TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

DEMÔNIOS DE DOIS MIL ANOS




(Mia Mäkilä)



Dois mil anos de história contam muito no imaginário do populacho ignorante. E o cristianismo, tendo à frente ainda a igreja romana que, embora combalida pelo ataque de centenas de seitas subsidiárias, permanece hegemônica no coração e nas mentes de seus fiéis, impondo ou tentando impor fundamentalismos num mundo carente de lideranças que digam ao povo como agir diante de tantos acontecimentos incomuns ou diante de iminentes conflitos que podem, pelo menos na imaginação do cidadão comum, levar a uma terceira guerra mundial. O cadinho de forças tenebrosas que se aglutinam para isso está fervendo. Os interesses econômicos falam mais alto. Chefes de estado lançam-se em aventuras bélicas de trágicas consequências. Terroristas decretam o fim das imunidades: ninguém pode se considerar seguro. A violência recrudesce nas grandes cidades. A miséria torna-se epidêmica e epidemias de doenças contagiosas e incuráveis tomam de assalto populações inteiras. O diabo parece, sim, estar solto. E, para combater o pessimismo, haja mais pessimismo: visões apocalípticas atraem os ignorantes para os braços dos aproveitadores de sempre. E esses aproveitadores soltam todos os demônios que o cristianismo cultivou durante os dois mil anos de sua história, para amedrontar os incautos e firmar seus fundamentalismos e garantir mais mil anos de obscurantismo.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

EVOLUÇÃO DE UM EMBUSTE




(Ingres - grande odalisque)


O que mais me admira, na trajetória do cristianismo, é que, no começo, nos primeiros mil anos de sua existência, quando ainda se firmava no imaginário do povo, suas lições moralistas e sua pregação absurda não despertava mais do que riso e galhofa. Seu ideário nunca foi levado muito a sério, até que, aos poucos, ao longo do período que vai, mais ou menos, de 1.000 a 1.5000, quando a igreja romana se estrutura definitivamente, tornando-se poderosa e interferindo seriamente na vida política, social e econômica da Europa medieval, ela se torna mal humorada, carrancuda e vingativa, instituindo então sistemas de controle e de perseguição de seus inimigos. É quando a igreja romana cria monstros como a “santa” inquisição e papas de linhagem guerreira, como Alexandre VI; institui dogmas e um complexo sistema de valores, crenças e crendices que acabarão chegando aos nossos dias como um dos mais perfeitos sistemas de prestidigitação de toda a história do homem, capaz de conviver com a ciência contemporânea e não se abalar com suas descobertas, que contradizem tudo o que ela vem pregando nesses dois mil anos de embuste.


quarta-feira, 28 de abril de 2010

O MUNDO, UM VALE DE LÁGRIMAS




(Caravaggio - a incredulidade)



Esse “espírito cristão” traz, encravados em seu bojo, mil formas de superstições que os cristãos cultivam. Como é uma seita que se diz voltada para os “humildes” e para os “fracos”, o conceito de perdão torna míopes todos aqueles que a professam, num jogo de forças hipócrita e contra a humanidade. Hipócrita, porque os cristãos foram historicamente excludentes, temendo ou odiando tudo aquilo que fosse diferente deles. Haja vista os negros e índios, declarados seres sem alma, para que espanhóis e portugueses, os primeiros conquistadores da América, pudessem escravizá-los, subjugá-los e exterminá-los. É contra a humanidade porque privilegia não a vida, mas a morte, o além-túmulo. Isso torna o cristão um ser que vive para morrer ou para o sacrifício, como o seu fundador. A visão de mundo do verdadeiro cristão é sempre pessimista em relação à vida, ao encarar o mundo como um “vale de lágrimas”, lugar de passagem, estrada para um mundo melhor, após a morte. O cristianismo é, pois, responsável, por uma das mais cruéis formas de superstição que assola o homem ocidental: a crença na imortalidade da alma e na ressurreição dos mortos. Em cima dessa superstição, desenvolveu-se todo um clima de apocalipse, de fim de mundo, de que se aproveitam, hoje, mil outras seitas subsidiárias para vender a salvação e explorar o rico filão dos temores humanos. Espertalhões de plantão faturam alto em cima de atentados terroristas, como o ocorrido nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2002, quando dois aviões foram jogados contra os dois maiores edifícios de Nova Iorque e mataram quase três mil pessoas. Jogando com a imaginação de fiéis embrutecidos pela fé, sem capacidade de raciocínio lógico, pregam o fim próximo do mundo e, com isso, conseguem vender milhões de dólares em livros e outras bugigangas, além, é claro, do faturamento nas pequenas igrejas que se encontram em cada esquina, prontas para dar o perdão e a salvação àqueles que contribuírem com seus parcos recursos para encher os bolsos de pregadores inescrupulosos.



terça-feira, 27 de abril de 2010

BANALIZAÇÃO DA VIDA




(De Chirico - gladiadores)

O cristianismo inventou um tipo de gente que se pode categorizar como “os pobres de espírito”, que acreditam fundamentalmente na vida além da morte e na recompensa por suas orações e arrependimentos. Isso tem tido uma influência muito profunda em todos os aspectos da vida humana. Por exemplo: na Justiça. Principalmente na Justiça brasileira, embora deva ocorrer também em outros países. Sob a premissa de que todo criminoso merece uma segunda oportunidade, as leis se tornam tíbias e inoperantes. A ideia de que a vida humana na terra é passageira e de que a verdadeira vida ocorrerá após a morte faz que o assassínio se torne um crime comum, com punições ridículas. Sou absolutamente contra a pena de morte: um crime não pode justificar outro. No entanto, não concordo com o abrandamento da pena por crime de morte. Se matou, deve ficar na cadeia por muito tempo, independente do motivo. Não pode haver atenuantes para esse tipo de crime. Tampouco, redução de pena. Deve haver, sim, agravantes que levem o assassino a cumprir, até mesmo, prisão perpétua. O perdão cristão para o crime de morte tem banalizado a vida e contribuído para o agravamento da violência.



