TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A VIDA É PROCESSO



(Delaunay - joie de vivre)



Quando se começa a pensar no homem, a primeira coisa que nos ocorre é dizer “o homem é...” seguido de predicativo (ou predicado), já que o verbo assume a função de mera ligação entre o ser e o predicado que se atribui a ele. E começa aí a nossa ilusão niilista e metafísica do homem. O homem não é um ser mais predicado. O homem apenas é. Ou seja, o homem existe e nada mais. Porque não há uma entidade chamada homem. Como não há uma entidade chamada humanidade. Há seres humanos. Diversos. Complexos. Unos. E, sobretudo, existentes na sua individualidade genética. O homem, assim compreendido, apenas é, apenas vive e sobrevive e está condicionado à sua herança. Quando falo, portanto, em homem, por falta de outra palavra, não estou falando numa entidade metafísica, composta de complexas elucubrações ideológicas ou ideais, mas no ser que habita cada corpo físico e, como corpo físico, tem lugar num mundo em mutação há bilhões de anos e que ainda não se construiu e talvez não se construa nunca. Quando pensamos esse homem, vemo-lo na história, em evolução sucessiva até o estágio atual, mas nos perdemos ao tentar olhar para a sua verdadeira identidade, pois o olho com o qual olhamos é um olho limitado e limitador da realidade. Pensamos que estamos no ponto mais alto de uma absurda criação, quando somos apenas o início de um processo evolutivo que nossa capacidade ainda extremamente limitada pelo período histórico de apenas algumas centenas de milhares de anos de existência do homem na terra nos impõe. Estamos, sim, apenas no início de um processo evolutivo. Não nos damos conta das mudanças, das alterações genéticas, porque somos parte do processo. Se tivéssemos um olho que olhasse o tempo e não o espaço, como estamos condicionados a olhar, talvez ficássemos cegos pela beleza absoluta do eclodir da vida e da sua capacidade de modificação. Veríamos, sim, além dos séculos, um homem além do homem, que Nietzsche vislumbrou e não teve tempo de descrever. Para esse homem, todo o tempo vivido até agora seria apenas uma poeira, um tempo niilista para esquecer ou para ser colocado no museu da estupidez humana. Um homem novo, que ainda assim seria apenas mais um degrau da experimentação biológica, já construiria uma nova ordem, uma nova ética, superada a idéia de credor e devedor, um homem que não deve nada a ninguém, nem a deuses nem a si mesmo, livre e pronto para conquistar novos mundos e espalhar a vida pelo universo. A vida, sim, pode ser definida com o predicado aposto ao verbo ser: a vida é processo. O homem apenas é, dentro desse processo. Não há possibilidade de tal criatura ter sido criada, porque o homem não é criatura. Decorre o ser humano de um processo de vida. Enquanto houver vida, haverá homem. E mesmo quando o universo se expandir ao seu limite e houver todo o processo de retração para um buraco negro onde se fundirá e se transformará na não-matéria, no átomo primevo, que explodirá em seguida para uma nova expansão, o que já deve ter ocorrido por vezes incontáveis, muito além de nossa capacidade de percepção, a vida se restabelecerá e surgirá, como decorrente desse processo, novamente o homem, aquele que é, como parte e engrenagem desse universo em contínua expansão e retração. Se assim pensarmos o homem, a vida será o bem mais precioso, por ser única e por ser aquilo que dá sentido a tudo quanto sou, sem sofrimento, sem culpa, sem deuses a quem prestar qualquer tipo de obediência ou de quem esperar qualquer tipo de castigo.



domingo, 30 de maio de 2010

ERVAS DANINHAS: O ESTADO E O MILITARISMO

(Caspar David Friedrich - l'arbre aux corbeaux)



O nacionalismo e o patriotismo são noções absolutamente estúpidas. O homem nasceu no planeta Terra e não em uma nação cuja fronteira não se conhece bem, por tratar-se somente de uma linha no mapa. E o mapa é apenas a representação de uma ilusão. Não há estados. Não há pátrias. Existe apenas a tribo, que se assenta e se move ao critério da vontade, do vento e da necessidade de sobrevivência. Ao criar a cidade e delimitar suas fronteiras, o homem cometeu o seu segundo maior erro (o primeiro foi adotar crenças deístas e inventar a metafísica). As cidades não são, em si, um erro, mas seus limites, sim. A cidade e o campo constituem na realidade um só continuum, sem que haja qualquer cerca que os limite. Ao construir os muros de defesa, criou-se a fronteira e o campo se opôs à cidade. Assim também, os estados, os países. São construções espúrias da estupidez humana. Subsistem porque foram criados, apenas por isso. O estado se sobrepõe ao país e o país se determina por uma série de fatos e objetos inexequíveis e absurdos, como a construção de falares comuns, de culturas que respeitam fronteiras, de usos que se fixam em determinados cercados, como galinheiros. Os homens, ao defenderem a pátria e o estado que a sufoca, defendem o direito de viver em galinheiros. E têm, por isso, cérebros de galinha. Sob a égide do patriotismo e do nacionalismo cometeram-se os maiores crimes de lesa-humanidade. Mata-se, estupra-se, aterroriza-se, tortura-se em nome de uma bobagem, como as cores de uma bandeira, um trapo colorido na ponta de um pedaço de pau. Isso não representa absolutamente nada. São símbolos vazios que a imaginação doentia do homem encheu de significados que só levam à morte, à guerra e à destruição. E, principalmente, à exclusão e ao expansionismo, quando o país se transforma em império, outra praga da história do homem. A conquista, por ser conquista, é tão vazia quanto a própria existência do país e do estado. O homem inventou deuses e, depois, um só deus, para satisfazer as suas necessidades de fazer mal a si mesmo. Depois, criou o estado para satisfazer as suas necessidades de fazer mal aos outros. A idéia de deus desumaniza o homem. A idéia de estado desumaniza a sociedade. Trata-se, agora, de destruir coletivamente, de praticar genocídios em nome da identidade do estado, do país, da região, da tribo ou da cidade. A morte coletiva. Pluralizada. Não há cores, símbolos ou papéis coloridos a demarcar fronteiras que justifiquem a invasão e a destruição daqueles que estão do outro lado dessa linha abstrata. Para impedir a invasão e para, obviamente, invadir, o homem cometeu o seu terceiro maior erro: criar os exércitos e, com eles, os militares. A arte da guerra é a arte da degradação humana. Ser guerreiro é assumir de forma definitiva a própria estupidez. O militar, na escala de valores do homem, só perde em estupidez para o sacerdote. Ambos têm, no entanto, o mesmo grau de desumanidade. Se o sacerdote destrói a mente, o militar destrói o corpo. Ambos competem na arte de fazer mal. Só não os considero o mal absoluto, porque teria de concordar com a existência de um bem absoluto. Como são categorias abstratas e inventadas pela ignorância humana, ambos, militares e sacerdotes são meros produtos espúrios da idiotice do homem. Não sou ingênuo, no entanto, a ponto de acreditar que o chamado espírito guerreiro não seja uma herança profunda do homem, desde o seu surgimento, e que foi responsável mesmo pela sobrevivência da raça humana. No entanto, esse “espírito guerreiro” deve ser debitado à necessidade de preservação da espécie, um instinto animal que leva o leão a comer a corça, não porque ele a odeia ou se sinta ameaçado por ela, mas simplesmente porque a corça, por mais bela, inocente e inofensiva que seja, é o alimento do leão. Não há sentimento ou emoção na caçada do leão. Há apenas o instinto. Assim também o homem primitivo. O instinto levava-o a matar. No homem moderno, a carne continua sendo o alimento necessário. E não há ódio ou rancor ou qualquer outro sentimento na morte do boi que nos fornece as calorias necessárias ao nosso organismo. Apenas a necessidade. O organismo humano ainda precisa da carne, para viver. No entanto, se se usa o boi como divertimento ou sacrifício em nome de um deus ou de uma arte, como na tourada, por exemplo, não podemos deixar de notar que estamos exercitando o lado mais primitivo de nossos instintos. Não há razão que explique sacrificar o animal para atender a esses instintos. Tolera-se a morte por divertimento ou para agradar a deuses porque somos fracos e acabamos justificando, de forma infantil e primitiva, um instinto que já devia estar abandonado há muitos anos. A evolução, como acontece em toda a natureza e, geralmente, não nos damos conta, não segue o mesmo nível em todos os grupos. Não há nisso a defesa da diferença, mas a constatação de uma realidade. Os seres humanos, em termos de evolução mental e cultural, estão colocados em patamares diferentes, o que não implica a noção de qualidade, ou seja, não há os que estão em pior ou melhor situação, mas em níveis diversos do estado de evolução. A tecnologia não está ao alcance de todas as tribos, ainda, não porque essas tribos não tenham condição de assimilá-la, mas apenas por uma questão social ou cultural, não interessa a determinados grupos dar saltos na linha da evolução e adotar costumes não consagrados pelo uso. No entanto, ao inventar o militarismo, o homem deu um salto qualitativo (não positivo) no instinto guerreiro e adotou princípios e regras para justificá-lo. Aí está o grande erro. O militarismo tentou dar um arcabouço lógico àquilo que pertencia ao instinto primevo. E criou um monstro que se arraiga nas mentes das pessoas, criando necessidades que, na verdade, o homem não devia ter, que é a defesa de um estado também inventado. O militarismo, como a religião e a noção de estado, é um grude nocivo na mente humana, uma espécie de planta daninha que, se cortada do corpo do hospedeiro, danifica também o organismo que lhe dá a seiva. Vai ser preciso um avanço tremendo, um salto de qualidade de dimensões estratosféricas, para que o homem chegue à conclusão de que é necessário, mesmo com aparentes perdas, destruir essas ervas daninhas de seu processo mental. Que novos genes, mais promissores, substituam a necessidade de pensar num ser superior, num estado acima da sociedade e de um sistema militar que dê sustentação aos dois anteriores. Porque militarismo e estadismo andam de mãos dadas, na mente do homem. Sustentados pelo deísmo.

