TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

domingo, 25 de abril de 2010

MACHISMO

(Adriana Varejão - dadivosa)

Uma vingança especial na história da inquisição marca definitivamente o seu traço de crueldade e estupidez: a perseguição às mulheres, na figura das bruxas e feiticeiras. O livro Malleus maleficarum, escrito por dois inquisidores, em 1489, traz a medida correta de como eram vistas as mulheres pela igreja. Notável por sua justificativa da perseguição aos hereges, volta suas baterias principalmente para as feiticeiras, cuja maldade é descrita como a mais perniciosa à fé e ao homem (no caso, ao macho, o que põe a nu todo o machismo cristão e católico). Era preciso que o feminino fosse reduzido ao que a teogonia católica havia inventado: à de responsável pela condição humilhante do homem diante de deus, condenado pelo pecado original, o sexo, a viver uma vida miserável sobre a terra, a fim de purgar esse e os demais pecados e depois conquistar de novo o paraíso, no juízo final. À mulher é destinado o papel de traidora, de tentação e de convite ao pecado, por sua luxúria. Não podia nunca a mulher adquirir o papel de companheira do homem, porque isso poderia impedir os planos de subserviência total dos homens, e a igreja devia ter seus motivos para temer a força do feminino, que representa liberdade e, portanto, ameaça. É mais fácil dominar o homem que domina a mulher do que ter de lutar contra a rebeldia feminina que, um dia, havia de vir à tona. Então, a mulher foi o alvo preferido da inquisição: qualquer deslize, o que implicava desde aplicar ervas curativas a não se deixar dominar inteiramente pelo macho, ela era acusada de bruxaria e queimada, para exemplo de todas as demais. Se o homem era impotente, é porque alguma bruxa o enfeitiçara. Se uma aldeia é tomada pela peste ou por uma epidemia, é porque alguma feiticeira havia lançado maldições. E assim, as fogueiras crepitaram durante longos e terríveis anos, por toda a Europa e por onde mais pudessem ver ou imaginar o martelo das feiticeiras, sempre prontos, os padres e seus apaniguados, a entregar, ironicamente, aos tribunais leigos as pobres e infelizes que caíam nas malhas da santa inquisição. O mal causado às mulheres pela inquisição tem reflexos até hoje em nossa sociedade. Só a partir do século vinte, elas começaram a conquistar alguns direitos, mas ainda estamos hoje, em pleno século vinte e um, muito longe de erradicar o machismo do coração dos homens, principalmente porque o cristianismo não foi a única crença a abominar a mulher e a ultrajá-la. Todas as crenças deístas de cunho monoteísta adoram o deus macho, o deus masculino e poderoso, em detrimento de deusas e divindades do sexo feminino. Por isso, não só no ocidente (que começa a dar às mulheres direitos iguais), mas também no oriente (onde ainda se está muito longe da concessão de qualquer direito às mulheres), a igualdade entre os sexos ainda é uma utopia. O deus-macho pertence ao imaginário coletivo da humanidade e será preciso um longuíssimo trabalho de erradicação desse conceito da mente do homem para que, um dia, a noção de igualdade entre todos os seres humanos e, principalmente, entre homens e mulheres, consiga sobrepujar esse tipo de mentalidade.



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