TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A ILUSÃO DOS MILAGRES




(Andrew González)

O que mais me impressiona, ao olhar para trás, para a história do homem, é perceber que o cristianismo tem dois mil anos, as demais religiões hoje em voga não são muito mais antigas e muitas até mesmo bem mais recentes. No entanto, o homem existe sobre a Terra há centenas de milhares de anos. E durante todo esse tempo, não precisou do salvacionismo estúpido dos cristãos, tampouco das lições moralistas das demais religiões. E então, criam, principalmente a igreja romana, ilusões tremendas, como os tais milagres, e atribuem realizações que são obra apenas da natureza, do acaso ou das circunstâncias à ação de um deus obtuso que age através de santos estúpidos ou estupidificados pela fé inútil. Há, hoje, sobre a Terra, mais de cinco bilhões de viventes. E quantos bilhões já viveram até agora? Um cálculo difícil de fazer. No entanto, um único milagre, realizado por um “beato” qualquer para um único indivíduo, torna-se motivo de comemoração e santificação. Por que escolheu deus esse indivíduo? O que tem ele melhor que os outros? Por que não curou ou salvou da morte bilhões de outros seres humanos? Por que só aquele mereceu a sua graça? São perguntas que não se fazem, porque as respostas serão todas evasivas e sem nenhum sentido. Não há explicação lógica, porque inventaram milhares de teorias para tentar explicar o inexplicável. A noção da existência de deus criou uma teogonia tão complexa, que já se gastaram infinitas desculpas e teorias para explicá-la. Tornou-se um emaranhado tão profuso de teses e idéias malucas, que ninguém, nenhum mortal, conseguirá mais deslindar tais mistérios. O fio de Adriadne perdeu-se, talvez para sempre. Não é mais possível tentar entender. Basta matar a idéia de deus na mente dos homens. Mas a palavra “basta”, aí, é apenas uma figura de retórica, um exagero que eu sei ser impossível de realizar a curto ou longo prazo, embora tenha a certeza de que um dia isso ocorrerá.



terça-feira, 29 de junho de 2010

NÃO HÁ METAFÍSICA NO UNIVERSO



(Joseph Barbaccia - euphoria)


Entre o tudo e o nada navega o universo. Não há metafísica nisso. Apenas o girar gélido dos planetas e dos sóis e dos milhões e milhões de corpos nas galáxias. O universo é apenas isto: forças em luta, criação e destruição, vida e morte. Aliás, nem sei se se pode categorizar em vida e morte o que é apenas força em oposição. O universo tem em si mesmo o poder da criação e da destruição e oscila entre esses dois pólos num pêndulo que nossa capacidade de compreensão não alcança. Não há fim nem começo, mas o fim e o começo ocorrem ao mesmo tempo. E isso é a lei maior da vida ou o que chamamos de vida. Desde o átomo com elementos mínimos até as galáxias, as forças de criação e destruição se manifestam e lutam para manter ora o equilíbrio ora o desequilíbrio, num eterno retorno de simultâneos fins e começos. Não há metafísica nisso. Não há metafísica no embate das forças do universo. O homem nasce, vive e morre. Dentro dessas forças que não entende e não entenderá nunca, provavelmente. Sem deuses, sem almas, sem retornos. Apenas a vida a fluir nas veias como nas galáxias. Apenas o estar e o ser. Sem nada a ligar um ao outro, senão a própria perspectiva de viver. O mundo é apenas isto que vêem os nossos olhos ou percebem nossos sentidos e isso é muito mais do que pode imaginar o homem. Então, por que não olhar apenas o mundo e parar de inventar o além? Por que não apenas o que já existe e que já é tão maravilhoso? Será que o homem não percebe que, inventando mundos, criando o além, ele perde o contato com o mundo verdadeiro e, assim, perde o contato com a própria vida? Vã e inútil toda a filosofia humana que criou a metafísica para afastar o homem de si mesmo. Ao criar o criador, o homem deixou de criar e recriar a si mesmo. Ao acreditar em vidas além da vida, em almas e espíritos, em deuses e anjos, em categorias abstratas de seres que nos comandam de um impossível outro mundo, o homem está perdendo o próprio espetáculo da vida, deixando de entender a natureza e a si mesmo. Muito tempo foi e está sendo perdido com as crenças absurdas de mundos abstratos. O basta do homem a tudo isso, a essa estúpida metafísica, é que tornará o homem mais humano e não o contrário. É preciso reinventar crenças e destruir a fé que cega e obscurece. Crer deve ser apenas o ato de acreditar-se vivo e parte indivisível da natureza, nada mais. Um altar é só uma pedra sobre a outra ou pedaços mal arranjados de madeira podre para sustentar deuses absurdos. O deus precisou inventar a fé para sobreviver no imaginário do homem. E a fé está destruindo o homem. Destruamos a fé e nada restará do mundo podre desses deuses. Destruamos a ingenuidade humana e coloquemos em seu lugar a crença na vida, o respeito à natureza, a integração ao universo e estaremos restaurando a verdade e a vida. E com a verdade, um novo homem. E com a vida, um novo modo de encarar a existência. E então, o homem, diante da verdade e da vida, será um ser livre para cumprir com dignidade a sua existência.



segunda-feira, 28 de junho de 2010

SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA



(Siegfried Zademack - Ikarus)



Sento-me sobre a areia, na praia deserta. O movimento do mar atrai meus olhos e tudo em volta me dá plena noção da beleza do universo, desse mundo em que eu moro, feito de átomos, de substâncias concretas, em que terra, água, ar, plantas, peixes, animais, seres vivos e seres inanimados convivem numa pretensa harmonia. Se sou um místico ou um metafísico idiota, pensarei num criador de todas essas maravilhas que ele – o tal criador – colocou à minha disposição. Então, com os olhos marejados, empreendo uma prece a esse deus, agradecendo-lhe por estar vivo, por poder desfrutar com meus sentidos de todas essas maravilhas. O sol gira em torno de mim e eu sou o rei desse universo, criatura poderosa de um deus magnânimo, cuja energia percorre o meu corpo e me faz vibrar em uníssono com a natureza. Vejo e sinto que a harmonia que a natureza me revela provém desse deus a quem devo satisfação por todos os meus pensamentos, a quem devo pedir perdão por meus pecados. E então, como um choque de realidade, lembro que há apenas uma semana (hoje são dois de janeiro de 2005), um maremoto no distante Oceano Índico provocou ondas gigantescas (tisunami) e matou mais de cento e cinquenta mil pessoas (o número preciso de mortos talvez nunca seja conhecido). Olho mais uma vez o mar que vai e volta em ondas calmas e, se for, agora, o cético que eu sou, saberei que não há harmonia nenhuma na natureza e, sim, um equilíbrio trágico de forças que se agrupam, se ajudam e se opõem, numa cadeia que nada tem de mágica ou de harmoniosa, apenas e tão somente equilíbrio. E que não há nenhum deus, nenhum ser metafísico ou criador, que a natureza segue sendo apenas forças que se combinam para criar tudo o que estou vendo e que a natureza não tem bondade nem beleza, tem apenas a si mesma e que todo conceito de beleza está dentro de meus olhos de homem condicionado a ver beleza onde apenas há a natureza e onde há natureza, tudo é o que é, sem fealdades e sem quaisquer outros adjetivos. Nós, os homens, criamos os adjetivos para uma natureza que é só substantiva, que não se preocupa com nada além do seu próprio existir e cometo uma impropriedade em usar o verbo “preocupar-se”, mas sinto que nosso sistema de conhecimento, emparedado pela linguagem, está profundamente contaminado pelo aristotelismo, pela metafísica inútil. A natureza, na realidade, não tem “preocupação” alguma. Nós é que somos os preocupados em criar categorias, em imaginar coisas que não existem e acreditar nelas. Inventamos porque somos capazes de inventar, mas não precisamos acreditar em todas as invenções. Se num grão de areia há toda uma história e pode haver um micro-universo vivente, não temos razão por isso de imaginarmos que haja uma força criadora por trás de cada movimento da onda, de cada oscilação no eixo da terra ou que há um destino a que nossos passos na terra estejam condenados. A imagética humana destrói toda e qualquer possibilidade de compreensão dos fenômenos naturais e atrasa a mente humana na compreensão de si mesma. Se olho o mar e vejo apenas o mar, nada mais que o movimento provocado por ventos e outras forças naturais, isso não quer dizer que não veja poesia e beleza nesse incessante vaivém. Mas devo estar bem consciente de que essa poesia, essa beleza, são categorias criadas por mim para melhor apreciar, com meu juízo extremamente limitado, algo que existe, algo que pode estar muito além da minha compreensão e com o qual compartilho minha existência. O poeta não precisa ser metafísico para experimentar a sensação da beleza, o sentimento da poesia: basta olhar a natureza como ela é para sentir em si o que se pode chamar espetáculo da existência e considerar esse espetáculo a própria razão de existirmos e podermos contemplá-lo, sem necessidade de recorrer a pensamentos mágicos que, por serem mágicos, são absolutamente inúteis. A liberdade da mente humana está condicionada à superação da metafísica. Somente quando a nossa mente deixar de nos pregar peças que nos levem a uma interpretação mágica da natureza, é que conseguiremos adquirir um estado de consciência plena de nossos reais poderes como homens e, então, guiados apenas pela racionalidade, deixaremos de nos odiar por motivos estúpidos como os conceitos de raça, de religião, de nacionalidade, ou como diferenças de usos e costumes, de cor da pele ou qualquer outra bobagem que categoriza e divide o ser humano. A metafísica só criou, até agora, superstições absurdas que, por sua vez, geraram diferenças que geraram ódios que geram guerras, genocídios e assassinatos. O homem ainda vai derramar muito de seu sangue antes que essas superstições sejam superadas, mas essa superação é a única saída para a humanidade.

