TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O SAGRADO

(Bosch - adoração)


Uma das criações-mores do deísmo, o conceito de sagrado, precisa ser destruído e banido para sempre do pensamento humano. Ergue-se esse conceito como uma barreira intransponível à crítica ao deísmo. Ocasiona temores profundos qualquer tentativa de se insurgir contra aquilo que se considera sagrado. Há na mente dos homens, desde tempos imemoriais, uma espécie de gene que acende uma ponta de terror diante de algo considerado sagrado. Por isso, templos são sagrados, livros e palavras são sagrados, objetos de culto são sagrados e homens que os manipulam se dizem santos, colocando-se, assim, todos eles, seres humanos comuns, objetos e lugares, na categoria de inatingíveis. E isso atemoriza. Faz que o homem se dobre a desígnios absurdos, por conta do temor do sagrado. Basta declarar que algo é sagrado ou santo, para que se ergam altares, para que se instalem o medo e o respeito e, em seguida, a exploração desses sentimentos pelos velhos espertalhões de sempre – os padres e pastores da igreja e das seitas subsidiárias e herdeiras dos conceitos deístas e cristãos. Atribuir poderes ou qualidades divinas a si mesmos e a seus objetos de culto deve ter sido a forma encontrada pelos primeiros feiticeiros para se impor diante do grupo e de se proteger de qualquer ameaça dos concorrentes. E esse conceito, que originou o maior embuste do deísmo, permitiu que se hierarquizassem as qualidades humanas, o que levou, até mesmo, ao surgimento do conceito de realeza. Também a divisão em castas ou a determinação de diferenças hierárquicas entre os homens tem no conceito do sagrado sua possível origem. Por ele, foi possível estabelecer seres superiores e inferiores e, com isso, subjugar e escravizar quem fosse considerado inferior. A presença de deuses entre os homens, em todas as civilizações, permite que se estabeleçam diferenças. Embora todos possam recorrer aos deuses, somente os mais espertos e inteligentes conseguem convencer aos demais de terem sido realmente agraciados por eles. Se o esperto obtém riqueza, foi graças a deus e, portanto, tem mais direito sobre os demais, também graças a deus. E assim se perpetuam as desigualdades, pois o rico, esperto e agraciado por deus, tem cada vez mais possibilidades de crescimento, enquanto ao pobre resta pedir e rezar cada vez mais ao deus que o agracie, sem obter, no entanto, qualquer sucesso, pois, com certeza, deve ter feito alguma coisa que desagradou profundamente a divindade. E o conceito de pecado se instaura no rastro do sagrado, como outra nódoa a manchar o pensamento do homem. A igreja, hábil na manipulação dos conceitos, avançou um pouco mais: criou o conceito do pecado original, isto é, todos os homens nascem com a nódoa e é preciso adular muito a divindade para se livrar desse caminho para o inferno. A partir daí, tudo foi permitido à igreja e a história pode exemplificar todo o mundo de absurdidades criadas para enganar o homem e mantê-lo prisioneiro do deísmo. A figura do Cristo crucificado e morto para pagar os pecados do mundo torna-se, assim, um dos mais poderosos mitos já criados pela torpe imaginação de homens dedicados a conservar os demais seres humanos atrelados a seus desígnios, para explorá-los e manter uma organização por dois mil anos, através da mentira e da ameaça do fogo eterno. Não pode ter havido maior conspiração do homem contra o homem, em toda a história. E, o que é pior, com ares de se manter inabalável por ainda muitos séculos. Infelizmente. Para o homem e sua trajetória na terra.


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