segunda-feira, 26 de abril de 2010

SEITAS CRISTÃS



(Daumier - vagão de terceira classe)

A grande cisão da igreja romana, com a reforma protestante, no século XVI, não melhorou em nada a face cruel do cristianismo. Por obra e graça dessa primeira rebeldia, os protestantes atuais se subdividiram em centenas de seitas de todos os tipos e gostos, com as mais sórdidas vocações, verdadeiras arapucas para tirar dinheiro do povo em troca de falsos milagres, em troca de assento no céu e de outras bobagens mais. Existem seitas multinacionais e seitas de igrejinhas de esquina de rua, todas elas empenhadas em salvar a alma de seus seguidores e a conta bancária de seus fundadores e dirigentes. Pregam, descaradamente, a discriminação religiosa; agridem usos e costumes tradicionais; não respeitam aqueles que lhes são opostos ou diferentes, tudo sob a capa de leis de proteção religiosa. O combate a esse tipo de seita deve ser feito com muito cuidado, para não cair no argumento de perseguição religiosa, que pode tornar-se tão ou pior do que a própria convivência com todos esses idiotas da bíblia, a falar bobagens pelas esquinas, enganando os que acham que não podem viver sem um deus e tirando dinheiro de pobres basbaques e cretinos que acreditam em tudo o que ouvem.



domingo, 25 de abril de 2010

MACHISMO

(Adriana Varejão - dadivosa)

Uma vingança especial na história da inquisição marca definitivamente o seu traço de crueldade e estupidez: a perseguição às mulheres, na figura das bruxas e feiticeiras. O livro Malleus maleficarum, escrito por dois inquisidores, em 1489, traz a medida correta de como eram vistas as mulheres pela igreja. Notável por sua justificativa da perseguição aos hereges, volta suas baterias principalmente para as feiticeiras, cuja maldade é descrita como a mais perniciosa à fé e ao homem (no caso, ao macho, o que põe a nu todo o machismo cristão e católico). Era preciso que o feminino fosse reduzido ao que a teogonia católica havia inventado: à de responsável pela condição humilhante do homem diante de deus, condenado pelo pecado original, o sexo, a viver uma vida miserável sobre a terra, a fim de purgar esse e os demais pecados e depois conquistar de novo o paraíso, no juízo final. À mulher é destinado o papel de traidora, de tentação e de convite ao pecado, por sua luxúria. Não podia nunca a mulher adquirir o papel de companheira do homem, porque isso poderia impedir os planos de subserviência total dos homens, e a igreja devia ter seus motivos para temer a força do feminino, que representa liberdade e, portanto, ameaça. É mais fácil dominar o homem que domina a mulher do que ter de lutar contra a rebeldia feminina que, um dia, havia de vir à tona. Então, a mulher foi o alvo preferido da inquisição: qualquer deslize, o que implicava desde aplicar ervas curativas a não se deixar dominar inteiramente pelo macho, ela era acusada de bruxaria e queimada, para exemplo de todas as demais. Se o homem era impotente, é porque alguma bruxa o enfeitiçara. Se uma aldeia é tomada pela peste ou por uma epidemia, é porque alguma feiticeira havia lançado maldições. E assim, as fogueiras crepitaram durante longos e terríveis anos, por toda a Europa e por onde mais pudessem ver ou imaginar o martelo das feiticeiras, sempre prontos, os padres e seus apaniguados, a entregar, ironicamente, aos tribunais leigos as pobres e infelizes que caíam nas malhas da santa inquisição. O mal causado às mulheres pela inquisição tem reflexos até hoje em nossa sociedade. Só a partir do século vinte, elas começaram a conquistar alguns direitos, mas ainda estamos hoje, em pleno século vinte e um, muito longe de erradicar o machismo do coração dos homens, principalmente porque o cristianismo não foi a única crença a abominar a mulher e a ultrajá-la. Todas as crenças deístas de cunho monoteísta adoram o deus macho, o deus masculino e poderoso, em detrimento de deusas e divindades do sexo feminino. Por isso, não só no ocidente (que começa a dar às mulheres direitos iguais), mas também no oriente (onde ainda se está muito longe da concessão de qualquer direito às mulheres), a igualdade entre os sexos ainda é uma utopia. O deus-macho pertence ao imaginário coletivo da humanidade e será preciso um longuíssimo trabalho de erradicação desse conceito da mente do homem para que, um dia, a noção de igualdade entre todos os seres humanos e, principalmente, entre homens e mulheres, consiga sobrepujar esse tipo de mentalidade.



sábado, 24 de abril de 2010

A SANTA INQUISIÇÃO



(Cristiano Banti - Galileu diante da inquisição)


