TRAPICHE DO ATEU

UM BLOG DE ECOLOGIA MENTAL. PARA REPENSAR O HOMEM E SUA RELAÇÃO COM A VIDA E COM O MUNDO.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

LIMITAR O PODER DOS POLÍTICOS








Para a evolução para um sistema verdadeiramente representativo, de associações de homens e mulheres reunidos em torno de ideias e representações da sociedade que desejam para si e para todos, propõe-se um sistema intermediário, em que os partidos políticos sejam limitados a quatro ou cinco, com estrita fidelidade partidária, em que o mandato de um político pertence ao partido e não aos seus interesses pessoais, com a proibição absoluta de reeleição para o mesmo cargo, com o controle público dos gastos eleitorais ou, mesmo, com o financiamento público das campanhas, com acesso direto dos cidadãos às listas partidárias de candidatos, escolhidos através de processos diretos de consulta às bases, enfim, com uma série de medidas que limitem o poder dos políticos ou, mesmo, que os releguem a um número mínimo necessário, restritos à atuação na direção dos núcleos partidários. Também acharia interessante que se adotasse um sistema em que, quando um cidadão se tornar candidato a um cargo público, ele se licencia de seu trabalho normal durante a campanha, por dois ou três meses, com a remuneração paga através do partido. Se ele se eleger, o seu cargo, seja em que empresa for, fica congelado durante o tempo do mandato, tendo o direito de a ele retornar ao final de sua missão pública. Se não for eleito, tem também o direito de retomar sua vida profissional, sem nenhum problema. Assim, mais cidadãos comuns poderiam ser candidatos e o político profissional teria sua ação bastante reduzida ou eliminada, evitando alguns fatores de instabilidade do sistema democrático, por causa do alto preço do voto e da existência de uma casta política encastelada no poder.



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

POLÍTICOS: CANCRO DA DEMOCRACIA




(Heirinch Fussli - Lady MacBeth)


Falemos das crises dessa democracia. O maior fator de crise do sistema democrático está na raiz da representatividade, ou seja, na criação de uma casta de dirigentes com direitos diferentes das demais pessoas, os denominados políticos. Não há democracia sem política, mas pode, e deve, haver democracia sem políticos. Ou seja: a constituição de uma pequena elite que se reveza no poder e, quando no poder, faz tudo para se perpetuar nele, constitui-se num cancro que corrói por dentro a idéia básica de democracia que é o direito à oportunidade igual para todos. Os políticos ferem o cerne desse direito, quando criam barreiras partidárias ao cidadão comum, quando não permitem que os quadros se renovem a cada eleição, quando inventam sistemas de financiamento de candidaturas que elevam o preço do voto a valores astronômicos. E o preço do voto se transforma numa armadilha para qualquer pretensão de candidatura que não conte com o apoio de partidos fortes e de financiadores poderosos. Assim, a representação popular só o é no nome, porque, na verdade, os políticos representam a si mesmos e a interesses de banqueiros, de industriais e dos capitais que os financiam. Como é quase impossível romper essas barreiras, cria-se uma casta de políticos que se revezam no poder ou só são substituídos por outra casta de igual origem e conteúdo. Os partidos políticos tornam-se arremedos de posições falsamente diversas, porque, na verdade, não há programas de governo ou de mudanças, apenas programas de poder. Como a origem do capital que os financia é a mesma, também é o mesmo o programa de governo, embora em palavras diferentes para iludir o eleitorado. Nas democracias atuais, não há nada mais igual do que as idéias dos políticos, que só diferem no discurso de situação ou oposição. Assim, não existe verdadeira democracia representativa, apenas um jogo de cena de consequências trágicas para o povo. Enquanto houver uma classe política, não existe possibilidade de representação democrática.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

DEMOCRACIA

(David - Marat assassinado)


Eu acredito na democracia. E mais: acredito que a democracia só se realize plenamente através do sistema republicano, de preferência parlamentarista. No entanto, a democracia, assim como o capitalismo, é um sistema em crise permanente. Mas a semelhança com o capitalismo termina aqui, porque o sistema capitalista pressupõe a desigualdade, a escravidão, a miséria de muitos para o enriquecimento absurdo de poucos, enquanto a democracia pressupõe valores exatamente contrários: igualdade, liberdade e respeito. O problema é que a igualdade democrática não significa que todos sejam bafejados por riquezas e não precisem trabalhar, mas a igualdade democrática significa que todos os seres humanos tenham garantidos direitos fundamentais, como segurança, trabalho, remuneração digna, de modo que as diferenças tendam a diminuir e a se manter num mínimo aceitável. O ideal socialista é utópico. Os homens não são iguais, nem se pretende que sejam todos iguais. Diferenças de valores determinam que sejamos seres únicos, mas ao mesmo tempo tenhamos liberdade e respeitemos tais individualidades dentro das leis básicas da sociedade. Mesmo em relação à remuneração do trabalho, a idéia de que todos os trabalhadores devam receber exatamente o mesmo salário é por demais tentadora, mas para isso o sistema econômico que, nesse caso, não seria o capitalista, precisaria encontrar o equilíbrio perfeito e funcionasse quase como um moto perpétuo, sem perda de energia, o que é absolutamente utópico. No entanto, é possível que as diferenças atinjam patamares aceitáveis, sem que se promovam condições absurdas de riqueza ou pobreza que levem a lutas de classes, como em uma sociedade de servidão capitalista. Um socialismo apenas regulado pelo estado, e não emanado do estado, através de sistemas de controle do capital pode ser um tipo de solução a ser buscada pelo homem, para resolver os impasses e as crises do capitalismo. O respeito à individualidade e à propriedade deverão ser mantidos, porém com limitações ditadas pelo respeito à sociedade e ao outro, de forma que cidadãos que atingirem, por seus méritos e por seu trabalho e criatividade, o topo da pirâmide não agridam os demais com a ostentação de bens acumulados à custa da mais valia de milhares de outros seres humanos, porque a pirâmide social não será tão alta que se distanciem os diversos segmentos sociais. Mas, esse tipo de democracia ainda é um sonho. Enquanto isso, temos que conviver com o sistema capitalista em que nos encontramos, no qual se insere a maioria das democracias.



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A FÉ: COMBUSTÍVEL DO TERRORISMO



(João Ruas - tengu)



O medo. Este o pior sentimento do homem. Impor o medo ao inimigo é ter o caminho aberto para a conquista. O mundo ocidental deste começo de milênio vive o pior dos medos: o terrorismo. E o medo se multiplica porque o terrorismo explode numa forma nunca antes conhecida: tem por combustível o fanatismo religioso e age através do suicídio de homens-bomba que se explodem para atingir pessoas inocentes. Também o medo fez que as guerras se tornassem cada vez mais cruéis. Cada vez mais, as populações civis são afetadas pelas consequências bélicas. Cada vez mais, morrem inocentes, sejam velhos, mulheres ou crianças. A barbárie atinge graus de insustentabilidade cada vez mais altos, impedindo que o homem, acossado pelo medo, tenha qualquer possibilidade de se defender. As convenções todas foram deslocadas para a periferia das preocupações dos que nada têm a perder, a não ser a própria vida, cujo holocausto lhe servirá de passaporte para a salvação eterna ou para as delícias de um paraíso povoado de virgens que o esperam. O homem-bomba do final do século vinte e do princípio desse milênio tem muito mais sangue frio do que os kamikazes japoneses, cujos alvos e objetivo eram militares e estavam contextualizados num cenário bélico. Os homens-bomba que se explodem em filas de crianças à espera de doces ou dentro do metrô de uma grande cidade não têm outro objetivo que a salvação do mundo através da sua crença e da consequente imolação de vítimas inocentes. E, para ele, o mundo só pode ser salvo se temer e tremer diante do deus que lhe dá meios e força para o ato de imolar-se. Assim, não há como impedir que o homem-bomba acione o dispositivo que carrega em seu corpo. Porque não é possível identificá-lo. O processo de desumanização a que ele é submetido tem nuances imperceptíveis a seus amigos e parentes. Porque o fervor religioso que o acomete também acompanha aqueles que estão em volta. O grau de envolvimento com as redes terroristas, através da religião, não transparece em seus atos religiosos, porque o processo de convencimento e desumanização para que ele cometa o seu ato supremo segue meandros absolutamente racionais e congruentes, porque os mentores sabem muito bem o que desejam, ao contrário dos jovens recrutados para o serviço sujo de se explodir e deixar amedrontados um povo ou um continente. Esses têm somente o ideal absurdo de seguir em frente, sem pensar em filhos, pais, parentes ou amigos. Sua mente está corrompida pelo pior sistema de convencimento e empulhação que o homem inventou, nessa sua longa trajetória de cultivo de sistemas metafísicos: a fé. E a fé, como muito bem diz a bíblia cristã, remove montanhas e, por extensão, destrói vidas humanas inocentes.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