sábado, 29 de maio de 2010

TRIBALIZAÇÃO E UTOPIAS



(Emile Nolde - dance around the golden calf)

A democracia nasceu como uma tentativa de conciliar os irreconciliáveis, de dar voz a todos e aceitar as escolhas da maioria. Isso, no entanto, não tem funcionado. As minorias são cada vez mais barulhentas e mais ativas. Com a facilidade de domínio dos meios de comunicação em massa, basta que uma pequena minoria se una e resolva agir, para que se transforme em força poderosa, a impor suas reivindicações, sua ideologia, seus princípios. O homem foi sempre um animal de tribo. Esse instinto tribal predomina ainda sobre todos os outros instintos de união, de paz e de convivência. E agora, com voz ampliada, as tribos vão à luta, impõem-se e calam até mesmo a maioria assustada que se uniu, por alguns instantes, em torno de ideias mínimas. Por isso, a democracia não tem funcionado, entre outros motivos. Acatar a decisão da maioria não tem sido a regra. Nas ruas, nos parlamentos, nos congressos, em quaisquer reuniões humanas, se há uma tribo disposta a agir, seu discurso e suas imposições acabarão por exercer uma função deletéria na mente das pessoas e a sua ditadura se estabelece, sem nenhum prurido ético. A divisão do mundo em nações foi, sempre, uma divisão arbitrária, mas agora, isso se torna cada vez mais problemático. Grupos étnicos, sufocados por muitos e muitos anos pela maioria, colocam para fora suas cabeças cheias de ódio e preconceito, para exigirem direitos que têm, sim, mas poderiam ser conquistados de forma mais racional. No entanto, a primeira qualidade a ser jogada na lixeira, nas lutas étnicas, é o racionalismo. O que é racional não conquista corações e mentes, só as mentes. E as minorias são sempre emotivas e sanguíneas e, na maioria das vezes, sanguinárias. Acumularam muitos ódios ao longo do tempo. Quando partem para a ação, querem provocar reações e não ganhar o que reivindicam. Querem vingança e, por isso, não admitem racionalizar o conflito, para resolvê-lo. Esse modo de agir, sem dúvida, tem sido uma das maiores ameaças à democracia. O Estado absolutista, por outro lado, mesmo com alguns princípios democráticos, só tem demonstrado poder de força para tomar decisões errôneas e não é, de forma alguma, confiável. Sempre que se instala um poder absoluto, há guerras expansionistas ou tentativas de expansão. O que se deseja é exatamente o contrário. Eu acredito que as nações de territórios imensos, que abrigam etnias, tribos, aglomerados ou grupos com interesses contrários, tendem a desaparecer, ou pelo menos, isso é o que deveria ocorrer, se pensarmos democraticamente e não economicamente ou militarmente. O caminho para a união e a paz entre os povos, ironicamente, passa pela tribalização da humanidade. Será mais fácil constituir ligas e depois governos comuns a partir de grupos e tribos do que a partir de nações constituídas artificialmente. Quando os interesses minoritários forem atendidos, quando os grupos étnicos não tiverem mais motivo para ódios e lutas de extinção, pode-se ser mais racional e partir para o entendimento num nível superior de interesses comuns. Deixarão, portanto, as tribos, de se constituírem em ameaça à democracia. E esta, por sua vez, pode ser aperfeiçoada num sistema formal mais flexível e mais próximo de buscar atender os interesses comuns do que impor governos de maioria reféns das minorias. A partir de ligas tribais, formam-se ligas e uniões mais amplas, até que, numa ousada utopia, possamos chegar a um governo universal e democrático, cujo princípio maior seja a preservação da vida e cujos esforços se voltem, então, para a saúde do planeta. Estará o homem, nesse momento, apto a conquistar outros planetas e outros mundos, espalhando a vida pelo universo e deixando ao planeta Terra a missão de ser apenas o celeiro da vida. Com uma população reduzidíssima, só o necessário para administrar uma avançada tecnologia de produção de alimentos provindos das vastas extensões de terra e dos mares, a Terra dará aos homens a base para viver tranquilamente em planetas cuja atmosfera ele pode dominar, mas cujo solo é estéril e cujas águas, quando houver, não são próprias para consumo. Todo o alimento produzido no planeta-celeiro será devidamente concentrado em pequenas pastilhas que se revitalizarão ao contato com líquidos previamente preparados com substâncias químicas, para se transformarem de novo em alimento fresco e pronto para o consumo. Afinal, sonhar não é apenas buscar utopias, mas também sugeri-las.