Talvez o fato mais traumático da história da igreja romana esteja na instituição da inquisição, no século XIV. Numa sociedade européia de características ainda feudais, mas em processo constante de transformação, a superposição da fé cristã às religiões pragmáticas de centenas de povoações camponesas iletradas deve ter tido por consequência a mistura de ritos. Não se pode negar que, a pretexto de explicar o inexplicável – a criação do mundo por um único deus, a existência de um paraíso terrestre do qual o primeiro homem é expulso, enfim, toda uma teogonia absurda – a igreja teve de sofisticar ao infinito a sua teologia, o que a tornou uma das mais complexas teologias da história dos homens, baseada em mil sofismas desde os filósofos gregos até os exegetas mais modernos, como Tomás de Aquino e Agostinho, canonizados santos por suas teorias e por darem à fé católica um arremedo filosófico. Ora, todo esse arcabouço teórico sofisticado devia ser traduzido por padres e frades não tão cultos, para dizer o mínimo, a populações que, além de iletradas e ignorantes, muitas vezes, tinham a sua própria teogonia, quase sempre ligada a deuses pagãos de origem, por exemplo, celta, que praticavam cultos ligados aos ciclos da lua e do sol, das estações do ano, do momento certo para plantar e colher etc. A imposição do cristianismo não apaga, com certeza, os cultos antigos que, pouco a pouco, devem começar a ressurgir, aqui e ali, para desespero da então já poderosa igreja católica, com seus interesses agrários e de dominação dos incontáveis reinos e feudos que caracterizavam a Europa medieval. Assim, era preciso erradicar qualquer concorrência. Eliminar todo e qualquer culto heresiarca. E a melhor forma de eliminar a heresia é eliminar os heréticos. Assim deve ter surgido a chamada santa inquisição. Que perseguiu e matou judeus e nobres, para tomar suas terras. Que perseguiu e matou camponeses, para impor a lei da obediência e do silêncio. Que perseguiu e matou intelectuais, para evitar ameaças à sua lei. Que não poupou, portanto, nenhuma classe social. Só não se devorou a si mesma, porque não teve tempo, terminou antes.



sexta-feira, 23 de abril de 2010

O MITO MARIANO




(Charge: Nani)


Para tocar corações e mentes, repito, o marketing do cristianismo inventou mil superstições. E uma das mais poderosas e perigosas, pelas consequências que ela trouxe, foi o mito mariano. Maria, a mãe do fundador, concebeu um filho por obra e graça de um espírito, o espírito santo, permanecendo virgem, mesmo que as poucas evidências sobre a sua existência deixem claro, até mesmo nos documentos dos próprios cristãos, que ela deve ter tido outros filhos. No entanto, a virgindade da mãe do fundador tornou-se um mito poderoso. Através dele, a igreja romana atingiu diretamente a condição da mulher e tornou-se uma das organizações mais machistas da história da humanidade. Sendo virgem a mãe do deus, a igreja condena o sexo por ser o pecado primordial, segundo o relato criacionista da bíblia judaica, e exorta a que a mulher se redima através da pureza. Ou seja, a mulher é vista como a responsável pela perdição do homem, mas como o homem nasce da mulher, o deus fundador só podia nascer de uma mulher pura, uma virgem. O culto mariano sofisticou-se através do tempo e tornou-se um dos ramos mais conservadores da igreja romana. Graças a ele, até hoje é vedada a participação da mulher na hierarquia da igreja e são poucos os cultos em que ela pode dar alguma contribuição efetiva. A perseguição à mulher impura, responsável por todos os pecados do homem, teve reflexos na trajetória da mulher ocidental que, até hoje, luta por direitos iguais aos do homem, numa luta contra o obscurantismo absurdo que levou a queimarem bruxas no passado e a condenar qualquer manifestação de liberação ou de rebeldia das mulheres. Só por esse crime, já merecia condenação a existência de uma organização tão poderosa, influente e perniciosa como a igreja romana, herdeira direta da seita cristã dos primeiros tempos. Mas não ficou nisso, o estrago feito por essa organização na mente e na história humana. Muitos outros mitos e inúmeras outras superstições povoam a trajetória da igreja e condenam milhares de seres humanos ao obscurantismo de crenças absurdas e rituais ainda mais cruéis, como a autoflagelação, a penitência, a venda de indulgências, o temor ao demônio, as procissões de adoração a santos e anjos, a confecção e o comércio de relíquias, a instituição dos sacramentos (batizado, crisma, casamento etc), o pretenso celibato do clero, o fortalecimento do papado, a cobrança de dízimos e muitas, muitas outras barbaridades que têm mantido essa instituição e dado a ela poder sobre uma quantidade imensa de fiéis em todos os países e, até mesmo, influenciado governos de estados soberanos e laicos a agirem de acordo com seus interesses.



quinta-feira, 22 de abril de 2010

ABSURDIDADES DO CRISTIANISMO




Bosch - os reis magos (detalhe)