BARBÁRIE DO HOMEM MODERNO



(Bill Feigenbaum - journey into fear)


Dentre as grandes nações que despontam nesse início de milênio, nenhuma pode se vangloriar de ser civilizada. São povos e nações que se projetam no cenário internacional com as asas do vampiro, prontas a pular no pescoço de vítimas incautas, ao menor sinal de que suas investidas podem dar certo. Não é à toa que o século vinte foi o século da matança. Nunca se matou tanto em toda a história da humanidade. E o século vinte e um segue pela mesma trilha de sangue. O homem ainda vê o diferente, o outro, como aquele que não tem alma e, por isso, deve ser destruído, por representar ameaça à sua condição de dotado por deus de uma missão qualquer. Há sempre um lado messiânico em toda guerra. E isto é o sinal mais claro de barbárie. Nas dobras da diplomacia moderna esconde-se o gesto de conquista, o gesto genocida de aniquilamento do outro. E quando há matanças gerais, ocorrem também matanças particulares. Se as nações matam, se os chefes risonhos das reportagens de televisão podem assinar o assassínio de milhares e milhares de pessoas e, com isso, ainda conquistar o apreço de seu povo e, até mesmo, de outros povos, por que o homem comum, aquele que se espelha nos poderosos, também não pode construir seus pequenos impérios do crime e decidir o destino de vários outros, como um arremedo de imperadores podres de países pseudocivilizados? Por que não podem também ser donos da vida do cônjuge aquele ou aquela que se julgam traídos? Por que não podem todos os imbecis ser donos da nossa vida e apontar para nossas cabeças suas armas assassinas simplesmente porque desejam o nosso relógio ou a nossa carteira com míseros tostões? A vida humana não vale absolutamente nada, tanto para os dirigentes das nações mais poderosas quanto para o assaltante de rua. E essa desvalorização da vida é reflexo de toda um sistema que se diz civilizado, mas que tem somente sofisticado os atos de barbárie de homens de todos os lugares do planeta. Buscamos, e devem até existir, pequenas ilhas de civilização, para que não decretemos o fim do homem, mas sabemos todos que, mesmo em países mais próximos do ideal de respeito humano, como os países nórdicos, o crime ainda persiste e o sangue humano de vez em quando (o que já é um alento esse de vez em quando) mancha indelevelmente o branco da neve. Os atos civilizacionais do homem, ou seja, aqueles que verdadeiramente trazem conquistas espetaculares, como as descobertas científicas, transformam-se muitas vezes em armas nas mãos dos bárbaros, que ainda são maioria e ainda governam a humanidade, com o fervor dos líderes de hordas medievais ou com o fervor de messias pré-cristãos ou, ainda, com o fervor deísta de destruição dos diferentes, do não reconhecimento de humanidade naqueles que se opõem aos seus desígnios. O fogo do inferno não se apaga nunca da memória dos deístas, pois é para lá que estão indo todos os opositores àquilo que eles chamam de civilização e eu chamo simplesmente de barbárie.



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CONCEITO DE CIVILIZAÇÃO





(Bruegel - o triunfo da morte)



O conceito de civilização talvez seja o mais complexo para o homem. Antropologicamente, até se pode resolver o problema, através de certos indicadores encontráveis ou não nos agrupamentos humanos. Porém, são todos indicadores de tecnologia, propriamente dita, e não de civilização. Há, na história, povos avançados em relação ao seu tempo, por terem uma tecnologia de ponta, em determinados setores, e serem extremamente cruéis em relação a inimigos ou a práticas religiosas, como sacrifícios humanos. Ficamos boquiabertos diante das pirâmides maias, por exemplo, esquecendo-nos da barbárie que cometiam esses povos pré-colombianos em suas práticas religiosas. Consideramo-nos civilizados ou olhamos para cima, para os irmãos do norte, extasiados, diante de sua capacidade tecnológica, e não percebemos o quanto de barbárie há nas decisões de seus presidentes de invadir e liquidar países, em nome do combate ao terrorismo. O Iraque aí está para não nos deixar iludir com o comportamento bárbaro de nossos irmãos do norte. Os Estados Unidos da América conservam o mesmo ânimo guerreiro e genocida de seus tempos de conquista do Oeste. Mudaram os índios, que já foram há muito dizimados e não mais oferecem perigo. Mudaram os métodos, pois os antigos rifles tinham capacidade limitada. Agora, mísseis de alta precisão fazem ataques cirúrgicos, numa guerra em que o inimigo é aparentemente invisível: à distância, o peso na consciência se esfuma, pois a ilusão faz do combatente apenas aquele indivíduo que aperta botões e fica sabendo por sofisticados instrumentos de detecção que seu projétil atingiu o alvo, ou seja, não há corpos ou sangue à vista, apenas a fumaça distante ou, quase sempre, apenas um ponto no radar. Assim, o genocídio torna-se corriqueiro, como eram corriqueiras as matanças de indígenas no velho Oeste. Os indígenas não tinham alma, eram seres brutos e brutalizados, que impediam o desenvolvimento. Assim também devem pensar os dirigentes estadunidenses, quando dão ordens de invasão de um povo como o iraquiano e destroem cidades como Bagdá, apenas para satisfazer o seu desejo milenar de sangue: por mais que se desculpem com o combate ao terrorismo islâmico ou de origem islâmica, o que verdadeiramente está por trás de tais desculpas é o velho e milenar desejo de sangue, de guerra, de conquistas, para firmar a supremacia de um povo. E ousam chamar civilização o conjunto de tecnologias que lhes permitem matar mais em pouco tempo e a distância, ou seja, com o mínimo de baixas. Isso, absolutamente, não é civilização.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

NÃO SOMOS O ÚLTIMO ELO DA EVOLUÇÃO



(Caravaggio - Davi e Golias)





No entanto, não nos iludamos: há ainda um longo caminho a percorrer para superar os instintos primitivos e reacionários que convivem nos genes e no pensamento do homem. Além do mais, a evolução não segue como um rio calmo, nem suas águas se encontram todas no mesmo estágio. Enquanto há homens (e não estou me referindo a tribos ou sociedades ou nações) que nascem com os instintos reacionários e primitivos mitigados, há muitos outros que ainda os têm em plena manifestação. E isso independe do grau de inteligência que possam ter os indivíduos. Há monstros inteligentes e sensíveis, enquanto há artistas com temperamento agressivo e assassino. A barbárie ainda tem, em larga escala, guarida no pensamento humano. Seja por motivos religiosos, políticos ou pessoais, mata-se muito e por qualquer razão ou sem razão nenhuma. Não conseguiu, ainda, o homem superar o instinto primitivo de matar, de destruir, de conquistar. Posso dizer, sem medo de errar, que são poucos, muito poucos, ou até mesmo quase impossível de se encontrarem, os seres humanos em que esteja ausente o primarismo, o reacionarismo ou a barbárie. Mesmo os que se apresentam como paradigmas do que se chama comumente bondade, reagem de forma irracional com maior ou menor potência às injustiças ou às ameaças. Os cristãos costumam ver na figura mítica de seu profeta o paradigma desse tipo de ser humano imune à barbárie, mas se esquecem de sua reação diante dos vendilhões do templo, o que é menos grave, ou de sua pregação de que serão excluídos do reino do céu todos os que não o seguirem, o que é muito mais grave, por construir uma doutrina de incluídos (os fiéis) contra os excluídos (os infiéis). A tolerância cristã vai até um certo limite, o do pecado. A partir daí, tolerância zero para os pecadores, para os blasfemadores e os hereges: queimarão todos no fogo do inferno ou agora ou no dia do juízo final. Portanto, não somos os seres que gostaríamos de ser. Não somos, de forma alguma, o último elo da evolução. E somente a possibilidade de construir um futuro mais digno para o ser humano permite que nossa imaginação nos leve a sonhos utópicos ou ao verdadeiro caminho de um mundo onde a guerra e a matança sejam a exceção e não a regra.



