TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

domingo, 27 de junho de 2010

RACIONALIDADE E METAFÍSICA



(Alexander Daniloff)


O que é, afinal, o homem? Dizer que é um animal racional é pura pretensão e, se examinarmos um pouco mais profundamente a natureza humana, não conseguiremos definir o que seja racional. Sabemos que o homem pensa, mas não podemos afirmar a mesma coisa a respeito dos animais. No entanto, não creio que haja um ser vivo que não pense, a não ser que esse ser não possua cérebro, o que acontece com inúmeras espécies invertebradas e microscópicas. Quando, no zoológico, vejo um hipopótamo, fico imaginando se, dentro daquele cérebro, pode haver pensamentos mais complexos do que a vã metafísica de Aristóteles. Então, não pode ser pela capacidade de raciocínio que nos diferenciamos dos animais, senão por algo mais sutil. A genética, ciência que promete dar a verdadeira dimensão do homem, talvez, algum dia, consiga encontrar no código genético do homem aquilo que o torna singular na natureza, provavelmente a incrível capacidade do cérebro humano de evoluir ou de se transformar ou de ser capaz de realizar operações tão complexas que ainda não temos conhecimento suficiente para desvendá-lo. Enquanto isso, convivemos com a tranquila e muito cômoda noção de racionalidade como aquilo que nos distingue no reino animal. Contesto, no entanto, essa racionalidade quando observo a quantidade de crenças absurdas e de superstições que povoam a mente humana, alimentadas por histórias sem pé nem cabeça, por teorias e filosofias que não resistem a meio minuto de raciocínio lógico. Jogar ao mar oferendas para Iemanjá pode ser apenas um gesto simbólico de respeito a um passado ancestral, mas acreditar piamente que isso possa trazer qualquer tipo de benefício mágico não pode ser considerado um ato lógico, senão uma refinada estupidez. No entanto, é o que vemos a cada ano, em datas específicas. E isso é apenas um exemplo de milhares de outras superstições que pessoas dotadas de inteligência e de cultura adotam como fuga da realidade. O pensamento mágico, o desejo de imortalidade, a crença em deuses e espíritos, a fé cega em doutrinas absurdas são o apanágio de nossa pretensa racionalidade. Também a destruição de outro ser humano é um ato absolutamente ilógico. No entanto, a cada minuto, assassinatos são cometidos e a vida humana – o bem mais precioso que o homem possui – é deslavadamente jogada no lixo, como coisa descartável. Tudo se recicla, na natureza, menos a vida. E o homem, que se diz racional, não percebe os absurdos que comete contra si mesmo. Podemos nos considerar racionais? Não, enquanto houver qualquer vestígio de metafísica na mente humana. Poder-se-ia argumentar que um mundo sem metafísica seria um mundo triste, materialista, sem poesia. Pois eu acho justamente o contrário. A metafísica, ao enganar e mentir, ao construir na mente humana um imenso castelo de dejetos, mata a cada minuto a beleza da vida, o incomensurável tesouro que temos a possibilidade de criar, quando conseguirmos enxergar a natureza, o mundo em que vivemos e tudo o que nos rodeia, com olhos de realidade, sem atribuir a cada ser uma dádiva divina, ou um lampejo de sobrenatural. O mundo sem metafísica é muito mais belo e espantosamente mais poético do que o mundo imaginário que criamos com nossas estúpidas elucubrações metafísicas. O homem não precisa de deuses, e devo repetir isso à exaustão, para que me compreendam. O homem não precisa de Aristóteles, nem de Cristo nem de Buda, nem de nenhum profeta ou mártir idiota que crie seitas e religiões e templos e sacrifícios para deuses idiotizados ou papas carcomidos pela falta de ética e de compreensão da vida, para dar lições de moral. Com a metafísica, mate-se também a moral estúpida dos preconceitos, do desrespeito e da derrisão que esses gurus, profetas, pastores ou seja o que for gostam de pregar para seus seguidores e, com isso, conseguem arrancar mais dinheiro para templos inúteis ou para sua vida nababesca de tiranos da consciência dos homens.


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