Se já havia inúmeras superstições antes da era cristã, torna-se, no entanto, o cristianismo pródigo em inventar absurdidades. Desde a origem do seu criador, um homem-deus gerado por uma virgem, vigiado em seu nascimento por um cometa, adorado por reis que ninguém conhece ou jamais ouviu falar, o cristianismo criou, desenvolveu e instalou na mente das pessoas inúmeros contos de carochinha, superstições e mentiras deliberadamente elaboradas para atrair e enganar os incautos. Ao longo dos primeiros séculos, o acúmulo de falsas informações sobre o seu criador, cuja existência não está provada historicamente, os seguidores de Paulo de Tarso, um soldado romano convertido, esmeraram-se na divulgação de documentos apócrifos e evangelhos com a vida e os milagres de um homem que teria dado a vida pela humanidade. A partir daí, o fanatismo fez o resto. Mesmo a intensa perseguição movida pelo Império Romano foi transformada num marketing poderoso, talvez o mais inteligente e agressivo da história da humanidade. Mártires foram elevados à categoria de santos. Hermeneutas traduziam em palavras de mais fácil entendimento da turba ignorante os ensinamentos dos mestres. Pregadores aumentavam os pretensos milagres e criavam outros. A esperança tinha um nome: o céu. Para onde deveriam ir ter todos os humildes. Era, pois, a seita que melhor soube administrar o forte apelo de uma mensagem de esperança, ainda que falsa esperança: a de que o rico e o poderoso não conseguiriam entrar no reino de seu deus. Mas só a idéia de céu não era suficiente. Era preciso criar um oponente não só à idéia de paraíso, mas também ao criador do céu e da terra. Ressuscitaram, então, todos os demônios e o inferno, para ameaçar os que se mostravam relutantes. Quem se arriscaria a perder a alma imortal nas chamas de tão poderoso inimigo? E a igreja romana começou a organizar-se, com uma estrutura piramidal copiada das legiões romanas, com inúmeros cargos e divisões até o comando central constituído por um papa, general supremo, senhor de todas as almas, com qualidades que o tempo se encarregou de incrementar, como a infalibilidade, por exemplo.



quarta-feira, 21 de abril de 2010

UMA USINA DE SUPERSTIÇÕES, O CRISTIANISMO




(Brueghel - o triunfo da morte)


O cristianismo tem sido, ao longo do tempo, uma das maiores usinas de superstições já criadas pelo homem. Milhares de idiotices se espalharam pelo mundo e passaram a fazer parte do dia a dia humano. Absurdos sem a menor base lógica tratados como verdades absolutas e repetidos à exaustão por um povo idiotizado, sem que tenha a mínima possibilidade de pensar no motivo por que repete a mesma ladainha e o mesmo gesto ou por que é obrigado a fazer determinada coisa ou pensar isso e aquilo e seguir sempre as mesmas ordens idiotas de padres, pastores, ou que nome se outorgam os pregadores da fé, ou usar tal ou qual vestimenta dessa ou daquela cor ou ser proibido de fazer aquilo que todos fazem ou de sonhar o que a maioria sonha. Torna-se, com isso, o cristianismo um dos maiores entraves ao progresso intelectual da humanidade, uma religião de fracos, de escravos, como diz Nietzsche, mas também uma religião de homens e mulheres arrogantes e prepotentes até mesmo quando pregam a humildade e o amor ao próximo. Gente que prega o amor, mas não aprendeu a respeitar o próximo. Porque, se o próximo não comunga as mesmas ideias, é ou digno de dó ou digno do fogo do inferno.



terça-feira, 20 de abril de 2010

O CULTO À MORTE




(Bosh - jardim das delícias - detalhe)



Outro grande estrago causado pelo cristianismo foi o culto à morte. A ideia de recompensa aos justos, ou seja, àqueles que seguem a doutrina, acabou por formar uma raça de iludidos facilmente manipuláveis e manipulados pelos espertos de plantão, desde os que vestem togas e mitras até os que usam paletós e gravatas nos escritórios de Wall Street. E essa massa de coitados e pirados pela salvação faz de tudo para preservar o seu cantinho no céu, independentemente do que venha a fazer em vida. Isso dá lugar a toda forma de exploração e justifica qualquer tipo de doutrina espúria, desde que os atos praticados, quando maus, tenham o devido arrependimento ou o sejam em nome do deus. Admite-se desde a autoflagelação, como testemunho mártir da fé, até jogar bomba sobre a cabeça de inocentes. Afinal, no dia do juízo, ou na outra vida, desde que rezem algumas orações e se digam arrependidos de tudo, o tal “pai” irá se regozijar por esse arrependimento e dar ao estuprador, ao assassino, ao genocida, o mesmo tratamento dado ao santo idiota que viveu a fazer a caridade e a pregar a bobagem da palavra santa, sem nunca ter matado nem mesmo a mosca que lhe contaminou a ferida na perna e lhe causou dores horrendas.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

ÓDIO ENTRE IGUAIS



(Artemisia Gentileschi - Judit beheading Holofernes)

Só com esse preceito absurdo, do “amai-vos uns aos outros”, o cristianismo criou mais desavenças e mais ódios do que todos os demais preceitos, que se tornam secundários diante desse estrago. Em torno disso, no entanto, mil formas de superstições foram criadas e desenvolvidas, até chegar aos processos complexos que hoje permitem que religiões e seitas tão distintas entre si se digam cristãs e se odeiem pelos mesmos princípios.



domingo, 18 de abril de 2010

AMAR UNS AOS OUTROS




(Pierre Loeb - musicens afghans II)