sexta-feira, 28 de maio de 2010

SOBREVIVÊNCIA DO HOMEM




(Brian Viverós - round66)





Por outro lado, a democracia precisa afinar seu discurso com os verdadeiros ideais socialistas de busca não de igualdade, porque isso não existe, mas de dar a todos oportunidade de uma vida digna, mesmo que essa vida seja simples e sem grandes perspectivas intelectuais. O sol nasce para todos, mas seus efeitos variam de pessoa a pessoa, conforme suas necessidades. E isso tem de ser respeitado. Assim como surgem gênios entre as pessoas mais pobres e ignorantes, nascem ignorantes totais nas chamadas classes privilegiadas. E a cada um deve ser dada a oportunidade de viver sua vida dignamente, com todo o respeito que o ser humano merece. Não há necessidade de o rico possuir, por exemplo, dez automóveis, se ele usa apenas um ou dois, assim como é um crime de lesa-humanidade encontrarem-se populações inteiras vivendo com menos de um dólar por dia. Também não se pode permitir que a população mundial cresça de forma descontrolada. O planeta deve ter um limite e esse limite são os meios de sustentação da humanidade. Estudos têm de ser feitos para equacionar a capacidade de crescimento populacional com a capacidade de produção de alimentos e bens necessários à sobrevivência do homem na terra. Eu acredito, mesmo, que o destino do planeta Terra é tornar-se o celeiro de víveres para as populações terrestres que migrarão para outros planetas e dependerão da estupenda capacidade que tem a Terra de produzir alimentos, em comparação com os desertos dos demais planetas vizinhos. Isso, daqui a alguns milhares de anos, talvez. Porque o germe da vida está aqui e daqui se espalhará para outros mundos, povoando-os com homens e mulheres biologicamente mais avançados do que os existem hoje. Talvez mais resistentes às doenças, mais inteligentes, com menos propensão à guerra e à violência, mais respeitadores da vida e da natureza e com a aparência física mais adaptada ao meio-ambiente hostil que os espera em outros planetas, mas sempre seres humanos, tremendamente parecidos uns com os outros mas, ao mesmo tempo, tão diferentes em seus sonhos, pensamentos e idiossincrasias, o que torna o homem um ser privilegiado no universo e diante das demais criaturas com as quais ele deve conviver e as quais ele deve aprender a respeitar.





quinta-feira, 27 de maio de 2010

DEMOCRACIA



(Delacroix - la liberté guidant le peuple)



A democracia, apesar de todos os discursos de que é um governo do povo, com o povo e pelo povo, na verdade não atingiu plenamente seus objetivos, porque, na prática, tem-se tornado governo das elites. Na verdade, proliferam ditaduras disfarçadas ou governos que ainda seguem a cartilha iluminista, soberbos no seu pretenso conhecimento do que querem as massas, que continuam sendo usadas como escada para manter no poder homens vaidosos que absolutamente não se preocupam com o povo. Os aspectos formais – dominados por processos que privilegiam o poderio econômico – impedem que indivíduos provindos das classes populares ascendam ao poder. Para se eleger um vereador de qualquer cidadezinha perdida no mapa, é necessário gastar, às vezes, o dobro ou o triplo do que o indivíduo vai ganhar durante todo o seu mandato. Para se eleger, então, um mandatário de uma nação, são queimados milhões de dólares que, mesmo provindo de contribuição de eleitores, acabam sendo arrancados das mãos dos capitalistas que, eleito o novo presidente, irão cobrar a fatura ou através de benesses do poder ou, o que é pior, através da promessa de manutenção do status quo, que é a continuação de leis que não permitam distribuir renda e riqueza, o que faz que o pobre continue sendo explorado pelos mais diversos meios. A superação dos formalismos excludentes da democracia vai exigir um esforço imenso de educação do povo para que ele saiba realmente escolher seus representantes, não somente através do voto, mas também através de assembléias e congressos populares que filtrassem e impedissem a chegada ao poder de líderes demagogos e populistas, com suas falsas promessas e total descompromisso com seus eleitores.



quarta-feira, 26 de maio de 2010

POLÍTICAS EXCLUDENTES



(Salvador Dalí - head of flowers)


Em termos políticos, grassam por todo o globo ditaduras fascistas das mais diversas colorações, com perseguições e torturas para todos os gostos, sem que o homem consiga se livrar delas, preso que está pela situação econômica de pobreza e miséria e pela situação social de desagregação e ignorância. Por outro lado, a democracia tem falhado constantemente em seus aspectos formais, em que pese ser o sistema até agora menos propenso a escravizar o homem. O sistema de governo democrático não tem, contudo, obtido vitórias significativas no campo social. Se permite, por um lado, a participação de amplos espectros da comunidade, quando distribui os recursos, geralmente o faz de forma excludente, sem que aqueles que participaram do processo tenham voz ativa na execução dos programas de governo. E a pobreza e a miséria mantêm o povo na ignorância de seus direitos, sem que nada se faça para tirá-los dessa situação. Os ricos continuam ficando cada vez mais ricos e os pobres ganham apenas a compensação de promessas nunca cumpridas. O fosso entre as classes se aprofunda, mesmo com o fantástico sistema de comunicação, que permitiria, teoricamente, que os mais fracos tivessem acesso a seus direitos, mas a ignorância, mantida por um sistema educacional incompetente, apesar de estar milhões de anos luz à frente do sistema medieval, impede que as populações reivindiquem de forma contundente e correta a resolução de seus reais problemas, pois nem mesmo conseguem, essas populações anestesiadas pela ignorância, diagnosticar as causas e soluções para suas agruras. O sistema democrático deverá ser aperfeiçoado em seus aspectos formais, para que se possa testá-lo efetivamente como um sistema confiável e definitivo para o homem, mas isso só será possível quando forem banidas a ignorância e o analfabetismo e diminuída a interferência do deísmo paralisador no seio das populações mais pobres. O critério cristão de caridade deve ser substituído por políticas claras de inclusão social. O pobre não prescinde da caridade do estado, instituída através de programas sociais de tiro curto, indispensáveis num determinado momento, mas condenados ao fracasso se se tornarem política social definitiva. O que tem de ser feito, em termos definitivos, é melhorar as condições de vida da população, através de políticas de distribuição de renda, cujos princípios e, até mesmo, processos, todos têm na ponta da língua, mas que ficam entravadas nos gabinetes burocráticos de governos de aparência e ideologia democrática, mas fortemente presos a compromissos econômicos com grupos que são os verdadeiros donos do capital e, por conseguinte, os verdadeiros governantes.