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CONSTRUÇÃO DO FUTURO



(Gaston Casimir Saint-Pierre - Diana caçadora)




Muitas foram as tentativas de definir o homem. Fazem sucesso. Mas, eu creio que, na verdade, o homem é o único animal que constrói o futuro. A racionalidade humana está em poder prever as consequências de suas ações, em primeiro lugar, e, depois, as mudanças da natureza. Tal possibilidade levou-o a desenvolver a imaginação. Com a imaginação, o homem sonhou e pôde, assim, conquistar o mundo e sobrepor-se aos demais seres vivos. Exemplifiquemos. Um pensamento primário: há polpa sob a casca do coco. Um pensamento de construção do futuro: se eu quebrar a casca, eu me alimento. Daí à descoberta de ferramentas que pudessem quebrar a casca do coco, há centenas ou milhares de anos. Mas a semente estava lançada. Outro: se o tigre tem fome, ele mata. A corça não percebe a fome do tigre, apenas sua presença ameaçadora. Quando o homem percebeu a fome do tigre, entendeu que ele caçava porque tinha fome e, assim, ele pôde defender-se melhor. Ou aproveitar-se dela para caçá-lo. Ou, ainda, dar-lhe o alimento, para evitar ser morto. Enfim, um pensamento de construção do futuro formou-se na mente do homem. A maioria absoluta dos animais não tem essa construção do futuro: são apenas reativos. Agem em consequência de seus instintos ou das forças da natureza. Talvez alguns primatas já tenham a centelha desse pensamento. Por isso, são tão próximos do homem. E essa capacidade de construir o futuro trouxe a imaginação, que é, depois da racionalidade, a mais poderosa arma da inteligência humana. Sem imaginação, o homem não teria podido tornar-se gregário e construir as civilizações que lhe dessem proteção. Quando falo em civilizações, estou-me referindo a qualquer tipo de construção coletiva do homem. O senso de coletividade tornou-se o elemento fundamental de sobrevivência humana. Sem a formação de sociedades que evoluíram para organizações complexas, desde a simples reunião para a caça e o preparo dos alimentos até a construção de palácios e pirâmides, o homem provavelmente teria desaparecido diante das mudanças de clima e das intempéries da natureza. Somente a capacidade de construir o futuro e, com o uso da imaginação, prevenir-se contra as ameaças, transformou o homem no ser que hoje habita o planeta soberanamente.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

UNIVERSO ATRAVÉS DO DISCURSO




(Andrew Wyeth - Christinas world)



A idéia da negação da realidade e sua troca pelo discurso podem levar a recaídas metafísicas. No entanto, não há metafísica na leitura ou na tentativa de leitura da realidade. Os sentidos humanos desvelam a porção de realidade que é possível desvelar, assim como certos animais só enxergam, por exemplo, em preto e branco ou outros que só apreendem o mundo que os rodeiam pelo cheiro etc. Não podemos afirmar que nossos cinco sentidos sejam suficientes para ler o mundo como ele realmente é, porque não dispomos de outras experiências. A essa leitura que nos foi dada pela natureza já estamos há milhares de anos acostumados e dela não temos condições de nos livrar. Porém, não há provas de que o que vemos é realmente a realidade, porque somos limitados aos sentidos e à subjetividade de nosso cérebro. Percebemos o que os nossos sentidos captam e o que o nosso cérebro interpreta. Pelas características genéticas comuns do homo sapiens, não há grandes distorções e interpretações entre aquilo que eu apreendo e o que as demais pessoas também apreendem: divergimos em detalhes, que correspondem, muitas vezes, a ponto de vista e a determinados recortes da realidade. No mais, convergimos e concordamos em que, por exemplo, o que chamamos céu é azul ou que as folhas das árvores são verdes, por mais nuances que tenham. As noções adquiridas pelos sentidos e interpretadas por nosso cérebro seguem padrões que não permitem que julguemos ser isto bom ou ruim, apenas são o que são. Sem nenhuma metafísica, mas, por sua subjetividade e, por ter o homem a capacidade de imaginar e, mais do que isso, transformar em linguagem e discurso a sua imaginação, somos também capazes de nos enganar e de enganar os outros através de divagações metafísicas. Isso pode, até certo ponto, justificar os engodos em que nos metemos, mas qualquer justificativa cessa, quando analisamos de forma racional os discursos que contêm a semente e, às vezes, a árvore inteira, do pensamento inventado metafisicamente, propenso, portanto, a ser lido apenas com o sentimento, ou seja, com a nossa vontade de que aquilo se torne verdadeiro. E, como a vontade pode suplantar a racionalidade, acabamos por acreditar em contos da carochinha, apenas porque esses contos, transmitidos através de discursos bem elaborados, contêm o que se chama coerência interna, cerne da obra de arte que, por ser arte, dá apenas uma interpretação da realidade e não a realidade inteira. Aliás, a realidade inteira deve ser algo tão tremendamente abstrato que, provavelmente, não consigamos nunca alcançar a sua verdadeira dimensão. Nossa mente, mesmo que evolua a patamares até agora inimagináveis, não terá condições de interpretar o mundo em sua totalidade, porque o universo, em sua amplidão, não cabe na casca de noz de nosso pensamento, por mais complexo e elaborado que ele seja. Teremos de nos contentar, sempre, com o recorte possível que fazemos da realidade, para não nos tornarmos loucos ou insanos diante de sua grandeza. Assim, só nos resta, para que a realidade não nos fuja ou nos transporte para invenções absurdas, contentar-nos com o discurso e tirar dele todo o proveito de que somos capazes, para construir os enredos possíveis de nossa conexão com o universo que nos rodeia, ou melhor, com o universo de que fazemos parte.



terça-feira, 30 de novembro de 2010

LINGUAGEM E PARADIGMAS




(Alma Tadema - the women of Amphissa)




A maior criação humana, sem dúvida nenhuma, é a linguagem. Mas, ao mesmo tempo em que é genial, a linguagem tem aprisionado o homem em paradigmas dos quais ele não consegue livrar-se. Se fosse deísta, diria que deus inventou a linguagem e o diabo, o discurso. Quero dizer: se a linguagem é a invenção mais do que fantástica, o discurso inventou o paradigma. E os elementos paradigmáticos do discurso tornaram-se mais importantes do que os próprios fatos. Ao transformar a visão de mundo em discurso, perdeu-se a objetividade. Ao perder a objetividade, enredando-se em discurso, este torna-se o próprio mundo que ele pretende descobrir e, no lugar da descoberta, surge a interpretação. Não mais somos capazes de descrever o universo, mas ganhamos a capacidade formidável de interpretá-lo e, ao interpretá-lo, criamos paradigmas sobre paradigmas, invenções sobre invenções. Assim, a história passa a ser não o relato do que aconteceu, mas cria os fatos a partir dos relatos e estes se tornam paradigmáticos. A famosa guerra de Troia: possivelmente uma briguinha de vizinhos – duas pequenas cidades a disputar alguma bobagem. Alguém, então, resolve raptar a mulher do inimigo. Para cobrar o desaforo, possivelmente algumas dezenas de homens armados resolvem sitiar a cidade dos ladrões. Será que esse cerco durou realmente dez anos? Ou foram dez anos de tentativas intermitentes? Quantos habitantes havia em Troia? Trinta mil? E quantos dispostos realmente a guerrear? E quantos, realmente, se predispuseram a ficar pelas imediações e, de vez em quando, fazer algum tipo de ataque a moradores da cidade, para dizer que estavam por ali, ou simplesmente pelo desejo de provocar e lutar? Enfim, a guerra de Troia chegou até nós através de uma narrativa épica, em que uma guerrinha particular ganha foros de tragédia universal. O relato do poeta, ou dos poetas, ou de quem estruturou e depois dos que aumentaram, ao longo do tempo, a narrativa, não deixa dúvidas: foi uma guerra de heróis, de deuses e de semideuses. Acreditamos nele, no autor ou nos autores. Afinal, a beleza dos versos e a grandeza da obra são testemunhos inequívocos de sua veracidade. No entanto, posso fazer de uma simples dor de cotovelo um poema de grandeza universal sobre o amor, que não necessariamente a mulher a quem dedico os versos seja a mais bela do mundo ou a mais nobre ou a mais digna. O que importa são as palavras, sua grandeza e variedade, o discurso bem articulado e construtor de uma pseudorrealidade. Porque, acabada a obra, posso seguir minha vida e nem me lembrar mais da musa que a inspirou, assim como o improvável Homero criou de uma guerrinha boba entre vizinhos uma epopeia digna dos deuses. E assim tem sido a história dos grandes feitos. Estão, quase todos, muito aquém da realidade, mas o discurso inventa batalhas, cria heróis e heroísmos, transforma o cotidiano em atos de glória, homens em deuses e nós, pobres leitores, em idiotas da fantasia de mentes fantásticas e originais. Preferimos a versão ao fato, as palavras à realidade, o discurso ao exercício duro da pesquisa. Afinal, os homens precisam de paradigmas, de heróis e de deuses, assim como precisam da comida do dia a dia. O alimento da imaginação tem tanta importância quanto o alimento do corpo. O discurso nos aprisiona e nos revela, ao mesmo tempo: seres que se enganam o tempo todo e, pior, seres que adoram ser enganados, além de enganar. Por isso, a linguagem, essa criação fantástica, transformou o homem em prisioneiro de paradigmas e de invencionices mágicas que ele criou para substituir, com grande vantagem, o prosaico mundo de realidades em que vivemos. Assim, dando asas à imaginação, inventamos a arte e, através dela, a nossa civilização tem sido menos triste do que devia ser. E não há metafísica nesse pensamento, apenas discurso que, por ser livre e inventivo, constrói mais um paradigma.