O cristianismo não tem novidades filosóficas, em relação a seus antecessores. Remontou em máximas de fácil aceitação o que há muito existia em religiões orientais e no judaísmo antigo. Mesmo a ideia de amar uns aos outros já existia em dogmas anteriores. Ao acrescentar “tanto quanto eu vos amei”, sendo aí esse “eu” o do fundador, não há nenhum acréscimo significativo, porque é impossível medir uma quantidade de amor. No entanto, essa máxima tem sido um dos pilares do cristianismo. E também um dos seus maiores problemas. Porque ninguém consegue amar o outro. A louca vontade de amar o outro esbarra em obstáculos intransponíveis: o homem não foi talhado para amar o outro, porque, desde os primeiros tempos, no seu código genético, está escrita a desconfiança para com o diferente. Superar essa desconfiança tem sido um dos maiores esforços da humanidade para atingir um grau razoavelmente civilizado de convivência. E isso exige um esforço imenso do cérebro humano, novas sinapses e novas relações químicas têm de ser ativadas para chegar à compreensão do outro e maior esforço ainda para a sua aceitação. Além disso, o conceito de amor, um dos mais sofisticados sentimentos produzidos pela química cerebral, é muito recente na genética humana. Provavelmente, o amor tenha sido desenvolvido pela fêmea para proteger o seu filhote e, depois, num lento processo de convencimento e de transmissão genética, ela fê-lo chegar ao macho, como necessidade monogâmica de proteção ao clã. Portanto, o sentimento de amor é despertado para com o outro apenas enquanto o outro seja visto como o companheiro ideal e para com alguns dos demais membros do clã ou da família, em termos modernos. Quando muito, o amor se estende a um “amigo”, tratado como um ser que não pertence ao clã, mas que pode eventualmente ajudar a proteger esse clã e nunca o ameaçar. Assim, o amor ao próximo pode, quando muito, traduzir-se em reconhecer o próximo, desde que não haja ameaça. É impossível amar o inimigo ou, mesmo, o desconhecido. Porque tudo quanto é desconhecido pode tornar-se inimigo. Então, se não consigo amar o inimigo, por não o conhecer, o sentimento mais próximo é o desprezo e, depois, o ódio. Ou, então, crio um falso amor ao inimigo que me leva a destruí-lo, como uma forma de compensá-lo por ser diferente e não alcançar, como eu, os benefícios prometidos por meu deus àqueles que o louvam e adoram. Ou ainda: como não consigo amar o inimigo, desumanizo-o. Desumanizando-o, posso destruí-lo como aberração, como obstáculo aos desígnios de meu deus. E assim, seguem as guerras e uma boa desculpa para a sua existência.


sábado, 17 de abril de 2010

O CRISTIANISMO




(Goya - inquisition scene)


A assim autodenominada civilização ocidental herdou os princípios do monoteísmo judeu e criou, como uma meia dissidência, o cristianismo. Não vou, aqui, argumentar sobre a origem do cristianismo, ou se esse deus pendurado num madeiro existiu ou não, ou se os conceitos cristãos foram criados por ele ou por seus seguidores a posteriori. Interessa, apenas, nesse momento, fazer a crítica de sua doutrina e do quanto essa doutrina representa em termos de crença estupidificadora para o homem moderno.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

A IRA DO DEUS



(Caravaggio - Baco doente)

Como ser gregário, o homem se uniu em torno de necessidades básicas, em primeiro lugar: sobrevivência e procriação. Depois, em torno de coisas comuns, como ter ou não o fogo, cultivar ou não determinadas plantas, caçar ou não determinados animais. Ter ou não ter determinadas habilidades etc. Na sociedade mais evoluída, as idéias passaram a ser o fator de união: crenças, costumes, cultos. Assim nasceu a religião. Como elemento mágico e como elemento de união entre indivíduos e de divisão entre tribos e nações. Creio que, no início, cada clã tinha o seu deus, mas novamente o gregarismo apontou para a fusão de deuses até chegar ao monoteísmo, um conceito altamente sofisticado, mas de tremenda força de exclusão. Ou se acredita no deus único ou está fora da criação. E os exilados arderão para sempre na ira desse deus. Assim, religiões monoteístas autoritárias suplantaram e destruíram o politeísmo democrático, embora tão embrutecedor quanto o primeiro.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

A CRÍTICA DAS RELIGIÕES



(Artemisia Gentileschi - Susannah and the elders)


Abandono, aqui, o discurso anti-deísta, mas não o discurso anti-religioso. Ou seja, independentemente de qualquer deus, é preciso fazer a crítica das principais religiões que disputam a fé dos homens e apontar suas mazelas e contradições. A divisão da humanidade em seitas e religiões é uma das mais perversas formas de segregação e exclusão que o homem exerce sobre si mesmo. Nem a divisão em raças é mais perversa. Acredito, mesmo, que o racismo seja fruto muito mais do estranhamento e do ódio à diferença de usos, costumes e crenças do que da cor da pele ou de traços fisionômicos. Ou seja, a religião tem, sim, alguma culpa pela existência do racismo, já que indivíduos que pretensamente pertencem a raças diversas (com cujo conceito não concordo e o qual discutirei mais adiante) convivem melhor quando têm o mesmo credo. Mas se odeiam mais profundamente quando têm práticas religiosas divergentes. Além de usos, costumes e tradições, é claro.



quarta-feira, 14 de abril de 2010

ATEÍSMO E DEÍSMO



(Gottardo Ciapanna - Tentazioni di Santo Antonio)


