagem escrita). Por artes, entendem-se a literatura e a poesia, a escultura, a música, a dança, o teatro (dramaturgia), a pintura (artes plásticas em geral). A ciência tem em seu fantástico escopo tirar o homem da ignorância e fazê-lo compreender e domar as forças da natureza. A tecnologia permite ao homem criar meios fantásticos de sobrevivência e de elevação, desde a invenção das primeiras ferramentas rudimentares até a invenção do computador e de outras máquinas. A filosofia pode ser, ao mesmo tempo, a diferenciação entre o entendimento do mundo e a ignorância completa do destino do ser humano. Faca de dois gumes, pode iluminar os caminhos do homem ou jogá-lo na ignorância através da metafísica. As festas elevam o moral, traduzem sentimentos, alegram a mente e fazem do homem um ser mais cordial. Já os jogos despertam a inteligência e aprimoram o físico. Com essas invenções, o homem se distingue no processo evolutivo e ganha capacidade para entender o universo onde vive. No entanto, o uso dessas capacidades tem-se revelado restrita a poucos seres, num processo seletivo bastante perverso, por causa de forças poderosas como o desejo de domínio, de poder, de alguns humanos sobre outros. A escravidão ainda não foi abolida do convívio humano. E não falo apenas da escravidão da força braçal, do trabalhador, mas da escravidão intelectual de forças retrógradas sobre o verdadeiro progresso humano. Os que dominam, os governantes, são em geral não os mais sábios, mas os mais conservadores em termos de pensamento, os mais ignorantes em termos de conhecimento, os mais retrógrados em termos de comportamento. A falta de escrúpulos que os leva a mentir, a tergiversar, a retorcer a realidade segundo seus propósitos torna-os poderosos manipuladores que impedem que forças progressistas assumam o controle e decretem a verdadeira liberdade do homem. Os que verdadeiramente possuem um amplo entendimento da vida, do universo e das forças que os conduzem tornam-se marginais ou perseguidos pelos estúpidos e ignorantes seguidores de cultos e religiões obtusas, de crenças absurdas e, faltos de uma verdadeira visão de futuro, obliteram o progresso com suas crendices passadistas. Quando vemos o criacionismo deísta tomar vulto, em pleno século vinte e um, numa nação como os Estados Unidos da América, só podemos interpretar tal fato como o início de um novo período de retrocesso, como outros tantos já havidos na história do homem. A obtusidade de um homem, no caso George W. Bush, presidente dessa nação, só pode trazer desespero a quem interpreta o mundo com olhos um pouco mais abertos. Não é preciso ser gênio para perceber em que enrascada se mete o destino da humanidade, quando um povo, o atual mais poderoso da Terra, dá a esse indivíduo a batuta que faz mover as forças mais retrógradas e conservadoras para dominar o mundo e jogá-lo nas trevas do deísmo fundamentalista mais perigoso e nojento que o homem já inventou. São momentos como esse, da história do homem, que fazem com que surjam pensamentos mais brilhantes para não deixar morrer o ideal de um mundo menos opaco, menos obtuso e mais voltado aos verdadeiros interesses da civilização. Quando se estagna o processo cultural e educacional de um povo, com a retomada metafísica de forças conservadoras, o homem de ciência, o artista, o visionário e os cérebros mais privilegiados precisam recolher-se por algum tempo, tomar fôlego e voltar ao difícil caminho da tentativa de consolidação de ideais de conhecimento, de respeito à vida e à natureza, de construção de um futuro baseado em premissas mais sólidas que a metafísica e o deísmo estúpidos e estupidificadores. Não é uma tarefa fácil, mas o homem sempre sobrevive às catástrofes da existência de homens como Carlos Magno, Napoleão, Hitler e tantos e tantos outros que ousam colocar acima de quaisquer elementos racionais seus desejos de conquista através do sangue derramado em batalhas estúpidas. Bush e seu império passarão como todos os outros passaram. E virão muitos ainda, no futuro, até que a razão se implante definitivamente na mente do homem. E as grandes invenções que o homem adquiriu através dos tempos se tornem verdadeiramente o farol e a alegria de uma nova humanidade, mais justa e mais capacitada para desenvolver um projeto de futuro em que as regras de convivência permitam pensar que a humanidade poderá, enfim, ter chegado a um ponto de sonhar com sua sobrevivência no universo.



sexta-feira, 9 de julho de 2010

A FÉ EMBRUTECE O HOMEM




(Barahona Possolo)