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CAPACIDADE CRIATIVA DO HOMEM




(Kandinsky)



A ciência ainda tem poucas respostas, mas as religiões não têm nenhuma. Tampouco considero a ciência a dona da verdade. Aliás, não há verdade, principalmente a verdade absoluta pregada pelas religiões. Mesmo a metafísica, essa forma de pensar cheia de absurdidades, pode oferecer algum alento e algumas respostas para algumas pessoas. Ainda que eu acredite não serem as melhores respostas. Isso não importa. O que realmente se torna fundamental para uma nova maneira de pensar é o criticismo, a possibilidade de colocar em xeque qualquer conjunto de verdades constituídas em cânone. O poder do homem está em duvidar de tudo, mesmo de seu antideísmo. Embora não haja nenhuma possibilidade da existência real de um deus supremo, criador de todas as coisas, essa forma de pensar estratificada na mente do homem tem criado concepções que atendem às necessidades filosóficas de uma grande parte da humanidade. O repúdio ao deísmo de forma acrítica pode, até mesmo, fortalecê-lo. Por isso, pensar em deus ainda pode ser um exercício fundamental para o homem durante muitos e muitos séculos. O receio maior que se pode ter, quando a ideia de deus for varrida da mente do homem, é que ele busque substitutos muito mais terríveis do que a própria ideia de deus. Se o homem se voltar para o cientificismo absoluto, como substituto ideal da religião, pode a humanidade cair nas mãos dos mesmos prestidigitadores e falseadores da realidade que teimam na pregação da existência de deus, com agravantes muito mais poderosos: o conhecimento e a tecnologia a seu serviço, para escravizar a mente do homem e mantê-lo na ignorância mais profunda, com pouquíssimas possibilidades de ressurgir, aí sim, de longos e tenebrosos tempos de trevas. O motivo dessa preocupação tem um nome: igualdade, ou melhor, a ausência de recursos que possibilitem a todos, ao mesmo tempo, alcançar o mesmo nível de conhecimento. Nem em termos teóricos, a nossa capacidade de projetar e planejar o futuro consegue ou conseguirá imaginar um mundo em que todas as diferenças sociais e econômicas tenham sido superadas. Mesmo que obtivéssemos de mentes absolutamente brilhantes no trato da economia e da sociologia uma sociedade de bem estar total, mesmo que a genética tivesse conseguido assegurar qualidade total na concepção de novos seres humanos, mesmo que os filósofos e os educadores assegurassem a esse homem um código universal de ética, a obtenção desse aparente paraíso terá custado ao homem a perda de sua liberdade e, consequentemente, a possibilidade de cada um seguir a sua própria trajetória em busca do bem estar individual, o que levaria ao desmoronamento desse mundo de perfeição, por total falta de equilíbrio natural entre o homem e sua capacidade de buscar e sonhar e pela estagnação, pela impossibilidade de que o ser humano continuasse a sua trajetória de evolução e desenvolvimento. O desaparecimento do homem passaria a ser questão de tempo, ou haveria uma revolução contra esse estado e uma volta da barbárie, uma espécie de fantasma, de nuvem negra, que ronda a história do homem e não se dissipará apenas com a construção de um mundo mais justo ou de uma utopia. O cientificismo cego não pode ser a opção à selvageria do deísmo. O conhecimento pode, sim, substituir parcialmente a ignorância que leva à metafísica, mas não pode impedir que o homem seja o ser sempre imperfeito em busca de um estágio mais elevado de consciência, de pensamento e de estrutura física. Há necessidade de se criarem novas formulações do pensamento abstrato, para que o sonho e a imaginação não criem outros monstros na mente humana. A aceitação da vida como ela é, sem os engodos deístas de sobrevivência, exigirá uma nova estrutura cerebral a ser construída ao longo de muitos séculos de evolução, o que implica um tempo de maturação que, hoje, nenhum filósofo da realidade terá condição de imaginar. No entanto, é essa a trajetória do homem, sem dúvida nenhuma, para a construção de um mundo mais justo, embora ainda imperfeito, com o auxílio da ciência e da tecnologia, sem que estas se transformem na ditadura da sapiência sobre os demais elementos constitutivos da psique humana, como os sonhos, a imaginação e a capacidade criativa.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

OUTRAS SEXUALIDADES



(Foto de Wladimir Kalinin)



O moralismo sexual tem causas claras na tradição milenar de quase todas as religiões, principalmente a cristã, cujo deus macho criou o mundo como um paraíso. E um crime sexual, a tentação da primeira mulher, transformou-o num vale de lágrimas. Para redimir o pecado original, de origem sexual, um novo deus é mandado ao mundo através de uma virgem, uma mulher sem pecado, porque não fez sexo, embora pudesse ter cometido mil outros pecadilhos, no conceito cristão do termo. Assim, os seminários e conventos estão abarrotados de seres que vivem uma meia vida, sem sexo, pelo menos não declarado. E o sexo constitui uma das preocupações mais constantes de toda a literatura cristã, na condenação tanto de seus excessos quanto de suas diferenças. Apesar disso, os homossexuais abriram brechas importantes neste edifício moralista e excludente construído pela moral deísta. A corrente conservadora, aliada à ignorância dos próprios seres diferentes, cria, no entanto, categorias absurdas de sexualidade, procurando excluir dos dois sexos existentes na natureza, o masculino e o feminino, os que se apresentam com uma sexualidade diferenciada. Assim, fala-se de travestismo como se o travesti fosse um outro sexo, uma espécie de monstrinho antinatural. E eles mesmos, os travestis, falam e agem como se fossem um terceiro sexo, e até reivindicam essa condição. Os transexuais fazem o mesmo, ignorando a própria natureza, como se o fato de ganharem um pênis ou perderem um pênis fosse suficiente para se mudarem para o outro sexo, como se muda de lado numa rua. Eu acredito que a insistência em categorizar os seres cuja sexualidade seja diferente em diversas espécies sexuais só contribui para excluí-los e aprofundar o preconceito dos moralistas. Aceitem-se como são: travestis, transformistas, transexuais etc. são homens ou mulheres com sexualidade diferenciada, mas, se nasceram homens são homens e, se nasceram mulheres, são mulheres. Não se muda de sexo, simplesmente porque se fez uma operação que altera as formas externas da genitália ou do próprio corpo, mas um travesti, por exemplo, por mais parecido que fique com uma mulher é apenas um homem que parece mulher, tem trejeitos e características femininas, mas continua sendo um homem. E a essa opção sexual e de vida tem que ser dado o devido respeito, como a todo e qualquer ser humano.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SEXUALIDADE HUMANA




(Almada Negreiros)





Há apenas dois sexos: o masculino e o feminino. E muitas sexualidades. Os meios de comunicação e a modificação dos costumes escancaram uma realidade que ficara oculta ou restrita a pequenos grupos há muitos e muitos séculos: a variedade de manifestações sexuais entre os humanos. O homossexualismo, aos poucos, começa a abandonar o gueto de degeneração e ignomínia a que ficara relegado, para se constituir num segmento importante em várias sociedades. E no rastro da maior tolerância ao homossexualismo, formas alternativas de realização sexual despontam em todos os níveis sociais, a demonstrar que a genética humana, responsável por tantas variedades, continua e continuará fazendo suas experimentações, como sempre. Os preconceitos persistem, como grandes muralhas a serem transpostas, mas há sinais claros de que, através da sutileza de cavalos de troia ou pela força de potentes aríetes, a cidadela começa a dar sinais de queda. A sociedade ainda se espanta com demonstrações diferentes da sexualidade, condenando-as como atentatórias à moral ou rotulando-as de exóticas, mas não pode mais deixar de reconhecer sua existência. O diferente sempre provocou reações, ou de indiferença e afastamento ou de ódio e violência. Quando os espanhóis chegaram ao México, o estranhamento entre as duas civilizações levou o exército de Cortez a cometer um dos maiores massacres da história humana, em nome de uma pretensa superioridade da civilização europeia cristã. E assim foi em todas as guerras de conquista: o estranhamento quase sempre levava a guerras e à escravidão do mais desprotegido. A neurose em relação à invasão da Terra por seres interplanetários povoou e povoa a imaginação de escritores, cineastas etc. de seres monstruosos, todos prontos a devorar e destruir os pobres terráqueos. Instala-se, assim, na mente das pessoas, o medo pelo diferente. Também no terreno da sexualidade humana, o diferente apresenta-se como ameaça, como se o fato de dois seres se unirem de forma não convencional fosse fazer desmoronar a tal civilização cristã.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