Não tenho ilusões de que o ateísmo possa prevalecer em curto ou, até mesmo, em médio ou longo prazo. A conscientização do homem para uma verdade mais cristalina é trabalho para muitas gerações, desde que a força ateística consiga ganhar, pouco a pouco, posições de destaque no mundo e não seja perseguida pelo lobby deísta, cujos interesses, principalmente financeiros, são muito poderosos. Não adianta dizer às pessoas que não creiam em deus. Isso não leva a nada. É preciso que um trabalho lento de conscientização de massas que hoje trilham o caminho da mais absoluta ignorância seja feito de forma sistemática na busca da diminuição gradativa da influência de deus ou de deuses na vida humana. É preciso que as pessoas se convençam de que não precisam desse deus vingativo, explorador e mercenário. É preciso que as pessoas se convençam de que não serão, primeiro, punidas por não fazerem aquilo que o seu deus manda e, segundo, que não serão expulsas do paraíso depois que morrerem. E esse segundo passo é o mais difícil de todos. Porque a crença na vida após a morte ou na existência de uma alma imortal é um dos mitos mais arraigados na consciência humana, por ser um mito primário, ligado às forças mais primitivas da existência do homem sobre a face da terra. Eliminar esse mito creio ser tarefa hercúlea e quase impossível. Só o conseguiremos daqui a alguns milênios. Com a evolução da ciência, da mente humana, da capacidade de compreender melhor os mecanismos da vida e da natureza. E há ainda a crença mais ou menos moderna de que a religião serve de freio aos instintos maléficos do homem. Muitos argumentam que o ideário deísta, com suas regras e pregações pela união, amor entre os homens e outras babaquices, tenha o efeito de evitar que os homens se matem mais do que já o fazem. Mas eu penso justamente o contrário: que a filosofia deísta é muito mais responsável por matanças inúteis e assassínios absurdos do que a crença numa única existência que é o bem supremo do homem e deve ser preservada a todo custo. Por não dar valor à vida, já que haverá a recompensa após a morte, o deísta sofre diante da morte brutal de outro ser humano, mas a ela se conforma, não condenando de forma cabal a violência ou a guerra. Já o ateísta, tendo consciência de que não haverá segunda oportunidade, defende com maior vigor a punição do assassino, luta contra a pena de morte e contra a existência das guerras, procura sempre a melhoria das condições de vida na terra e tem uma visão mais humanista das relações entre as pessoas. Não quero, com isso, dizer que todos os deístas são maus e todos os ateístas sejam bons, porque isso seria uma grande bobagem. Estou dissertando em termos teóricos e abstratos, na busca de uma sociedade mais humana e mais igualitária. Não posso negar que a maioria dos grandes beneméritos da humanidade tenham tido suas crenças deístas, e muitas vezes justificaram suas ações com a fé em deus. No entanto, não há lógica em pensar que não fariam tudo quanto fizeram ou muito mais se não tivessem essa fé ou essa crença. Portanto, o que eu quero dizer, para concluir esse longo discurso ateísta, é que o homem não precisa de deus ou deuses para ter um conjunto de normas éticas de conduta, já que não foram os deuses que instituíram os tais mandamentos ou normas éticas, mas foram criadas pelo próprio homem. Basta continuar seguindo os mesmos princípios, agora sem a tutela de um deus inútil e vingador.



terça-feira, 13 de abril de 2010

A MAGIA INÚTIL DOS DEUSES



(Goya - Saturno)


Eu não sou ateu porque não creio na existência de um deus. Porque deus existe, sim, criado pelos homens para satisfazer suas necessidades de magia. Eu sou ateu porque acho inútil a crença em deus, tão inútil quanto dançar para fazer chover. Eu sou ateu porque acho que a humanidade não precisa de deus ou de deuses. Eles são parte do imaginário humano tanto quanto o saci-pererê e a mula-sem-cabeça. Só que o saci-pererê e a mula-sem-cabeça, pelo que eu sei, não exigem do homem templos para seu culto nem orações por suas bênçãos nem dinheiro por suas graças. E os deuses que o homem inventou exigem isso e muito mais. Além de ocupar uma grande parte da capacidade de imaginação e de invenção do cérebro humano, que poderia e deveria ter sido orientado para coisas muito mais importantes e úteis e mais belas que a crença e o culto em divindades que, se formos pensar com objetividade, nunca trouxeram nada de aproveitável para o conhecimento humano. Trouxeram, sim, divisões e exclusões, maldições e guerras. Contribuíram para aprofundar diferenças e provocar ódios. Impediram e impedem descobertas e criações que tornariam melhor a vida humana. Separam países e famílias e pessoas. Pregam amor e semeiam ódio. Pregam o perdão e exigem a vingança. Ameaçam os seus seguidores e até mesmo os não seguidores com o fogo do inferno e outras desgraças. Enfim, as divindades que o homem criou e a quem presta cultos são divindades medonhas, em suas exigências e doutrinas. Sugam do homem o entendimento mais claro e lógico e, por isso mesmo, mais belo e verdadeiro, do mundo que o cerca. Impedem uma visão mais simples da vida e a desvalorizam com a crença em espíritos, almas ou vida além da morte. Acabam, por isso, sendo deuses da morte e não da vida. Livrar-se deles pode ser um exercício difícil e complexo, mas não há saída para o homem senão deixar de cultuar esses deuses malditos. Ou amenizar sua influência em sua vida. Ou, ainda, humanizá-los de tal modo que eles passem a permitir que o homem seja dono de si mesmo. Mas, nesse caso, o paganismo acabaria por prevalecer e os deuses pagãos são tão perniciosos quanto os deuses cristãos, muçulmanos, judeus ou de qualquer outro povo moderno. A saída é mesmo botar porta fora todos os resquícios de magia inútil prometida pelos deuses.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

ARMADILHAS DO PENSAMENTO




(Rafal Oblinski - summer marriage)