domingo, 27 de junho de 2010

RACIONALIDADE E METAFÍSICA



(Alexander Daniloff)


O que é, afinal, o homem? Dizer que é um animal racional é pura pretensão e, se examinarmos um pouco mais profundamente a natureza humana, não conseguiremos definir o que seja racional. Sabemos que o homem pensa, mas não podemos afirmar a mesma coisa a respeito dos animais. No entanto, não creio que haja um ser vivo que não pense, a não ser que esse ser não possua cérebro, o que acontece com inúmeras espécies invertebradas e microscópicas. Quando, no zoológico, vejo um hipopótamo, fico imaginando se, dentro daquele cérebro, pode haver pensamentos mais complexos do que a vã metafísica de Aristóteles. Então, não pode ser pela capacidade de raciocínio que nos diferenciamos dos animais, senão por algo mais sutil. A genética, ciência que promete dar a verdadeira dimensão do homem, talvez, algum dia, consiga encontrar no código genético do homem aquilo que o torna singular na natureza, provavelmente a incrível capacidade do cérebro humano de evoluir ou de se transformar ou de ser capaz de realizar operações tão complexas que ainda não temos conhecimento suficiente para desvendá-lo. Enquanto isso, convivemos com a tranquila e muito cômoda noção de racionalidade como aquilo que nos distingue no reino animal. Contesto, no entanto, essa racionalidade quando observo a quantidade de crenças absurdas e de superstições que povoam a mente humana, alimentadas por histórias sem pé nem cabeça, por teorias e filosofias que não resistem a meio minuto de raciocínio lógico. Jogar ao mar oferendas para Iemanjá pode ser apenas um gesto simbólico de respeito a um passado ancestral, mas acreditar piamente que isso possa trazer qualquer tipo de benefício mágico não pode ser considerado um ato lógico, senão uma refinada estupidez. No entanto, é o que vemos a cada ano, em datas específicas. E isso é apenas um exemplo de milhares de outras superstições que pessoas dotadas de inteligência e de cultura adotam como fuga da realidade. O pensamento mágico, o desejo de imortalidade, a crença em deuses e espíritos, a fé cega em doutrinas absurdas são o apanágio de nossa pretensa racionalidade. Também a destruição de outro ser humano é um ato absolutamente ilógico. No entanto, a cada minuto, assassinatos são cometidos e a vida humana – o bem mais precioso que o homem possui – é deslavadamente jogada no lixo, como coisa descartável. Tudo se recicla, na natureza, menos a vida. E o homem, que se diz racional, não percebe os absurdos que comete contra si mesmo. Podemos nos considerar racionais? Não, enquanto houver qualquer vestígio de metafísica na mente humana. Poder-se-ia argumentar que um mundo sem metafísica seria um mundo triste, materialista, sem poesia. Pois eu acho justamente o contrário. A metafísica, ao enganar e mentir, ao construir na mente humana um imenso castelo de dejetos, mata a cada minuto a beleza da vida, o incomensurável tesouro que temos a possibilidade de criar, quando conseguirmos enxergar a natureza, o mundo em que vivemos e tudo o que nos rodeia, com olhos de realidade, sem atribuir a cada ser uma dádiva divina, ou um lampejo de sobrenatural. O mundo sem metafísica é muito mais belo e espantosamente mais poético do que o mundo imaginário que criamos com nossas estúpidas elucubrações metafísicas. O homem não precisa de deuses, e devo repetir isso à exaustão, para que me compreendam. O homem não precisa de Aristóteles, nem de Cristo nem de Buda, nem de nenhum profeta ou mártir idiota que crie seitas e religiões e templos e sacrifícios para deuses idiotizados ou papas carcomidos pela falta de ética e de compreensão da vida, para dar lições de moral. Com a metafísica, mate-se também a moral estúpida dos preconceitos, do desrespeito e da derrisão que esses gurus, profetas, pastores ou seja o que for gostam de pregar para seus seguidores e, com isso, conseguem arrancar mais dinheiro para templos inúteis ou para sua vida nababesca de tiranos da consciência dos homens.


sábado, 26 de junho de 2010

UTOPIA RACIAL HUMANA




(Abdalieva Akzhani)



A raça humana é una. Não há “raças humanas” ou sub-raças. O homem pertence à raça humana, como um cão pertence à raça animal. Entre os animais, sim, há sub-raças, sub-espécies. O conceito de raça pela cor da pele ou por outras características é resultado de conceituações absurdas e excludentes. Classifica-se para diferenciar, para excluir quando necessário, nos processos de sempre: por motivos religiosos, políticos, econômicos etc. Mas a raça humana não pode ser subdividida, porque não há base científica para isso: geneticamente, cada homem é diferente do outro, mas não há nada mais parecido um com outro do que cada homem ou cada mulher. Há povos negros, amarelos, brancos, loiros, morenos etc., frutos prováveis de separações regionais, de adaptações a climas diversos, mas a tendência futura, com a possibilidade cada vez maior de intercâmbio e aproximação, é que a raça humana diminua cada vez mais as diferenças e tenhamos, em longo prazo, características comuns a todos os povos. A genética se encarregará de manter as diferenças individuais mas aplainar as demais diferenças, através da miscigenação e da construção de uma cultura geral, de uma língua geral, de costumes gerais. Isso não quer dizer que não se devam – e, com certeza, tal fato ocorrerá – manter e conservar aspectos culturais, idiomáticos e de costumes de cada povo ou cada grupo social. Acredito que uma língua comum – como o esperanto, por exemplo – venha a ser adotada, mas cada povo possa conservar o seu idioma. Acredito que haverá um código comum de conduta nos relacionamentos, mas cada povo conservará suas festas, seus usos e costumes, sua música, suas danças, seu vestuário e culinária, seus gestos e modos de olhar e interpretar o mundo. A globalização esperada e desejada e, possivelmente, inevitável não deve ser a que irá destruir o patrimônio multicultural da humanidade, porque na diversidade reside a riqueza maior do homem. Um conceito único de humanidade não será empecilho para a imensa diversificação que caracteriza a cultura humana. Ao contrário, quanto mais globalizado o mundo, mais diferenças culturais surgirão e se aprofundarão, dentro de um respeito absoluto de cada grupo pelo outro. Será como uma lona de circo a cultura geral, globalizada, sob a qual convivam harmoniosamente milhares de grupos e subgrupos, numa troca constante de elementos que se tocam, se intercambiam, mas não se sobrepujam. Assim como um idioma comum, haverá, por exemplo, uma música comum, universal, de fácil aceitação por todos, mas haverá também milhares de ritmos especiais que manterão a sua pureza e terão lugar não só no gosto do grupo que a produz, mas em milhares de outros ouvidos que a apreciem pelo mundo afora. O respeito a essa diversidade constituirá o aspecto fundamental dessa utopia racial, a utopia da raça humana, ao mesmo tempo una e indivisível, vária e múltipla, funcionando de forma harmoniosa e distante da barbárie de preconceitos, de guerras absurdas e, principalmente, distante de deuses excludentes e vingadores.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

POR UMA NOVA UTOPIA



(Adela Abós)


As grandes revoluções, na verdade, ocorrem em laboratórios científicos, em institutos de pesquisas, em salas de aula das universidades que pregam uma nova forma de encarar a vida, nos grandes e pequenos agrupamentos humanos que buscam novas maneiras de convivência, na imaginação dos artistas que sonham novas fronteiras para a mente humana, enfim, as grandes revoluções estão no interior do próprio homem, na sua estranha e, às vezes, louca procura por novos paradigmas. Bem longe das missas e das pregações inúteis de pastores, aiatolás ou profetas. Bem longe de deuses. O homem do futuro deverá ser livre de tais amarras para poder discutir o que é melhor para si, sem interferências moralistas de sistemas rígidos de mandamentos inúteis. Acredito, sim, na capacidade do homem de ir além dos limites de crenças deístas castradoras. Mas, até que isso aconteça, há de lutar muito por uma nova ética de vida, de respeito à vida. Por uma nova ordem social que não determine por antecipação a existência de um ser humano de acordo com o estrato econômico em que ele nasceu. Uma nova ordem que defenestre para sempre o conceito de elites, sejam econômicas ou culturais, sejam de raça ou de direito “divino”. A ninguém deve ser dado ter predominância sobre o outro. Sobre todos, o predomínio da lei, da ordem e da justiça, igualitariamente distribuídos, sem a arrogância das atuais classes ditas dominantes. A nova utopia deve estar centrada na busca pela distribuição de bens e riquezas, de forma que a ninguém seja possível não ter o mesmo nível de oportunidade, independente do lugar em que nasceu, independente de sua origem. Aos governos, não mais relacionados a políticas de direita ou esquerda, categorias ultrapassadas por novas propostas de um socialismo mais justo, caberá apenas interferir o mínimo possível na vida do cidadão, garantindo a distribuição de bens básicos como assistência médico-hospitalar, educação, transporte, saneamento, segurança e justiça. Para isso, e somente para isso, serão pagos os impostos. Um estado que não oprima com seu tamanho e não tenha o direito de declarar guerra, de dispor da vida do cidadão, de estabelecer leis que não passem pelo crivo popular. Um estado mínimo, para o máximo de cidadania.



quinta-feira, 24 de junho de 2010

O SER HUMANO NO RIO DA EVOLUÇÃO



(Adam Pekalski)