O MITO DA BRUXA




(autor desconhecido)


O mito da bruxa serviu, e ainda serve de formas mais sutis, para perpetuar a noção de desigualdade entre os sexos, deixando a mulher à margem das grandes decisões da humanidade. Embora os avanços sejam significativos, a intolerância ainda tem fôlego para manter a mulher ignorante e distante de muitos poderes que os homens ainda reservam para si, até nas mais adiantadas sociedades desse início de terceiro milênio. O contra-argumento canalha do machismo constitui uma pérola derivada dos mais obtusos manuais de caça às bruxas: dizer que as mulheres não querem igualdade, mas lutam para ser superiores aos homens é, no mínimo, um desafio a qualquer princípio lógico que nem o mais ousado defensor do patriarcalismo terá vergonha de enunciar. A relação homem/mulher posta-se, assim, no terreno da desconfiança e da rivalidade, como se a ascensão do feminino fosse uma ameaça ao homem, assegurando, de forma sutil mas vigorosa, a manutenção do machismo rancoroso, quando, na verdade, não há e não pode haver rivalidade entre os sexos que se complementam e lutam, ambos, por uma vida melhor neste planeta tão cheio de injustiças. As diferenças entre homens e mulheres, em termos genéticos e antropológicos, não constituem motivo para rivalidade, mas para complementação entre os sexos. A estupidez humana é que mantém níveis ou escalas de diferenças que escravizam a mulher ou colocam-na em situação inferior. Assim como não há raças entre os humanos, também não há relação de subordinação entre os sexos. Nessa desigualdade inventada pela mente diabólica de cristãos, no ocidente, e de deístas, no resto no mundo, vemos, de forma clara e cabal, mais uma manifestação da barbárie humana. Que precisa ser combatida em todas as frentes.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ADIAMENTO DO FEMININISMO




(Achille Deveria)




Não foi a queima de aproximadamente cem mil mulheres durante o período inquisitorial (do século XIII ao XVIII) que se constitui no fato mais horripilante da história da Igreja Católica Romana, mas sim o impedimento de que a burguesia então nascente pudesse trazer consigo o gérmen do feminismo numa sociedade que se transformava de agrária para citadina. No campo, embora já pipocassem movimentos feministas, as mulheres não deviam ter muitas condições para reivindicações, presas a afazeres domésticos mais pesados (no campo, ajudando os homens e em casa, nas lidas domésticas) e isoladas em pequenas aldeias. Nas cidades, a comunicação era mais fácil tanto quanto o acesso a meios mais poderosos de conhecimento, como os livros. Além disso, a divisão mais equânime das tarefas diárias, em que a mulher não tinha mais a responsabilidade da dupla jornada, podia constituir-se no cadinho ideal de ascensão feminina. Ferido profundamente em seu âmago pela instalação da ideia de que a mulher é responsável pela desgraça humana e pode ser mais facilmente enganada pelo demônio, o feminismo somente irá renascer com alguma força no século XX, agora sem fogueiras reais, em virtude do enfraquecimento momentâneo do catolicismo e também do luteranismo e do calvinismo. No entanto, as hostes conservadoras e fundamentalistas deram mais do que sinal de vida nas últimas décadas do século e só não acendem as antigas fogueiras em praças públicas porque os tempos mudaram e, portanto, é preciso mudar os métodos. Agora, os fundamentalistas cristãos perseguem as bruxas pelos meios mais sutis ou, às vezes, nem tanto, dos debates contra o direito do aborto, do uso de preservativos e métodos contraceptivos, da maternidade assistida e outros avanços da medicina que surgiram para dar condições à mulher de decidir o seu próprio destino e de tomar para si o cuidado com seu próprio corpo.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

A MULHER COMO BRUXA




(Brian Viveros - mess with the bull)



A condição feminina. Desde o momento em que o homem se descobriu agente da procriação, tanto quanto a mulher, a patriarcalização do mundo entrou num processo difícil de reverter. No ocidente, um grande passo para tornar a mulher um ser desprezível foram as invenções cristãs, já que a Bíblia, principalmente o novo testamento, não traz uma condenação cabal à mulher, como acontece, por exemplo, entre os seguidores do Alcorão, cujos preceitos, embora não condenem de forma absoluta a mulher, colocam-na claramente em posição de inferioridade em relação ao homem, com prescrições precisas do que ela pode ou não pode fazer ou usar. Por isso, o movimento contra o feminismo não partiu do cristianismo puro, mas principalmente daquele derivado do paulismo. O misógino Paulo de Tarso não se cansou de escrever diatribes contra as mulheres, aprofundando a culpa do pecado original através da explicação do nascimento de um Cristo sem gametas masculinos, concebido no útero de uma virgem por obra e graça de um espírito santo, o tal espírito de deus. Munição mais do que suficiente para definir a doutrina católica (e, depois, por extensão, de todo o cristianismo) de repúdio às mulheres, principalmente através de seus sábios de maior magnitude, como Agostinho, os quais, apoiados em ideias esdrúxulas do criacionismo masculino (um deus macho), pegaram a vassoura das bruxas medievais e varreram definitivamente o feminino para debaixo de seus altares, ou melhor, para dentro de suas fogueiras. Criaram o mito da bruxa que faz pacto com o diabo, apropriando-se da mitologia primitiva das mulheres curandeiras e parteiras, de civilizações que cultivavam a terra de acordo com ciclos da natureza, cujo conhecimento pertencia a essas mulheres privilegiadas. Quando os dois monstrinhos dominicanos, Kramer e Sprenger, codificaram todos os mitos relacionados às bruxas, no seu Malleus Maleficarum, considerado por muitos a continuação do Gênesis bíblico, eles também determinaram com certezas aristotélicas e agostinianas o campo de ação dessas bruxas e descreveram detalhadamente o modo como elas devem ser perseguidas, presas, julgadas e queimadas. Os dois padres dominicanos não deviam ter a noção precisa do objetivo da tarefa a que se propunham, mas, com certeza, a Igreja conhecia bem os desígnios que estavam por trás da caça às bruxas: deitar uma pá de cal na possível e provável pretensão feminina de alcançar algum tipo de posição que se aproxime da igualdade de direitos em relação aos homens, na hierarquia religiosa e, por extensão na sociedade pois, afinal, a Igreja era e ainda pretende ser a mandatária absoluta das mentes.



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A RAÇA HUMANA



(Portinari - menina sentada)



Raça. Uma breve observação sobre raça. Acredito, e creio que o futuro o comprovará, principalmente através do aprofundamento dos estudos de genética, que não existem raças humanas, mas apenas seres humanos, ou, se preferir, a raça humana, diferente, mas não muito, das demais espécies animais. O que existe, na verdade, são homens que têm a cor da pele diferente e outras características físicas diferenciadas por fatores climáticos ou por desvios genéticos e isolamento geográfico, mas que, à medida que o mundo se torna menor, esses seres tenderão a se misturar em todo o planeta, fazendo desaparecer as diferenças ou, talvez, criando outras características diferenciadoras que não terão nada a ver com as atuais. Portanto, falar em raça ou separar os seres humanos em raças, constitui um sintoma de barbárie que precisa ser eliminado da consciência humana.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CULTO À MORTE E A BUSCA DA FELICIDADE




(Bruegel - the procession to calvary)


O suicídio é a fuga para uma outra dimensão que não existe: a satisfação após a morte, o que resulta, pelo menos para a pessoa que se suicida, em solução, mas uma solução que contraria o princípio básico da vida: o próprio ato de viver. Morrer é natural. Matar e matar-se: constituem-se em atos extremos, condenáveis por si mesmos, em qualquer situação. No entanto, os instintos que trazemos de nosso passado e a fera que ainda mora na memória e na cadeia genética do homem ainda não foram amansados o suficiente para ultrapassarmos a condição bárbara de cometermos atos insanos. Nossa civilização foi criada e desenvolvida no culto à morte, fruto de milhares de anos de deísmo e culto a divindades abstratas, e isso é um complicador a mais na trajetória humana rumo a uma condição de superação da barbárie. Buscar a felicidade, como condição da vida humana, constitui-se num dos aspectos desse culto à morte. Ou seja, se não se alcança a felicidade em vida, essa virá após a morte, no seio de uma divindade ou num nirvana ou num paraíso absurdo. O que torna a vida humana uma trajetória absurda e o homem, um simples joguete nas mãos de um deus ou de um destino. Assim, a felicidade, como categoria absurda, invenção metafísica de filósofos deístas e ignorantes da real condição humana, torna-se, ironicamente, um elemento perturbador da própria satisfação humana, dificultando que o homem consiga ultrapassar o estado de barbárie em que ainda se encontra. Porque, muitas vezes, aquilo que se chama felicidade implica a desgraça e a assim chamada infelicidade de outro ou de muitos outros seres humanos. Justifica-se qualquer ato bárbaro pela busca de um estado inexistente e absurdo de satisfação absoluta, que se denomina felicidade.



