TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sábado, 29 de maio de 2010

TRIBALIZAÇÃO E UTOPIAS



(Emile Nolde - dance around the golden calf)

A democracia nasceu como uma tentativa de conciliar os irreconciliáveis, de dar voz a todos e aceitar as escolhas da maioria. Isso, no entanto, não tem funcionado. As minorias são cada vez mais barulhentas e mais ativas. Com a facilidade de domínio dos meios de comunicação em massa, basta que uma pequena minoria se una e resolva agir, para que se transforme em força poderosa, a impor suas reivindicações, sua ideologia, seus princípios. O homem foi sempre um animal de tribo. Esse instinto tribal predomina ainda sobre todos os outros instintos de união, de paz e de convivência. E agora, com voz ampliada, as tribos vão à luta, impõem-se e calam até mesmo a maioria assustada que se uniu, por alguns instantes, em torno de ideias mínimas. Por isso, a democracia não tem funcionado, entre outros motivos. Acatar a decisão da maioria não tem sido a regra. Nas ruas, nos parlamentos, nos congressos, em quaisquer reuniões humanas, se há uma tribo disposta a agir, seu discurso e suas imposições acabarão por exercer uma função deletéria na mente das pessoas e a sua ditadura se estabelece, sem nenhum prurido ético. A divisão do mundo em nações foi, sempre, uma divisão arbitrária, mas agora, isso se torna cada vez mais problemático. Grupos étnicos, sufocados por muitos e muitos anos pela maioria, colocam para fora suas cabeças cheias de ódio e preconceito, para exigirem direitos que têm, sim, mas poderiam ser conquistados de forma mais racional. No entanto, a primeira qualidade a ser jogada na lixeira, nas lutas étnicas, é o racionalismo. O que é racional não conquista corações e mentes, só as mentes. E as minorias são sempre emotivas e sanguíneas e, na maioria das vezes, sanguinárias. Acumularam muitos ódios ao longo do tempo. Quando partem para a ação, querem provocar reações e não ganhar o que reivindicam. Querem vingança e, por isso, não admitem racionalizar o conflito, para resolvê-lo. Esse modo de agir, sem dúvida, tem sido uma das maiores ameaças à democracia. O Estado absolutista, por outro lado, mesmo com alguns princípios democráticos, só tem demonstrado poder de força para tomar decisões errôneas e não é, de forma alguma, confiável. Sempre que se instala um poder absoluto, há guerras expansionistas ou tentativas de expansão. O que se deseja é exatamente o contrário. Eu acredito que as nações de territórios imensos, que abrigam etnias, tribos, aglomerados ou grupos com interesses contrários, tendem a desaparecer, ou pelo menos, isso é o que deveria ocorrer, se pensarmos democraticamente e não economicamente ou militarmente. O caminho para a união e a paz entre os povos, ironicamente, passa pela tribalização da humanidade. Será mais fácil constituir ligas e depois governos comuns a partir de grupos e tribos do que a partir de nações constituídas artificialmente. Quando os interesses minoritários forem atendidos, quando os grupos étnicos não tiverem mais motivo para ódios e lutas de extinção, pode-se ser mais racional e partir para o entendimento num nível superior de interesses comuns. Deixarão, portanto, as tribos, de se constituírem em ameaça à democracia. E esta, por sua vez, pode ser aperfeiçoada num sistema formal mais flexível e mais próximo de buscar atender os interesses comuns do que impor governos de maioria reféns das minorias. A partir de ligas tribais, formam-se ligas e uniões mais amplas, até que, numa ousada utopia, possamos chegar a um governo universal e democrático, cujo princípio maior seja a preservação da vida e cujos esforços se voltem, então, para a saúde do planeta. Estará o homem, nesse momento, apto a conquistar outros planetas e outros mundos, espalhando a vida pelo universo e deixando ao planeta Terra a missão de ser apenas o celeiro da vida. Com uma população reduzidíssima, só o necessário para administrar uma avançada tecnologia de produção de alimentos provindos das vastas extensões de terra e dos mares, a Terra dará aos homens a base para viver tranquilamente em planetas cuja atmosfera ele pode dominar, mas cujo solo é estéril e cujas águas, quando houver, não são próprias para consumo. Todo o alimento produzido no planeta-celeiro será devidamente concentrado em pequenas pastilhas que se revitalizarão ao contato com líquidos previamente preparados com substâncias químicas, para se transformarem de novo em alimento fresco e pronto para o consumo. Afinal, sonhar não é apenas buscar utopias, mas também sugeri-las.



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