A armadilha de que falamos deve ficar um pouco mais clara. São armadilhas do pensamento humano as crenças ilógicas, as superstições absurdas, as religiões e o desejo de entender e resolver o mundo através do pensamento mágico. O homem ainda crê que é possível quebrar a relação causa e efeito. Assim, mergulha sua capacidade criativa na vontade de sobrevivência, ritualizando a vida, praticando magias através de cultos inúteis e crendo em deuses e espíritos e em vida além da morte. São ritos que não trazem nada de bom para o homem, ou por mergulhá-lo em preconceitos excludentes ou por serem inúteis. Não me adianta dançar uma dança, por mais bonita que seja, no terreiro de minha casa, que isso não vai trazer nuvens e provocar chuva. Se chover, não terá sido pela minha dança, mas por um simples acaso e por circunstâncias da natureza, já que chover é algo que ocorre de vez em quando. E pode muito bem ocorrer enquanto eu estiver dançando. A necessidade de magia tem mantido o homem envolto em trevas de que ele precisa livrar-se, para realmente começar a ter alguma percepção real do mundo que o cerca. Nenhum ser humano está livre do pensamento mágico, até agora. Porque somos condicionados a ele e por ele. No nosso dia-a-dia, a todo instante podemos nos surpreender tendo pensamentos mágicos. Mesmo os mais céticos. Quem já não teve o vislumbre de, ao ver, por exemplo, os mesmos números repetidos em várias placas de carros, pensar em jogar na loteria esses números e ficar milionário? Ou de ter um parente remoto e desconhecido que nos deixe uma fortuna? Ou que o amigo há muito perdido retorne de repente numa tarde de primavera? O pior é que isso – e muitas outras coisas aparentemente inexplicáveis – ocorrem, porque assim é a vida, cheia não só de som e fúria, como disse Shakespeare, mas de zonas cinzentas e coincidências absurdas que reforçam em nós, pequenos idiotas do cotidiano, a idéia de que forças mágicas dominam nossas vidas ou convivem conosco, mudando nosso destino. E que bastam alguns salamaleques ou alguns gestos mágicos para que essas forças se manifestem.


domingo, 11 de abril de 2010

A IMAGINAÇÃO HUMANA



(De Chirico - Hector et Andromache)


A capacidade de imaginar e de inventar acabou se tornando uma armadilha para a capacidade de estabelecer ligações lógicas que tem o homem, ou seja, sua capacidade de ação. Uma armadilha da qual ele ainda não se livrou e, com certeza, levará muito tempo para se livrar realmente. Quando isso acontecer, a liberdade que ganhará o pensamento humano poderá levar o homem a um estágio um pouco superior ao que hoje estamos. Ou diferente. Porque a evolução humana – que vai ocorrer em termos biológicos e filosóficos – caminhará de forma mais rápida na capacidade de pensar. O cérebro humano evoluiu como uma usina de capacidade quase infinita: há espaço para crescer e estabelecer ainda milhões de sinapses ou ligações químicas que ainda não exploramos. É o cérebro humano até agora a mais fantástica máquina já desenvolvida pela natureza. Se fizermos um exercício de futurologia baseada nas leis da lógica evolucionista, poderemos ter a surpresa de chegar à conclusão de que o homem de um futuro muitíssimo remoto será só cérebro. É claro que isso não vai acontecer, porque precisamos de uma máquina que seja comandada por esse cérebro, senão ele se tornará inútil. E essa máquina é o corpo humano, que também deverá evoluir. Para quais outras formas, não sabemos. Fica o desafio de as pessoas interessadas tentarem imaginar.



sábado, 10 de abril de 2010

IRRACIONALIDADES



(Marjorie Weiss - Joe's black dog)


Ao ganhar racionalidade, o homem primitivo acabou usando essa racionalidade para criar irracionalidades, já que com ela ganhou também a capacidade de imaginar, de sonhar e de inventar. Os animais também têm seu grau de racionalidade, de compreensão do mundo, senão não sobreviveriam. O homem, no entanto, ganhou esse algo mais, a capacidade de imaginação e de invenção. E, em cima dessas capacidades extraordinárias, ainda acrescentou a ação. Se não há causa perceptível para o fenômeno contemplado, não custa imaginar e inventar uma causa, através da possibilidade de ação. Assim, por exemplo, o homem aprendeu que bater com a pedra na cabeça do outro deixava-o sem vida. Isso é causa e seu efeito. Mas ele não compreendia o que era a massa inerte diante de si. Porque não compreendia a vida, também não compreendia a morte. Para justificá-la, imaginou e inventou rituais que pudessem trazer de volta a vida: desde a ação de devorar o morto até o seu sepultamento. E imaginou que, de alguma forma, as suas ações tornassem o morto menos morto. Já que ficava em sua mente a lembrança do morto. Talvez assim tenha nascido em algum momento do passado remoto a crença de que a lembrança fosse uma espécie de “alma” que não morre. E o conceito de vida além da morte acabou se instalando na mente do homem, como uma forma de compensar a tristeza da perda. Imaginar deuses e outros seres donos do destino humano foi questão de evolução do pensamento primitivo na tentativa de entender a morte. E assim, as superstições e demais invenções e imaginações humanas geraram teorias complexas de deuses e olimpos, de doutrinas absurdas e explicações mágicas para a única mágica à disposição do homem, a vida.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

NÃO HÁ PESSIMISMO NA NATUREZA



(Brueghel: Ícaro)




Não há pessimismo em nos pensarmos tão pequenos. Porque não há pessimismo ou otimismo nas leis da natureza. A vida é assim e nada mais. Somos os reis, sim, de nossa própria vida, de nossa própria existência. Nada mais. E esta existência, este “sou, logo existo” deve ser a resposta para nosso destino. Só temos esta vida. Só temos esta existência. Nada além disto que está aqui. Nada além do que vivemos. Participamos da cadeia evolutiva como todos os demais seres. Vivemos para dar continuidade ao ciclo da vida. Nada mais. E nada mais nobre. Se retornaremos? Sim. No fim do universo e no seu recomeço. Por que não? Teremos consciência disso? Jamais saberemos. Porque não há respostas para perguntas que não deviam ser feitas. A única verdade é que existimos. Além disso, só especulamos. Com todo o direito que temos de fazê-lo, porque a natureza nos proporcionou isso e muito mais. A nossa humanidade está em compreender que somos parte dessa cadeia e nada mais. Mesmo que essa compreensão ainda seja tosca e primitiva, não podemos nos furtar à sua evidência. Viver é a coisa mais importante para o homem. É o seu destino e sua razão de ser.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