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DA INEXISTÊNCIA DA FELICIDADE



(Os primeiros brasileiros - Museu Nacional)


Felicidade. Outra abstração que o platonismo deixou como herança da busca pela essência das coisas. Há toda uma mística envolvendo a ideia de felicidade, como se isso fosse algo que se devesse alcançar, uma meta colocada à frente do homem, geralmente muito à frente. Como quase todas as demais categorias abstratas da metafísica, essa também é um embuste à condição do homem. A filosofia e as religiões sempre pregaram a busca da felicidade. Mais recentemente, a psicologia entrou na guerra. Então, decreta-se: o homem, o ser humano, nasceu para ser feliz. Como uma missão a cuja renúncia compromete a própria existência. Por isso, um dos temas que mais preocupou o ser humano, a partir de um determinado momento da civilização, tem sido a felicidade. Então, pergunta-se: o homem pré-histórico também tinha essa preocupação? A resposta é muito simples: não, o homem primitivo não tinha essa preocupação, porque simplesmente ele gastava a vida vivendo. Como de resto todos os demais seres vivos da natureza. Só o homem moderno, isto é, o homem filosófico, que inventou as categorias abstratas da metafísica, possui preocupações que ultrapassam a existência. Pois é isto: preocupações que ultrapassam a existência. Esse o mal do homem filosófico. Busca sarna para se coçar. E, com isso, esquece a vida e se esquece de viver. O homem não nasceu para ser feliz, porque, simplesmente não existe algo que se possa denominar felicidade. O homem nasceu para viver e, durante a vida, satisfazer suas necessidades. A busca da felicidade é um valor burguês, inventado para levar o homem à busca de satisfações que ele não tem: consumo e emoções abundantes, isto é, além de sua capacidade de absorção. O estado natural do homem é a satisfação: quando algo desagradável ocorre, ficamos aborrecidos, entristecidos, podemos até desejar a morte, e muitos se suicidam. Não é a infelicidade que leva alguém ao suicídio, mas a insatisfação com situações específicas da vida, que comprometem nossa relação com o mundo. Bombardeado, no entanto, pela metafísica busca da felicidade, a frustração transforma-se em problema insolúvel e o obstáculo intransponível joga o desesperado na vala dos inadaptados, dos que não conseguem atingir o objetivo por que o homem existe e, então, só lhe resta renunciar àquilo que é o seu bem mais precioso – a vida – tendo como causa um outro estado absurdo, o de infelicidade. Porque, assim como não existe a felicidade, também não existe a infelicidade. A relação harmônica do homem com o mundo que o rodeia traz a sensação de prazer de viver e continuar vivendo. No entanto, a vida não é constituída apenas de relações harmônicas: ela exige do homem o vigor de enfrentamento, isto é, a vontade de viver para continuar vivendo, a vontade de ultrapassar os obstáculos que são inerentes à vida, para buscar novo estado de satisfação, através da acomodação dos aspectos negativos que possam trazer estados depressivos. E isso só se consegue com a compreensão de que a vida é o bem mais precioso e de que não há a menor possibilidade de compensações futuras para a perda da vida.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

O AMOR METAFÍSICO E A BARBÁRIE




(Caravaggio - amor vincit omnia)


Desde que se decretou a busca da essência das coisas, o homem tem inventado categorias abstratas e acreditado nelas. Não que não existam certas categorias de abstração, isso seria impossível. Falo, no entanto, de verdadeiras entidades abstratas, tratadas como seres descolados da realidade. Por exemplo, o amor. Ninguém nega a existência do amor: parece algo que está acima de qualquer possibilidade de não existência. Está enraizado na mente humana de tal modo, que é usado como remédio universal para todas as mazelas humanas, placebo receitado para todo e qualquer momento da vida, como se o próprio homem dele dependesse. Qualquer pregador, qualquer falso profeta, qualquer idiota, enfim, todos, insistem e persistem na idéia de que é o amor o sentimento máximo do ser humano. Não estou falando, aqui, da categoria amor em relação à atração de um ser humano por outro, ou seja, o chamado amor individualizado, a afeição que une pessoas dentro de uma comunidade restrita, na codependência da vida diária, não importando se há componente sexual ou simplesmente afetivo. Refiro-me à grande categoria incrustada em expressões “só o amor constrói”, “amai a deus”, “amor ao próximo” etc., em que predomina a ideologia cristã de que é possível a existência de um amor absoluto, independente do objeto. Ao descolar o ato de amar do objeto, ou seja, chegar a estado de contemplação absoluta do ato de amar, o homem se idiotiza numa concepção de mundo etérea e abstrata, fora da realidade cotidiana, em que os atos de aproximação entre os seres humanos nada têm a ver com essa idealização metafísica do amor a qualquer preço, como se fosse possível, por exemplo, que a natureza tivesse atos de amor à matéria de que ela é feita. Não, positivamente, esse amor universal, estranho amor que leva facilmente ao ódio, não contempla a natureza. É absolutamente antinatural. O amor química, que se resume na aceitação do objeto amado específico, como entre dois seres que se aproximam e convivem entre si, por necessidades sociais ou porque foram gerados ou geraram outros seres, não guarda nenhuma relação com a idealização cristã de amor ao próximo. Não há que se amar a natureza, porque a natureza não tem amor. Não há que se amar ao próximo, porque o próximo não tem amor como nós pensamos que ele teria e ele pensa que nós temos. A antinaturalidade desse amor sem objeto definido está flagrante em todos os atos de vandalismo, de destruição e de assassinatos que o homem comete contra a natureza e contra si mesmo. Há que se buscar antídotos a essa concepção metafísica e absurda na idéia de respeito, de necessidade de convivência com forças contrárias, para que o homem sobreviva a si mesmo e a seus atos de barbárie.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CONTRA TODAS AS METAFÍSICAS




(Bosch - adorating)



Barbárie. Uma mulher depõe na televisão que o pastor havia insistido em que ela pagasse o carnê de gideão para seu filho, mas ela não o fez e o filho sofreu um acidente e perdeu as duas pernas. Um pai põe para fora de casa a filha que se perdeu, ou seja, entregou-se ao namorado. O marido espanca a mulher porque bebeu demais. Filha mata pai e mãe, porque eles não concordavam com o seu namoro com um marginalzinho qualquer. Nas favelas da cidade do Rio de Janeiro, o tráfico impõe suas leis e mata repórter que fazia matéria sobre o seu poder. No Iraque, diariamente, os terroristas explodem bombas presas em seu corpo e matam, ferem e mutilam dezenas de pessoas. Isso porque um presidente americano destruiu a nação iraquiana para depor o tirano que governava o país com mão de ferro. Os exemplos vão do mais simples ato de racismo até as mais cruéis guerras de extermínio. E são todos exemplos de barbárie do homem contra o homem. Assim está a humanidade, neste começo do século XXI. Mata-se, tortura-se, fere-se, humilha-se com a mesma desfaçatez de alguns milhares de anos atrás. A evolução humana no quesito barbárie ainda está no começo. A ética que prevalece ainda é a da força bruta, da bestialidade. As concepções filosóficas e religiosas, sejam ocidentais ou orientais, continuam pregando a paz, o amor entre os homens, a compaixão, mas o homem permanece o mesmo e, às vezes, tem-se a impressão de que piora a sua capacidade de destruir a si mesmo e a seu semelhante. Porque são éticas inúteis, não correspondem à realidade, não contribuíram em nada para a evolução humana, com suas metafísicas ordinárias, com seus deuses sanguinários, com suas prédicas que condenam ao fogo eterno aqueles que não comungam com suas cartilhas absurdas e estúpidas. Não há que ter complacência com esse tipo de filosofia. Não há que ter complacência com essas religiões idiotas e idiotizantes. Qualquer tentativa de aceitar como positivas tais crenças só faz perpetuar o estado de barbárie em que vive o homem sob o domínio das forças metafísicas que valorizam a morte e pregam a vida além-túmulo como solução para as mazelas e os tormentos do homem. São todas as metafísicas um mal que precisa ser combatido até ser erradicado da mente do homem, embora se saiba que tal tarefa seja quase impossível. No entanto, assim como começaram do nada as inúteis buscas da essência dos seres, é necessário que se comece também a buscar a exata noção do valor da vida, para que o materialismo ateu e objetivo, crítico e lógico, venha a estabelecer o seu império no pensamento humano. Essa a utopia a que volto sempre, porque é preciso repeti-la sempre, à exaustão, como o fizeram os religiosos que construíram ao longo do tempo um edifício que é difícil, sim, de ser explodido, mas que não é impossível de ser lentamente demolido por uma posição radical contra todas as metafísicas.