Então, qual a saída para um novo mundo, mais justo ou, pelo menos, com uma distribuição mais equânime das riquezas que os mais miseráveis constroem e de que só os mais poderosos e mais ricos desfrutam? Não sei e talvez ninguém saiba. Confiar no rio da história, na ideia evolucionista da sociedade, pode ser temerário ou absurdo. Mas é uma crença. E é como eu vejo o transcorrer da vida através dos tempos. O que chamam de revolução, eu denomino processo. Ideias que embricam umas às outras, como elos de uma corrente. E evolução não quer dizer, simplesmente, a mudança de um estado pior para outro melhor: quer dizer, apenas, mudança, que pode redundar em experiências fracassadas, como acontece na evolução biológica. Os dinossauros foram uma experiência fracassada: organismos imensos, que necessitavam de milhares de calorias para sobreviver, colocavam em risco o equilíbrio ecológico. Por isso, não se adaptaram a novas circunstâncias de clima e condições da Terra e desapareceram. Não importa se a causa tenha sido um meteoro. Apenas não podiam sobreviver. E quantas outras espécies desapareceram, ao longo desses milhares de anos de vida? O homem também é uma experiência da natureza. Se não se adaptar, se não entrar em equilíbrio com as forças da natureza, também pode desaparecer. Ou evoluir para formas diferentes, ou adaptar-se a outros mundos, já que possui, como nenhuma outra espécie, a capacidade de criar e construir. São processos que surgem, hoje, com o desenvolvimento da ciência ou serão processos que surgirão em seguida, que em vão tentamos vislumbrar, mas que poderão se transformar na salvação da humanidade rumo a um futuro impossível de se prever. Está na ciência, sem dúvida nenhuma, uma das balizas do homem para garantir sua permanência no universo. E entendo como ciência a capacidade de interpretar a natureza e utilizar esse conhecimento em prol da melhoria das condições de vida. O homem não pode temer brincar de deus, porque é ele o seu próprio deus. De suas escolhas dependerá o caminho a ser trilhado. Se acertar, o futuro pode ser melhor, para a raça humana. Mas se as escolhas forem erradas, sua sobrevivência pode estar comprometida. Se acredito num rio da vida, num fluxo contínuo da história, pode parecer paradoxal que dê ao homem a capacidade de influir nesse rio. Mas é o que acontece. Dentro do caudal, há espécies que podem interferir nesse fluxo, alterar o seu rumo ou, até mesmo, fazê-lo cessar. E dentre essas espécies, situa-se o homem, que não está livre das leis naturais do fluxo. Sua capacidade de influir está limitada ao próprio fluxo. Se lutar contra a correnteza, pode naufragar. Então, sua capacidade de traçar caminhos está condicionada à ecologia, ao sistema maior. Não pode quebrar as correntes, como fizeram os dinossauros, mas, dentro do imenso caudal, buscar os veios, os caminhos, as trilhas que permitam a ele, homem, conviver melhor consigo mesmo e com a natureza, diminuindo as desigualdades, controlando a poluição e a superpopulação, vencendo as doenças e as epidemias, cuidando, enfim, de si mesmo e do ambiente em que vive. É esse conhecimento, mais profundo e mais sábio, que a ciência pode fornecer ao homem, para situá-lo dentro do universo, em harmonia com as forças da natureza, utilizando-se dessas forças para sua sobrevivência, sem agredi-las ou contrariá-las.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

REVOLUÇÕES E RUPTURAS



(Adam Miller)


No terreno da política e da sociologia, as rupturas estão mortas. Se é que viveram algum dia. Até agora, as grandes revoluções humanas redundaram em grandes fiascos. Se contribuíram para um avanço significativo da história humana, essa contribuição situa-se muito mais no campo do fracasso do que no do sucesso. Todas as revoluções foram autofágicas e destruíram a si mesmas. Porque eram rupturas. E o homem, em sua trajetória fantástica, da irracionalidade animal à descoberta da ciência, o seu feito mais notável, não tem momentos de ruptura, mas de evolução, constante, fria, às vezes, mas sistemática, num plano natural e sub-reptício de pequenas tentativas e retornos, de experiências de sucessos e de fracassos. Por isso, as revoluções, como propostas de rupturas, fracassaram terrivelmente. Porque continham em si o germe da autofagia. Deixaram lições valiosas, sem dúvida. Deixaram preceitos e ideias que se aprofundaram e redundaram em novos conceitos e novas formas de encarar a vida, a história, a sociedade. Mas a um preço muito alto, ao ceifar milhares de vidas, por quase nada, já que esses mesmos conceitos e novas formas de encarar a vida, a história e a sociedade iriam surgir naturalmente ou já haviam surgido e se imporiam logicamente, no correr do rio da história. Ficaram, ao fim e ao cabo, como o gosto de ressaca após uma grande bebedeira, um gosto amargo de fracasso e nojo. Essa percepção pode parecer trágica na sua aparente ideologia da chamada direita, mas é o que podemos verificar ao longo da história. O que restou da Revolução Francesa, senão uma frase utópica – liberdade, igualdade, fraternidade? O que ficou da Revolução Russa, senão a impressão de que o socialismo terá de permanecer como utopia? O que temos ainda da Revolução Cultural de Mao, senão uma China cada vez mais disposta a sacrificar todo um ideário no altar do capitalismo da economia de mercado? Só a chamada Revolução Industrial não fracassou. Simplesmente porque não era uma ruptura, era uma Evolução, um processo que teve início no século XVIII e que ainda não terminou, nem terminará, porque o homem continua e continuará a descobrir e inventar novas tecnologias e novas relações de trabalho e novas relações sociais. Todas as grandes Revoluções fracassaram. Porque tentaram provocar rupturas. E a história humana – a despeito de qualquer questão ideológica – não se constrói com rupturas, com grandes fracionamentos. O socialismo poderá e deverá vencer, sim, como sistema econômico, mas nunca através de uma revolução, do rompimento dramático com o capitalismo, mas como consequência do esgotamento das forças capitalistas e como imposição lógica de uma sociedade que não pode ficar à mercê apenas das forças do mercado gerido por corporações predatórias. Não se pode construir uma nova sociedade ou um novo mundo – mais justo – sobre os escombros da sociedade anterior, por mais cruel e injusta que seja essa sociedade. E é isso o que propõem todas as revoluções, esquecidas de que do niilismo nunca nasceu qualquer possibilidade civilizatória. Destruir para reconstruir é o maior dos engodos dos revolucionários, de qualquer espécie. E disso se aproveitam as forças de direita, no seu conceito clássico de conservadorismo. A direita não teme as revoluções. Nunca as temeu. Porque sabe que a vitória delas é sempre uma vitória de Pirro. A direita, sempre que parece derrotada por uma revolução, recua, se esconde, espera e se fortalece, para voltar mais forte, depois que a ressaca joga os ideais revolucionários no lixo das questões imediatas de sobrevivência. Nenhum revolucionário que eu conheça na História soube lidar com as questões cotidianas de sobrevivência, principalmente porque há a necessidade de construir uma nova ordem sobre os escombros da ordem anterior. Os esforços para remover os escombros acabam por esgotar toda a força criativa de qualquer revolucionário. Assim, não é possível instituir a justiça no mundo sobre os escombros das corporações globalizadas, porque isso é pura ilusão. Porque a vida urge em necessidades imediatas de alimentação, de trabalho, de casa, de saneamento básico, que não podem ser satisfeitas se a infra-estrutura básica foi destruída. Podem uivar todos os revolucionários e todos os que defendem rupturas, mas essa é a mais extrema, embora cruel, realidade.

terça-feira, 22 de junho de 2010

DEMOCRACIA BRASILEIRA



(Guignard - família do fuzileiro naval)


Veja-se o caso do Brasil. Foram poucos os presidentes eleitos, na nossa breve e conturbada história republicana, sobre os quais se pode afirmar que tenham sido, além de probos, verdadeiros representantes do povo que o escolheu. Ou foram representantes das oligarquias, muito bem municiados por financiamentos de fazendeiros, industriais e banqueiros, ou foram um total fiasco. Da história mais recente, podemos lembrar Jânio Quadros e Collor de Melo. O primeiro, um farsante e ladrão contumaz. O segundo, um ladrão ainda mais contumaz e ainda mais farsante. Só diferem por ter sido mais esperto o primeiro, ao renunciar, e mais estúpido o segundo, ao pensar que poderia seguir enganando por muito tempo, com medidas tão absurdas quanto de impacto. As medidas de impacto, algumas delas até importantes, como a abertura do mercado brasileiro ao mundo, com um choque de realismo através da concorrência de produtos do exterior, o que obrigou muita gente que tinha reserva de mercado a se mexer para enfrentar os concorrentes, tinham por objetivo lançar uma nuvem de fumaça na imprensa e na opinião pública, para esconder os desmandos da caterva que tomara conta da capital federal. Governou dois anos e foi embora sob as vaias dos estudantes e do povo que o elegera. Durante o período militar, a república foi varrida para debaixo dos coturnos dos generais de plantão no palácio presidencial. Ao recuperar a capacidade de escolher, não se pode afirmar que o povo tenha sido sábio. Primeiro, elegeu um aproveitador, o já referido Collor. Depois, um enfunado e pavoneado sociólogo, que teve a oportunidade de, como representante, não mais das oligarquias, mas da chamada inteligência brasileira, iniciar uma verdadeira revolução na arte de governar, como exemplo até mesmo para toda a América Latina. No entanto, suas alianças com as forças mais conservadoras tornaram seu governo uma série de equívocos, cujas consequências poucos puderam perceber. Sob o tacão liberal, fez asneiras incomensuráveis, como sucatear o sistema de saúde e entregá-lo à iniciativa particular ou entender a educação como produto que o mercado pode regular através da concorrência e, com isso, permitir a abertura de centenas de faculdades e universidades que são verdadeiras arapucas para aqueles que não conseguem obter vaga no também sucateado e desnorteado sistema público de ensino. Vendeu por trinta dinheiros o patrimônio publico e não se sabe até hoje onde foi parar o dinheiro da venda ou a economia obtida com ela. Agora, a experiência realmente mais radical, com a eleição de um metalúrgico sem curso superior, oriundo das camadas mais sofridas de nossa população. E nas costas de Lula se depositaram, pelo lado do povo, um excesso de esperança e, pelo lado das oligarquias, o desejo de que ele colocasse em prática, com medidas de impacto, todo o ideário esquerdizante que lhe atribuíram, durante sua trajetória política. No entanto, mais espertamente do que poderia imaginar qualquer cérebro mais maquiavélico das oligarquias, Lula não “chutou o balde”, para usar uma expressão de uso popular. Escaldado por experiências anteriores e, nesse caso o desastroso governo de Collor de Mello foi, até certo ponto útil, Lula optou por uma política econômica conservadora em sua essência, para colocar o País num patamar de desenvolvimento sobre o qual ele possa, então, tentar impor medidas que privilegiem o povo que o elegeu. Ainda é cedo para se dizer se a estratégia deu certo, principalmente porque a oligarquia representada por partidos políticos que perderam espaço com sua eleição já está de sobreaviso para se lançar sobre os despojos de qualquer eventual fracasso, seja do governo de Lula ou de qualquer outro. Por outro lado, nosso sistema cameral ou bi-cameral de legislativo patina na eleição de uma maioria de indivíduos cujo compromisso público não ultrapassa a soleira de sua casa ou sua conta bancária. Engessados por interesses corporativos, oligárquicos e coronelistas, a Câmara e o Senado não respondem às demandas de um moderno sistema republicano de representação realmente popular. Eu proporia uma medida radical, para começar a resolver o problema: renovação total a cada eleição, com a proibição da possibilidade de se candidatar duas vezes ao mesmo cargo proporcional. Aliás, a reeleição não tem sido a melhor saída, nem nas eleições majoritárias. O mandato dos governantes podia ser estendido a seis anos, sem direito à reeleição e com algum mecanismo de aferição que permitisse um voto popular de desconfiança ao final de primeiro triênio. E a data dessas eleições deveria ser coincidente, desde vereador e prefeito até à presidência da república. Não é, talvez, a melhor solução, mas poderia ser uma tentativa de aperfeiçoamento dos aspectos formais de nosso sistema político. Enquanto isso, através da educação política dos jovens e através da discussão com a sociedade de um rígido código de ética política, pode-se chegar a um sistema menos viciado do que o que temos hoje. E para isso podem contribuir não só os sociólogos, os filósofos, os professores em geral, mas principalmente os historiadores, com sua capacidade de resgatar o passado não como modelo do futuro ou como um conjunto de heroísmos entorpecedores da realidade, mas como exemplo do que um povo pode construir em prol de sua própria cidadania, quando realmente está disposto a lutar por seus direitos.