terça-feira, 25 de maio de 2010

CAPITALISMO E DEÍSMO



(Bruegel - big fishes eat little fishes)



No campo da economia, criam-se fantasmas como a globalização, para que as nações mais fortes imponham seu predomínio e mantenham sob o seu tacão centenas de povos que não conseguem acompanhar o ritmo de crescimento da economia desses países e sofrem a mais desbragada e mais cruel forma de colonialismo que houve sobre a face da terra: o colonialismo mercantilista, de um mundo pretensamente sem fronteiras, mas sem fronteiras para os donos do dinheiro, que movimentam capitais virtuais por todos os países, levando ao desespero e à miséria milhões de seres humanos, se isso lhes convém. O capital tornou-se o deus ex-machina do mundo moderno, amparado por doutrinas e religiões que falsamente se colocam ao lado do pobre para anestesiá-lo com promessas de um mundo melhor... depois da morte. Esse, talvez, o viés mais cruel do deísmo, a sua face mais horrenda, aquela que contribui com a degradação social e econômica do planeta, sem fazer muita força, apenas aprovando tacitamente a exploração dos pobres e miseráveis pelos capitalistas sem doutrina e sem sentimento.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

FUTURO DO HOMEM



(Juan Miró - aquarela)



Em termos sociais, a humanidade ainda sofre os mesmos receios e medos de pestes do homem medieval, apesar das vacinas e das drogas descobertas ou inventadas nesses últimos tempos, agravada essa situação pelo estado de miséria absoluta em que ainda vivem milhões de seres humanos em todas os rincões do planeta. E agravada ainda mais essa situação de miséria pela superpopulação, que não se consegue controlar. O planeta deve ter um limite de pessoas e acredito que esse limite não esteja muito longe de ser alcançado. Os sistemas de manutenção, desde a agricultura até a exploração do petróleo, têm limites que não podem ser estendidos e isso deve ser motivo de preocupação para os governantes que não conseguem se unir aos cientistas para equacionar problemas tão complexos e diversos, como a poluição, o controle populacional, o preço dos alimentos e a expansão da área agricultável sem a predação do meio-ambiente, a cura de doenças endêmicas e epidêmicas, a melhoria da qualidade de vida das grandes cidades ou a distribuição de alimentos a populações carentes, com a sua respectiva inclusão na cadeia produtiva. O mundo parece estar a ponto de explodir, com guerras inúteis e absurdas matando milhões de pessoas anualmente, com conflitos de poder entre nações sem solução em curto prazo, com a destruição de nações inteiras por motivos raciais ou tribais. A situação social do globo, no momento atual, não permite que se tenham predições otimistas quanto ao futuro do homem.



terça-feira, 18 de maio de 2010

A GENÉTICA



(Delaunay - the red tower)

A mais devastadora ciência, hoje, para os deístas, chama-se genética. Ao descobrir o DNA, o homem começa a desvendar o mistério da vida e a perceber que não há mistério algum, há apenas uma cadeia de genes que contém em si toda a história do homem e essa história é muito mais interessante e bela que a contada pelos deístas. E não tem nenhuma fantasia a realidade da história do homem. No entanto, arma-se um ataque terrível contra a genética, usando como arma aquilo que eles sabem muito bem manipular: a ignorância. Infelizmente, nesse início de século XXI, ainda está o homem mergulhado em trevas muito mais negras do que aquelas que se atribuem à Idade Média. Naquele tempo, tínhamos a dificuldade inerente ao momento histórico, de profundas modificações sociais num meio em que não havia uma classe burguesa definida, quando os meios de comunicação ainda não haviam sido inventados, quando o conhecimento tinha mínimas chances de ser amplamente divulgado, quando a ciência ainda era um arremedo de teorias confusas. O homem medieval não contava com ganhos científicos fantásticos que o homem obteve durante o século XX. Seu mundo era restrito. Não era de trevas, evidentemente, o mundo do homem medieval, mas um mundo limitado em si mesmo, fechado em doutrinas e teorias que não se podiam provar, incrustado entre uma civilização greco-romana de grande brilho e um futuro incerto de expansão e modificações sociais. Neste século, não. Temos à mão a mais complexa das invenções humanas: as comunicações. E temos a possibilidade de divulgar a ciência através de um sistema de ensino sem par na história do homem. E mesmo assim, não conseguimos dissipar as trevas da ignorância, porque o progresso científico ainda não se reverteu em progresso social, econômico e político.



segunda-feira, 17 de maio de 2010

ESCRAVIZAÇÃO DO HOMEM



(Dalí - dream caused by the flight of a bee)



O deísmo e seu representante ocidental, o cristianismo, vivem da idealização do homem. Uma idealização fantástica, de absurdidades e incongruências. Não admitem o homem como produto de milhões de anos de evolução, porque, se o fizerem, perdem o seu quinhão de “almas”, poder e dinheiro, muito dinheiro. Precisam manter o homem escravo de doutrinas facciosas e tolas, para que não percam terreno sobre aquilo que mais lhes interessa: o domínio da humanidade. Perdido está no tempo esse objetivo, mas se mantém vivo através de milhões e milhões de páginas escritas, de sermões proferidos, de milagres inventados e, acima de tudo, através da ameaça constante de seu deus poderoso e vingativo.


sábado, 15 de maio de 2010

FALSO HUMANISMO



(Balthus - the street)