Quantos ateus há no mundo? Já vi estatísticas que dizem que 5% da população mundial não tem religião. Mas acredito que os ateus convictos não cheguem a 2%. Portanto, a influência do pensamento ateu sobre o mundo é mínima. Todavia, ouvem-se frequentemente líderes religiosos afirmar que o mundo está ficando materialista, que o homem só pensa em acumular bens e não se preocupa com valores espirituais, que o homem está-se afastando de deus, e outras bobagens mais. Ora, se noventa e cinco por cento das pessoas se dizem religiosas, como é isso possível? Os dois por cento de ateus não teriam representatividade para impor qualquer tipo de valor materialista ou para levar a humanidade ao afastamento de deus ou de quem quer que seja. Há aí o discurso apocalíptico de sempre: dizer que o homem está-se tornando materialista é sempre uma forma mais do que tradicional de amedrontar e ameaçar para mais e mais arrecadar dinheiro e outros bens para as religiões que esses indivíduos representam. Também é uma forma de roubar, literalmente, crentes de outras religiões. Pregar o fim dos tempos é sempre uma maneira de atormentar os intelectos mais susceptíveis, porque trabalha com um terror humano mais do que implantado em sua mente através dos séculos: a falta de fé e a perdição da alma para o demônio ou para qualquer outra força oculta que represente o mal. Aprofunda-se, assim, o maniqueísmo e conquistam-se as mentes fracas para o trabalho de convencimento, ou seja, quanto mais pessoas acreditarem nas bobagens salvacionistas, mais adeptos eles conquistam, numa espécie de histeria coletiva ou de convencimento pela quantidade. Não há saída para esse tipo de gente: eles se apegam a um conceito extremamente subjetivo e sumamente forte – a fé. Quando se pede a um indivíduo de razoável percepção intelectual que ele dê provas, por exemplo, da existência de deus, inapelavelmente ele nos remete à fé. Sem esse conceito nenhuma religião subsiste. Porque a fé remove montanhas e embrutece o intelecto do homem, tornando-o presa fácil das abstrações e absurdidades do edifício falsamente lógico das religiões. Nunca, em lugar algum do mundo, pôde-se provar, por exemplo, que alguém se curou efetivamente só com o poder da fé. Mas há milhões de depoimentos sobre isso. É impossível argumentar que as pessoas acreditam no que querem acreditar, por força do pensamento, que não há possibilidade física de alguém se curar só pela fé, que os casos relatados estão eivados de vícios de interpretação, que a observação humana de certos fenômenos é falha e que um fato dessa magnitude nunca se repetiu em ambiente controlado, mas sempre em rincões inacessíveis e com pessoas profundamente envolvidas com a necessidade de acreditar. Então, todos acreditam porque o fato é repetido à exaustão e é corroborado pelos proxenetas da fé, sempre atentos, sempre de plantão, para colher e distorcer os fatos até que eles se transformem na verdade que eles querem. Nenhuma imagem de barro pode realizar prodígios, e esses de fato não acontecem. As multidões, no entanto, continuam peregrinando em torno dos templos ditos sagrados em busca de curas milagrosas que nunca vêm porque ainda não é a hora, ou porque não é vontade de deus ou porque a sua fé ainda não foi suficiente para tocar o coração desse deus tão injusto que escolhe a seu bel-prazer a quem aquinhoar com um milagrezinho que contente um único ser entre milhões e milhões que o procuram. Um verdadeiro contra-senso lógico que as pessoas não admitem, porque estão imbuídas de fé. Acham que não conseguiriam viver sem a tal presença de deus, que não conseguem conceber o mundo sem ele, como se o mundo todo dependesse de uma vontade única e tremendamente mal humorada e injusta, a ponto de punir milhões com doenças e outros males e salvar um em cada bilhão com a maior desenvoltura, sem dar satisfação a ninguém. Esse deus – seja ele de que religião, credo ou filosofia for – é sempre um deus que cumpre a rotina de manipular a vida humana segundo a sua vontade, mas nunca faz com que um terremoto não dizime mais de duzentas mil vítimas inocentes ou que a vontade de um só homem leve a morte a milhões de outros seres humanos em nome de valores terríveis de supremacia de um povo sobre o outro. Um deus que cria um mundo de leis matemáticas e físicas complexíssimas e, ao mesmo tempo, tem esse mesmo mundo preso à sua vontade, pois os cristãos chegam a dizer que nem uma folha de árvore pode cair sem que deus queira. Ora, existe estupidez maior? Acreditar numa bobagem como essa é contrariar a mais elementar regra de lógica e de bom senso. No entanto é nisso que esses deístas acreditam e impõem como verdade absoluta à quase totalidade da população do globo. E depois querem colocar como culpa do desrespeito às suas impossíveis regras de comportamento o materialismo do homem, ou seja, querem despejar sobre as costas dos que não acreditam em suas baboseiras a situação por que passa a humanidade, na visão deles. Não percebem e não vão perceber nunca, esses imbecis, que eles mesmos criaram leis tão absurdas que a maioria de seus seguidores é hipócrita o suficiente para, diante do sacerdote ou do representante do deus, se comportar de um jeito e na vida real de outra maneira completamente diferente, com mesquinharias, ódios, apego aos chamados bens materiais e outras barbaridade mais, justificando seus crimes muitas vezes hediondos com a fé nesse deus patético e estúpido.