(Obs.: esse texto foi escrito logo após a eleição do Presidente Lula, em 2002)



segunda-feira, 21 de junho de 2010

HISTÓRIA, PODER E DEMOCRACIA




(Aaron Board)


A História, como disciplina de enaltecimento dos poderosos de plantão, está condenada à morte por excesso de estupidez. A visão crítica dos conquistadores, dos alexandres e dos napoleões, dos césares e dos stalins impõe-se como única saída para os historiadores recuperarem a sanidade. Chega de ensinar à juventude que os heroísmos constituem o sal da trajetória humana. Chega de ensinar à juventude que os poderosos devem continuar determinando os caminhos do homem. O poder é, por natureza, corrupto e corruptor. Mesmo por trás das grandes boas intenções, há sempre o lado obscuro da derrota dos adversários e, quase sempre, sua consequente eliminação física ou de qualquer outra natureza. As paredes dos palácios dos governos, erguidas com o suor e sangue dos operários e dos anônimos do mundo, escondem mais tragédias e feitos vergonhosos do que a meia dúzia de atos heróicos que costumam aparecer nos compêndios escolares da história oficial. Recuperar o ideário republicano, no seu sentido político mais profundo, deve ser uma das preocupações,digamos, acadêmicas e conceituais, do historiador moderno. E isso implica tornar claro ao cidadão o que ele precisa fazer e conhecer para se tornar dono de si mesmo e não cometer as bobagens que o sistema democrático permite que ele cometa, porque, se há consistência teórica nos modelos de democracia participativa, há ainda muito que avançar no que se refere ao seu sistema formal. As falhas do modus operandi da democracia exigem uma reflexão profunda e um lento processo de convencimento das massas e de seus representantes para elaborar medidas aperfeiçoadoras do sistema, que minimizem os efeitos de escolhas desastradas ou, até mesmo, as evitem, num futuro próximo.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

O AÇOUGUE FUNDAMENTALISTA



(Achilles Droungas)

Voltar os olhos para o passado e contemplá-lo como um espelho do futuro tem sido a maldição do homem. O passado está morto, enterrado, mas não superado. Admiramos como feitos extraordinários conquistas sanguinárias de todos os tempos. Erigimos estátuas aos guerreiros e assassinos. Adoramos os falsários da ideologia, com seus sistemas filosóficos e religiosos baseados em superstições tolas. Ajoelhamo-nos diante de deuses rancorosos e vingativos. Acreditamos em valores que privilegiam a morte em detrimento da vida. Criamos falsos motivos para continuar matando. Inventamos leis e regulamentos para manter os excluídos ainda mais distantes de quaisquer possibilidades de se humanizarem. O homem é seu próprio lixo. E, como lixo, revira a história para comer merda e se alimentar de vermes. Somos vermes e queremos ser deuses. Ainda estamos muito longe de atingir um grau mais sofisticado de civilização, pois tem prevalecido até agora o conceito de que a civilização precisa matar para se impor, quando, na verdade, uma civilização não se impõe, apenas existe e respeita as diferenças como respeita a si mesma. O grau de barbárie varrido para debaixo do tapete da história do homem e visto como elemento civilizador tem atingido as raias da loucura, neste século vinte e um que se inicia com guerras de conquista e aprofundamento da condição de miserabilidade de inúmeros povos. Os Estados Unidos se auto-intitulam xerifes do mundo, com direito a invadir uma outra nação e matar sem dó seus pretensos inimigos. Gastam-se milhões de dólares em armamento e guerras, enquanto a África agoniza em miséria e doenças. Aprofundam-se as diferenças entre Ocidente e Oriente por motivos ideológicos, religiosos e de estranhamento de culturas diferentes. Criam-se barreiras de ódio para disfarçar interesses econômicos de grandes corporações que se utilizam de todo o ideário deísta para auferir lucros fantásticos para seus acionistas confortavelmente instalados em ilhas de tranquilidade defendidas por jovens soldados que morrem como insetos nos campos de batalha no Iraque ou no Afeganistão, para defender um falso orgulho nacionalista ou, o que é pior, para tentar caçar e matar terroristas famintos e aterrorizados que ousaram, um dia, confrontar o ideário capitalista desses monstros de cara rosada e sorridente que frequentam a alta sociedade do mundo dos que mandam e elegem presidentes idiotas ou mal-intencionados, comprometidos com o poder de seus bilhões de petrodólares. O que Sócrates, Platão, Aristóteles e seus seguidores diriam do mundo de hoje? Com certeza enalteceriam o poder de fogo e de conquista da nação mais poderosa do mundo e se orgulhariam da democracia que eles inventaram e que essa nação tripudia com seu sistema espúrio de eleições em que se joga a moedinha de cara ou coroa apenas como forma de enganar os incautos, pois nada há de mais semelhante do que as duas faces de uma mesma moeda. O conceito de democracia representativa apodreceu nos meandros da corrupção, da disputa do poder pelo poder. E não há nada para se pôr no lugar. Aquilo que o homem inventou, o dinheiro corrompeu. Os Estados Unidos, como modelo de nação, nasceram dos anseios espúrios de huguenotes, batistas, anglicanos e tantas outras igrejas que têm em comum o ódio ao diferente e o arraigado amor a seus princípios bíblicos fundamentalistas. Os Estados Unidos cresceram graças à capacidade asinina de trabalho dessas mesmas tribos que, à medida que se fortaleceram, tornaram-se cada vez mais sedentas de sangue, de poder, de desejo de domínio e de expansão, para levarem suas idéias e seu ideário fundamentalista cristão ao restante do mundo. Este o mal dos fundamentalistas, de todos os fundamentalistas: não podem aceitar que qualquer rebanho escape das bênçãos de seu deus, mesmo que seja preciso dizimar os pagãos, os apóstatas, os hereges, os diferentes, enfim. Aos olhos de seu deus, mais vale salvar a alma, matando o corpo, do que deixar o outro sem a luz de seus ensinamentos. Submissão à vontade do deus significa tornar-se missionário de seu desejo. Matar e morrer por esse deus é a palavra de ordem aos milhões de seguidores que entregam sua carne ao açougue das guerras de conquista, enquanto os comandantes amealham os despojos para aumentar sua riqueza e seu poder. Acenderam uma vela a esse deus e outra ao diabo, ao construírem uma nação ao mesmo tempo profundamente cristã, no mais torpe sentido dessa doutrina, e materialista, baseada no mais extremado individualismo capitalista que prega o direito à propriedade e a defesa dessa propriedade com unhas, dentes, conquista e destruição de qualquer pretenso inimigo que ouse ameaçar, contestar ou apenas erguer os olhos contra algum de seus princípios. Os Estados Unidos são, portanto, o xerife do mundo baseados em verdades absolutas. O povo americano, mesmo quando se opõe à vontade autoritária de líderes bélicos, não tem como escapar das armadilhas de sua história. É um povo condicionado a pensar que o mundo todo marcha com o pé trocado, enquanto só eles têm condição de seguir o ritmo dos tambores. E tambores batidos pelos ideólogos fundamentalistas que marcaram indelevelmente as páginas de construção e soerguimento de um Estado dominado por crenças milenares que alimentam a estupidez e a cupidez humanas, desde os tempos de um pretenso poeta cego chamado Homero. E é sábia a lenda que lhe atribui tal defeito, pois somente a cegueira poderia levar um ser humano (ou um conjunto de seres humanos) a construir um espetáculo de horrores bélicos e carnificinas em cima de uma estrutura literária de tamanha beleza. E é este o paradoxo trágico da história do homem: construir palácios de cristal, para moradia de deuses e governantes, com os ossos, a carne e o sangue de milhões de anônimos encontrados no lixo das guerras e das carnificinas inúteis.



