TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

domingo, 30 de maio de 2010

ERVAS DANINHAS: O ESTADO E O MILITARISMO

(Caspar David Friedrich - l'arbre aux corbeaux)



O nacionalismo e o patriotismo são noções absolutamente estúpidas. O homem nasceu no planeta Terra e não em uma nação cuja fronteira não se conhece bem, por tratar-se somente de uma linha no mapa. E o mapa é apenas a representação de uma ilusão. Não há estados. Não há pátrias. Existe apenas a tribo, que se assenta e se move ao critério da vontade, do vento e da necessidade de sobrevivência. Ao criar a cidade e delimitar suas fronteiras, o homem cometeu o seu segundo maior erro (o primeiro foi adotar crenças deístas e inventar a metafísica). As cidades não são, em si, um erro, mas seus limites, sim. A cidade e o campo constituem na realidade um só continuum, sem que haja qualquer cerca que os limite. Ao construir os muros de defesa, criou-se a fronteira e o campo se opôs à cidade. Assim também, os estados, os países. São construções espúrias da estupidez humana. Subsistem porque foram criados, apenas por isso. O estado se sobrepõe ao país e o país se determina por uma série de fatos e objetos inexequíveis e absurdos, como a construção de falares comuns, de culturas que respeitam fronteiras, de usos que se fixam em determinados cercados, como galinheiros. Os homens, ao defenderem a pátria e o estado que a sufoca, defendem o direito de viver em galinheiros. E têm, por isso, cérebros de galinha. Sob a égide do patriotismo e do nacionalismo cometeram-se os maiores crimes de lesa-humanidade. Mata-se, estupra-se, aterroriza-se, tortura-se em nome de uma bobagem, como as cores de uma bandeira, um trapo colorido na ponta de um pedaço de pau. Isso não representa absolutamente nada. São símbolos vazios que a imaginação doentia do homem encheu de significados que só levam à morte, à guerra e à destruição. E, principalmente, à exclusão e ao expansionismo, quando o país se transforma em império, outra praga da história do homem. A conquista, por ser conquista, é tão vazia quanto a própria existência do país e do estado. O homem inventou deuses e, depois, um só deus, para satisfazer as suas necessidades de fazer mal a si mesmo. Depois, criou o estado para satisfazer as suas necessidades de fazer mal aos outros. A idéia de deus desumaniza o homem. A idéia de estado desumaniza a sociedade. Trata-se, agora, de destruir coletivamente, de praticar genocídios em nome da identidade do estado, do país, da região, da tribo ou da cidade. A morte coletiva. Pluralizada. Não há cores, símbolos ou papéis coloridos a demarcar fronteiras que justifiquem a invasão e a destruição daqueles que estão do outro lado dessa linha abstrata. Para impedir a invasão e para, obviamente, invadir, o homem cometeu o seu terceiro maior erro: criar os exércitos e, com eles, os militares. A arte da guerra é a arte da degradação humana. Ser guerreiro é assumir de forma definitiva a própria estupidez. O militar, na escala de valores do homem, só perde em estupidez para o sacerdote. Ambos têm, no entanto, o mesmo grau de desumanidade. Se o sacerdote destrói a mente, o militar destrói o corpo. Ambos competem na arte de fazer mal. Só não os considero o mal absoluto, porque teria de concordar com a existência de um bem absoluto. Como são categorias abstratas e inventadas pela ignorância humana, ambos, militares e sacerdotes são meros produtos espúrios da idiotice do homem. Não sou ingênuo, no entanto, a ponto de acreditar que o chamado espírito guerreiro não seja uma herança profunda do homem, desde o seu surgimento, e que foi responsável mesmo pela sobrevivência da raça humana. No entanto, esse “espírito guerreiro” deve ser debitado à necessidade de preservação da espécie, um instinto animal que leva o leão a comer a corça, não porque ele a odeia ou se sinta ameaçado por ela, mas simplesmente porque a corça, por mais bela, inocente e inofensiva que seja, é o alimento do leão. Não há sentimento ou emoção na caçada do leão. Há apenas o instinto. Assim também o homem primitivo. O instinto levava-o a matar. No homem moderno, a carne continua sendo o alimento necessário. E não há ódio ou rancor ou qualquer outro sentimento na morte do boi que nos fornece as calorias necessárias ao nosso organismo. Apenas a necessidade. O organismo humano ainda precisa da carne, para viver. No entanto, se se usa o boi como divertimento ou sacrifício em nome de um deus ou de uma arte, como na tourada, por exemplo, não podemos deixar de notar que estamos exercitando o lado mais primitivo de nossos instintos. Não há razão que explique sacrificar o animal para atender a esses instintos. Tolera-se a morte por divertimento ou para agradar a deuses porque somos fracos e acabamos justificando, de forma infantil e primitiva, um instinto que já devia estar abandonado há muitos anos. A evolução, como acontece em toda a natureza e, geralmente, não nos damos conta, não segue o mesmo nível em todos os grupos. Não há nisso a defesa da diferença, mas a constatação de uma realidade. Os seres humanos, em termos de evolução mental e cultural, estão colocados em patamares diferentes, o que não implica a noção de qualidade, ou seja, não há os que estão em pior ou melhor situação, mas em níveis diversos do estado de evolução. A tecnologia não está ao alcance de todas as tribos, ainda, não porque essas tribos não tenham condição de assimilá-la, mas apenas por uma questão social ou cultural, não interessa a determinados grupos dar saltos na linha da evolução e adotar costumes não consagrados pelo uso. No entanto, ao inventar o militarismo, o homem deu um salto qualitativo (não positivo) no instinto guerreiro e adotou princípios e regras para justificá-lo. Aí está o grande erro. O militarismo tentou dar um arcabouço lógico àquilo que pertencia ao instinto primevo. E criou um monstro que se arraiga nas mentes das pessoas, criando necessidades que, na verdade, o homem não devia ter, que é a defesa de um estado também inventado. O militarismo, como a religião e a noção de estado, é um grude nocivo na mente humana, uma espécie de planta daninha que, se cortada do corpo do hospedeiro, danifica também o organismo que lhe dá a seiva. Vai ser preciso um avanço tremendo, um salto de qualidade de dimensões estratosféricas, para que o homem chegue à conclusão de que é necessário, mesmo com aparentes perdas, destruir essas ervas daninhas de seu processo mental. Que novos genes, mais promissores, substituam a necessidade de pensar num ser superior, num estado acima da sociedade e de um sistema militar que dê sustentação aos dois anteriores. Porque militarismo e estadismo andam de mãos dadas, na mente do homem. Sustentados pelo deísmo.

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