As minhas diatribes contra o deísmo, representado no ocidente pelo cristianismo, baseiam-se no fato de que há uma aura de falso humanismo envolvendo a crença em deus ou em deuses. Os cristãos, e todos os deístas, não estão preocupados com o homem, em seu conceito de ser vivente, mas apenas como algo abstrato, que eles chamam “alma” ou “espírito”. Ao espiritualizar a natureza humana, o homem deixa de ser humano. Torna-se integrante da divindade. Como tal, valoriza-se, então, não a vida, mas a morte, o mistério. Essa desumanização, essa crença em valores não terrenos, tem efeitos catastróficos no imaginário do homem. A vida, que tantas vezes já repeti que me torno enfadonho, deixa de ser o bem mais precioso para tornar-se o meio de chegar ao divino. Logo, pode ser ceifada sem nenhum profundo arrependimento, pois a divindade irá perdoar todo aquele que se arrepende ou, como no caso de religiões orientais, irá até mesmo recompensar quem mata em nome ou por causa dessa divindade. Há, portanto, um deus carniceiro por trás de cada cristão, mulçumano, judeu ou seja qual for o seu credo. Os profetas do deísmo só valorizam o homem como meio, como instrumento de seu deus. Não há, por isso, nenhum humanismo nas ações ditas humanitárias dos deístas. Mesmo quando praticam a caridade, fazem-no com o sentimento na outra vida, como uma forma de agradar a seu deus, não como uma forma de real preocupação com o destino físico do homem, apenas uma forma de minorar o sofrimento. Afinal, ninguém gosta muito de ver o outro sofrer, apesar de ser o sofrimento o meio pelo qual o deísta pode chegar mais rapidamente ao seu deus. Numa cena antológica de um filme a que assisti há poucos dias (“Diários de motocicleta”, de Walter Salles, sobre a juventude de Che Guevara), a madre superiora de um acampamento de leprosos não permite que se sirva o almoço aos que não assistiram à missa. Isto é o que acontece com a moral cristã da caridade: compram, literalmente, a alma dos pobres e infelizes que não têm onde cair mortos, para entregá-la ao seu deus, por um prato de comida, esquecidos de que são um dos produtores da miséria, ao darem seu aval a regimes econômicos e políticos que mantêm o povo nesse estado, ou contribuem para que isso se perpetue, pois, afinal, assim a divindade o deseja. Nesse longo processo de desumanização a que se submeteu o homem sob a égide do cristianismo e de outras religiões, a incapacidade de se ver como outra coisa senão um servo da divindade obstruiu a visão do homem de si mesmo e criou um dos idealismos mais perigosos para o próprio homem: a busca da felicidade. Por mais cruel e pessimista que possa parecer, eu afirmo que o homem não nasceu para ser feliz. O homem nasceu para viver, apenas para viver. E o conceito de vida que eu tenho é viver com dignidade, ou seja, dentro do seu plano individual de existência, sem que esse plano possa ser interrompido, impedido de se realizar ou estar a serviço de uma divindade absurda. Viver com dignidade devia significar que eu pudesse traçar o meu destino neste mundo e buscar realizá-lo, seja ele qual for, sem a interferência de deus ou do diabo, apenas seguindo e fazendo aquilo que me traz satisfação. A vida humana consiste nisto: nas pequenas realizações do cotidiano, na segurança de não ser morto em qualquer esquina por qualquer motivo, na segurança de que posso viver e conviver com minha família, meus amigos e realizar os pequenos sonhos que me trazem alegria, que me trazem o prazer de viver em paz. Não há muito que buscar de transcendente, de moral ou de espiritualismo para que a felicidade do homem se realize. Não há ideais grandiosos nisto? Que importa? A maioria absoluta da humanidade deseja muito pouco para se considerar feliz: uma casa, emprego que dê o suficiente para se sustentar com a família, as pequenas alegrias cotidianas e segurança. Vive o homem comum com, relativamente, muito pouco e se sente feliz com isso. São absoluta minoria os que almejam grandes feitos ou não se contentam com isso. E esses também devem ter o seu quinhão, pois sem eles o homem não teria como alcançar outras medidas em sua evolução constante. Não quero fazer, aqui, o elogio da mediocridade, apenas constatar que ela existe e é soberana na composição da humanidade. Os sábios, os cientistas, os aventureiros, os esportistas, os artistas, por mais que pareçam muitos e apareçam na mídia, são poucos, muito poucos. Fazem a diferença, é claro, mas constituem a exceção que comprova a regra. A maioria dos mortais deseja, simplesmente, viver em paz e realizar seus pequenos desejos de dia a dia, sem a ideologia estúpida de ter de se dedicar a um deus que se esconde nas palavras de padres, pastores, rabinos ou seja lá quem esteja pregando, para levá-lo a uma outra vida que não existe e torná-lo um bobo alegre nesta existência, ao pretender alcançar a salvação de algo que ele não tem, a alma, ou pagar um pecado que ele não cometeu, o tal pecado original do cristianismo.



sexta-feira, 14 de maio de 2010

OUTROS CAMINHOS


(Hassan Farahani - chuva)


Destruir o cristianismo não implica negar sua relevância na história do homem. Há um acervo imenso de obras cristãs no terreno de todas as artes. E isso não se pode destruir. No entanto, se não tivesse existido o deísmo como um mito que se imiscui em todas as culturas, o homem teria trilhado outros caminhos para construir seu patrimônio histórico. Sua criatividade permitiria escolher outros caminhos inimagináveis agora, por estarmos contaminados pela longa trajetória deísta. Talvez fossem caminhos que não caíssem no julgamento moral do bem e do mal, o que seria um alívio imenso para o homem. A partir do momento em que se criou o conceito de bem e de mal, baseado na existência de deuses que punem e de deuses que abençoam, o homem caiu na estrada do moralismo e isso foi sua perdição. Quando deus e o diabo passaram a disputar as almas, jogaram o homem no caminho do preconceito, da intolerância e do ódio. A máxima cristã do “amai-vos uns aos outros” tentou mascarar esse moralismo, mas ninguém ama o diferente. E, se é diferente, não pode ser bom. O moralismo impede que o homem enxergue a si mesmo no outro, por mais estranho que o outro seja, num primeiro contato. Assim como, em termos genéticos, há mais semelhanças do que diferenças entre as criaturas vivas, pode-se pensar que entre os humanos há infinitamente mais semelhanças que discordâncias. Os aspectos exteriores de cor da pele, dos olhos, dos cabelos etc. são irrelevantes diferenças genéticas, que se tornam desprezíveis. O ser humano tem na variedade e diversidade aparente o poder de seu predomínio na terra. Graças a essas tão pequenas diferenças, pôde sobreviver a todos os climas e a todas as modificações por que passou o globo terrestre desde que ele surgiu. É o homem a espécie predestinada a conquistar outros mundos e manter a vida. Mas, para isso, precisa evoluir em todos os sentidos, principalmente abandonar filosofias moralistas que pregam a exclusão e aceitar a vida tal como ela é, sem subterfúgios deístas, sem instrumentos cristãos, muçulmanos ou de qualquer outras teorias e seitas moralistas. Quando isso acontecer, a vida passará a ser valorizada em todos os seus aspectos, como o mais precioso bem que se pode ter.



quinta-feira, 13 de maio de 2010

O SAGRADO

(Bosch - adoração)