quinta-feira, 17 de junho de 2010

COLOCAR A METAFÍSICA NO LIXO DA HISTÓRIA



(Barahona Possolo)


Nós nos habituamos a sacralizar certos cânones. A Grécia antiga é um deles, com a filosofia clássica de Platão, Aristóteles e todos os pensadores que fundaram a metafísica. Se deixaram uma metodologia de pensamento, afundaram, por outro lado, essa mesma metodologia em raciocínios bizarros e metafísicos que destruíram a capacidade humana de buscar alternativas materialistas para uma visão de mundo menos abstrata. É preciso remontar a filosofia. É preciso colocar na lata de lixo da história os pensadores antigos, Platão puxando a fila dos imbecis. Nada mais chato do que ler Platão. Nada mais humilhante para o homem do que o seu blá-blá-blá metafísico. E Aristóteles, com seus sofismas absurdos, a buscar uma identidade deísta como final de tudo, criou armadilhas para si mesmo e para a humanidade. Suas baboseiras só serviram para a igreja católica romana assentar suas garras sobre a consciência do homem e fazer o mal que sempre fez e continua fazendo. Fora com todos eles! Ler os filósofos gregos é perder tempo e neurônios com baboseiras que não levam a nada. Só inventaram teorias confusas que a ciência e a simples lógica ou observação mais atenta na vida e da natureza contradizem. Escondem seus descaminhos lógicos atrás de sofismas e raciocínios pseudoprofundos. Escreveram numa linguagem complexa que pouca gente entende e quando se consegue entender o que escreveram e pregaram, descobre-se que não há nada para ser entendido. São palavras vazias e inúteis. Não, definitivamente, não se constituem em patrimônio da humanidade, esses filósofos imbecis de um mundo que não tinha a beleza e a estrutura racional que nos impingiram. A Grécia antiga era um mundo de bárbaros metidos a besta. Tinham uma estrutura escravocrata e machista. Viviam em guerras absurdas por motivos fúteis, atribuindo a deuses obtusos os males que corroíam uma sociedade em que os valores fundamentais eram o culto ao corpo e à luta. Se construíram templos fantásticos, fizeram-no em homenagem a esses deuses estúpidos que vagavam pelo mundo como reflexos de sua sociedade podre. E esses templos e construções, com suas obras de arte, podem, sim, se constituir em algo digno de admiração, pois são fruto da imaginação e da técnica, não da filosofia. E criaram o teatro, talvez a mais digna das invenções humanas. Assim mesmo, como manifestação do gênio humano, teria sido inventado de qualquer jeito, em outro tempo, por outros povos. A civilização grega é uma das grandes farsas da humanidade. Aliás, não há uma só civilização humana que não tenha sido ou não seja fundamentalmente bárbara e sanguinária. O homem é assim: cultua o que há de pior em sua história, para enganar a si mesmo, para impor valores que nada têm de humanos, são apenas restos, vestígios, de sua condição animal. Enquanto não assumirmos que não passamos de bichos com poder de imaginar e construir, de matar e destruir, não superaremos os instintos bestiais que ainda temos dentro de nós.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

SALVAR A TERRA



(Emil Nolde - landscape)


A Terra é a joia rara do Universo. Talvez jamais consigamos encontrar na imensidão dos astros outro planeta com as mesmas ou semelhantes condições de vida que tem a Terra. Não podemos dizer que não possa existir outro planeta em que a vida tenha surgido e atingido estágios extraordinários de desenvolvimento, mas chegar a esse outro planeta será provavelmente uma tarefa impossível de ser concretizada pelo homem, porque as distâncias dentro do Universo são tão imensas, que nenhuma tecnologia logrará diminuí-las. E por ser um corpo tão especial, onde vicejou a vida e essa vida evoluiu para formas tão complexas como o homem, deve a Terra merecer desse homem todo o cuidado possível para que a vida mantenha o seu equilíbrio e não desapareça. Quando olhamos para fora e vemos o nosso planeta com os olhos limitados por horizontes e com o ponto de vista observador situado na própria Terra, podemos contemplar imensidões e recursos aparentemente ilimitados. Mas, se num esforço de imaginação e concentração, deslocássemos nosso ponto de vista para um astro distante, como por exemplo, o Sol, veríamos a Terra como um ovo frágil e delicado, passível de ser esmagado e desaparecer a qualquer oscilação cósmica. Na verdade, nenhuma das duas visões é inteiramente verdadeira nem inteiramente falsa. A joia desse Universo que não conhecemos tem, na verdade, um equilíbrio delicado na ordem das coisas, mas tem também uma grande capacidade de regeneração e sobrevivência em si mesma. Mas não são infinitos os seus recursos. O homem que, por ter atingido um alto grau de evolução, governa esse mundo e dispõe de seus recursos, tem também a capacidade de destruir, com sua incompetência quanto à visão de futuro, esse equilíbrio complexo que permitiu o surgimento da vida e permite sua evolução. Durante milhares de anos, o homem viveu com um certo equilíbrio em relação à natureza. Sua capacidade de predador mantinha-se limitada aos meios de que dispunha. Na era da tecnologia, no entanto, nesses dois últimos séculos, o homem multiplicou muitas vezes sua capacidade de exaurir da Terra os recursos que, antes, mantinham-se intocados ou semi-intocados, por falta de recursos para explorá-los, situação agravada pelo crescimento populacional que exige cada vez mais a descoberta de novos meios de sobrevivência. Assim, numa espiral inflacionária de aumento populacional e novas tecnologias, o equilíbrio pode-se romper e a Terra, exaurida em seu potencial de vida, tornar-se mais um corpo morto a girar inutilmente em torno do Sol. Só o homem pode matar a Terra e só o homem pode salvá-la. E o processo de salvação da Terra é uma tarefa complexa, que depende da vontade política de muitos dirigentes e de muitos povos. Não é uma tarefa impossível, mas se o homem não conseguir controlar o aumento populacional excessivo, a poluição ambiental e a exploração predatória dos recursos naturais, o futuro será de muitas dificuldades, se chegar a haver futuro. Não sou pessimista, mas tudo depende da capacidade humana de reduzir a ignorância e a estupidez, de ultrapassar a barbárie que ainda comanda as multidões humanas para que se chegue a um grau de conscientização que permita ao homem enxergar com objetividade o que acontece em sua casa e tomar providências sérias para o equilíbrio das forças da natureza e, consequentemente, para a sobrevivência da raça humana. Não há meios termos. Ou o homem supera a ignorância, o preconceito, as diferenças raciais, sociais, religiosas e culturais, ou naufraga com a exaustão da Terra. A união dos povos ainda é um sonho muito distante, mas só ela poderá salvar o planeta: não há outra saída para o futuro da humanidade. Unir-se ou perecer parece ser a lei final de salvação. A barbárie, o extermínio e a corrida pela conquista de um povo por outro caminham ao lado da explosão demográfica. Enquanto não houver controle rígido da população terrestre, para que ela se estabilize em níveis aceitáveis de crescimento dos meios de produção, o equilíbrio do planeta estará em perigo, porque não é possível fazer-se a união para a salvação enquanto houver ignorância, enquanto houver desníveis profundos do domínio das tecnologias mínimas de sobrevivência e do conhecimento ético de respeito e compreensão da realidade. As ilhas de conhecimento científico de ponta podem continuar sendo ilhas de excelência, mas não podem conviver com a estupidez profunda que reina nos grotões sem escola, sem comunicação com o restante do planeta e, principalmente, sem a percepção mais clara das relações mais sutis entre as várias sociedades, sem o princípio ético do respeito à vida e às diferenças. O que se pede não é uma uniformização de conhecimentos e culturas, mas a capacidade de aceitar visões de mundo diferentes e, ao mesmo tempo, tão comuns no desejo de preservação do ser humano. A imposição de cultura é uma forma de fascismo, mas a liberdade de manter intacta uma cultura e, ao mesmo tempo, fazê-la relacionar-se com todas as outras formas de conhecimento, para dar e receber influências enriquecedoras, é a forma mais refinada de democracia, de busca de sistemas mais justos de convivência. Somente quando a palavra respeito estiver estampada em todas as cartilhas e profundamente encravada na mente e nos corações dos homens, o caminho para a união e para a salvação poderá começar a ser trilhado e o mundo poderá, então, sonhar com dias melhores. Mais uma utopia, sem dúvida nenhuma, mas a busca de utopias salvacionistas, sem nenhum viés metafísico, religioso ou excludente, é a única saída para o gênero humano e para essa joia do Universo que possibilita a existência humana.



terça-feira, 15 de junho de 2010

BUSCAR UTOPIAS



(Anthony Christian - Ruby and the Rhino)



