TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O PREÇO DA IGNORÂNCIA



(Brueghel - the beggars)


Pode parecer um tremendo exagero jogar na lata de lixo o conteúdo de uma civilização de mais de dois mil anos, mas a sugestão, agora, parece-me impossível de ser concretizada. O erro já foi feito e temos que pagá-lo com o platonismo-metafísico-judaico-cristão o caminho torto que a humanidade escolheu para o seu desenvolvimento intelectual. No entanto, minorar os efeitos nefastos dessa filosofia pode requerer um esforço inaudito de milhares de outros pensadores durante, pelo menos, mais dois mil anos. Já há muitos críticos desse modo de pensar há alguns séculos. E sempre houve os dissidentes. No entanto, o esforço deles, até agora, tem sido inútil. Continuam proliferando crenças absurdas, as igrejas continuam mandando no mundo e escravizando a mente do homem com ameaças absurdas e promessas infantis de uma vida impossível e improvável depois da morte, desde que ele renuncie à vida. Parece que o século vinte e um, em termos de desenvolvimento intelectual, recuou para a Idade Média. Os novos conhecimentos científicos não chegam às massas, que continuam analfabetas e estúpidas, acreditando no primeiro charlatão que lhes faz promessas que lhes aliviem por um momento o sofrimento da ignorância ou da miséria absoluta em que vivem. O capitalismo, sistema econômico que se impõe ao mundo, não consegue resolver os aspectos mais comezinhos de distribuição de renda ou, pelo menos, de um arremedo de justiça social. Então, só resta ao povo a vida na ignorância e na pobreza, enquanto bilhões de dólares são gastos em pesquisa científica de ponta, em desenvolvimento de máquinas de guerra cada vez mais devastadoras, em guerras genocidas patrocinadas por superpotências que desejam perpetuar seu poderio, em políticas de exploração das nações menos desenvolvidas, em fábricas poluidoras e exploradoras de mão de obra vinda de países do terceiro mundo e, por isso, mais baratas, e em tornar cada vez mais rico aquele que já é rico e vive do sistema injusto de escravização dos outros povos. Não interessa aos senhores do mundo – governantes de países ricos e dirigentes das grandes religiões – que o povo se torne menos inculto. A ignorância e a miséria geram dividendos tão fabulosos para esses exploradores, que se justifica cada centavo gasto para manter essa máquina funcionando, num círculo vicioso que os enriquece cada vez mais quanto mais na pobreza e na ignorância viva o povo. Assim, jogar na lata do lixo da história os pensamentos de Platão e seus seguidores é, ao fim e ao cabo, desprezar um legado maldito, um legado que só contribuiu para o estado atual dos homens. Platão e seus asseclas, Cristo, Buda, Maomé e tantos outros, não fazem falta ao pensamento livre de uma humanidade mais livre e mais justa. Talvez, sem eles, também não alcancemos a felicidade, mas não se devem perseguir as utopias de que desejamos nos livrar. No entanto, sem eles, o caminho da humanidade, será muito menos penoso, mais verdadeiro, numa estrada sempre difícil e complexa que é a trajetória humana, mas uma humanidade livre de mentiras pode buscar conceitos e éticas mais próximas de um humanismo mais sadio, que valorize realmente a vida, o que, por si só, poderia contribuir para que um novo modelo econômico e social possa surgir em resposta a toda essa miséria e ignorância em que o homem vive mergulhado, apesar de todo o desenvolvimento científico que já adquiriu. Sou um entusiasta da ciência, não de todos os cientistas. Não vejo saída para o homem que não seja privilegiar o desenvolvimento científico, longe das amarras preconceituosas de credos religiosos. A ciência não precisa do código de ética da religião, para encontrar caminhos para resolver dilemas complexos da ética humana. Se não me entusiasmo com todos os cientistas, é justamente porque aqueles que pautam sua ciência por conceitos deístas quase sempre são os mais perigosos para o homem, porque seus paradigmas conceituais permanecem dentro do sistema platônico-metafísico de desvalorização da vida e crença em um deus ou em deuses misericordiosos que receberão em seus braços todos aqueles que morrerem como mártires de seus inventos destruidores. Esses não têm dó do homem. Pedirão perdão a seu deus e dormirão em paz com suas consciências, certos de que o seu deus lhes perdoará assim como aqueles a quem serviram de algozes, num reencontro no paraíso. Então, podem matar sem susto, podem desprezar a vida sem remorsos. A esses, sim, o meu desprezo, juntamente com todo o desprezo que dedico aos deístas. A verdadeira ciência, dedicada ao desenvolvimento humano, mesmo que cometa erros, sabe reconhecê-los e buscar novos caminhos. A verdadeira ciência, dedicada à valorização e melhoria da vida aqui na terra, conhece e estabelece os seus limites éticos, porque sabe que não há outra oportunidade, nem aqui, nem em outro mundo. Portanto, não irá contribuir para a destruição da vida, pois estará destruindo a si mesma. Ingenuidade? Para os deístas, sim, já que a eles não interessa o desenvolvimento científico, que prova a cada momento o equívoco de suas ideias e posições. Mas para o homem, será o caminho único, a via da redenção de milhares de anos de escravização a conceitos deletérios e vazios, de erros absurdos em nome de divindades inexistentes; será a maneira mais suave de se livrar para sempre do criador de um universo que, não tendo princípio nem fim, prescinde dessa crença que tornou o homem um seu escravo. E o homem, livre enfim, desse deus absurdo, passará a valorizar a vida e o mundo em que vive, sem exclusões de raça, pensamento, cultura, pronto, talvez, para ganhar outros planetas e espalhar a vida pelo universo e encontrar, quem sabe? – outras civilizações em futuros longínquos e conviver com elas sem necessidade de conquistá-las e escravizá-las por serem diferentes, como fez em todas as vezes que o cristão europeu se viu diante de povos estranhos a seus usos e costumes, em todo o globo terrestre. Mais uma utopia? Com certeza. Mas não uma utopia platônica e baseada na metafísica da exclusão do pensamento platônico-judaico-cristão e, por que não, de todas as outras religiões. Esse legado, sim, e mais o de todos os deísmos, pode e deve ser jogado na lata de lixo da história ou colocado em destaque no museu da estupidez humana.



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