Uma das criações-mores do deísmo, o conceito de sagrado, precisa ser destruído e banido para sempre do pensamento humano. Ergue-se esse conceito como uma barreira intransponível à crítica ao deísmo. Ocasiona temores profundos qualquer tentativa de se insurgir contra aquilo que se considera sagrado. Há na mente dos homens, desde tempos imemoriais, uma espécie de gene que acende uma ponta de terror diante de algo considerado sagrado. Por isso, templos são sagrados, livros e palavras são sagrados, objetos de culto são sagrados e homens que os manipulam se dizem santos, colocando-se, assim, todos eles, seres humanos comuns, objetos e lugares, na categoria de inatingíveis. E isso atemoriza. Faz que o homem se dobre a desígnios absurdos, por conta do temor do sagrado. Basta declarar que algo é sagrado ou santo, para que se ergam altares, para que se instalem o medo e o respeito e, em seguida, a exploração desses sentimentos pelos velhos espertalhões de sempre – os padres e pastores da igreja e das seitas subsidiárias e herdeiras dos conceitos deístas e cristãos. Atribuir poderes ou qualidades divinas a si mesmos e a seus objetos de culto deve ter sido a forma encontrada pelos primeiros feiticeiros para se impor diante do grupo e de se proteger de qualquer ameaça dos concorrentes. E esse conceito, que originou o maior embuste do deísmo, permitiu que se hierarquizassem as qualidades humanas, o que levou, até mesmo, ao surgimento do conceito de realeza. Também a divisão em castas ou a determinação de diferenças hierárquicas entre os homens tem no conceito do sagrado sua possível origem. Por ele, foi possível estabelecer seres superiores e inferiores e, com isso, subjugar e escravizar quem fosse considerado inferior. A presença de deuses entre os homens, em todas as civilizações, permite que se estabeleçam diferenças. Embora todos possam recorrer aos deuses, somente os mais espertos e inteligentes conseguem convencer aos demais de terem sido realmente agraciados por eles. Se o esperto obtém riqueza, foi graças a deus e, portanto, tem mais direito sobre os demais, também graças a deus. E assim se perpetuam as desigualdades, pois o rico, esperto e agraciado por deus, tem cada vez mais possibilidades de crescimento, enquanto ao pobre resta pedir e rezar cada vez mais ao deus que o agracie, sem obter, no entanto, qualquer sucesso, pois, com certeza, deve ter feito alguma coisa que desagradou profundamente a divindade. E o conceito de pecado se instaura no rastro do sagrado, como outra nódoa a manchar o pensamento do homem. A igreja, hábil na manipulação dos conceitos, avançou um pouco mais: criou o conceito do pecado original, isto é, todos os homens nascem com a nódoa e é preciso adular muito a divindade para se livrar desse caminho para o inferno. A partir daí, tudo foi permitido à igreja e a história pode exemplificar todo o mundo de absurdidades criadas para enganar o homem e mantê-lo prisioneiro do deísmo. A figura do Cristo crucificado e morto para pagar os pecados do mundo torna-se, assim, um dos mais poderosos mitos já criados pela torpe imaginação de homens dedicados a conservar os demais seres humanos atrelados a seus desígnios, para explorá-los e manter uma organização por dois mil anos, através da mentira e da ameaça do fogo eterno. Não pode ter havido maior conspiração do homem contra o homem, em toda a história. E, o que é pior, com ares de se manter inabalável por ainda muitos séculos. Infelizmente. Para o homem e sua trajetória na terra.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

A TRAJETÓRIA DA IGREJA




(Silence - foto de Miroslav Svanovsky)





O lado obscuro da igreja, sua face oculta, perde-se nas dobras da história. Desde o seu início, com o esperto Paulo de Tarso, até os dias de hoje, há muito de perseguição e dor na trajetória dos papas e padres e santos que construíram durante séculos um edifício rígido de conceitos e doutrinas que escondem um poderio econômico que, embora fragilizado, hoje, pelas grandes potências, ainda mantém dispersas por inúmeras nações propriedades e riquezas consideráveis. Não é necessário citar os primeiros anos do cristianismo, quando, de crença perseguida pelos romanos, passou a religião oficial do império e, por conseguinte, a uma tenaz perseguidora de seus inimigos, nem os tempos nefandos da inquisição, quando queimar um judeu rico, para tomar suas posses, ou uma bruxa, para servir de exemplo, mantinha o terror permanente nas cidades e aldeias e era a forma de controle das mentes e corações contra qualquer possibilidade de insurreição à sua ditadura. Mesmo a grande cisão promovida por Lutero e seus seguidores, no fundo, terá sido uma farsa, pois consistia apenas em opor-se a aspectos formais e políticos de controle e não uma verdadeira revolução que contivesse o germe da descontaminação da mente do homem contra os conceitos básicos do cristianismo. Serviu para criar opções de obediência ao mesmo deus, não para libertar o homem desse deus. Foi a porteira por onde entraram, depois, principalmente no século XX, todos os espertalhões que se propuseram a enriquecer à custa da ignorância humana, fundando e disseminando dezenas de seitas e igrejinhas caça-níqueis que se escondem sob as leis de não perseguição religiosa dos inúmeros países onde se instalam. São uma praga que precisa ser combatida como se combate a erva daninha nas plantações. No entanto, elevar a voz contra essas seitas e igrejas é comprar confusão legal, graças ao poder político que elas adquirem, espertamente, para se protegerem. Aos pastores dessas igrejas e seitas tudo é permitido. Podem dizer as besteiras que quiserem, podem envenenar o pensamento das pessoas com suas afirmações destituídas de qualquer fundamento lógico, podem amedrontar fiéis e não fiéis com a existência de demônios e com o fogo do inferno, para tirar mais e mais dinheiro de quem, às vezes, não tem o que comer, mas não podem ser processados e presos por enganar a fé pública, por crime contra a economia popular. Alcançam prestígio social e político e, assim, permanecem inatingíveis por uma legislação conivente com esse tipo de falcatrua. Repetem, de forma mais sutil, os mesmos métodos usados pela igreja em seus primeiros tempos, para arrebanhar infiéis que idiotizam com pregações que são verdadeiras lavagens mentais, em templos imensos erguidos com dinheiro tomado à força de persuasão e muita promessa impossível de cumprir, como a igreja vendia outrora as suas indulgências e o perdão dos pecados cometidos pelos homens, de preferência os mais ricos. Por isso, pregam essas seitas, exatamente como a igreja, a força dos pobres, dos humildes, como uma forma de convencimento a que os ricos doem parte de sua fortuna e os que têm tão pouco também doem tudo o que têm. Somente os pobres entrarão no reino de deus, mas os ricos são sempre bem-vindos aos cofres desses pastores, para enchê-los cada vez mais.


terça-feira, 11 de maio de 2010

A IGREJA DIANTE DO HOMEM



(Artemisia Gentileschi - Judith and her maid servant)

O deísmo é uma doutrina contra a vida. Ao entulhar a imaginação do homem com histórias de outras vidas, outras dimensões, o deísmo torna-se antinatural em si mesmo e condena o homem a privilegiar uma pretensa outra vida ou, até mesmo, a reencarnação, e desprezar o bem mais precioso que ele tem. E o cristianismo, fruto podre do deísmo ancestral, tende a ser a doutrina que legitima absurdos como instituições religiosas interferirem em todos os setores da vida humana. A igreja, com todo o seu passado torpe e negro, tem a desfaçatez de, através de papas trêfegos e imbecilizados pela doutrina, querer ser a moral do mundo. Vive ditando regras, não só a seus seguidores, mas a todos, como se fosse dona da verdade. No mundo atual, quando há desafios imensos, como a luta contra doenças transmissíveis por vírus quase imbatíveis (a Aids), uma declaração do papa contra o uso de preservativos coloca em risco a vida de milhões de pessoas. E a esse papa não se pedem contas de suas assertivas criminosas. Aliás, o moralismo canhestro, muito além do próprio moralismo, que já é uma praga, constitui um dos aspectos mais cruéis da face aberta da igreja católica. Prega-o em templos, praças públicas e meios de comunicação, intoxicando a mente dos homens com conceitos de intolerância e exclusão escondidos em belas e vazias palavras, como fé, esperança e caridade, os três pilares da igreja, sobre os quais se assentam todas as falsas promessas de salvação disfarçadas em atemorização. Para convencer os mais titubeantes, acena com o fogo do inferno e com outros castigos atrozes, proferidos pelo deus que ela defende, um deus sempre pronto a brandir a maça de guerra contra os seus detratores. A vida humana fica, assim, em plano ínfimo diante do poder desse deus. Não há saída para o homem, dentro do deísmo.