A crença numa democracia absoluta não condiz com a realidade humana e com a natureza. Deve-se, sim, buscar sistemas de justiça, de igualitarismo social e político, de meios que tragam oportunidades para todos. Até mesmo, oportunidades iguais. E, acima de tudo, pregar e praticar o respeito ao humano. No entanto, não há democracia na natureza e não há democracia entre os humanos. Somos parte de uma cadeia evolutiva, em que há desigualdades gritantes entre os seres. Alguns nascem tortos, defeituosos, frutos de problemas genéticos, com dificuldades imensas de adaptação à vida. Outros nascem mais aparelhados para a vida, até mesmo mais inteligentes. Respeitar essas diferenças é democrático e é obrigação de todos. Cuidar para que os menos ajustáveis tenham a melhor vida possível é dever de um estado democrático e de uma sociedade justa. O deísmo os trata com os princípios da caridade, ou seja, são vistos como criaturas de deus e merecem comiseração. Esse não é o caminho. Não merecem comiseração, mas respeito. São, sim, uma espécie de lixo do processo evolutivo, experiências que não deram certo, mas não podem ser jogados fora como jogamos o lixo industrial. Porque são o lixo da vida, seres que nasceram assim para que a natureza, ao promover desvios e atalhos, siga o seu curso e obtenha melhores resultados. E a vida humana tem de ser respeitada, por mais precária que seja. Não com o dó e a comiseração dos deístas, mas com o respeito devido aos processos da natureza. O homem criou maravilhas como a música, a literatura, a poesia, as artes, as ciências e os esportes, e ainda muitas coisas mais. Obras de um ou mais gênios, de homens cuja capacidade intelectual transcende até mesmo nossas mais complexas teorias sobre a inteligência humana. Seres privilegiados que viveram para nos espantar e maravilhar com suas criações, com sua capacidade de interpretar uma determinada realidade e transformá-la em beleza ou melhoria para o gênero humano. Podemos discordar profundamente de muitos de seus pensamentos, de seus sistemas filosóficos, mas não podemos negar-lhes a condição de seres especiais. Suas obras, no entanto, não alcançam nem a maioria das pessoas que vivem, hoje, a terra. Porque uma parte considerável é constituída de homens e mulheres desprovidos de capacidade de entendimento dos mais rudimentares sistemas matemáticos, físicos, biológicos, em suma, de entendimento de como funciona a vida, por mais simples que isso seja. Incapazes de uma compreensão mais profunda da própria existência, arrastam suas vidas no mesquinho mundo das miudezas diárias e, quando colocados diante do belo, podem até obter por instantes o alumbramento do universo, mas são incapazes de absorver qualquer teorização científica em relação aos fenômenos do seu próprio dia a dia. A sua compreensão do mundo resume-se a idéias provindas de um longo e penoso aprendizado de seus ancestrais, uma meia dúzia de conceitos que lhes permitem viver e sobreviver, como, por exemplo, rudimentos de agricultura e manipulação de alimentos. Mesmo que, por uma condição mágica qualquer, pudéssemos transformá-los, de repente, em seres mais aptos a uma compreensão mais complexa do mundo, isso não os tiraria da situação miserável em que vivem. Como é impossível torná-los melhores por mágica, somente um esforço considerável por parte da sociedade dita mais apta pode, primeiro, tirá-los da miséria, matar-lhes a fome e provê-los de meios menos brutais de sobrevivência e, depois, conseguir que se eduquem, que eduquem os filhos e netos, para que as próximas gerações obtenham, pouco a pouco, uma noção mais clara do mundo e atinjam estágios de evolução que lhes permitam chegar às obras dos grandes artistas, filósofos e cientistas que, a essa altura, já terão, por sua vez, avançado milhares de anos à frente de seu tempo para desvendar outros mistérios do mundo em que vivemos. Será, portanto, impossível que todos os homens, democraticamente, tenham acesso ao conhecimento mais profundo, embora seja essa a utopia que devamos perseguir sempre. Porque buscar utopias é uma das razões da existência humana.



segunda-feira, 14 de junho de 2010

CASTAS SACERDOTAIS DEÍSTAS



(Barahona Possolo)



necessidade de pregação que toma de assalto a mente dos sacerdotes deístas e a necessidade de conversão dos ímpios e descrentes por parte de cristãos, budistas, islâmicos ou qualquer outra crença deísta são, sem dúvida, um outro grande mal desse tipo de pensamento. Não basta crer e fundar sua crença. É preciso convencer os outros e fazê-los participar ou comungar de suas idéias e de suas cerimônias. O cerimonial deísta é sempre muito variado e sempre muito sugestivo. Tem por objetivo hipnotizar as mentes, sugestionar os sugestionáveis, atrair pela organização e pela possibilidade de ascensão e exposição social em um ordenamento hierárquico de cargos e funções que estimulam a vaidade humana e o desejo de prevalecer e de ser mais entre seus pares, que é típico da condição humana. Por isso, toda igreja, por mais simples e menor que seja, tem sempre uma ordem, uma hierarquização, um sistema de castas falsamente democrático, que busca estimular o crente a seguir determinadas regras para obter determinadas benesses junto ao deus ou ao sacerdote principal. A humildade, geralmente apregoada por todos os sacerdotes, de todas as religiões, tem por objetivo quebrantar o ânimo dos mais afoitos e disciplinar o rebanho à obediência cega. E são muitos os subterfúgios de que lançam mão os fazedores de crentes para manter o rebanho em harmonia com os princípios da sua igreja. Podem ser de natureza meramente espiritual, com uma série de ameaças de punição, até a promessa de uma vida utópica e maravilhosa depois da morte. Com isso, quase sempre faturam o suficiente para si e para o deus, ou seja, a igreja tem de expandir, de mostrar força, de erguer templos e cobrir-se de ouro, para que os fiéis se sintam mais protegidos, ao ver que o deus recompensa o seu esforço com a riqueza ou grandeza de suas instalações. Não há exemplo de igrejas ou seitas que progrediram sem o esforço extraordinário de seus seguidores para erguer sistemas concretos de projeção de sua fé. Os fiéis podem ser mantidos em círculos primitivos de pensamento ou de condição social, mas não a casta sacerdotal, sempre muito bem nutrida e muito bem acondicionada em suas mansões, em seus templos e gozando de todas as comodidades que condenam em seus fiéis. A hipocrisia é, portanto, o lema, a bandeira mais consistente das classes sacerdotais, dentro do sistema deísta. Os líderes religiosos posam de grandes homens, de sábios ou de grandes ascetas, mas a verdade é que, na sua maioria absoluta, são profundamente egoístas, ególatras e ambiciosos. Temem qualquer ameaça ao seu poder, a que se agarram com unhas e dentes. Fazem de tudo para serem cortejados e para influenciar na vida diária de todos os cidadãos. Opinam sobre tudo e mantêm sempre o ar de profunda sapiência, mesmo quando destilam a mais infame mentira, para que sua autoridade se sobreponha até mesmo à autoridade de chefes de estado legalmente constituídos. Impingem à sociedade suas ideias retrógradas, escondendo-se atrás do argumento de que são representantes do deus e, por isso, atribuem-se qualidades acima dos vis mortais, fazem-se sagrados, e, por serem sagrados, são intocáveis. Sua presença daninha corrói por dentro as sociedades, os sistemas políticos e a própria ideia de democracia. Por isso se acomodam a qualquer sistema: tanto bajulam os líderes democratas como se juntam aos ditadores de qualquer ideologia e se sentem bem ao seu lado. O verdadeiro sentimento religioso dessa malfadada casta de dirigentes é o amor ao poder e ao dinheiro. No fundo, são os mais lúcidos homens do planeta, pois, através da mentira que criaram, conseguem sobreviver e manter uma vida invejável de luxo e luxúria segundo os seus desejos mais torpes. O deísmo torna-se, por isso, a mais antidemocrática das crenças humanas, apesar de ser a democracia um processo complexo e, possivelmente, utópico em seu conceito mais puro.



domingo, 13 de junho de 2010

ATEÍSMO É CONDIÇÃO NATURAL DO HOMEM




(Salvador Dalí - metamorphosis of Narcisus)