quarta-feira, 7 de julho de 2010

O UNIVERSO



(Pierre Loeb - azulejo)



O universo. Tema recorrente. Teorias afirmam que ele se expande. Então, pergunto: para onde? Se há expansão, é porque há espaço para expandir e, portanto, o universo está contido em um “espaço” maior do que ele. Como o universo tem bilhões e bilhões de anos luz de extensão, como imaginar que ele está contido em um espaço muito maior do que ele? Portanto, imaginar a origem do universo é um exercício que não cabe na imaginação do homem. Não saberemos nunca como tudo começou e como tudo vai acabar. Porque, simplesmente, não é possível, no cérebro limitado do homem, caber concepções ilimitadas, infinitas. É como tentar colocar numa casca de noz toda a água do oceano. Podemos levantar hipóteses, seguir pistas, chegar a conclusões bastante razoáveis, mas a verdade sobre a origem e a real extensão do universo nunca saberemos. Podemos supor que tudo o que existe tem uma origem e, se tem um começo, deve ter um fim. Só isso. Nada mais. Como e quando foi esse começo será para sempre uma incógnita, embora possamos chegar e elucubrações bastante satisfatórias para nossa mente finita. Porque, se a mente é finita, a imaginação pode suprir essa deficiência e criar o que o homem quiser. O espaço sideral tem um atrativo especial para a ciência e para a criação de mitos humanos. Seu estudo pode e deve trazer para a humanidade conhecimentos indispensáveis à sua sobrevivência neste ou em outro planeta e à expansão da vida para além do planeta Terra ou, até mesmo, para além do sistema solar. O homem, na minha tola pretensão, não está destinado a viver confinado neste minúsculo grão de areia onde hoje tentamos sobreviver. Mas isso são sonhos para tantos anos no futuro que, também nessa área, só nossa imaginação pode nos levar a supor formas de migração da vida da Terra para outros planetas. O conhecimento que pudermos acumular sobre o universo poderá nos fornecer ciência e tecnologia suficientes para que o homem e a vida que ele representa se espalhem para novos horizontes, antes que tudo termine e recomece na eterna expansão e retração do universo, como um eterno retorno das forças que o governam, a cada trilhões de trilhões de anos.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

ATOS DE EXTREMA ESTUPIDEZ




(Richard Dadd - master stroke)


