TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A VIDA É PROCESSO



(Delaunay - joie de vivre)



Quando se começa a pensar no homem, a primeira coisa que nos ocorre é dizer “o homem é...” seguido de predicativo (ou predicado), já que o verbo assume a função de mera ligação entre o ser e o predicado que se atribui a ele. E começa aí a nossa ilusão niilista e metafísica do homem. O homem não é um ser mais predicado. O homem apenas é. Ou seja, o homem existe e nada mais. Porque não há uma entidade chamada homem. Como não há uma entidade chamada humanidade. Há seres humanos. Diversos. Complexos. Unos. E, sobretudo, existentes na sua individualidade genética. O homem, assim compreendido, apenas é, apenas vive e sobrevive e está condicionado à sua herança. Quando falo, portanto, em homem, por falta de outra palavra, não estou falando numa entidade metafísica, composta de complexas elucubrações ideológicas ou ideais, mas no ser que habita cada corpo físico e, como corpo físico, tem lugar num mundo em mutação há bilhões de anos e que ainda não se construiu e talvez não se construa nunca. Quando pensamos esse homem, vemo-lo na história, em evolução sucessiva até o estágio atual, mas nos perdemos ao tentar olhar para a sua verdadeira identidade, pois o olho com o qual olhamos é um olho limitado e limitador da realidade. Pensamos que estamos no ponto mais alto de uma absurda criação, quando somos apenas o início de um processo evolutivo que nossa capacidade ainda extremamente limitada pelo período histórico de apenas algumas centenas de milhares de anos de existência do homem na terra nos impõe. Estamos, sim, apenas no início de um processo evolutivo. Não nos damos conta das mudanças, das alterações genéticas, porque somos parte do processo. Se tivéssemos um olho que olhasse o tempo e não o espaço, como estamos condicionados a olhar, talvez ficássemos cegos pela beleza absoluta do eclodir da vida e da sua capacidade de modificação. Veríamos, sim, além dos séculos, um homem além do homem, que Nietzsche vislumbrou e não teve tempo de descrever. Para esse homem, todo o tempo vivido até agora seria apenas uma poeira, um tempo niilista para esquecer ou para ser colocado no museu da estupidez humana. Um homem novo, que ainda assim seria apenas mais um degrau da experimentação biológica, já construiria uma nova ordem, uma nova ética, superada a idéia de credor e devedor, um homem que não deve nada a ninguém, nem a deuses nem a si mesmo, livre e pronto para conquistar novos mundos e espalhar a vida pelo universo. A vida, sim, pode ser definida com o predicado aposto ao verbo ser: a vida é processo. O homem apenas é, dentro desse processo. Não há possibilidade de tal criatura ter sido criada, porque o homem não é criatura. Decorre o ser humano de um processo de vida. Enquanto houver vida, haverá homem. E mesmo quando o universo se expandir ao seu limite e houver todo o processo de retração para um buraco negro onde se fundirá e se transformará na não-matéria, no átomo primevo, que explodirá em seguida para uma nova expansão, o que já deve ter ocorrido por vezes incontáveis, muito além de nossa capacidade de percepção, a vida se restabelecerá e surgirá, como decorrente desse processo, novamente o homem, aquele que é, como parte e engrenagem desse universo em contínua expansão e retração. Se assim pensarmos o homem, a vida será o bem mais precioso, por ser única e por ser aquilo que dá sentido a tudo quanto sou, sem sofrimento, sem culpa, sem deuses a quem prestar qualquer tipo de obediência ou de quem esperar qualquer tipo de castigo.



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