segunda-feira, 10 de maio de 2010

MISSÃO DO HOMEM




(Claude Lorraine - morning in the harbor)


A minha crítica ao cristianismo, fonte de todas essas superstições, embora reconheça alguns princípios éticos em tal doutrina, não pode deixar de ser contundente, porque, se colocarmos na balança o bem que possa ter trazido aos homens e as bobagens que tal crença perpetua na mente das pessoas, sendo um dos fatores da ignorância e da barbárie dos homens, veremos que a última tem um peso infinitamente maior. Não consigo imaginar um mundo sem a doutrina deísta e, principalmente, sem o cristianismo, porque essa praga tem sobre os homens um poder imenso, depois de milhares de anos de implantação, como uma lavagem cerebral coletiva, sem nenhuma oportunidade para o racionalismo. Mas tenho a absoluta certeza de que o homem encontraria outros princípios éticos para pautar a sua vida e esses seriam muito mais higiênicos, em termos de respeito à vida e ao próprio ser humano. O homem não precisa de nenhum deus. O homem é dono de seu próprio destino e tem, a seu favor, a inteligência e, com ela, pôde criar obras tão magníficas como a ciência, a filosofia, as artes, sem precisar buscar em um deus qualquer a inspiração para criá-las. Deus é apenas uma desculpa para fraquezas que criamos para nós mesmos. E deus é uma desculpa para muitas ações sórdidas que cometemos contra nós mesmos. Quando o homem se conscientizar de que ele é o deus que criou e deixar de se esconder atrás dessa entidade para desculpar seus crimes e a estupidez que são guerras, assassinatos, ódios e estranhamentos por diferença de cultura, de usos e costumes, terá, então, compreendido que dedicar-se a melhorar as condições de vida do planeta onde mora e a melhorar as condições de sobrevivência de todos os povos nesse planeta é a missão mais importante de sua vida, a mais nobre de todas, pois implica preservar-se e preservar a vida que existe nessa casca de noz e que, quase com certeza, daqui poderá espalhar-se por todo o universo. Não sabemos e provavelmente não saberemos nunca se estamos sós nesse universo. Mas garantir a vida, aqui, e espalhá-la por onde for possível é garantir a própria existência desse universo, pelo menos enquanto conceito de vida e diversidade.



domingo, 9 de maio de 2010

O BEM E O MAL




(Heinrich Fussli - íncubo)


O combate às trevas da ignorância é, talvez, o mais duro combate a que se pode dedicar um ser humano. As absurdas superstições estão tão arraigadas na mente do homem, que se torna um processo sobre-humano tentar convencer as pessoas de que certas crenças só têm trazido sofrimento, guerras e ódios. As seitas que acreditam no demônio proliferam e seus pastores se tornam cada dia mais ricos e influentes, a despeito de todas as tentativas de desmascarar a prestidigitação que usam para convencer os ignorantes da veracidade de suas afirmações. Crer no demônio é tão estúpido quando crer em deus ou em gnomos. Mas, muitas pessoas se acham endomoniadas, quando têm algum tipo de distúrbio. E haja pastor para tirar o capeta do corpo do coitado, vítima da má fé e da esperteza do tal pastor. O mundo torna-se, para essas pessoas, apenas o palco onde lutam forças opostas, o bem contra o mal. Com isso, não conseguem dar à vida a sua verdadeira dimensão, tornam-se reféns miseráveis da ignorância e, pior, da exploração desavergonhada dos inescrupulosos que povoam o universo das crenças absurdas.



sábado, 8 de maio de 2010

ECOLOGIA HUMANA





(Barahona Possolo)




Tendo como princípio básico ser a vida o bem mais precioso, o respeito a ela levará o homem a banir a guerra, a cometer menos assassínios, a punir com mais vigor os que os cometem, a combater a miséria e a buscar, enfim, a felicidade aqui mesmo, compenetrado de que não há uma segunda chance. Vejo, no entanto, com horror, nesse começo do terceiro milênio, que a guerra, a violência e o fanatismo têm proliferado no mundo, a despeito de toda a oposição a isso por muitos homens e mulheres esclarecidos, que condenam a barbárie e buscam um mundo melhor. Parece que o homem entrou num túnel escuro de insensatez, que não terá fim se não se tomarem medidas urgentes que, entretanto, só terão resultado no longo prazo. Um processo de desmistificação das doutrinas hoje defendidas pelo homem, como o culto religioso, a crença em outras vidas e a noção de pecado, deve entrar em curso imediatamente, para que haja algum tipo de conscientização de que não é possível que o homem continue trilhando os caminhos da destruição de si mesmo e do seu planeta. Há que haver algum tipo de ecologia humana, possível de ser posta em prática, para que se detenha o tremendo rolo compressor dos ódios raciais, das cisões entre pobres e ricos, dos estranhamentos entre povos que tenham usos, costumes e cultura diferentes.



sexta-feira, 7 de maio de 2010

A VIDA, AFINAL




(Andrzej Malinowsky - printemps)


A visão mágica da vida, responsável por tantas e tantas superstições, deverá desaparecer da face da terra, mas isso não implicará uma vida menos rica em termos de imaginação e criatividade. Pelo contrário, livre das idiotices que resultam da ignorância, o cérebro humano poderá processar com muito mais clareza os aspectos mais interessantes e muito mais criativos daquilo que se pode chamar de “milagre da vida”, ou seja, a própria vida se manifestará como o maior bem que existe, em toda a sua plenitude.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

EVOLUÇÃO DO HOMEM




(Bosch - o concerto no ovo)


Se Nietzsche sonhava com um papa – César Bórgia – que pudesse eliminar o cristianismo, eu sonho com o dia em que o homem deixará de acreditar em deuses, para se libertar, definitivamente, de superstições e evoluir para um tipo melhor de ser humano. O sonho não é impossível, só não sei como ele vai se realizar. O homem pode evoluir em termos orgânicos e seu cérebro não acompanhar. Mas, provavelmente, não será isso o que vai ocorrer. Ambos deverão evoluir. E quando isso acontecer, o que provocará mudanças profundas, embora lentas, em seu comportamento, é mais do que provável supor que novos conceitos e princípios e a crença na sua capacidade, não de criar mitos, mas de superar obstáculos, farão que o homem se integre realmente na natureza e compreenda que ele é e será sempre um ser em evolução, um ser que depende dessa interrelação com as forças naturais para sobreviver. Compreenderá que ele não pode destruir a natureza, mas também não pode impedir que ela siga o seu curso. Pode, até, intervir para que a natureza acelere processos ou tome rumos menos cruéis, mas o fará sob o comando de uma ética de respeito e de conhecimento científico suficiente para saber o que realmente está fazendo, sem receios supersticiosos ou influência de crenças absurdas.