terça-feira, 12 de outubro de 2010

NECESSIDADE DA ARTE


(Vincent Castiglia - Feeding)




O homem não é o pináculo da evolução. Deverá haver um além-do-homem, um ser mais complexo do que hoje somos. E mesmo esse ser não será o fim, a não ser que todo o universo entre em colapso e desapareça para ressurgir em novas formas de evolução. Porém, a compreensão da morte levará o homem a respeitar a vida, sob pena de destruir a si mesmo. E, em qualquer etapa evolutiva, o homem precisará da arte para se humanizar e se compreender. Sem ela, prevalecerá sempre a barbárie.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

HUMANIZAÇÃO PELA ARTE



(Artemisia Gentileschi - self portrait)





A capacidade de criação humaniza o homem. Mas não o livra da barbárie. O instinto animal, de defesa e ataque, de sobrevivência, de lutar e matar, continua presente no código genético do homem. Modificá-lo levará ainda muito tempo. Enquanto isso, pode-se minimizar esse instinto através da arte. Só a arte pode conduzir o homem para a compreensão maior do que é o ser humano. Porque o homem só compreende a si mesmo quando refletido no espelho da arte. Espelho onde se registram todas as notas da sinfonia complexa da existência. O pouco de vida que o homem percebe deve-se à criação dos artistas de todas as épocas, esses seres de olhares perdidos no horizonte de si mesmos, obcecados pela idéias demiúrgicas de busca de valores onde ainda há apenas esboços de ética. Quando o homem obtiver a verdadeira ética do respeito a si mesmo, ao outro e à natureza, não precisará mais da ética e os artistas talvez até rareiem ou desapareçam do convívio humano, mas terão cumprido a mais sublime missão que é inculcar na mente do homem que é preciso eliminar os valores niilistas e negativos de vontade de morte ou de guerra. Mas a inexistência do artista num mundo utópico de paz e harmonia não significa sua expulsão do paraíso: apenas creio que todos os homens se tornarão capazes da criação artística e não precisarão de profetas ou intérpretes para sentimentos e pensamentos que não mais se voltarão contra eles mesmos. No entanto, essa visão é, como já disse, utópica. A perfeição não parece pertencer à espécie humana, nem à natureza.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

A ARTE



(Almeida Jr. - descanso do modelo 1)



Os iluministas chegaram à conclusão de que a arte reflete a natureza. Sobre isso, muito já se falou. Contra ou a favor. Aprendi e ensinei sempre que, ao elaborar uma ficção (e, por extensão, qualquer outra forma de arte), construímos um mundo suprarreal, paralelo à realidade, com leis próprias e coerência interna. Esse mundo suprarreal é um espelho do mundo real, um espelho liso e claro ou rugoso e fosco ou, ainda, deformado por convexidades e concavidades ou por multiplicidade de faces, mas sempre um reflexo através do qual iniciamos a nossa busca pela identidade humana. Nele refletimos o que sabemos do homem, o que gostaríamos que o homem fosse ou criticamos aquilo que vemos no homem. Ou, até, mesmo, descobrimos ou tentamos descobrir o que o homem é. Nesse mundo, podemos tudo. Só não podemos contrariar suas leis internas de coerência e coesão. A arte, pois, reflete a natureza, sob uma óptica muito especial do artista, contemplando e buscando regiões obscuras ou pouco conhecidas do homem. O artista torna-se, assim criador e demiurgo de sua criação. Mesmo que, às vezes, não tenha plena consciência disso.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

EXISTO, LOGO PENSO



(Georges Mazilu)



“Penso, logo existo”. A essa máxima, chegou Descartes por caminhos tortuosos. Ficou. Não há como refutá-la usando o mesmo raciocínio, apesar de eivada de metafísica. Mas a existência humana não está condicionada ao pensamento. Aliás, não existe o pensamento como entidade abstrata, como dádiva ou dom da natureza. O cartesianismo obscurece. Talvez devêssemos plagiá-lo e dizer: existo, logo penso. A existência precede o pensamento e não o contrário. O homem criado pela divindade sente inevitável vontade de se considerar o rei da criação. Por isso, pensa para existir. A arrogância humana só é comparável à arrogância de seus deuses. Uma é reflexo da outra, não importa a ordem. O pensamento é fruto de ligações químicas e elétricas processadas dentro de um organismo vivo, o mais perfeito da natureza, o cérebro. Isso, sim, é incontestável, dentro dos conhecimentos científicos até agora alcançados. Se o cérebro humano processa a linguagem, é porque desenvolveu áreas específicas para isso. Com a linguagem, o cérebro humano se aperfeiçoou, num processo de troca entre a possibilidade de falar e a possibilidade de processar o que se fala. A capacidade de falar desenvolveu ao infinito a capacidade de imaginar. Nada ou muito pouco sabemos sobre o funcionamento das sinapses cerebrais dos animais ditos irracionais. Aliás, também muito pouco ou quase nada sabemos do funcionamento de nosso cérebro. Só o que podemos deduzir, com muita possibilidade de acerto, é que eles, os animais ditos irracionais, também pensam, raciocinam e deduzem. E possivelmente, também imaginam. Mas só o homem levou ao limite a capacidade de transmitir através da linguagem o que se passa em seu pensamento. Aves que falam, como o papagaio, têm limitada capacidade de construir novas frases com o vocabulário que adquirem porque ficam restritas à narração do mundo exterior, não conseguem articular frases que nos permitam chegar ao seu pensamento. Já o homem exterioriza o que ocorre em seu processo mental, o que lhe permite uma gama infinita de novas relações, lógicas ou não. Pensar é um exercício químico ou, no mínimo, um esforço das nossas sinapses cerebrais. Não pensamos para existir. Existimos para pensar e sonhar e imaginar e construir novos pensamentos que nos permitem entender melhor a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Embora ainda estejamos mergulhados na metafísica inútil de sábios que levaram ao limite a sua imaginação e têm, com isso, influenciado negativamente a humanidade, contribuindo para a perpetuação de superstições e irrealidades construídas sobre uma base metafísica de que a natureza e os objetos naturais têm uma “alma” ou uma “essência”. Na busca desta essência, temos perdido tempo precioso para a construção de uma verdadeira filosofia natural e materialista, libertadora das trevas do deísmo em que está mergulhado o homem, apesar de todos os avanços científicos.



terça-feira, 28 de setembro de 2010

CONHECIMENTO E TECNOLOGIA







(Adedos - a day ends)




Muitas civilizações, como os gregos, os romanos, os maias e inúmeros outros povos em todo o planeta, já pagaram muito caro, com sua decadência social, econômica, militar e política, por não respeitarem a natureza. Felizmente, o homem ainda não havia conquistado tecnologia suficiente para que a destruição fosse total. Isso só aconteceu nos dois últimos séculos, o que torna a vida no planeta Terra extremamente frágil. Como seres que pensam, sonham e constroem, os homens deviam conquistar primeiro o conhecimento e depois a tecnologia. No entanto, como não há um plano pré-estabelecido de evolução e tudo acontece mais ou menos ao mesmo tempo, de forma aleatória, poucos foram os que adquiriram conhecimento e tecnologia e muitos os que detêm apenas a tecnologia. Com o conhecimento, somos capazes de observar a natureza e respeitá-la. Com a tecnologia, somos capazes de explorar essa natureza. Com conhecimento e tecnologia, respeitamos a natureza e exploramos suas potencialidades sem depredá-la. Mas só com a tecnologia, destruímos a casa em que moramos, comprometendo o nosso futuro. Os faraós, com a força de uma religião equivocada, ao obrigarem os egípcios a lhes construírem pirâmides para sua sobrevivência após a morte, drenaram as forças da nação e levaram-na à derrocada. Os maias comprometeram definitivamente sua civilização, quando não respeitaram as florestas e as sufocaram e sugaram com suas cidades voltadas para divindades alucinadas e predatórias. O homem ocidental moderno tem menos compromissos com as divindades loucas e sugadoras das forças de um povo, mas ainda assim tem arraigada em sua mente a noção absurda de sobrevivência num outro mundo, o que o torna arrogante e ignorante. Arrogante a ponto de, com a bênção de deus ou de deuses, erigir templos absurdos à tecnologia, esquecendo-se de que essa mesma tecnologia lhe possibilita conhecimentos fantásticos quanto às consequências de suas ações. Ignorante, por não saber como usar de forma racional e verdadeiramente ecológica todo o conhecimento acumulado desde o início da civilização e todo o conhecimento que a tecnologia lhe traz da observação de mundos distantes e, até mesmo, da prospecção do futuro. A idéia de deus, esse vício de que o homem precisa se livrar para conquistar definitivamente a liberdade de pensamento, constitui, ao fim e ao cabo, um empecilho para o próprio desenvolvimento humano. O homem tem de parar de pensar em deus e de inventar divindades, para pensar melhor em si mesmo. E poder sobreviver.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DEUS É UM VÍCIO NA CABEÇA DO HOMEM