Um mundo ateu. A utopia mais que desejada. Mas que não deve ser confundida com o ateísmo marxista ou falsamente marxista provindo de um organismo estatal. A ditadura de um ateísmo de estado seria tão ou mais prejudicial do que o deísmo até agora praticado. Ateísmo é um estado de consciência, não é nem mesmo uma filosofia. Filosofia pressupõe sistema complexo de pensamento, doutrinas e princípios. O ateísmo, não. Ser ateu é simplesmente não aceitar a estupidez da existência de um ente criador do universo e rejeitar qualquer tipo de culto religioso e dar um pé na bunda da metafísica. Nada mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexo. Porque significa livrar a mente de superstições e ideias absurdas. Se o ateísmo passar a ser visto como um sistema filosófico, deixará de ser ateísmo para ser um novo sistema metafísico. Significará trocar seis por meia dúzia. E isso é tão estúpido quanto acreditar em deus. O mundo ateu deve ser apenas um mundo sem superstições, porque livre da ditadura de qualquer deus, de qualquer pensamento metafísico. Um mundo voltado para o belo: eis o ateísmo em plena vigência no pensamento humano. Pode-se ser ateu e ser de direita ou de esquerda, em termos de política. Pode-se ser ateu e ser um bom ou mau ser humano. Pode-se ser ateu e, ao mesmo tempo, um ladrão ou uma pessoa honesta. É claro que a escolha ética de princípios opostos aos vigentes na sociedade não tem nada a ver com o pensamento ateu. Acredito, apenas, que não haverá mais desculpas deístas para o assassínio, para os atos de covardia contra os demais seres humanos. Então, o ateu que cometer atos contra a vida terá contra si apenas sua consciência, que deverá, pelo menos em tese, ser muito mais pesada do que a do deísta. Porque ele sabe que tirou uma vida para sempre, que não haverá perdão divino ou outra oportunidade para a vítima, como costumam raciocinar ou imaginar os deístas para aplacar suas culpas. O ateísmo de estado, repito, nada tem a ver com o verdadeiro ateísmo. Qualquer sistema político que condicionar sua existência ao ateísmo está definitivamente equivocado. Aliás, qualquer grupamento humano – seja político, social ou de qualquer outra natureza – que condicionar sua existência ao ateísmo também está definitivamente equivocado. Não pode e não deve haver sociedades ateias ou de homens ateus. Não em termos de constituição legal. Podem os homens ateus até mesmo se encontrar para trocar ideias ou se conhecerem, mas mesmos esses encontros correm o risco de se transformarem em movimentos ou escolas ou sociedades e, assim, colocar em risco a própria existência do ateísmo. No fundo, o que eu quero dizer é que o ateísmo é a condição natural do homem e não o deísmo, como se propala há tantos milênios. O homem natural é, por princípio, ateu. O deísmo nasceu depois, como resultado de contingências históricas e de formação equivocada do pensamento metafísico. Portanto, não há como pregar o ateísmo. Não há como defender o ateísmo. Não há como transformar um deísta em ateu pela simples pregação do ateísmo. Um deísta só se torna ateu, quando for convencido de que não há nenhuma possibilidade de que exista um criador e, para isso, ele precisa se convencer de coisas tão complexas quanto a complexidade do universo e de coisas tão simples quanto o fato de que ele não precisa crer em deus para sua vida continuar do mesmo modo como vem sendo levada. Convencer o homem de que ele não precisa de deus não é uma tarefa fácil nem deve ser tentada quando o deísmo enraizado se manifesta em forma de crenças ingênuas e de superstições absurdas, próprias de pessoas que não se preocupam com esse tipo de pensamento e acham que basta crer em deus e levar a vida, que é tudo o que o homem precisa para obter algum tipo de recompensa após a morte. Também o medo da morte provoca o deísmo simplório da maioria e, então, é impossível qualquer tipo de diálogo. Se o ateísmo não é um complexo de filosofias e princípios, sua aceitação, no entanto, implica fazer o caminho de volta de todo o complexo filosófico deísta implantado na mente humana desde há muitos e muitos milhares de anos. E isso se torna bastante difícil para mentes acostumadas ao pensamento deísta, seja essa mente a de um homem comum, seja essa mente a de um cientista com a capacidade de raciocínio e de lógica como alguns cientistas que podem ser deístas, apesar de todo o seu conhecimento científico. O deísmo, apesar de conter em si uma complexa rede de princípios metafísicos, tem em si um princípio quase mágico em si mesmo, que leva os homens a se acomodarem em sua própria natureza humana de medo e de incerteza: a fé. Essa palavrinha contém em si a maior invenção do sistema metafísico da crença em deus. Se, ao final de uma extensa argumentação contrária, um deísta, convencido pela lógica, não quer, no entanto, renunciar à sua situação de crente, ele encerra qualquer tipo de possibilidade de vir a se tornar ateu apelando para a questão da fé. E ponto final. Nada mais pode demovê-lo do contrário. A fé remove montanhas. Pelo menos para aquele que acredita. E a capacidade humana de inventar e acreditar em suas invenções é infinitamente maior do que qualquer argumentação lógica. Por isso, um mundo ateu torna-se a utopia das utopias. Acredito que, um dia, em um momento muito distante no tempo e, talvez, no espaço, o ateísmo predominará sobre as superstições, mas nunca será hegemônico ou absoluto. Sempre haverá células metafísicas de resistência. E isso não será de todo mau. Bastará que as crenças absurdas e as superstições deístas regridam a níveis que impeçam que as religiões se tornem uma ameaça à integridade e ao princípio de liberdade do homem, para que o mundo se torne um pouco melhor. Embora, para que o mundo se torne melhor, não é necessário absolutamente que ele se transforme num mundo ateu. É exatamente o contrário: quando se tornar melhor, provavelmente será um mundo muito mais ateu do que é hoje.



sábado, 12 de junho de 2010

MÁQUINA FANTÁSTICA: O CÉREBRO HUMANO



Vincent Castiglia - the sleep


Nenhum deus substitui a grandeza do homem. No entanto, essa grandeza refere-se muito mais à capacidade do homem de criar, raciocinar e modificar a natureza do que, propriamente, à sua história. Há ainda muito do animal predador no inconsciente humano. Matar ainda é algo normal, para os homens. As crenças deístas apenas acentuam esse lado monstruoso do homem e fazem que ele desculpe seus atos com a vida após a morte ou o perdão de um deus carniceiro. A história humana está repleta de massacres e mortes inúteis, o que torna essa trajetória uma estrada sangrenta de assassínios e violência. E esse morticínio não tende a ter um fim, no curto prazo. Há um longo caminho a ser percorrido, antes que, finalmente liberto das influências deístas, o homem possa tomar consciência do valor real da vida. E do corpo, onde reside a máquina mais fantástica da natureza: o cérebro humano. Essa maravilha, cujos mistérios ainda vamos levar anos para desvendar, constitui o que de mais precioso existe em todo o universo conhecido. Preservar essa máquina e entendê-la será, juntamente com a genética, o passo mais formidável da ciência humana, capaz de colocar o homem em patamares científicos jamais imaginados. A ciência desenvolvida a partir desse conhecimento poderá gerar não apenas tecnologias avançadas que permitirão ao homem domar novos patamares das forças da natureza, mas, principalmente, levá-lo a repensar o conceito de existência, através de respostas a perguntas que o atormentam desde sempre: de onde viemos, o que somos e para onde vamos. E, então, o caminho para libertar-se das superstições deístas estará devidamente pavimentado à sua frente.



sexta-feira, 11 de junho de 2010

A EVOLUÇÃO GENÉTICA DO HOMEM



(Juan Miró - escargot-femme-fleur-toille)



Já se usaram inúmeras metáforas para definir o homem e distingui-lo dos outros animais: o único animal que ri; o único animal que chora etc. Mas, na verdade, a única distinção realmente significativa entre o homem e seus parentes bichos, eu acredito, é aquela que diz que ele, o homem, é o único animal que pode evitar sua extinção. A história da evolução é clara: todos os seres vivos surgem, evoluem, modificam-se, adaptam-se ao meio, e depois entram em processo de extinção. O homem tem consciência disso e pode, até certo ponto, evitar ou prorrogar o seu processo de extinção. Assim como os animais, nós, os homens, surgimos, evoluímos, modificamos nossas características e adaptamo-nos ao meio. Assim como os animais, surgem em todas as gerações “experimentos” genéticos que não dão resultado. São seres inadaptados, a que faltam certas características ou sobram aspectos ou órgãos; são seres que nascem “monstruosos”, com deformidades que provocavam espanto e admiração no passado e condenavam esses seres a viverem de sua “monstruosidade”, em circos e aparições públicas para derrisão do populacho ignorante. Ainda hoje, em pleno século vinte e um, ainda há pessoas que rejeitam com nojo o aparecimento desses seres, que nada mais são do que erros ou experiências da natureza, fruto de um processo aleatório de idas e vindas de nossos genes em busca da melhor adaptação. Não há monstruosidade nenhuma. São seres que merecem ou deviam merecer o mesmo respeito que qualquer outro que tenha nascido saudável, de acordo com as convenções vigentes. Na maioria das vezes, esses seres têm vida curta e, mesmo diante de toda a tecnologia disponível para tentar salvá-los, são como passarinhos que caem do ninho – tentamos prolongar-lhes a vida com alguns cuidados, mas eles quase sempre acabam morrendo prematuramente. Por outro lado, a evolução privilegia os seres mais bem adaptados, os mais “perfeitos” (dentro de um conceito bastante relativo de “perfeição”), e esses acabam prevalecendo, por algum tempo, até que também eles não tenham mais para onde evoluir e entrem em processo de extinção. Os dinossauros são, provavelmente, o exemplo mais dramático desse tipo de evolução: tomaram o caminho errado, o crescimento exagerado, e a natureza não acompanhou a demanda de alimentos de que necessitavam e eles entraram em rápido processo de extinção, independentemente de qualquer catástrofe natural, como a propalada queda de um asteróide. Temos o maior respeito pelas baleias. São seres fantásticos. Mas a proliferação exagerada desses mamíferos marinhos pode levar à extinção inúmeras outras espécies de peixes, de que elas se alimentam, tendo como resultado sua própria extinção. Embora belos, são seres condenados pela ordem da natureza. Também o homem, se não obtiver uma clara noção de seu processo evolutivo (e temos essa noção: só não sabemos ainda o que fazer), poderá, dentro de alguns milhares de anos, tomar iniciativas que evitem a sua extinção, se a natureza não nos pregar uma peça como fez com os dinossauros e as baleias. No entanto, acredito que o conhecimento que se abre com o descobrimento da cadeia genética poderá tornar o homem o criador de seus caminhos, concluindo, afinal, que é ele, o homem, a criatura mais importante da natureza e só ele pode salvar essa mesma natureza e salvar a si mesmo.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

O PREÇO DA IGNORÂNCIA



(Brueghel - the beggars)