quarta-feira, 5 de maio de 2010

FÉ, PILAR DO DEÍSMO






Se formos pensar na origem das crenças deístas, de como o homem primitivo construiu pouco a pouco todo o imaginário que deu origem a todas as religiões, teremos de concordar que há milhares e milhares de anos de impregnação de conceitos, de usos, de costumes e de princípios na mente do homem. Desde as pinturas rupestres até a invenção da escrita e, depois, com a possibilidade de transmissão do conhecimento para as gerações posteriores, o homem passa e repassa as mesmas crendices que, tal qual um fóssil numa pedra, imprimiram nos neurônios de nosso cérebro uma marca indelével. Se pensarmos na literatura existente, quase tudo que o homem escreveu até agora está impregnado de conceitos deístas, está impregnado de crenças e crendices consideradas verdades universais que, por isso, não precisam ser contestadas, mesmo que não possam ser comprovadas. O pior é que, quanto mais se fala contra o deísmo, mais crentes se tornam as pessoas. Não há processo de convencimento que funcione, quando se trata de combater as ideias deístas. As pessoas argumentam com uma das justificativas mais difíceis de serem trazidas para uma base lógica: a fé. A fé realmente remove montanhas. Remove para cima de quem a utiliza como argumento todo o lixo deísta que vem dos primórdios do homem até os dias de hoje. E não haverá mais nada que se possa dizer ou fazer, para que a pessoa consiga sair de sob essa montanha. Por isso, sabiamente, um dos pilares do cristianismo (e, por extensão, das demais seitas e religiões de todo o mundo) seja a fé. Como não há conceito lógico para a fé, ou seja, é impossível defini-la, por se tratar de algo absolutamente abstrato e de foro íntimo (o que a torna muito conveniente), não há também como combatê-la no terreno da argumentação, da lógica. A fé é a grande cortina negra que mantém mais fechado ainda o homem dentro das trevas obscurantistas. Não se divisam, de imediato, frestas por onde entrar alguma luz, seja da ciência, seja da lógica. Como uma tartaruga, o homem coloca para dentro de si mesmo sua capacidade de raciocínio e de tirocínio, quando se trata de argumentos que abalem a sua fé. Por isso, os cientistas, mesmo os mais esclarecidos, mesmo os que não professam crenças deístas, têm dificuldade de colocar a ciência acima da fé. E os filósofos, que têm argumentos e capacidade para isso, não alcançam a popularidade necessária para sequer abalar um átomo do edifício deísta.



terça-feira, 4 de maio de 2010

CONHECIMENTO X BARBÁRIE




(Antônio Bandeira - leitura)

Referi-me há pouco aos cientistas que não conseguem emergir do obscurantismo para, com seu conhecimento, combater a barbárie. Não é uma crítica genérica. É mais uma crítica à dificuldade de qualquer um de colocar a cabeça para fora desse oceano imenso que se chama religião e conseguir enxergar, no meio das trevas, quão obscurantistas são as crenças que nossos antepassados criaram e que nós herdamos. Não é uma herança da qual possamos nos livrar tão facilmente.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

BARBÁRIE CRISTÃ



(Caravaggio)


Portanto, por mais diferentes que pareçam ser as religiões e as seitas, em suas pregações e instituições, em seus usos, costumes e princípios, no fundo comungam (palavra “cristã”, mas aqui utilizada com todas as suas conotações e com toda a ironia de que sou capaz) a mesma ideia: manter o homem em estado de torpor, ou seja, no mais absoluto obscurantismo. E o que mais assusta é que essa orquestra tão bem afinada não tem, agora, um maestro único, mas os seus líderes até mesmo guerreiam entre si pela hegemonia. E não há lado bom, nessa guerra. Quanto mais eles se matam por seus deuses, mais se tornam fundamentalistas, mas se agarram a seus princípios, mas deixam de enxergar no outro o reflexo de si mesmos. E caminham cada vez mais para a barbárie.



domingo, 2 de maio de 2010

MAIS PESSIMISMO



(Marta Bessa - desespero)


Sim, ainda há mais pessimismo. Pois só falei do cristianismo, só falei do mundo ocidental. E as religiões orientais? Não há muito mais a comentar sobre elas. Basta ler algumas linhas do alcorão ou de qualquer outro de seus escritos ditos “sagrados”, para chegar à conclusão de que se trata dos mesmos princípios e dos mesmos deuses cruéis e vingativos que são a base do deus cristão. Mudam-se apenas os usos e costumes nos relatos e nas prescrições que fazem os profetas do oriente a seus fiéis, mas a essência deísta é a mesma: o obscurantismo, talvez mais tenebroso lá do que aqui. Mas esse é um juízo de valor que pode estar deturpado por nossos olhos ocidentais e é possível que eles, de lá, tenham de nossos deuses e de nossas crenças a mesma opinião.



sábado, 1 de maio de 2010

CÍRCULO VICIOSO




(Dalí - sonho um segundo antes)



A ciência avança a passos tão largos que, a cada cinco anos, o conhecimento que temos do mundo se multiplica. A era da informática armazena em computadores cada vez mais velozes e potentes tal quantidade de informações, que temos a impressão de que as próximas gerações passarão o tempo a tentar interpretar e entender todos os dados compilados até aqui. Há quinhentos anos, um homem como Leonardo da Vinci podia acumular em seu cérebro quase todo o conhecimento humano obtido até ali. Hoje, isso se torna impossível. Há necessidade de especialistas cada vez mais dedicados a porções mínimas da ciência, com limitada visão do todo. E isso é um mal. Tornam-se extremamente competentes num ramo científico, ganhando, com isso, notoriedade e situação privilegiada no mundo da ciência, mas incapazes de uma percepção generalista do homem e de terem uma visão de mundo abrangente. Não conseguem, por isso, com seus cérebros magníficos, convencer os homens da importância da ciência e de quanto estão eles ainda na idade das trevas. Até mesmo esses cérebros sucumbem, muitas vezes, às superstições. E isso obstrui uma das mais importantes missões da ciência: livrar o homem do obscurantismo. Porque o obscurantismo, que tem por um de seus maiores defensores o cristianismo, constitui uma das maiores indústrias de exploração do homem pelo homem já criadas até hoje. Os marxistas jogam na conta do capitalismo todos os males, mas mantêm uma visão meio míope da função da religião no mundo. Ela não é o ópio do povo. A religião é uma máquina de exploração muito mais sofisticada. Por não ter elementos concretos, mas simbólicos, manteve-se distante da visão de Marx. E mantém-se distante da visão dos cientistas de hoje. Sobrevive a todas as catástrofes e prospera com elas. Interpenetra por todos os poros da sociedade e extrai de cada um de seus seguidores o néctar de sua existência que, sabiamente, ela transforma em dólares que se transformam em sistemas de dominação e obscurantismo do qual ela se alimenta, num círculo vicioso que parece não ter fim. Não há como escapar de seus tentáculos. Não em curto prazo. Talvez por isso o meu aparente pessimismo.