(Velásquez - los borrachos)



Esquecemos, com o tal “milagre da criação divina”, que há um outro “milagre”, muito mais extraordinário que a criação: a longa e lenta evolução das forças da natureza, a construir de forma aleatória e através de experiências fantásticas uma trajetória que parte de um organismo unicelular (por sua vez fruto de forças evolutivas tremendas) para a construção de um animal que pensa, fala, sonha e se insere de forma às vezes atabalhoada num mais do que rico sistema vital, onde todas as forças da natureza se relacionam e dependem umas das outras. Não há desdouro em aceitar o nosso passado animal, porque não somos, dentro do raciocínio evolucionista, o último elo dessa corrente e também porque não sabemos o que seremos daqui a milhões de anos. Um milênio é como um segundo no grande painel do tempo que se conta em números tão fantásticos que nosso cérebro ainda tem dificuldades de compreender. O homem, com todo o seu potencial, com toda a sua inteligência, adquirida num lento processo que não ainda não terminou, é um ser imperfeito. A natureza tem feito inúmeras tentativas de aperfeiçoamento da nossa principal máquina, o cérebro, e por isso coexistem em todas as civilizações tanto os gênios quanto os imbecis. Também não há desdouro em reconhecer a existência dos imbecis, dos seres que, embora humanos, nasceram com muito poucos dotes de inteligência, ou ainda, aqueles que, embora com uma grande capacidade cerebral, apresentam falhas terríveis de caráter e pendem para o lado mais negro da humanidade, como certos líderes cujos nomes nem vou lembrar, para não cometer a injustiça de omitir vários outros nomes de tantos monstros que assombram a história humana. Não há preconceito ou rancor em aceitar a existência de seres extraordinários, tanto numa ponta quanto na outra. Os pouco dotados, os que chamei acima de imbecis (sem nenhuma conotação pejorativa, mas por falta de palavra mais apropriada), devem merecer nosso respeito, como resultado de combinações genéticas que ainda não controlamos nem sabemos se um dia controlaremos. Quanto aos que causam desgraças terríveis à humanidade, os loucos e megalomaníacos, assassinos e tarados em geral, são também fruto desses mesmos genes e a humanidade terá de aprender a se defender de seus atos. Não são, nem os gênios nem os loucos nem os “santos” nem os “demônios”, frutos da mente inescrutável de uma divindade, mas seres humanos, demasiado humanos, para recuperar o título de um livro de Nietzsche. Não é à toa que o deus que esses humanos criaram, à força de nele pensar, é um deus que tem, elevadas a várias potências, as mesmas qualidades humanas e mais algumas que consideramos supra-humanas. Um deus que é um vício na cabeça do homem. Quando nos livramos dele, a sensação é a mesma de um viciado que se livrou do fumo ou do ópio ou de qualquer outra droga: alívio e liberdade. Alívio por não se precisar mais prestar contas de nossas vidas, de nossos atos, a essa divindade terrível que tudo vê e que está pronto a nos punir com a perdição eterna. Liberdade para poder enxergar a vida e a natureza com olhos de compreensão e de humildade diante de sua capacidade de nos surpreender. Liberdade, principalmente, para traçar um destino mais sensato para o homem, sem as armadilhas das superstições que nos levam a crer em sobrevivência de uma alma que não necessita de corpo físico e, portanto, da natureza, para existir. Quando o homem se sobrepõe à natureza, ele se condena ao desaparecimento.



terça-feira, 14 de setembro de 2010

O VÍCIO DE PENSAR EM DEUS




(Botero - autorretrato: primeira comunhão)


Perdida entre as páginas de algum livro antigo de minha biblioteca, lembro claramente, está uma folha de revista, amarelecida pelo tempo, provavelmente de 1960, quando ainda era muito jovem, em que há uma citação de um autor cujo nome será demais recordar agora, mas sua máxima me acompanhou a vida toda e está clara em minha mente: “Se Deus não existisse, os homens já O haveriam de ter criado, à força de pensar Nele”. Assim mesmo, com todas as maiúsculas de respeito. Passados tantos anos, essa frase, que me soava enigmática, tem, agora, um sentido bastante interessante. A idéia de deus ou de uma divindade acompanha o homem há tanto tempo, que o cérebro humano já se acostumou a pensar na sua existência, imposta desde os primeiros vagidos da criança, talvez, mesmo, desde a concepção, transmitida geneticamente, de geração a geração, e durante toda a vida intra-uterina. Há um vício, portanto. Um pensamento que parece grudado à mente do homem, ou da maioria dos homens. Como o vício do fumo. O organismo se acostuma ao tabaco e, depois, abandonar esse vício torna-se extremamente penoso. A única diferença é que o vício do fumo é um vício adquirido, enquanto o vício de pensar numa divindade é imposto como um dogma absoluto na mente humana, trabalhado depois através da repetição constante, a começar, por exemplo, no cristianismo, com o sacramento do batismo e, depois, com a educação da criança, estendendo-se, num cerco que beira a lavagem cerebral, a toda a sua vida. Em qualquer circunstância, em todos os momentos, não há quem não repita frases feitas de conteúdo deísta, como um “deus me livre” ou “deus te ajude” ou “vá com deus”. São inúmeras as vezes, durante apenas um dia de nossas vidas, que ouvimos, e às vezes até citamos, aforismos ligados à divindade, aparentemente repetidos de forma inocente e alheia à nossa vontade. São expressões que, de forma inconsciente, reforçam a ideia de deus em nossa cabeça: à força de pensar em deus, acabamos criando a criatura que achamos que nos criou. Como um vício. Um vício que não nos permite contemplar de forma isenta o mundo que nos cerca. Um vício que oblitera a nossa mente para outras possibilidades, muito mais humanas, de nos relacionar com as forças naturais a que estamos submetidos como seres que nascem, vivem e morrem como todos os demais seres vivos.



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O TEATRO DOS METAFÍSICOS



(Adela Leibowitz - history of sin)


Na mente dos metafísicos está escrita a sua maldição: é preciso, sempre, complicar, para explicar. E não adianta mostrar, provar ou dizer que nunca, em nenhum lugar do mundo, em qualquer circunstância, algum mortal tenha visto, percebido ou tocado a essência de qualquer coisa. Nenhum laboratório, até hoje, nenhum telescópio, nenhum detector controlado pela ciência, conseguiram, até hoje, encontrar sequer algum vestígio da essência da matéria, a não-matéria, a alma ou espírito, como querem fazer crer os truques de prestidigitação a que se dedicam os chamados espiritualistas. Nenhum homem retornou do sono da morte, como escreveu Shakespeare, para, logo em seguida, fazer Hamlet conversar com o fantasma de seu pai. Porque, acima da contradição, o genial dramaturgo prezava a construção poética do drama, o teatro em sua forma ideal. A diferença é que Shakespeare utiliza o paradoxo no palco. Os espiritualistas, os metafísicos, os lógicos de plantão pretendem que o palco substitua a própria vida e são audazes nisso: constroem templos, organizam festas e cerimônias, entoam cânticos, celebram eventos nunca ocorridos, inventam outros que jamais poderiam ocorrer e, assim, montam seu espetáculo teatral sobre a própria vida, acima da natureza, ocultando do espectador iludido com suas pompas a verdadeira natureza que permanece ali, atrás de toda aquela encenação, pronta a ser vista por quem tenha olhos de ver e de entender, sem dogmas, sem sectarismos.