Pode parecer um tremendo exagero jogar na lata de lixo o conteúdo de uma civilização de mais de dois mil anos, mas a sugestão, agora, parece-me impossível de ser concretizada. O erro já foi feito e temos que pagá-lo com o platonismo-metafísico-judaico-cristão o caminho torto que a humanidade escolheu para o seu desenvolvimento intelectual. No entanto, minorar os efeitos nefastos dessa filosofia pode requerer um esforço inaudito de milhares de outros pensadores durante, pelo menos, mais dois mil anos. Já há muitos críticos desse modo de pensar há alguns séculos. E sempre houve os dissidentes. No entanto, o esforço deles, até agora, tem sido inútil. Continuam proliferando crenças absurdas, as igrejas continuam mandando no mundo e escravizando a mente do homem com ameaças absurdas e promessas infantis de uma vida impossível e improvável depois da morte, desde que ele renuncie à vida. Parece que o século vinte e um, em termos de desenvolvimento intelectual, recuou para a Idade Média. Os novos conhecimentos científicos não chegam às massas, que continuam analfabetas e estúpidas, acreditando no primeiro charlatão que lhes faz promessas que lhes aliviem por um momento o sofrimento da ignorância ou da miséria absoluta em que vivem. O capitalismo, sistema econômico que se impõe ao mundo, não consegue resolver os aspectos mais comezinhos de distribuição de renda ou, pelo menos, de um arremedo de justiça social. Então, só resta ao povo a vida na ignorância e na pobreza, enquanto bilhões de dólares são gastos em pesquisa científica de ponta, em desenvolvimento de máquinas de guerra cada vez mais devastadoras, em guerras genocidas patrocinadas por superpotências que desejam perpetuar seu poderio, em políticas de exploração das nações menos desenvolvidas, em fábricas poluidoras e exploradoras de mão de obra vinda de países do terceiro mundo e, por isso, mais baratas, e em tornar cada vez mais rico aquele que já é rico e vive do sistema injusto de escravização dos outros povos. Não interessa aos senhores do mundo – governantes de países ricos e dirigentes das grandes religiões – que o povo se torne menos inculto. A ignorância e a miséria geram dividendos tão fabulosos para esses exploradores, que se justifica cada centavo gasto para manter essa máquina funcionando, num círculo vicioso que os enriquece cada vez mais quanto mais na pobreza e na ignorância viva o povo. Assim, jogar na lata do lixo da história os pensamentos de Platão e seus seguidores é, ao fim e ao cabo, desprezar um legado maldito, um legado que só contribuiu para o estado atual dos homens. Platão e seus asseclas, Cristo, Buda, Maomé e tantos outros, não fazem falta ao pensamento livre de uma humanidade mais livre e mais justa. Talvez, sem eles, também não alcancemos a felicidade, mas não se devem perseguir as utopias de que desejamos nos livrar. No entanto, sem eles, o caminho da humanidade, será muito menos penoso, mais verdadeiro, numa estrada sempre difícil e complexa que é a trajetória humana, mas uma humanidade livre de mentiras pode buscar conceitos e éticas mais próximas de um humanismo mais sadio, que valorize realmente a vida, o que, por si só, poderia contribuir para que um novo modelo econômico e social possa surgir em resposta a toda essa miséria e ignorância em que o homem vive mergulhado, apesar de todo o desenvolvimento científico que já adquiriu. Sou um entusiasta da ciência, não de todos os cientistas. Não vejo saída para o homem que não seja privilegiar o desenvolvimento científico, longe das amarras preconceituosas de credos religiosos. A ciência não precisa do código de ética da religião, para encontrar caminhos para resolver dilemas complexos da ética humana. Se não me entusiasmo com todos os cientistas, é justamente porque aqueles que pautam sua ciência por conceitos deístas quase sempre são os mais perigosos para o homem, porque seus paradigmas conceituais permanecem dentro do sistema platônico-metafísico de desvalorização da vida e crença em um deus ou em deuses misericordiosos que receberão em seus braços todos aqueles que morrerem como mártires de seus inventos destruidores. Esses não têm dó do homem. Pedirão perdão a seu deus e dormirão em paz com suas consciências, certos de que o seu deus lhes perdoará assim como aqueles a quem serviram de algozes, num reencontro no paraíso. Então, podem matar sem susto, podem desprezar a vida sem remorsos. A esses, sim, o meu desprezo, juntamente com todo o desprezo que dedico aos deístas. A verdadeira ciência, dedicada ao desenvolvimento humano, mesmo que cometa erros, sabe reconhecê-los e buscar novos caminhos. A verdadeira ciência, dedicada à valorização e melhoria da vida aqui na terra, conhece e estabelece os seus limites éticos, porque sabe que não há outra oportunidade, nem aqui, nem em outro mundo. Portanto, não irá contribuir para a destruição da vida, pois estará destruindo a si mesma. Ingenuidade? Para os deístas, sim, já que a eles não interessa o desenvolvimento científico, que prova a cada momento o equívoco de suas ideias e posições. Mas para o homem, será o caminho único, a via da redenção de milhares de anos de escravização a conceitos deletérios e vazios, de erros absurdos em nome de divindades inexistentes; será a maneira mais suave de se livrar para sempre do criador de um universo que, não tendo princípio nem fim, prescinde dessa crença que tornou o homem um seu escravo. E o homem, livre enfim, desse deus absurdo, passará a valorizar a vida e o mundo em que vive, sem exclusões de raça, pensamento, cultura, pronto, talvez, para ganhar outros planetas e espalhar a vida pelo universo e encontrar, quem sabe? – outras civilizações em futuros longínquos e conviver com elas sem necessidade de conquistá-las e escravizá-las por serem diferentes, como fez em todas as vezes que o cristão europeu se viu diante de povos estranhos a seus usos e costumes, em todo o globo terrestre. Mais uma utopia? Com certeza. Mas não uma utopia platônica e baseada na metafísica da exclusão do pensamento platônico-judaico-cristão e, por que não, de todas as outras religiões. Esse legado, sim, e mais o de todos os deísmos, pode e deve ser jogado na lata de lixo da história ou colocado em destaque no museu da estupidez humana.



quarta-feira, 9 de junho de 2010

RECUSA AOS HERÓIS GENOCIDAS




(Heinrich Fussli - Thor)

Se não existem categorias de bem e mal, como punir o assassino? Essa pode ser a pergunta que não quer calar. No entanto, não há por que duvidar da punição àquele que comete crimes contra a natureza. Embora a natureza humana seja, ainda, cruel, porque não nos livramos de nosso lado instintivo de preservação da vida através da destruição de outro ser, temos que fazer o esforço necessário para superar esse instinto e ascender como ser racional, para nos convencer de que provocar a morte de outro ser humano é um crime contra a nossa atual natureza e, portanto, deve ser condenado sob todos os pontos de vista como o crime mais cruel e desumano. Atingir esse estágio de evolução é proscrever da face da terra o crime de morte, as lutas e guerras, as armas e seu poder de destruição. O homem precisa deixar de ser o seu próprio predador. Precisa deixar de cultuar os heróis guerreiros e passar para uma fase de total condenação de todos aqueles que construíram reputações em cima da morte de outros seres humanos. São totalmente absurdos homens como os césares romanos ou como Carlos Magno ou Napoleão. Deverão ser considerados, no futuro, numa civilização mais avançada, como loucos, imbecis ou homens cujo exemplo não contribuiu para o aperfeiçoamento da raça humana. Deviam, desde já, ser execrados nos livros de história, nos ensinamentos a nossos filhos, e não servirem de exemplo de vidas gloriosas. São apenas loucos assassinos e nada mais. Seus atos são fruto de imbecilidade ou de loucura. Seus feitos devem ser jogados na lata de lixo da história, como seres desprezíveis que se aproveitaram de momentos únicos da história para revelar o lado monstruoso da natureza humana, o lado da conquista sem limites, do assassínio frio e sem motivos. A guerra, sim, é o ato mais doloroso da espécie humana, o lado mais negro da dura luta do homem para se tornar mais civilizado. Não há, no entanto, nessa condenação tácita do ato guerreiro o julgamento moral de que ele representa o mal. A guerra não é o mal e a paz, o bem. Apenas julgamos a guerra um ato desprezível, inventado pela incapacidade humana de buscar, no atual estágio de evolução, o verdadeiro equilíbrio que lhe possibilite compreender as diferenças e viver em harmonia com outros seres humanos. E na raiz de todas as lutas, de todas as guerras, está sempre o estranhamento pelo diferente, a não aceitação do que parece ameaçador à primeira vista, como hábitos distintos, cor da pele ou um jeito diferente de olhar. O homem não compreende que não precisa rosnar e defender o seu território com garras (ou armas), diante da aproximação do estrangeiro, como o faz o animal acuado diante do desconhecido. O homem possui um grau de inteligência que lhe permite avaliar situações e uma capacidade que nenhum outro animal possui: a comunicação, para expor suas dúvidas e ouvir as razões do outro lado. O encontro entre desconhecidos, sejam indivíduos ou povos, não podia se transformar em tragédias anunciadas como aconteceu entre o europeu e os povos americanos, por exemplo. Somente a arrogância de um e o temor, confundido com a fraqueza, de outros, pôde determinar um dos maiores crimes já perpetrados contra a raça humana e já cometidos por um povo contra outro. O preconceito e a ignorância nunca foram elevados a tal potência, como no encontro entre o cristão e o pagão, em terras da América. O olhar que viu o ameríndio não soube reconhecer o igual. E por não reconhecer, destruiu civilizações, matou milhares de seres humanos e contaminou outros milhões com o vírus de seu ódio, muito mais pernicioso do que os vírus reais que ajudaram a dizimar com a influenza milhões de outras vidas ao longo do tempo. A dominação selvagem do europeu repetiu-se em outras terras, como na África, sem que a lição anterior fosse devidamente apreendida. E se outros contatos houver, novos genocídios ocorrerão. Assim é o homem. E assim não devia ser o homem. No entanto, a compreensão dessa natureza selvagem podia ter um olhar um pouco mais ameno, se não tivesse o homem se vangloriado de suas crenças, de suas filosofias e de seus deuses. Crenças, filosofias e deuses que, segundo os livros ditos sagrados, os ensinamentos ditos superiores e os deuses ditos benfazejos deviam ter tornado o homem mais cúmplice de si mesmo, mais humano dentro de suas monstruosidades, mas compassivo diante do outro. Por isso, a minha revolta diante de todo esse falso conhecimento adquirido até agora pelo homem. Não há niilismo em minhas palavras, mas nojo em relação a todos esses princípios deístas fundados na exclusão e na aceitação de princípios e palavras infames, como as dos deuses que dizem que quem não está com eles está contra eles. Temos, todos os homens lúcidos, de combater sempre essa praga que é o deísmo, como, isso sim, um dos maiores males da humanidade, como um desvio de rota da evolução humana, para poder (quem sabe, um dia?) vislumbrar uma nova linha de pensamento e de civilização para o homem, liberto de suas malditas crenças e superstições, quando, então, o bem o e mal deixarão de ser categorias absolutas e serão jogados para sempre no esquecimento ou no folclore. E a lata de lixo da história agradecerá, se contiver todos os livros ditos sagrados, todos os deuses ditos benfazejos, todas os ensinamentos ditos superiores e todos os heróis com suas mãos pingando sangue.