TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SALVAR A TERRA



(Emil Nolde - landscape)


A Terra é a joia rara do Universo. Talvez jamais consigamos encontrar na imensidão dos astros outro planeta com as mesmas ou semelhantes condições de vida que tem a Terra. Não podemos dizer que não possa existir outro planeta em que a vida tenha surgido e atingido estágios extraordinários de desenvolvimento, mas chegar a esse outro planeta será provavelmente uma tarefa impossível de ser concretizada pelo homem, porque as distâncias dentro do Universo são tão imensas, que nenhuma tecnologia logrará diminuí-las. E por ser um corpo tão especial, onde vicejou a vida e essa vida evoluiu para formas tão complexas como o homem, deve a Terra merecer desse homem todo o cuidado possível para que a vida mantenha o seu equilíbrio e não desapareça. Quando olhamos para fora e vemos o nosso planeta com os olhos limitados por horizontes e com o ponto de vista observador situado na própria Terra, podemos contemplar imensidões e recursos aparentemente ilimitados. Mas, se num esforço de imaginação e concentração, deslocássemos nosso ponto de vista para um astro distante, como por exemplo, o Sol, veríamos a Terra como um ovo frágil e delicado, passível de ser esmagado e desaparecer a qualquer oscilação cósmica. Na verdade, nenhuma das duas visões é inteiramente verdadeira nem inteiramente falsa. A joia desse Universo que não conhecemos tem, na verdade, um equilíbrio delicado na ordem das coisas, mas tem também uma grande capacidade de regeneração e sobrevivência em si mesma. Mas não são infinitos os seus recursos. O homem que, por ter atingido um alto grau de evolução, governa esse mundo e dispõe de seus recursos, tem também a capacidade de destruir, com sua incompetência quanto à visão de futuro, esse equilíbrio complexo que permitiu o surgimento da vida e permite sua evolução. Durante milhares de anos, o homem viveu com um certo equilíbrio em relação à natureza. Sua capacidade de predador mantinha-se limitada aos meios de que dispunha. Na era da tecnologia, no entanto, nesses dois últimos séculos, o homem multiplicou muitas vezes sua capacidade de exaurir da Terra os recursos que, antes, mantinham-se intocados ou semi-intocados, por falta de recursos para explorá-los, situação agravada pelo crescimento populacional que exige cada vez mais a descoberta de novos meios de sobrevivência. Assim, numa espiral inflacionária de aumento populacional e novas tecnologias, o equilíbrio pode-se romper e a Terra, exaurida em seu potencial de vida, tornar-se mais um corpo morto a girar inutilmente em torno do Sol. Só o homem pode matar a Terra e só o homem pode salvá-la. E o processo de salvação da Terra é uma tarefa complexa, que depende da vontade política de muitos dirigentes e de muitos povos. Não é uma tarefa impossível, mas se o homem não conseguir controlar o aumento populacional excessivo, a poluição ambiental e a exploração predatória dos recursos naturais, o futuro será de muitas dificuldades, se chegar a haver futuro. Não sou pessimista, mas tudo depende da capacidade humana de reduzir a ignorância e a estupidez, de ultrapassar a barbárie que ainda comanda as multidões humanas para que se chegue a um grau de conscientização que permita ao homem enxergar com objetividade o que acontece em sua casa e tomar providências sérias para o equilíbrio das forças da natureza e, consequentemente, para a sobrevivência da raça humana. Não há meios termos. Ou o homem supera a ignorância, o preconceito, as diferenças raciais, sociais, religiosas e culturais, ou naufraga com a exaustão da Terra. A união dos povos ainda é um sonho muito distante, mas só ela poderá salvar o planeta: não há outra saída para o futuro da humanidade. Unir-se ou perecer parece ser a lei final de salvação. A barbárie, o extermínio e a corrida pela conquista de um povo por outro caminham ao lado da explosão demográfica. Enquanto não houver controle rígido da população terrestre, para que ela se estabilize em níveis aceitáveis de crescimento dos meios de produção, o equilíbrio do planeta estará em perigo, porque não é possível fazer-se a união para a salvação enquanto houver ignorância, enquanto houver desníveis profundos do domínio das tecnologias mínimas de sobrevivência e do conhecimento ético de respeito e compreensão da realidade. As ilhas de conhecimento científico de ponta podem continuar sendo ilhas de excelência, mas não podem conviver com a estupidez profunda que reina nos grotões sem escola, sem comunicação com o restante do planeta e, principalmente, sem a percepção mais clara das relações mais sutis entre as várias sociedades, sem o princípio ético do respeito à vida e às diferenças. O que se pede não é uma uniformização de conhecimentos e culturas, mas a capacidade de aceitar visões de mundo diferentes e, ao mesmo tempo, tão comuns no desejo de preservação do ser humano. A imposição de cultura é uma forma de fascismo, mas a liberdade de manter intacta uma cultura e, ao mesmo tempo, fazê-la relacionar-se com todas as outras formas de conhecimento, para dar e receber influências enriquecedoras, é a forma mais refinada de democracia, de busca de sistemas mais justos de convivência. Somente quando a palavra respeito estiver estampada em todas as cartilhas e profundamente encravada na mente e nos corações dos homens, o caminho para a união e para a salvação poderá começar a ser trilhado e o mundo poderá, então, sonhar com dias melhores. Mais uma utopia, sem dúvida nenhuma, mas a busca de utopias salvacionistas, sem nenhum viés metafísico, religioso ou excludente, é a única saída para o gênero humano e para essa joia do Universo que possibilita a existência humana.



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