Aqui, neste longo e, às vezes, absurdo desabafo, posso escrever e dizer o que eu quero, sem quaisquer temores de que me acusem disso ou daquilo. Não escrevo para ser julgado. Não aqui. Renego quaisquer rótulos que me queiram apor. Renego quaisquer idiotices que venham dizer de mim. Estou livre, nestas páginas loucas, para expor meu pensamento, por mais estranho ou anti-social que ele seja. Mas, vamos ao que interessa. O homem diante da natureza. Esse encontro tem sido complicado, na trajetória humana. O nosso planeta tem uma vida toda sua, particular, de humores que não se podem ignorar. Não é uma astro morto ou já pronto. Constrói-se e reconstrói-se continuamente, através de movimentos sísmicos, de vulcões, de tempestades. E tudo isso causa males aos demais seres vivos, homens, animais e plantas. A história do planeta é uma história de destruição e morte. Assim é e nada se pode fazer para mudar. Temos nós, seres ditos racionais, que nos acostumar ao humores de nosso planeta. Assim, eu sei que o rio sobe na cheia, eu sei que vulcões explodem de vez em quando, eu sei que a terra treme em determinados lugares. Eu sei e todos sabem. Não há mistérios, não há segredos. São fenômenos que se repetem há milhares, talvez milhões, de anos. No entanto, o homem – dito ser racional e, portanto, inteligente – continua tentando viver e sobreviver às margens do rio, em regiões sujeitas a terremotos e à sombra de vulcões. Ou então, nas encostas de morros, depois de devastar a vegetação que impede a terra de deslizar. E quando as desgraças acontecem – e elas sempre acontecem – há choro, ranger de dentes e cobrança das autoridades pela perda de vidas, geralmente de inocentes que pagam pela incúria e estupidez de seus pais. São pobres, sim, que, em geral vivem em situação precária, sem condições financeiras, mas são sobretudo muito estúpidos. Pobreza não pode ser sinônimo de estupidez, mas é o que geralmente ocorre. Sabem que não podem erguer barracos pendurados em morros, mas o fazem assim mesmo. Fico, então, imaginando quão longe está o homem de atingir a verdadeira racionalidade. Ou, ainda, fico pensando de onde tirou o homem essa capacidade de desafiar as forças da natureza com tanta persistência. Não há lógica que explique tal conduta. Não existem apenas morros onde fincar um barraco. Não existem só margens de rios e riachos onde espetar um casebre. Mas é sempre ali, na zona de maior risco que eles insistem em morar, em tentar viver e, na maioria dos casos, morrer. E eu fico pensando, a partir dessa estupidez, por que tem sido tão complicada a relação do homem com a natureza. Agimos como se não fizéssemos parte dela, como se nossa sobrevivência dependesse da destruição da natureza. E o exemplo, talvez um pouco radical, dessa estupidez de insistir em desafiar as forças da natureza, se estende também ao fato de outros seres humanos, por razões de estúpida ordem econômica, explorarem de forma predatória os recursos naturais. São milhares de minas de carvão, de ouro, de pedras preciosas, a abrirem sem nenhum critério extensas crateras, utilizando produtos altamente perniciosos tanto ao ambiente quanto ao homem, para produzirem uma riqueza duvidosa. São indústrias que poluem as águas ou cidades inteiras que despejam nos rios o esgoto que mata e destrói. São ocupações absurdas de regiões de mananciais que deviam ser preservadas e protegidas porque delas depende um bem essencial do homem, a água. Por que o homem suja a água, depreda o ambiente onde vive, destrói a natureza, vive em oposição às suas forças? Esse é um mistério que não entendo, a não ser como atos de extrema estupidez.



sábado, 3 de julho de 2010

O MAL E O BEM COMO CATEGORIAS ABSURDAS DA METAFÍSICA




(Santiago Caruso)