DIANTE DO UNIVERSO, O HOMEM



(Marc Chagall - Adão e Eva)



O homem, bicho da terra tão pequeno, é muito, mas muito menor do que sonha a nossa vã filosofia. O olhar do astrônomo mede distâncias que mal conseguimos traduzir: bilhões de anos luz. Difícil explicar para alguém que olha o céu que ele está vendo o passado. E um passado talvez muito distante. Será que há outros olhos a nos olhar do mesmo modo? Tudo é possível. Só não é possível provar. Talvez nunca consigamos chegar às fronteiras de nosso próprio sistema solar. E nunca consigamos entender o mundo em que vivemos. E isso não é maldição. É apenas a realidade. Basta olhar para o lado e comprovar: não entendemos nem como funciona a matéria que nos cerca ou, mesmo, a matéria de que somos feitos. E queremos entender o universo! E queremos que o universo tenha tido um criador que se preocupa conosco. Com nossa ínfima pequenez. Triste arrogância de quem não se conhece!





quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ORIGEM DO UNIVERSO



(Delaunay - sun tower aeroplane simultaneous)




Há a teoria do big-bang. Plausível. Explica a origem do universo? Talvez. Se pensarmos que pode haver algo ainda maior que o universo constituído de átomos, uma zona de não-energia, de não-existência, que o envolve, talvez. Mas, e além disso? Se o universo teve um começo, há de ter havido um antes. E o que é esse “antes”? Um deus ex-machina? Um nada absoluto? Não sabemos e não saberemos nunca. Apenas podemos conjeturar que ele – o universo – existe e se expande. Começou e deve terminar, num eterno retorno cujas causas e consequências nossa capacidade atual de entendimento mal consegue esboçar nesta linguagem limitada por nossa pequenez.




terça-feira, 6 de abril de 2010

A DIMENSÃO DO HOMEM



(Iona Teodora Klein - clepsidra)

Uma metáfora ridícula pode começar a dar a dimensão verdadeira do que somos. Imaginemos em nossos intestinos os milhares de organismos vivos que o habitam: seres unicelulares que ajudam na digestão e na transformação dos alimentos que ingerimos. Imagine, agora, um desses seres a pensar sobre a sua relação com o organismo em que vive. Imagine-o pensando em como será o ser que o traz dentro de si. Que noção ele teria? E imagine mais ainda: que noção esse ínfimo organismo teria da relação do ser que o transporta com os demais seres da mesma família? E com os demais seres do bairro, da cidade ou do país em que ele vive? Será que o organismo unicelular de nossos intestinos, dotado de algum tipo de inteligência racional, teria condições de atingir a noção de continentes e mares? E do sistema solar? E... Bem, paremos por aqui. Porque mais ou menos isto é o homem diante do universo que o circunda: um miserável ser unicelular vivendo num planeta dentro de um sistema solar, dentro de uma galáxia, dentro de... dentro de quê? De um universo cujos limites nenhuma mente humana é capaz de atingir e compreender, no atual estágio de evolução em que nos encontramos. Um universo que deve ter tido um começo em algum momento do espaço-tempo e que deverá ter um fim e que está situado dentro de quê? Não sabemos e não saberemos nunca.



segunda-feira, 5 de abril de 2010

UM ALUMBRAMENTO



(Marc Chagall - promenade)


Nietzsche teve um mero alumbramento do que representa o homem na Terra. Um alumbramento genial e difícil de ser compreendido. Mas, se não tivermos a consciência desse alumbramento, não conseguiremos entender o que somos, o que fazemos aqui e para onde vamos.


domingo, 4 de abril de 2010

O HOMEM NO RIO DA EVOLUÇÃO

(Manet - le grand canal)


Não. Definitivamente não somos a criatura suprema das forças evolutivas da natureza. Precisamos compreender que somos, sim, uma parte ínfima do grande rio da evolução. Criaturas incompletas e mutantes, caminhantes para um destino que não sabemos qual será.

sábado, 3 de abril de 2010

ARROGÂNCIA DO HOMEM


(Máscara da comédia)



É muito triste observar que são muito poucas as mentes verdadeiramente iluminadas que compreendem o que é o ser humano e sua relação com o universo que o circunda. Somos menos que um elétron de um átomo qualquer na imensidão do cosmo. E, no entanto, portamo-nos como donos do universo e último elo da cadeia evolutiva.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

O SUPER-HOMEM E A UTOPIA

(Edward Munch: Nietzsche)


A humanidade ainda levará muitos séculos para tornar-se verdadeiramente civilizada. O “além-do-homem” de Nietzsche será, talvez, utopia? Não sei. Apenas sei que a evolução humana devia transcorrer de acordo com as leis da natureza, mas o homem intervém desastradamente na correnteza da vida e pode comprometer, com isso, o seu futuro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

SUPERSTIÇÕES



(Toni d'Agostinho)



Ao mesmo tempo em que confio na capacidade do ser humano de ultrapassar a barbárie e tornar-se melhor, angustia-me olhar para o mundo e ver que ainda estamos mergulhados nas trevas de doutrinas estúpidas, de filosofias arrogantes e de superstições ultrapassadas.