A vida é muito simples, quando não há metafísica nenhuma para complicá-la. Não se necessita de teogonias complexas para explicar por que nascemos, vivemos e morremos. A natureza já é, em si mesma, o milagre supremo: não há que se buscar em deuses obtusos a explicação de outros pretensos milagres. Aliás, quando usei a palavra milagre para me referir à natureza, cometi propositadamente um equívoco de linguagem, por ausência de uma palavra que melhor reflita o que eu penso. A natureza não é milagrosa, nem é em si mesma um milagre, porque simplesmente não há adjetivos para ela. A natureza é um substantivo que se basta por si mesmo. Qualquer penduricalho que se lhe aponha servirá apenas para obscurecer o pensamento. Portanto, vida e natureza são o que são e nada mais. Tentar metaforizar ou mitificar tais palavras nos levará fatalmente à mistificação do raciocínio e à criação de categorias metafísicas que nada explicam e só complicam o conceito. O “cogito, ergo sum” do homem que se acha a criatura suprema da natureza está revestido de uma imensa arrogância. Não conhecemos ainda uma milésima parte do mundo que nos rodeia e talvez nem isso da fisiologia do pensamento humano. Não sabemos que tipo de sabedoria se esconde nos cérebros dos demais seres vivos que habitam nosso minúsculo planeta. Provavelmente o pensamento desses seres revele conexões existenciais e de percepção da natureza de forma completamente diferente das que executamos com nossas vãs filosofias. O racionalismo pode não ser privilégio do homem. Tampouco podemos enveredar pelo caminho da linguagem para nos distinguirmos dos outros seres vivos, porque também não dominamos o nosso próprio mecanismo de comunicação. Não sabemos muito bem, ainda, como surgiu no homem a linguagem que hoje utilizamos. Como, então, saber que tipos de linguagem e de pensamentos se escondem nos movimentos aparentemente desconexos de uma formiga a caminho do formigueiro? Também elas, as formigas, pensam e, por isso, existem, ou existem e, por isso, pensam? É o que ocorre com o homem, provavelmente: existe, por isso pensa. E pensa muito, muito menos do que sua capacidade cerebral lhe permite. Temos uma ferramenta – o cérebro – cuja complexidade mal vislumbramos e ainda há muito que se desenvolver em termos de capacidade cerebral, para que possamos alcançar níveis mais elevados de compreensão da natureza que estão perdidos ao longo de nossa história. O instinto humano perdeu muito de sua capacidade durante o processo de evolução, mas nosso cérebro, provavelmente, guarda segredos que nos permitirão ou recuperar alguns desses instintos que nos permitam voltar a um estado de maior contato com a natureza ou evoluir para um outro tipo de compreensão que não nos permita realizar as bobagens que realizamos na relação com o mundo em que vivemos. A metafísica desviou o caminho do homem do físico, do real, da relação clara de causa e efeito da natureza, para concepções arrogantes de domínio ou de entrega a forças extra-humanas, deístas, como se não nos importassem os acontecimentos da natureza, porque há um deus a nos proteger. Por isso, lutamos contra a natureza, em vez de tomá-la como nossa aliada. Agredimos o ambiente em que vivemos em nome dessa arrogância de pensamento, dessa pretensão de seres supostamente superiores, acima do bem e do mal, categorias essas que também inventamos para justificar nossas bobagens. Não há bem ou mal. Não há bondade ou maldade. Há apenas ações que, nós, seres humanos, podemos julgar segundo parâmetros momentâneos em boas ou más, dentro da mais absoluta relatividade possível, se é que há uma relatividade absoluta. Quando falamos em maldade ou bondade, estamos no terreno da maldita metafísica. Os que criaram o pecado, os que criaram os deuses, os que inventaram mil e uma artimanhas para nos prender nas redes da metafísica, cuidaram também de envolver a natureza em seus conceitos e categorizaram a maldade e bondade como entes que coabitam com o mundo existente, uma abstração que interfere em todas as ações da natureza. Isso é uma arrematada estupidez. A bondade ou a maldade não estão ali na esquina a nos esperar, para nos aquinhoar com suas qualidades devidamente catalogadas, quando, incautos, tivermos que abandonar o aconchego de nossas casas. Não há maldade no lobo que ataca a sua “vítima”, há apenas o instinto de sobrevivência. Não há maldade na onda gigante que engole ilhas e praias cheias de turistas e mata mais de cento e cinquenta mil pessoas. Há apenas o fenômeno natural de deslocamento de placas tetônicas sub-oceânicas e não a mão de algum demiurgo a desejar vingança por pecados que não existem e, por isso, não poderiam ser cometidos. O homem também conserva instintos animalescos de sobrevivência. E o adjetivo “animalesco”, aqui, não tem nenhum conteúdo pejorativo. Está empregado no seu sentido mais estrito, referente apenas a animal em oposição a homem, para melhor entendimento. Por causa desses instintos, não de todo apagados da memória, agregados à sua herança genética, acrescidos de condições complexas do meio, o homem tem ações contrárias à natureza humana e, por isso, pode tornar-se ameaça a outro ser humano. A inteligência, aliada à força bruta, levou o homem primitivo a assassinar, quando ameaçado. E o gosto de sangue permaneceu nos meandros de nossa escala genética, aperfeiçoados por milhares e milhares de ações ameaçadoras entre famílias, entre tribos, entre conjuntos de tribos e, hoje, entre nações. A diferenciação física, naquilo que se costuma chamar erroneamente de “raça” deu mais um passo rumo à violência: não reconhecendo no outro a semelhança, acredita-se que é uma ameaça. E depois os usos e os costumes acrescentaram mais tempero à já complexa iguaria de barbáries com que nos banqueteamos ao longo da história. As concepções metafísicas e deístas acrescentaram ingredientes altamente explosivos. Por isso, hoje, as guerras sofisticadas com armas de destruição cada vez mais potentes, para matar em nome de crenças, de territórios, de noções abstratas de honra ou simplesmente porque colocamos no outro a maldade que nossa teogonia inventou e categorizou, esquecidos de que, nesse processo louco de destruição um do outro, estamos diante de um espelho que partimos cada vez que detonamos a casa do “inimigo”.